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quarta-feira, novembro 14, 2007

Astrid Lindgren


Cumpre-se hoje 100 anos do nascimento de Astrid Lindgren, mundialmente famosa pela criação da personagem Pipi das Meias Altas.
Astrid Anna Emilia Ericsson, depois do casamento Lindgren, nasceu a 14 de Novembro de 1907, em Vimmerby, Smaland, filha de agricultores, pôde crescer em liberdade na quinta dos pais, que mantinham o costume de contar histórias aos quatro filhos, encorajando possíveis esforços literários. Em muitos dos seus livros, a escritora descreve lugares e aventuras que experimentou na sua infância.
Aos dezoito anos de idade engravidou e, face à reacção da família, optou por se mudar para Estocolmo. Fez estudos técnicoprofissionais para poder vir a tornar-se administrativa, tendo conseguido uma colocação no Real Automóvel Clube da Suécia. Em 1931, casou com Sture Lindgren.
Astrid Lindgren tornou-se conhecida internacionalmente como a criadora da Pippilotta Viktualia Rullgardina Krusmunta Efraemsdotter Laangstrump, ou seja, Pipi das Meias Altas, uma rapariga órfã, de sardas irreverentes, meias altas e tranças ruivas que vive sozinha com um macaco e um cavalo, dona de uma árvore que dá chocolates e limonadas e de uma mala cheia de ouro.
Astrid Lindgren começou a criar as suas histórias quando a sua filha Karin ficou doente aos 7 anos e pediu que lhe contasse as histórias de Pipi das Meias Altas. Na época em que foram publicadas (1945), as suas aventuras divertiram os mais novos, mas chocaram alguns críticos que temeram o efeito adverso na educação das crianças. A sua abordagem fantástica, desconcertante para alguns, do universo infantil, nascia, segundo a autora, "de uma tentativa de divertir a criança que havia em si e, através dela, outras crianças".
Apesar de ter sido um grande sucesso, Astrid Lindgren não encontrou receptividade para editar imediatamente as suas histórias. A sua primeira tentativa fracassou pois o editor não queria ter responsabilidade por histórias que mostravam crianças brincando e desarrumando tudo à sua volta. Felizmente, Astrid Lindgren procurou outro editor, que com os contos de Astrid Lindgren se salvou a si mesmo da falência. Graças a ele, o mundo pode conhecer as lindas histórias de Astrid Lindgren.
As aventuras de Pipi das Meias Altas, foram passadas para uma série de televisão nos anos sessenta que obteve um sucesso estrondoso em todo o mundo. A série passou em Portugal nos anos setenta.
Na década de 60 Astrid Lindgren protestou contra a Guerra do Vietname e, em 1976, resolveu empreender uma campanha contra a injustiça nos impostos do governo sueco, quando chegou à conclusão que lhe eram cobrados cento e dois por cento dos seus rendimentos. Foi também a responsável pela aprovação de uma lei em 1988, em favor dos direitos dos animais, que ficou conhecida como Lex Astrid.
Astrid Lindgren escreveu mais de cem obras, entre romances, contos adaptados ao cinema e televisão, livros de canções e poesia - e recebeu importantes distinções, nomeadamente os prémios literários Hans Christian Andersen, em 1958, Lewis Carrol, em 1973, o International Book Award, da Unesco, e o Right Livelihood Award, também conhecido como “Prémio Nobel Alternativo” em 1993 . Astrid Lindgren, foi traduzida para 86 línguas e vendeu mais de 80 milhões de livros.
Os seus livros têm quase sempre como cenário o campo e como personagens principais crianças, reflectindo a sua própria experiência. As suas histórias diferem muito dos clássicos infantis da época. Nos seus artigos de 1939 e 1949, Astrid Lindgren defendia os direitos das crianças a serem tratadas como seres humanos sem serem oprimidos. Na sua época Astrid Lindgren revolucionou a literatura infantil da mesma maneira que antes fizera Lewis Carrol e agora o faz J.K. Rowling.
Astrid Lindgren faleceu em Estocolmo, após doença prolongada, em 28 de Janeiro de 2002.
Para honrar a sua memória, e fomentar a literatura infantil e juvenil a nível mundial, o Governo Sueco estabeleceu um prémio internacional em sua memória: O Prémio de Literatura em Memória de Astrid Lindgren (ALMA – Astrid Lindgren Memorial Award).
O Prémio no valor de cinco milhões de coroas suecas é o maior prémio internacional de literatura infantil e juvenil, e o segundo maior prémio de literatura do mundo. O Prémio é atribuído todos os anos a um ou a mais premiados, independentemente do idioma ou nacionalidade. As obras deverão ser de alta qualidade artística e marcadas pelo humanismo profundo que caracterizava Astrid Lindgren.

terça-feira, novembro 13, 2007

Luís Sepúlveda


Luís Sepúlveda, nascido a 4 de Outubro de 1949 na cidade de Ovalle, província de Limarí, é mundialmente conhecido como escritor, apesar de ser também, jornalista, activista político e realizador de cinema. Membro da Juventude Comunista a partir de 1964, licenciou-se em Santiago do Chile em encenação teatral.
Em 1969 ganha uma bolsa de estudo de cinco anos, na Universidade Lomonosov de Moscovo. No entanto só ficaria cinco meses na capital soviética, pois foi expulso da Universidade por “atentado à moral proletária”, causado, segundo a versão oficial, por Luís Sepúlveda manter contactos com alguns dissidentes soviéticos.
De regresso ao Chile é expulso da Juventude Comunista, adere ao Partido Socialista Chileno e torna-se membro da guarda pessoal do presidente Salvador Allende. No golpe militar do dia 11 de Setembro de 1973, que levou ao poder o ditador general Augusto Pinochet, Luís Sepúlveda encontrava-se no Palácio de La Moneda a fazer guarda ao Presidente Allende.
Depois do golpe de Estado, foi preso por dois anos e meio, mas a pressão da secção alemã da Amnistia Internacional conseguiu que Luís Sepúlveda deixasse a prisão de Temuco e fosse colocado em prisão domiciliária. Conseguiu escapar da prisão domiciliária e durante um ano viveu no Chile clandestinamente. Com a ajuda de um amigo formou um grupo de teatro que se converteu no primeiro foco de resistência cultural, à propaganda fascista do General Pinochet.
A polícia secreta conseguiu descobrir o paradeiro de Luís Sepúlveda levando-o novamente à prisão. Desta vez foi condenado a prisão perpétua, por traição e subversão. No entanto a pena foi imediatamente reduzida para 28 anos de prisão.
Mais uma vez a secção alemã da Amnistia Internacional o ajudou e a sentença de prisão foi convertida em 8 anos de exílio. Em 1977 a ditadura chilena autoriza a partida de Luís Sepúlveda para a Suécia, para ensinar literatura espanhola.
Na viagem para a Suécia, durante uma paragem técnica em Buenos Aires, escapou-se do avião e foi para o Uruguai. Depois de uma passagem fugaz pelo Brasil e pelo Paraguai, instalou-se em Quito, capital do Equador. Nesta cidade dirigiu o teatro da Aliança Francesa e fundou uma companhia teatral. Viveu durante sete meses no seio da comunidade dos índios Shuar, participando numa missão de estudo da UNESCO, que tinha como objectivo estudar o impacto da colonização na forma de vida deste povo.
Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, que lutava contra a ditadura de Anastácio Somoza. Depois da vitória da revolução sandinista, trabalhou como repórter.
A partir de 1982 Luís Sepúlveda instalou-se em Hamburgo na Alemanha, por causa da admiração que tinha pela literatura alemã. Nesta cidade trabalhou durante algum tempo como motorista. Entretanto a revista alemã Der Spiegel contratou-o como correspondente de guerra em Angola, de onde narrou a intervenção cubana e a derrota das tropas de elite da África do Sul. Por esta altura começa também a sua ligação activa ao Greenpeace, que duraria até 1987.
Esta actividade na Greenpeace será pano de fundo de muitas das obras de Luís Sepúlveda nomeadamente o seu maior sucesso, "O Velho que Lia Romances de Amor" (1989), que Luís Sepúlveda dedica ao seu amigo Chico Mendes, o grande defensor da floresta amazónica.
Em 1996, muda de país e instala-se em Gijón, Espanha, onde vive actualmente. Nesta cidade fundou o Salão do livro ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livrarias latino-americanas com os seus homólogos europeus.
Luís Sepúlveda já vendeu mais de 15 milhões de exemplares na Europa e é um dos autores hispano-americanos mais traduzidos das últimas décadas.
À sua primeira obra narrativa, “Crónicas de Pedro Nadie” (1969) seguiu-se um longo silêncio resultante do seu empenhamento político durante o breve Governo de Salvador Allende e dos problemas com a ditadura chilena. Em 1986 publicou a colectânea de contos “Los Miedos, las Vidas, las Muertes y Outras Alucinaciones”, e a partir de então, a sua produção literária não parou de crescer.
De entre inúmeros títulos, são de mencionar O Velho Que Lia Romances de Amor 1989), O Mundo do Fim do Mundo (1989), Encontro de Amor Num País em Guerra, (1997), Nome de Toureiro (1994), Diário de um Killer Sentimental (1999), História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (1996), Patagónia Express (1996), As Rosas de Atacama (2000), O General e o Juiz (2003), Uma História Suja (2004), O Poder dos Sonhos (2006).
Luís Sepúlveda já recebeu vários prémios, entre eles, "Prémio Gabriela Mistral de Poesia" (1976), "Prémio Rómulo Gallegos de Novela"(1978), "Primer Prémio de Novela Corta Juan Chabás" (1990), "Prix France de Culture" (1992) e "Prémio Internazionale Ennio Flaiano"(1993).
 

domingo, novembro 11, 2007

Norman Mailer


O escritor norte-americano Norman Mailer, (nascido em Long Branch, Nova Jersei, a 31 de Janeiro de 1923), morreu, ontem, no Hospital de Mount Sinai, em Nova Iorque, Estados Unidos, de insuficiência renal, informou J. Michael Lennon, o seu executor literário e biógrafo oficial. Contava 84 anos.
Duas vezes vencedor do Prémio Pulitzer, Norman Mailer ganhou cedo o epíteto de "enfant terrible" da literatura norte-americana do pós-guerra.
Com opinião formada sobre quase todos os assuntos, o escritor combinou um formidável talento para a escrita com uma atitude de lutador de rua. Ligado à contracultura, autor de 11 romances e vários ensaios e peças de teatro, o autor de "Os nus e os mortos" foi um dos intelectuais mais famosos dos Estados Unidos.
Com escritores como Gore Vidal, Tom Wolfe e John Updike, fez parte de um clube único de novelistas e ensaístas que desafiaram e, muitas vezes, ultrajaram os leitores, com as suas reflexões sobre a vida, história e moralidade norte-americanas.
Co-fundador da revista alternativa nova-iorquina "Village Voice", Norman Mailer é também um dos pais do "novo jornalismo", que ajudou a divulgar a partir dos anos 60, com artigos em dezenas de jornais e revistas.
"O fantasma de Hitler" é a sua obra mais recente lançada em Portugal, onde estão também editados "Os nus e os mortos", "O canto do carrasco" (Prémio Pulitzer em 1979), "Os duros não dançam", "O exército da noite" (Prémio Pulitzer em 1968) e "Um sonho americano".
Elogiado e criticado ao mesmo tempo e com a mesma veemência, a primeira obra significativa de Norman Mailer foi o já referido "Os nus e os mortos", de 1948."Deaths for the Ladies and Other Disasters" é o livro de poesia, lançado em 1962.
Dirigiu, ainda, quatro filmes, entre 1967 e 1987 "Wild 90", "Beyond the Law", "Maidstone" e "Tough Guys Don't Dance".
No final dos anos 40, trabalhou em Hollywood como argumentista e o seu terceiro romance, "O Parque dos Veados", é sobre a corrupção dos valores naquele meio cinematográfico. Em 1973, escreveu "Marilyn", sobre a loura estrela de cinema.
Candidato independente a "mayor" de Nova Iorque em 1969, Norman Mailer foi sempre muito crítico da autoridade institucional do seu país.
Apesar de, quando atingiu a meia idade, ter abandonado muitos dos vícios que ostentava (nos quais não faltavam as drogas e o álcool), para muitos críticos, Norman Mailer permaneceu como a autêntica e ultrajante voz de toda uma geração.
"Norman Mailer revolucionou o grande jornalismo do século XX e, como consequência, o próprio romance de actualidade", declarou o jornalista e escritor Fernando Dacosta.
"De maneira muito habilidosa, Mailer parte de factos concretos, de acontecimentos e figuras reais e depois conta a história disso usando as técnicas da grande ficção". O resultado é a construção de "textos que são, ao mesmo tempo, obras-primas do jornalismo e da literatura".
Para Dacosta, chavões como objectividade empobrecem o jornalismo e Mailer "fica na história como uma figura de charneira" dessa corrente que, nos Estados Unidos, rompeu com preconceitos existentes no jornalismo, como Truman Capote e Ernest Hemingway.
Em Portugal, o escritor José Cardoso Pires, "fascinado pelo 'novo jornalismo', escreveu dentro dessa linha a 'Balada da Praia dos Cães'", disse.
Por seu lado, o também jornalista e escritor Baptista-Bastos considerou Norman Mailer um "grandessíssimo e importantíssimo escritor, que saiu da linha da grande tradição liberal norte-americana, cujos valores não são os mesmos dos actuais, e é quem mais se aproxima de Ernest Hemingway".
Acrescentou que Mailer era igualmente um "homem violentíssimo", que tinha um enorme "peso por ser judeu" e que interveio sempre de forma "extremamente violenta" na sociedade norte-americana.
Baptista-Bastos, recorda, a propósito, o livro "Os exércitos da noite", publicado em Portugal pela D. Quixote antes do 25 de Abril de 1974 e que foi "imediatamente apreendido pela PIDE"."
Apesar de ser acusado pelas feministas de ser um machista do piorio, e era-o porque até batia nas mulheres, Mailer era um escritor fenomenal", frisou.Fonte: JN.

terça-feira, outubro 16, 2007

Adriano Correia de Oliveira


Adriano Correia de Oliveira morreu faz hoje 25 anos. Tinha apenas 40 anos, deixava para trás uma luta infindável pela liberdade, e cerca de 90 canções que testemunharam esse empenho no combate político e pela cultura portuguesa.
Herói da música de intervenção e da resistência antifascista foi segundo Manuel Alegre, "o mais corajoso de todos, o primeiro a cantar os versos proibidos, a canção que punha em causa o regime e a guerra colonial". Apesar, da generalidade os seus contemporâneos lhe reconhecerem o génio, o legado artístico de Adriano Correia de Oliveira foi de longe, o mais esquecido de toda uma geração de cantores de intervenção, (José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Manuel Freire ou Fausto), que através da viola e da voz, tentavam abrir brechas na longa noite fascista, que cobriu Portugal durante 48 anos.
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu na Rua Formosa, nº 370, na cidade do Porto, em 9 de Abril de 1942 e com alguns meses de vida a sua família muda-se para Avintes, para a Quinta das Porcas.
Criado, no seio de uma família católica e tradicionalista, foi em Avintes que fez a instrução primária. Em Avintes também se iniciou no teatro amador e foi co-fundador da União Académica de Avintes. Depois de feita a instrução primária, Adriano foi estudar para o Porto, no Colégio Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano, onde acabaria o curso do liceu, em 1959.
Nesse mesmo ano, Adriano Correia de Oliveira chegou a Coimbra, com apenas 17 anos, para tirar o curso de Direito, que nunca viria a concluir. Adriano Correia de Oliveira ingressou em vários organismos culturais e desportivos da Associação Académica de Coimbra: foi solista no Orfeão de Coimbra, fazia parte de um grupo de teatro e jogava voleibol. No início da década de 60, Adriano torna-se militante do Partido Comunista Português.
Em 1962, participou nas greves académicas e concorreu às eleições da Associação Académica, através da lista do Movimento de Unidade Democrática (MUD).
O primeiro disco sai em 1963, intitulado "Fados de Coimbra", que incluía já o tema emblemático "Trova do Vento que passa", um poema de Manuel Alegre, e que se tornará um hino da resistência antifascista. Quando faltava apenas uma cadeira para terminar o curso de Direito em Coimbra, Adriano ruma a Lisboa. Casa-se em Outubro de 1966 e passa a trabalhar no Gabinete de Imprensa da FIL, tendo sido ainda produtor da revista Orfeu.
Em 1967 gravou o disco "Adriano Correia de Oliveira" que entre outras canções tem Canção com lágrimas. Em 1969 é lançado um dos seus discos mais marcantes: "O Canto e as Armas", um álbum em que a figura central é a obra do poeta Manuel Alegre. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Pozal Domingues.
Seguiram-se os álbuns "Cantaremos" (1970) e "Gente De Aqui e de Agora" (1971), este último com José Niza como principal compositor. Só quatro anos depois Adriano decide lançar um novo disco, pois, recusava-se a enviar os seus textos à comissão da censura.
Em 1975 lança "Que nunca mais", um disco com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca, e com o qual Adriano foi eleito Artista do Ano pela revista britânica Music Week.
O último disco sai em 1980, intitulado "Cantigas Portuguesas".
Dois anos depois, a 16 de Outubro de 1982, Adriano Correia de Oliveira falecia, nos braços da mãe, vitimado por uma hemorragia no esófago, contava 40 anos de vida, cumprindo os versos de António Gedeão que cantara:
"Tenho pressa de viver,que a vida é água a correr".

quinta-feira, outubro 11, 2007

Doris Lessing


A escritora britânica Doris Lessing, hoje distinguida com o Nobel da Literatura a poucos dias de completar 88 anos, é a mais idosa laureada com o Prémio Nobel de Literatura.
Doris Lessing é autora de uma obra rica e variada, com cerca de 50 títulos. Nascida a 22 de Outubro de 1919 em Kermanshah, na Pérsia (actualmente Irão), filha de pais britânicos, Doris Lessing cresceu na Rodésia (Zimbabué), onde a família se instalou numa quinta quando ela tinha cinco anos.
Frequentou uma escola católica que viria a abandonar aos 14 anos para trabalhar como baby-sitter e a sua infância em África viria a marcar algumas das suas obras.
Foi impiedosa nas críticas aos governos racistas na África do Sul e da Rodésia, o que lhe valeu a proibição de entrada nesse países (na África do Sul entre 1956 e 1995).
Tem três filhos de dois casamentos e depois de dois divórcios instalou-se em Londres, em 1949, com um dos filhos. Encontrou emprego como secretária, mas viria a abandonar essa tarefa depois do sucesso dos seus primeiros livros. Em 1950 publicou “A erva canta”. Em 1962 lançou a obra que lhe daria fama internacional, “The Golden Notebook”, e consolidou essa fama com uma série de títulos sobre temática africana como “African stories” (1964).
Comunista na juventude, Doris Lessing, que continuou sempre uma mulher empenhada na defesa dos seus ideais, publicou depois várias obras de ficção científica, a primeira das quais “Shikasta” (1981).
Em 1995, publicou o primeiro volume da sua autobiografia “Under My Skin”. Três anos depois publicaria o segundo volume, com o título “Walking in the Shade”.
Em 2001, ganhou o prémio Princípe das Astúrias de Letras.
Mais recentemente, criticou o regime ditatorial do presidente Robert Mugabe e foi de novo declarada indesejável no Zimbabué.
Actualmente vive nos arredores de Londres, tem-se dedicado à ficção científica e este ano publicou “The Cleft”.
AGÊNCIA LUSA.

quinta-feira, outubro 04, 2007

FREE AUNG SAN SUU KYI


Segundo a Amnistia Internacional antes da crise actual, existiam no Myanmar, antiga Birmânia, 1150 prisioneiros de consciência, número exponencialmente aumentado com as detenções das últimas semanas, levadas a cabo pela ditadura birmanesa, na tentativa de parar as manifestações pacíficas, que pedem a democratização do país e o elementar respeito pelos Direitos Humanos.
De todos prisioneiros de consciência birmaneses o mais conhecido é: Aung San Suu Kyi.
Quem disser o seu nome junto de um militar corre o risco de ser imediatamente preso, sem sequer passar pelo tribunal.
A "Dama de Bambu", a líder do principal partido de oposição na Birmânia, a Liga Nacional para a Democracia, é uma espinha atravessada na garganta dos generais que comandam o país.
A "senhora", o "monstro" ou o "fenómeno" -nomes de código utilizados pelo povo- está em prisão domiciliária desde de Maio de 2003. O número 54 da University Road, em Rangun, é a casa mais vigiada do país, quem tentar fotografar a sua vivenda é preso.
Aung San Suu Kyi nasceu em Rangun a 19 de Junho de 1945. O pai de Suu Kyi, o general Aung San, foi o pai-fundador do país. Nascido na aristocracia rural, tornar-se-ia líder estudantil e nacionalista convicto. Sonhava expulsar os Britânicos da sua terra colonizada no século XIX e, para tal, viria a comandar o Exército de Independência da Birmânia, treinado secretamente pelos Japoneses. Entraria na Birmânia à sua frente em princípio de 1942, para vir a mudar de lado em 1945, ajudando os Britânicos a pôr fim à ocupação japonesa. Mas esse serviço ao povo birmanês foi ceifado cedo: um rival político mandou abatê-lo em 1947, apenas 6 meses antes de a Birmânia declarar a independência. Tinha 32 anos. Suu Kyi tinha apenas 2 anos.
Suu Kyi estudou na Índia e na Universidade de Oxford (Reino Unido) a partir de 1960, tendo posteriormente trabalhado nas Nações Unidas e passado a viver no Reino Unido. Quando regressou do Reino Unido, em 1988, fundou o movimento de oposição Liga Nacional para a Democracia, como protesto contra as violações dos direitos humanos e contra a brutal repressão da discordância na Birmânia e para lutar por reformas democráticas. Em Abril de 1989, escapou por pouco a uma tentativa de assassinato por parte de uma unidade militar birmanesa.
Os militares tinham recebido ordens para matar a activista numa das muitas manifestações que encabeçava. Foi salva por uma contra-ordem de um oficial.Em Julho de 1989, o regime militar determinou a prisão domiciliária da activista pró-democracia.
Suu Kyi foi colocada sob a lei marcial, que possibilitava a sua detenção sem acusação formada nem julgamento por um período de três anos. A activista birmanesa entrou em greve de fome para proteger os estudantes que haviam sido levados da sua casa para o Centro de Interrogação do regime. Foi reconhecida como objectora de consciência pela Amnistia Internacional.Apesar da detenção da sua presidente, em Maio de 1990 a Liga Nacional para a Democracia obteve um resultado extraordinário nas eleições gerais, tendo conseguido 82% dos votos. No entanto, a Junta Militar recusou-se a reconhecer os resultados das eleições.
Em Outubro do mesmo ano, Suu Kyi foi galardoada com o Prémio Rafto para os Direitos Humanos e, em Julho de 1991, com o Prémio Sakharov (prémio para os Direitos Humanos do Parlamento Europeu).Em Agosto de 1991, o regime militar decidiu alterar a lei sob a qual Suu Kyi estava detida e aumentar para cinco anos o período de prisão sem acusação formada nem julgamento.
Dois meses depois, a actividade pró-democracia da activista foi reconhecida com o Prémio Nobel da Paz, prémio esse que foi utilizado num fundo de saúde e educação para o povo birmanês criado por Suu Kyi.Em Janeiro de 1994, a Junta Militar voltou a alterar a lei marcial, adicionando-lhe mais uma ano de detenção. Suu Kyi foi posta em liberdade em Julho de 1995. Nunca deixando de parte os seus ideais, Suu Kyi prosseguiu na sua luta. Em Março de 2000, recebeu a condecoração irlandesa Freedom of the City, atrbuída pelo reconhecimento do seu activismo. Foi o seu filho, Kim Aris, que se deslocou a Dublin para receber o prémio. Em Setembro de 2000, Suu Kyi desafiou as autoridades militares birmanesas e anunciou que iria sair da capital do país. Em resposta, os militares montaram um verdadeiro cerco em volta dela e voltaram a colocá-la em prisão domiciliária, juntamente com outros líderes do partido. Em Dezembro de 2000, o reconhecimento pelo seu activismo chegou dos EUA. O então presidente Bill Clinton conferiu-lhe a maior condecoração civil do país - a Medalha Presidencial da Liberdade. Durante a prisão domiciliária, Suu Kyi recebeu a visita de uma delegação da União Europeia, de diplomatas norte-americanos e de representantes das Nações Unidas. Em Maio de 2002, depois de 19 meses em prisão domiciliária, Aung San Suu Kyi foi libertada. Desde Outubro de 2000 que Suu Kyi mantinha conversações secretas com uma delegação da Junta Militar. Suu Kyi continuou a defender a plena democracia e o desmantelamento do poder militar. No entanto os militares têm alegado que o país não se encontra preparado para a democracia. Suu Kyi conta com o apoio do Ocidente e da maioria das nações asiáticas. Foi novamente presa em fim de Maio de 2003 e ainda se encontra em prisão domiciliária. Tem recusado o fim da prisão domiciliária enquanto não forem libertados todos e cada um dos seus apoiantes.
Aung San Suu Kyi transformou-se num símbolo da luta a favor da democracia na Birmânia e um ícone dos direitos humanos.
Libertação imediata para Aung San Suu Kyi e para todos os prisioneiros de consciência.

quarta-feira, abril 11, 2007

Lev Tolstoi


Lev Nikolaievitch Tolstoi, conde de Tolstoi, nasceu no seio de uma família nobre, em Yasnaya Polyana, província de Tula, em 28 de Agosto de 1828.
Perdeu os pais ainda muito novo tendo sido criado por parentes. Em 1844, Lev Tolstoi iniciou os seus estudos em Direito e Literatura Oriental na Universidade de Kazan, no entanto abandonou a faculdade antes de se licenciar. Insatisfeito com a educação, regressou aos seus estudos em Yasnaya Polyana, passando grande parte do tempo em Moscovo e em São Petesburgo.
Em 1851, o sentimento de vazio existencial levou-o a juntar-se ao irmão, soldado no Cáucaso. É nesta época que inicia a sua carreira literária, ao publicar a primeira parte da trilogia autobiográfica Infância (1852), que foi concluída com Adolescência (1854) e Juventude (1857).
Em 1857, visitou a França, a Suíça e a Alemanha. Depois das viagens, instalou-se em Yasnaja Polyana e fundou uma escola para filhos de camponeses. Para Tolstoi, o segredo para mudar o mundo residia na educação.
Durante as suas viagens pela Europa, analisou a teoria e a prática educacional, tendo publicado artigos e manuais sobre o tema.
Em 1862, casou com Sonya Andreyevna Behrs, que se tornou a sua secretária devota. A sua leitura abrangia a ficção e a filosofia. Entre os seus autores preferidos encontravam-se Platão, Rousseau, Dickens e Sterne. Nos anos 50 lia e admirava Goethe, Stendhal, Thackeray e George Eliot.
A obra Guerra e Paz (1863-69) reflectia o ponto de vista de Lev Tolstoi, de que tudo estava predestinado. A sua outra obra-prima surgiu em 1873-77, Anna Karenina.
Em 1880, escreveu obras filosóficas como A Confession e What I Believe, que foi banida em 1884. Começou por ver-se mais como um sábio e um líder moral do que como artista.
A partir de 1880, Tolstoi atravessou uma profunda crise espiritual e assumiu diversas posições de cariz moral, incluindo a resistência passiva ao mal, a rejeição da autoridade (religiosa ou civil) e a propriedade privada, e um regresso ao cristianismo místico. Foi excomungado pela igreja ortodoxa, tendo as suas obras posteriores sido proibidas. A Morte de Ivan Ilitch (1886), A Sonata a Kreutzer (1890), Ressurreição (1889-99) e Hadji Mourat (1890-1904) fazem parte deste período.
O desejo que o autor tinha de renunciar aos seus bens e de viver como um camponês perturbou a sua vida familiar, tendo acabado por fugir de casa e morrer com pneumonia numa estação de caminhos-de-ferro em Astapovo, em 7 de Novembro de 1910.

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Eusébio da Silva Ferreira



Eusébio da Silva Ferreira nasceu no dia 25 de Janeiro de 1942,em Mafalala, um bairro pobre de Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique. Oriundo de uma família muito modesta, a sua infância foi passada a jogar na rua com bolas de trapos.
"Quando Eusébio tinha cerca de 6 anos, entrou para a Escola primária, sem que revelasse especial apetência pelo estudo. Já as bolas de papel, de trapos ou de meias, cruzavam-se à frente dos seus olhos arregalados.”Falta um”, alguém gritou, recorda Eusébio, no belo dia que se sentiu pela primeira seleccionado. E até nada o perturbou por ter sido última escolha. O cenário foi um campo de terra quente, ligeiramente acidentado, de balizas improvisadas com pedras ou talvez caniços.
Amava a bola. Amava o jogo. As proibições, as reprimendas, as sovas de varapau, constrangiam Eusébio. Tinha 11 anos quando o Chico se encostou à sua vida. “O senhor Chico”, lembra em sinal de respeito “era doido por futebol”. Deficiente físico, sem braço direito, adepto do Belenenses, vendia cautelas nas ruas da cidade. Era um entusiasta dos imperdíveis jogos dos miúdos do bairro. O Chico teve uma ideia peregrina, o de formar uma equipa de futebol, a que deu o nome de “os brasileiros”, clube que usava alcunhas dos jogadores do Brasil: Eusébio era o “Pele”."
Mais tarde, recusado pelo “Desportivo”, foi para o Sporting de Lourenço Marques, onde chega ao título de campeão moçambicano com apenas 16 anos, sendo o mais jovem jogador da equipa sénior e um dos melhores marcadores da equipa.
Em 1960 a equipa do Sporting de Lourenço Marques foi numa digressão às Ilhas Maurícias, e na metrópole ouviam-se ecos de um rapaz que fazia maravilhas com a bola.
O assédio do exterior não se fez esperar. O FC Porto foi o primeiro clube a manifestar interesse em trazer Eusébio para a Metrópole. Só que o Benfica já estava avisado do seu valor, e os responsáveis «encarnados», aproveitando uma viagem que entretanto fizeram com a equipa à capital moçambicana, trataram logo do negócio. Na tentativa de provocar um volta-face, o Sporting ainda se intrometeu no processo, e a ordem de ataque chegou a partir, quase em simultâneo, de Alvalade, mas já era tarde.
Eusébio ainda hoje agradece a Jaime Duarte (que contara com a ajuda de Hilário para fazer a aproximação) a atitude que este tomou, não forçando em excesso a sua resistência. É que, por mais anos que viva, nunca esquecerá a sensação que teve quando aquele ex-representante leonino lhe colocou 500 contos em cima de uma mesa; bastava-lhe rabiscar o nome num contrato para elas passarem para as suas mãos. «Nunca tinha visto tanta nota junta. Mas não as aceitei, porque iria arranjar um problema de todo o tamanho se desrespeitasse a palavra da minha mãe.» A verdade é que, apesar de resistir, estava fascinado por ver tanto dinheiro à sua frente. Jaime Duarte compreendeu-o. Num gesto brusco, meteu as notas no bolso, despediu-se e saiu porta fora.
Foi um alívio. Eusébio mantinha assim vivo o comentário que a mãe fizera quando o brigadeiro Rodrigues Carvalho conseguira obter o seu compromisso a troco de 110 contos, também entregues em mão: «Filho, isto é que é dinheiro grosso.» Em todo o caso, o episódio teve o condão de fazer o Benfica aumentar a parada, dando-lhe mais 140 contos e fixando-lhe o ordenado mensal em seis mil escudos. Eusébio teve muitos dias de glória sobre os relvados de todo o mundo, mas no seu álbum de recordações está registada a letras de ouro uma noite vivida no recato de um quarto algarvio, muito antes de entrar na galaria das estrelas. O «forcing» do Sporting fez com que os dirigentes do Benfica levassem Eusébio em segredo para o Algarve, a fim de evitarem mais aproximações. Desesperado por não jogar e assustado com a situação criada à sua volta, sempre que telefonava à mãe pedia-lhe que o fizesse regressar a casa: «Mãe, vou voltar, porque há aqui homens que me querem fazer mal.» E Dona Elisa tentava tranquilizá-lo: «Filho, tem calma, aguenta, que eles no Benfica vão resolver tudo.» Os dias passavam, monótonos, sem ponta de interesse para aquele jovem africano, na clausura da Meia Praia, em Lagos. Fazia umas corridas, treinava sozinho com uma bola, comia e enfiava-se no quarto. Até que um dia Domingos Claudino, que o acompanhava, lhe veio dar a boa nova. Acabara de receber um telefonema de Gastão Silva: «Chama aí o miúdo e diz-lhe que está tudo tratado, já está inscrito pelo Benfica na Federação.» Finalmente recebia a notícia que mais ambicionava. Pulou de contente. «Foi uma satisfação enorme. Eu só queria jogar, e à noite tinha aquela angústia de nunca mais ver resolvido o problema. Estava habituado a marcar golos e tinha medo que quando entrasse em campo oficialmente já não fosse capaz de o fazer.»
A 23 de Maio de 1961, Eusébio estreia-se com a camisola do Benfica num jogo de Reservas contra o Atlético, num jogo que o Benfica ganhou por 4-2, com três golos de Eusébio.
Dia 10 de Junho de 1961.No pé esquerdo colocou a talismã moeda de 25 tostões que trouxera de Moçambique.” Subi os degraus, velozmente. Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso, mas os aplausos cada vez mais quentes deram-me ânimo”. Era a estreia de Eusébio na equipa principal do Benfica, num jogo contra o Belenenses, que o Benfica ganhou por 4-0, com um golo de Eusébio.
No defeso da época, mais propriamente no dia 17 de Junho de 1961, o Benfica defrontou o Santos de Pelé, no Parque dos Príncipes, na final do torneio de Paris. No final da primeira parte e com Eusébio no banco o Benfica perdia 4-0.Guttmann anunciou que Eusébio entraria no recomeço. Pensou que estava a ser lançado às feras, ideia confirmada quando aos 48 minutos, o Santos elevou para 5-0. Mas a tranquilidade de um jogo decidido foi abalada entre os 63 e 80 minutos. Eusébio marcou três golos em pouco mais de um quarto de hora e ainda sofreu um penalti que José Augusto desperdiçou, deixando a plateia de boca aberta.
No dia seguinte a fotografia de Eusébio sai na primeira página do jornal francês L’Équipe.
“No dia em que deveria ser conhecida a lista de convocados que se deslocaria ao Luxemburgo, a minha cabeça não sossegava”, diria Eusébio mais tarde.
Sem motivo. Foi convocado. Imaginou-se a olhar para a bandeira das quinas ao som da “portuguesa”. Peyroteo era o treinador. Costa Pereira, Mário Lino, Morato, Hilário, Péricles, Lúcio, Yaúca, José Águas, Coluna, Cavem e Eusébio foi a equipa apresentada.
A estreia foi desastrosa, decorria o dia 8 de Outubro de 1961. Ao intervalo Portugal perdia por 2-0.No final, uma derrota por 4-2. Eusébio teve uma exibição modesta apesar do golo marcado. Ficou a honra de vestir a camisola das quinas. A 1 de Novembro Eusébio estreia-se na Taça dos Campeões Europeus. O Benfica defrontava o Áustria de Viena e consegue fora um empate. Na Luz, o Áustria perde por 5-1 com Eusébio a marcar o quarto golo do jogo.
Era chegada a hora de medir forças com o Real Madrid, esse colosso da Europa, de Di Stefano, Puskas, Gento e Santamaria. Ao Benfica competia fazer a defesa do Titulo de Campeão Europeu. O jogo foi preparado com rigor sob o comando de Bella Guttmann.
Eusébio escreveu uma das mais bonitas páginas sobre futebol naquele 2 de Maio de 1962. Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavem, Germano, Cruz, José Augusto, José Águas, Coluna e Simões foram os companheiros da gloriosa jornada. Ao intervalo, o Real Madrid vencia por 3-2, com hat-trick de Puskas. No descanso Guttmann só pronunciou uma frase -“o jogo está ganho, não se preocupem”-para estupefacção geral. “ Olhamos uns para os outros, pensando que o homem estava doido mas a verdade é que dito acabou consciente ou inconscientemente por nos galvanizar”, sustenta José Augusto. Logo aos cinco minutos, surgiu o empate, autoria de Coluna. Eusébio, após magistral apontamento, caiu na área, derrubado em falta.Com carinho colocou a bola na marca, “maricon” lhe chamou Santamaria com o intuito de o desconcentrar. Eusébio não entendeu e em surdina questionou Coluna.” Marca o golo e chama-lhe “cabron” ”. Foi o que fez.
Aos 23 minutos, livre directo perto da grande área.” Coluna deu um toque na minha direcção. Atirei fortíssimo e fiz golo”Aquela metade complementar foi inesquecível, resultando na vitória por 5-3, numa reviravolta memorável. Vaidade de bicampeões da Europa. Sua Majestade Eusébio subia ao trono.
Nesse jogo histórico, com o Real Madrid, Eusébio concretizou um dos maiores sonhos da sua vida, ao obter o troféu que mais ambicionava: a camisola do seu ídolo Alfredo Di Stefano. «O Benfica tinha conquistado a mais importante taça da Europa a nível de clubes, mas, para mim, a camisola do Di Stefano era o máximo, dava-me mais gozo possuí-la.» No entanto, teve de esforçar-se bastante para não a perder. Na euforia da vitória, e porque tinha marcado dois golos, os adeptos tiraram-lhe o equipamento. Então foi vê-lo a andar pelo relvado, descalço e quase nu, com a taça na mão direita e a esquerda metida dentro das cuecas para proteger a preciosidade que ali havia escondido. Quando regressou aos balneários, tirou-a do esconderijo e beijou-a com devoção.
Logo nesse ano, a Juventus, de Turim, fez-lhe um tentador convite, oferecendo-lhe 25 mil contos. Quase na mesma altura, o Real Madrid, por influência de Di Stefano, também o pressionou com uma oferta igual. Eusébio ficou eufórico ante a perspectiva de se transferir para o estrangeiro, ainda por cima por uma verba astronómica. O Benfica deve ter falado com o então Presidente do Conselho, Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”. Tinha apenas 22 anos. Como “prémio do título atribuído por Salazar”, foi incorporado no serviço militar. Foi despachado para a tropa. Nos ficheiros consta o recruta 1987/63 da 1ª bateria de instrução do RAAF. Pela selecção militar fez doze jogos e marcou nove golos.
No dia 23 de Outubro de 1963, estreou-se com a camisola da FIFA, num jogo de comemoração do centenário da Federação Inglesa de Futebol. Era a primeira vez na história, que o chamado Resto do Mundo fazia um jogo, seleccionado pelo chileno Fernando Riera. Em campo entraram Yashin (União Soviética), Djalma Santos (Brasil), Pluskal (Checoslováquia), Pophular (Checoslováquia), Schnellinger (RDA), Denis Law (Escócia), Masopust (Checoslováquia), Kapa (França), Di Stefano (Argentina/Espanha), Eusébio (Portugal) e Gento (Espanha).
Jogou com as insígnias da UEFA no final da temporada 1963/64, numa partida entre a selecção da Escandinávia e o Resto da Europa, convocado juntamente com José Augusto. Lançado na segunda metade, ainda atempo de fazer um golo. Venceu por 4-2. Na época seguinte, nova chamada à selecção da UEFA, na companhia de José Augusto e Simões. Quatro golos marcou e o outro ainda falou português, apontado por José Augusto. O Resto da Europa venceu por 7-2 a Selecção da Jugoslávia.
Voltou a jogar pela selecção da FIFA, em Santiago do Chile, frente à Universidade Católica (4-3 com dois golos da sua autoria). Pela UEFA, em Madrid, com a Espanha (3-0 um golo), na homenagem a Zamora; perante o Hamburgo (7-3 um golo) na então RFA, por ocasião do abandono de Uwe Serbas e ante a selecção da América Latina (4-4, um golo) em Barcelona no 1º Dia Mundial do Futebol.Com carácter oficioso representou a Selecção do Mundo, em Londres, no confronto com o West Ham (4-4) e também em Bruxelas, frente ao Anderlecht (3-8).
O ano de 1965 é um ano inesquecível para Eusébio, a prestigiada revista France Football elege-o como Melhor Futebolista Europeu do Ano.
Chega o ano de 1966, Portugal está pela primeira vez no Campeonato do Mundo de Futebol, que é realizado em Inglaterra. A nossa selecção parte como uma incógnita para o Mundial. No dia 11 de Julho a Rainha Isabel II declara aberto o Mundial de Inglaterra, Portugal estava inserido no grupo do bicampeão Mundial, o Brasil, mais a Hungria e a Bulgária, com sede em Manchester.
O primeiro jogo de Portugal realiza-se no dia 13 de Julho contra a Hungria que é despachada com 3-1, quatro dias depois Portugal despacha a Bulgária com um concludente 3-0 com um golo de Eusébio.
Dia 19 de Julho 1966, o embate esperado entre Portugal de Eusébio e o Brasil de Pelé, Campeão Mundial em título, leva o mesmo Campeonato ao rubro. Sessenta mil espectadores no Goodison Park em Liverpool como testemunham. Simões marcou primeiro e aos 26 minutos, depois de um toque de Torres, Eusébio nas alturas violou as redes.”Foi um golo muito importante para mim, o primeiro de cabeça na selecção”. Rildo ainda reduziu, mas o jogo continuava controlado, ao cair do pano Eusébio enlouqueceu as bancadas. Na sequência de um canto, Eusébio disparou quase à velocidade da luz, numa fantástica explosão da sua habilidade, fulminando as redes. Era a melhor forma de selar uma exibição de grande esplendor. “Ao abandonar o estádio a caminho do autocarro, foi uma loucura. Centenas de pessoas esperavam-nos, cantando e gritando”, disse Eusébio mais tarde. Portugal arrepiava caminho para os quartos de final do Mundial.
Dia 23 de Julho de 1966, Portugal – Coreia Norte, para os Quartos de Final do Campeonato do Mundo de 1966, um jogo que tornar-se-ia arrepiante e inigualável. A equipa asiática entrou de rompante, assinando o primeiro golo ainda no minuto inaugural. No curto espaço de outro fatídico minuto, o 14 º, mais dois golos de rajada acentuaram o temor. Ninguém percebia o que se estava a passar. Eusébio foi o primeiro dos imperturbáveis. Rebelou-se com o seu ímpeto galvanizante. Dois golos marcou antes do intervalo. Otto Glória colérico disse “ coisas que jamais tinha ouvido da boca de um treinador” disse Eusébio. A reprimenda, bem adjectivada, surtiu efeito. A equipa jogou nos limites. Eusébio fez o resto. Desconcertante. Aos 11 minutos apontou o golo da igualdade. Pouco depois, olhos na bola, percorreu todo o flanco esquerdo, aguentando tentativas desesperadas para o suster, até que tombou dentro da área. Foi penalti, convertido de forma autoritária. José Augusto fez o golo da confirmação dos 5-3, na mais bela página do futebol português. Os quatro golos num jogo, ainda por cima, nos quartos de final do Campeonato do Mundo, fizeram de Eusébio uma lenda planetária. Portugal acabaria por ficar em terceiro lugar do Mundial depois de perder a meia – final, de uma maneira escandalosa para a Inglaterra, 2-1, e após a vitória de 2-1 sobre a União Soviética de Yashin.
A esta fabulosa participação de Portugal deve-se juntar, o título de melhor marcador do Mundial para Eusébio com 9 golos marcados, o melhor jogador do Campeonato do Mundo para Eusébio e para Portugal o ataque mais concretizador da competição.
Á chegada a Lisboa, a selecção é recebida em apoteose. Apesar da hora tardia de chegada, três horas da manhã, milhares de pessoas esperavam pela equipa das quinas. No dia seguinte, houve um cortejo em carro aberto desde da Praça Marquês de Pombal até São Bento onde os magriços iriam ser recebidos por Salazar.
Depois do Mundial Eusébio e sua mulher Flora foram gozar férias para Itália, a convite do Inter de Milão, clube com o qual chegou a um acordo de princípio. O Inter pagava-lhe noventa mil contos para assinar contrato, uma fortuna para a época. diz Eusébio “ Naquele tempo dava-me para comprar os Restauradores”. Eusébio chegou a acreditar que lhe abririam as portas, pois além de ter sido o melhor goleador do Mundial e de ter ajudado a selecção a conquistar o 3º lugar já ganhara vários Campeonatos, Taças, a Bota de Ouro, Bolas de Prata, etc. Enganou-se. Salazar manteve-se irredutível, e nem na oitava vez que foi a São Bento conseguiu demovê-lo.Outros convites se seguiriam, mas o Benfica, irredutível, não permitiu a sua saída. Só a meio da década de setenta o libertou.
Em 1969 ganha a sua sétima Bola de Prata, com 40 golos, e em 1972 ganha pela segunda vez a Bota de Ouro.
Em 28 de Março de 1973, Eusébio marca o último golo pela selecção de Portugal, num jogo disputado em Conventry contra a Irlanda do Norte que acabou empatado a uma bola.
No dia 25 de Setembro de 1973 o Estádio da Luz vestiu-se de gala, para a festa de homenagem a Eusébio, promovida pelo Benfica, “ no cumprimento de uma cláusula do Contrato”. Milhares de apoiantes participaram entusiasticamente no tributo ao Rei Eusébio.
Com Fernando Cabrita como responsável técnico, o Benfica empatou 2-2 frente a uma selecção mundial. Nené apontou os golos do Benfica, e Banks, Iribar, Jackie Charlton, Blakembourg, Netzer, Bobby Charlton, Paulo César, Best, Keita, Kaiser, Seeler, Dirceu e Gento, regressaram aos seus países de origem com o certificado de participação numa jornada inolvidável.
No dia 13 de Outubro de 1973, Eusébio despede-se dos jogos da selecção num empate a dois golos na Luz, frente à Bulgária. A 24 de Outubro marca o último golo na Taça dos Campeões Europeus. O último jogo de Eusébio pelo Benfica ocorreu em 18 de Junho de 1975, um jogo particular realizado em Casablanca, Marrocos, contra uma selecção africana, que o Benfica perdeu por 2-1. Eusébio deixava o Benfica ao fim de 715 jogos.
Essencialmente a carreira de Eusébio está ligada ao Benfica, mas após deixar o Benfica ainda representou em 1975 o Bóston Minuteman, 8 jogos 2 golos, em 1975/1976 o Monterrey, do México, 10 jogos 1 golo, e foi vice-campeão mexicano, 1976 Toronto Metro-Stars, 25 jogos 18 golos e sagrou-se campeão da NASL, regresso a Portugal para representar o Beira – Mar, 12 jogos 3 golos, 1977 o Las Vegas Quicksilvers, 17 jogos 2 golos, e finalmente em 1978 novo regresso a Portugal para representar o União de Tomar da segunda divisão.
Em Fevereiro de 1979, o maior embaixador do futebol português anunciou o adeus definitivo aos estádios de futebol.
As Bodas de Ouro natalícias propiciaram em 1992 o Ano de Eusébio. A verdadeira festa de homenagem do Benfica e dos benfiquistas a Eusébio. No dia 25 de Janeiro de 1992, data do seu Quinquagésimo aniversário, foi inaugurada a sua estátua, hoje verdadeiro ex.libris do parque desportivo do Benfica, e seguramente a estátua mais fotografada de Portugal. É uma obra do escultor norte-americano Duker Bower, e foi oferecida por Vítor Baptista, um açoriano radicado nos Estados Unidos, e grande benfiquista.
A FIFA deu a Eusébio – no dia 12 de Janeiro de 1998 em Paris – o título de grandeza que lhe faltava, ao consagrá-lo como um dos dez melhores jogadores de futebol de todos os tempos.
Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, já lhe havia atribuído a Ordem do Infante, a 1 de Dezembro de 1992, e o próprio organismo dirigido por João Havelange, no Congresso de Chicago, a 15 de Junho de 1994, distinguira-o com a Ordem de Mérito da FIFA.
Mas nem a homenagem do chefe do Estado nem a distinção do Congresso da FIFA ao antigo futebolista do Benfica corresponderam à importância da actual escolha do ex-atleta para figurar no International Football Hall of Fame.
O maior pilar da mística benfiquista e da selecção portuguesa será para sempre um ponto de referência obrigatório dos tratados do futebol mundial.
Com a simplicidade que o caracteriza, Eusébio disse ter ficado orgulhoso, mas ao mesmo tempo sinceramente surpreendido. “Nunca na minha vida pensei, mesmo depois de atingir o patamar que atingi, vir a ser considerado um dos dez melhores de sempre. Isto não é para qualquer pessoa, e dali já ninguém me tira”. O júri, composto por cem elementos, votou no antigo jogador português e enalteceu o contributo e a forma marcante como ele ajudou a escrever tantas páginas brilhantes do mais popular desporto do nosso tempo.
Numa votação pela Internet no ano 2000, para considerar quem foi o Melhor jogador do Século, Eusébio ficou em 3º lugar, atrás de Maradona e Pelé.
Eusébio é uma das figuras do século, o único dos nossos a integrar a galeria restrita onde só cabem Di Stefano, Puskas, Pelé, Cruyff, Beckenbauer, Platini e Maradona. Por todas as razões continua a ser duas décadas volvidas sobre o abandono dos relvados, o cidadão português mais conhecido no mundo. É o maior do País no estrangeiro, o rosto mais conhecido, um rei que soube merecer o trono que um pouco por toda a parte lhe ergueram.
O Benfica e o futebol português devem-lhe uma década como nunca tinha tido, e se não for incómodo reconhecer, nunca mais voltou a ter. Por mais gerações de ouro que seja capaz de fabricar. Foi o maior de todos. Pelos dados objectivos mas também pela magia de um futebol feito de instinto e génio. Foi único. Eusébio da Silva Ferreira, “king” para os amigos, alcunha da responsabilidade do jugoslavo Filipovic, foi e é o mais célebre jogador português de todos os tempos.
Palmarés:
Campeonato Nacional: 11 títulos (60/61, 62/63, 63/64, 64/65, 66/67, 67/68, 68/69, 70/71, 71/72, 72/73 e 74/75).
Taça de Portugal: 5 vitórias (61/62, 63/64, 68/69, 69/70e 71/72).
Taça de Honra da AFL: 5 vitórias.
Taça dos Campeões Europeus: 1 vitória (61/62).
Selecção Nacional: 64 jogos/41 golos, entre 8 de Outubro de 1961 e 13 de Outubro de 1973, com 33 vitórias, 12 empates e 19 derrotas.
Competições europeias: 75 jogos/57 golos.
Vice-Campeão Nacional do México: 75/76.
Campeão na NASL (Estados Unidos): 1976.
Melhor marcador do Campeonato do Mundo de 1966: 9 golos.
Bola de Ouro (melhor jogador europeu): 1965.
Bola de Prata (2.º melhor jogador europeu): 1962 e 1966.
Bota de Ouro (melhor marcador europeu): 2 vezes em 67/68 (42 golos) e 72/73 (40 Golos).
Bola de Prata (melhor marcador nacional): 7 vezes em, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973.
Selecção UEFA/FIFA: 9 jogos 10 golos.
Campeonato Nacional: 313 jogos 320 golos (317 pelo Benfica 3 pelo Beira- Mar).
Taça de Portugal: 60 jogos 97 golos.
Taça de Honra: 10 jogos 8 golos.
Recordista absoluto de golos marcados em Portugal: 733
Envergou a camisola do Benfica 715 vezes.
Está na FIFA Hall of Champions depois de 1998.
Condecorações:
Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique (1966).
Grande Colar do Mérito Desportivo (1981).
Ordem do Infante (1992).
Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1992).
Ordem de Mérito da FIFA (1994).
Fontes: “Obrigado, Eusébio” de João Malheiro, “A Bola”, “Expresso” e “Record”.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

James Brown


O lendário cantor norte-americano James Brown, conhecido como o “pai da Soul”, morreu hoje, aos 73 anos, num hospital de Atlanta, Estados Unidos, anunciou o seu agente. Brown, pioneiro da música soul faleceu à 01:45 locais (06:45, hora de Lisboa) no Hospital Emory Crawford Long, onde tinha dado entrada domingo na sequência de uma forte pneumonia. Célebre pela sua voz imponente e pelos movimentos frenéticos, tendo protagonizado temas como “I Got You (I Feel Good)” ou “Please Please Please” que fizeram do lendário cantor “o pai da Soul”. O sentido inovador de ritmo converteu Brown num dos músicos norte-americanos mais influentes dos anos 50, que reconhecidamente inspiraram Mick Jagger, Michael Jackson e David Bowie, entre outros. Nascido em Barnwell, Carolina do Sul, foi deixado ao cuidado de familiares e amigos aos quatro anos de idade, crescendo, pobre, nas ruas de Augusta, Geórgia. Em 1949, quando frequentava o oitavo ano, surgiram os primeiros problemas com a justiça, cumprindo mesmo três anos e meio de prisão num reformatório, devido a assaltos a carros. Foi aí que conheceu Bobby Bird, líder do grupo Gospel Starlights, que viria a integrar. Pouco depois a banda muda o seu nome para Famous Flames, dedicando-se ao R &B (Rhythm and Blues). Em Janeiro de 1956,a editora King Records, de Cincinnati, assinou contrato com o grupo e quatro meses depois “Please, Please, Please” estava no top-10 de R&B. O grande sucesso seguinte foi “Try Me”, em 1958. Em 1962, James Brown grava um álbum ao vivo no Apollo de Nova Iorque, considerado sucesso colossal. Dois anos depois inicia uma carreira a solo e conhece os seus primeiros grandes sucessos como tal: o álbum “Out of Sight” contém músicas como “Papa‘s Got a Brand New Bag” e “I Got You (I Feel Good). “Say it Out Loud_I‘m Black and I‘m Proud”, foi outro dos seus grandes sucessos, em 1968. “Lembro-me perfeitamente de nos apelidarmos “de cor” e depois dessa canção, começamos a chamar-nos de “negros”, disse em 1993. Outro ponto alto da sua carreira aconteceu em 1970, com o tema “Sex Machin e”, que provavelmente o apelidou de “o pai do Soul”. A sua carreira é depois relançada em 1986, com o filme “Rocky IV” e a inclusão do tema “Living in América”. Desde 1986, James Brown misturou estadas na prisão, curas de desintoxicação e discos de qualidades diversas, numa vida marcada por excessos em todos os sentidos. Em 1992, Brown ganhou um Grammy de carreira e outros dois em 1965 e 1987, com os temas “Papa‘s Got a Brand New Bag” e Living in América”, respectivamente. “Mr. Dinamite”, como era também conhecido, gravou mais de 50 álbuns e nunca revelou a sua verdadeira idade, situando a sua data de nascimento entre 1928 e 1933. Lusa.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Se... Rudyard Kipling

Há umas semanas atrás, em plena "crise dos comentários", uma leitora enviou-me uma versão portuguesa do poema "IF" de Rudyard Kipling, em jeito de agradecimento pela minha postura na gestão dessa crise, modéstia à parte.
O poema "Se..." é um dos poemas da minha vida. Há muitas traduções deste poema em português, mas a que mais gosto, especialmente quando declamada por João Villaret é a versão, abaixo postada. Eis o poema, que partilho convosco:

SE...

Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força da alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor.
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores.
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu!... jamais lhe deste!
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio para construir de novo.
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar – Avante!
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Se vivendo entre os reis conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre,
São iguais para ti à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
De cada minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos.
Então, ao ser sublime o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os templos, os espaços,
Mas ainda para além um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho... Então serás um HOMEM!
Joseph Rudyard Kipling nasceu em Bombaim em 30 de Dezembro de 1865 e morreu en Inglaterra a 18 de Janeiro de 1936. Foi educado na Universidade United Services em Westward Ho!, na Inglaterra, que lhe proporcionou o cenário para Stalky and Co. (1899); trabalhou como jornalista na Índia, entre 1882 e 1889, escrevendo, ao longo destes anos, Plain Tales from the Hills, Soldiers Three (1890), Wee Willie Winkie (1890), e outras obras. Regressado a Londres, publicou The Light that Failed (1890) e Barrack-Room Ballads (1892), altura em que foi viver para os EUA, onde ficou até 1896; aí elaborou os dois Livros da Selva e Captains Courageous (1897).
Instalado no Sussex, no sudoeste de Inglaterra, publicou Kim, cuja acção decorre na Índia, Just So Stories, Puck of Pook’s Hill e Rewards and Fairies (1910).
Para a popularidade de Kipling contribuíram os poemas Danny Deever, Gunga Din e If, que expressam uma empatia com a experiência comum, em conjunto com um sentido intenso da «Englishness», por vezes denegrida como um género de imperialismo jingoísta.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura, em 1907, e a sua obra tem sido cada vez mais valorizada devido à complexidade da caracterização e aos subtis pontos de vista morais.

domingo, dezembro 10, 2006

Morreu Augusto Pinochet


O general Augusto Pinochet, o ex-ditador que governou o Chile com mão-de-ferro entre 1973 e 1990, morreu aos 91 anos devido a complicações cardíacas, anunciou o Hospital Militar de Santiago.
O breve comunicado do hospital refere que o Estado de saúde de Pinochet piorou subitamente e que o ex-ditador foi levado de imediato para os cuidados i ntensivos, mas morreu às 14:15 (17:15 em Lisboa).
Pinochet entrou no hospital há uma semana na sequência de um ataque car díaco. O general foi submetido a uma angioplastia para desobstruir uma artéria e permitir a circulação de sangue para o coração.
A vida de Augusto Pinochet Ugarte, ou pelo menos a parte importante para a história do Chile, começou a 11 de Setembro de 1973.
Nesse dia, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas aderiu ao golpe militar contra o eleito Presidente Salvador Allende, para se transformar, posteriormente, em ditador.
Ao contrário dos outros países da América Latina, o Chile tinha uma longa tradição democrática de Governos eleitos. O golpe de Estado contra um Presidente que conseguira a maioria do apoio popular nas urnas marcava um ponto de inflexão histórico.
Ponto de inflexão que terá apanhado desprevenido Allende e os seus colaboradores, apesar do “tanquetazo” de 29 de Julho de 1973, a tentativa frustrada de sublevação protagonizada pelo coronel Roberto Souper com o seu regimento blindado n2.
Nessa altura, Pinochet, adjunto do general Carlos Prats, o seu antecessor no cargo de chefe dos três ramos das forças armadas, ajudou ao insucesso do golpe militar.
De trato simples e afável, Pinochet sempre usou de prudência na revelação dos seus pensamentos, foi esta característica que convenceu o general Carlos Prats a recomendá-lo como seu sucessor para a chefia das forças armadas.
Para Prats, Pinochet era um militar apolítico apesar de católico anti-marxista, característica comum à maioria dos altos responsáveis do corpo castrense na América Latina.
Escolhido por Allende, o general Pinochet hesitou muito quando foi colocado ao corrente do golpe que estava a ser preparado para 11 de Setembro. Não tanto por lealdade, mais por prudência.
Quando aceitou liderar os insurrectos fê-lo com empenho e dureza. O golpe tinha de triunfar, corresse o sangue que corresse, Pinochet não admitia pôr em risco a sua impoluta carreira militar de outra forma.
Carreira que quase não chegou a existir.
A Augusto José Ramón Pinochet Ugarte custou-lhe ingressar na vida militar. A primeira vez que tentou inscrever-se na Escola de Infantaria, rejeitaram-no pela tenra idade; a segunda, disseram-lhe que não cumpria os requisitos.
Só à terceira, a força de carácter daquele jovem de 17 anos, nascido em Valparaíso a 25 de Novembro de 1915, o mais velho dos seis filhos de Augusto Pinochet Vera e Avelina Ugarte Martínez, conseguiu convencer os responsáveis da Escola de que poderia dar um bom militar.
Segundo o próprio general, um episódio da infância transformou- o num fervoroso católico. Atropelado por um automóvel, esteve quase a perder a perna esquerda que os médicos chegaram a pensar amputar do joelho para baixo.
A mãe rezou por um milagre e, aceitando o conselho de um médico alemão para expor a perna do filho ao Sol, conseguiu evitar que o seu primogénito se transformasse num inválido.
Tal não aconteceu e Pinochet pôde seguir a sua carreira militar, casar em 1943 (com Lucía Hiriart) e constituir família: tem cinco filhos.
Apesar da fé católica, o general Pinochet não teve complacência com os seus inimigos em 1973.
Não só no dia do golpe, com o bombardeio do palácio presidencial de La Moneda, a morte de Salvador Allende (que se suicidou para não morrer à mão dos golpistas) e as detenções de milhares de pessoas, mas nas semanas, meses, anos posteriores, onde a ditadura usou de todos os meios para depurar a sociedade chilena de qualquer pensamento de esquerda.
Admirador do ditador espanhol Francisco Franco, Pinochet, líder da Junta Militar de Governo e Presidente do Chile a partir de 17 de Dezembro de 1974, usou de mão dura no Governo do país.
Segundo a Comissão de Verdade e Reconciliação, conhecida por Comissão Rettig, a ditadura matou 2.095 pessoas, enquanto 1.102 foram consideradas “detidas desaparecidas” (calcula-se que tenham sido mortas pela polícia ou militares, mas cujos restos mortais continuam em paradeiro incerto). Muitos milhares abandonaram o país como puderam em direcção ao exílio.
A ditadura estendeu mesmo os seus tentáculos para lá das fronteiras chilenas.
A “Operação Condor” envolveu os serviços de segurança dos países do Sul da América (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia) numa cooperação para perseguir e prender os seus opositores políticos. A ideia partiu de Manuel Contreras, o chefe da DINA, a polícia política chilena.
A DINA que conseguiu assassinar o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Allende, Orlando Letelier, junto com a secretária, num atentado em Washington; e o antecessor de Pinochet como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Carlos Prats, em Buenos Aires.
Entregando o manejo da economia aos denominados “Chicago Boys”, tecnocratas ultraliberais formados na Universidade de Chicago e influenciados por Milton Friedman, Pinochet guardava para si o resto.
Ilegalizou os partidos políticos, dissolveu o Congresso, impôs o recolher obrigatório por mais de uma década.
O facto de se vangloriar do poder absoluto de que gozava (“No Chile, não se move uma folha sem que eu saiba”), acabaria mais tarde por se voltar contra ele, ao permitir que fosse acusado (apesar de se desculpar que não sabia) da autoria moral de crimes como os da “Caravana da Morte” - em Outubro de 1973, um grupo de oficiais percorreu os vários campos de detenção executando opositores com o saldo de 75 mortos.
Em 1986, voltou a ter a mesma sorte de infância, ao escapar ileso a um atentado onde morreram cinco dos seus guarda-costas. O lança-granadas do guerrilheiro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez encravou impedindo-o de fazer explodir o carro blindado onde seguia o ditador.
Dois anos depois, ao perder o plebiscito que convocara para continuar a perpetuar-se no poder, Pinochet encontrou-se num beco sem saída e teve de aceitar o regresso da democracia, embora negociando a transição nos seus próprios moldes.
Abdicou de ser Presidente, mantendo-se, no entanto, como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e com aviso em jeito de ameaça: “Vou continuar como comandante em chefe para manter a minha gente protegida. Acabará o Estado de direito se se perseguir algum dos meus homens”.
Dez anos antes já garantira, com uma lei de amnistia, que ninguém seria julgado pelos crimes cometidos depois do golpe militar.
Durante a década de 90, a democracia chilena manteve-se tutelada pelo velho regime. Por duas vezes, o general usou os seus soldados para ameaçar a democracia, colocando em causa as instituições políticas e cerceando o poder civil.
Só em 1998, depois de longas negociações, aceitaria abandonar o cargo em troca de um lugar como senador vitalício. Desta maneira, acreditava, garantia os foros que impediriam a democracia de alguma vez o processar.
Essa crença de ser intocável levou-o a ignorar as advertências para não viajar a Londres para operar-se de uma hérnia discal.
O juiz espanhol Baltasar Garzón emitiu um mandado de captura internacional para a sua detenção e o general Augusto Pinochet teria de passar mais de 500 dias no Reino Unido em prisão domiciliária, até ser libertado por razões de saúde.
Era o fim do ditador. A humilhação de ter de recorrer à doença para fugir aos processos judiciais garantiu a sua retirada da cena política chilena. Ao regressar a Santiago, o Chile deixara de ser o mesmo, livrara-se da trela do general.
A ponto das principais forças da direita aproveitarem a deixa para enterrar o passado e assumir programas políticos sem referências a Pinochet ou ao seu legado.
Também a justiça chilena se sentiu fortalecida (e moralmente comprometida) a agir.
Várias queixas-crime contra Pinochet prosperaram, nomeadamente as da Caravana da Morte e as de enriquecimento ilícito (o antigo ditador tinha os bens congelados por ordem do juiz Sergio Muoz, que investigava as contas secretas que Pinochet tinha no estrangeiro e que ascendiam a 17 milhões de dólares).
Além disso, como forma de contornar a amnistia de 1978, que impedia de processar os militares envolvidos em crimes contra a humanidade, a justiça chilena, tal como tinha feito antes a justiça argentina, estabeleceu que os crimes envolvendo “detidos/desaparecidos” seriam considerados como sequestros permanentes, ainda hoje vigentes e, portanto, permitindo aos tribunais julgá-los.
Para Pinochet, o regresso ao Chile tornar-se-ia penoso, obrigado a uma farsa permanente, a um jogo eterno com a justiça, perdeu qualquer contorno de referência simbólica, para se transformar apenas num homem velho a fugir dos tribunais.
A anos-luz desse Pinochet arrogante de meados da década de 90, assumindo o legado do regime como serviço público a um Chile salvo da ameaça comunista, amarrando a democracia no colete-de-forças castrense, a defesa do ex-ditador só conseguiu encenar repetidamente o episódio da doença frágil, dos micro-acidentes vasculares cerebrais nas vésperas das audiências em tribunal, explorando a imagem do seu corpo conduzido na cadeira de rodas.
Se o ajudou enquanto vivo a livrar-se da prisão, terá garantido, depois de morto, que o pinochetismo seja apenas um depositário de ideias moribundas à espera que morram os poucos saudosistas que ainda têm coragem de as defender em público.
A única coisa a lamentar na morte de Pinochet, é que a Justiça tenha sido demasiado lenta, para julgar todas as atrocidades cometidas durante a sua ditadura.
Com o desaparecimento do ditador chileno a Humanidade ficou um pouco menos intoxicada. Como disse o escritor chileno Luís Sepúlveda, " Devemos sempre alegrar-nos quando morre um hijo de puta. Então no caso de um filho da puta tão importante, dá-nos mais optimismo".

segunda-feira, novembro 27, 2006

Morreu Mário Cesariny de Vasconcelos

Mário Cesariny de Vasconcelos, poeta e pintor que morreu domingo em Lisboa, aos 83 anos, foi o principal representante do Surrealismo português, um homem irónico e controverso que dispensava aplausos e homenagens.
Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, de pai beirão, negociante de jóias, e mãe castelhana, professora de francês, resolveu, a partir de certa altura, prescindir do apelido paterno e ultimamente gostava de acrescentar a Cesariny o Rossi dos seus antepassados.
Estudou no Liceu Gil Vicente, frequentou o primeiro ano de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) e mudou depois para a Escola de Artes Decorativas António Arroio, tendo igualmente estudado música com o compositor Fernando Lopes Graça.
Durante o período em que viveu em Paris, em 1947, frequentou a Academia de La Grande Chaumire.
Na capital francesa, conheceu o fundador do movimento surrealista francês André Breton, cuja influência o levou a integrar no mesmo ano, embora à distância, o Grupo Surrealista de Lisboa, formado por António Pedro, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Marcelino Vespeira, João Moniz Pereira e Alexandre O'Neill.
Este grupo surgiu com o objectivo de protestar contra o regime político vigente em Portugal e contra o neo-realismo, mas houve cisões e Cesariny saiu, fundando mais tarde o "anti-grupo" "Os Surrealistas", com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário -Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom, entre outros.
Em 1949, redigiu, com o grupo, o seu manifesto colectivo, "A Afixação Proibida" e promoveu as sessões "O Surrealismo e o seu Público em 1949" e a I Exposição dos Surrealistas.
Quando terminaram as experiências colectivas do que foi quase "um movimento (mais ou menos) organizado" - 1947/1953 e 1958/1963 - Cesariny prosseguiu sozinho, como fariam alguns dos seus outros companheiros que sobreviveram à aventura surrealista, com uma actividade inesgotável e orientada em várias direcções.
Nas suas obras, adoptava uma atitude estética caracterizada pela constante experimentação e praticou uma técnica de escrita e de pintura muito divulgada entre os surrealistas, designada como "cadáver esquisito", que consistia na elaboração de uma obra por três ou quatro pessoas, num processo em cadeia criativa, em que cada um dava seguimento, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas uma parte do que aquele fizera. Primeiro, dedicou-se à pintura de forma ocasional e, a partir de certa altura, de uma forma quase exclusiva, tendo deixando de lado algumas facetas do seu talento: primeiro, deixou de tocar piano (ao que parece, tocava muito bem), depois, foi a vez da escrita - "secou", dizia. Quando lhe perguntaram uma vez se não sentia necessidade de escrever, respondeu: "Nenhuma. Para quê? A quem?".
"A poesia foi um fogo muito grande que ardeu. Depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim. Acabou", declarou, no documentário "Autografia" (nome de um poema seu), realizado por Miguel Gonçalves Mendes em 2004, o único feito sobre a sua vida e obra. "Sou um poeta bastante sofrível, um grande poeta numa época em que o tecto está muito baixo", "sem Anteros, Pessanhas ou Pessoas", e em que "o surrealismo foi transformado em museu", afirmou.
Da sua extensa obra literária, destaca-se o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.
Uma poesia primeiro de intervenção contra as poéticas dominantes, no Portugal da década de 40, através da paródia e do pastiche sarcásticos, uma poesia da tentativa fracassada de reabilitação da realidade quotidiana e depois, sobretudo, uma poesia do amor louco, desejado, vivido ou mal vivido, abandonado ou traído, cantado ou recordado e reinventado de forma elegíaca. Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar". "É o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia. O poeta defendia que se pode morrer de amor - foi, na sua opinião, o que aconteceu a outro surrealista, Ernesto Sampaio, pouco tempo depois da morte da mulher, a actriz Fernanda Alves. Mas considerava que "também se pode morrer de falta de amor".
Da sua obra, fazem parte títulos como "Corpo Visível" (1950), "Manual de Prestidigitação" (1956), "Pena Capital", "Nobilíssima Visão" (1959), "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), "A Cidade Queimada" (com arranjo gráfico e ilustrações de Cruzeiro Seixas, (1965), "Burlescas, Teóricas e Sentimentais" (1972), "Primavera Autónoma das Estradas" (1980), "O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Nacionais & Estrangeiras por M.C.V." (1989) e "Titânia" (1994). Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: "Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Agência LUSA.

quinta-feira, novembro 23, 2006

António Gedeão


Os portugueses sabem “que o sonho comanda a vida". A esmagadora maioria dos portugueses conhecem esse hino à liberdade, que é a canção “Pedra Filosofal”, cantada pela primeira vez por Manuel Freire, em 1969. O que a maioria dos portugueses não sabem é que este fenomenal poema…

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso em
serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

…é um poema, escrito por António Gedeão, alter ego de Rómulo de Carvalho, publicado em 1956. Rómulo de Carvalho professor de física, divulgador científico, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação e poeta, faria amanhã cem anos se fosse vivo.
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906. Aí cresceu, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa,
é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai
intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído
pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras do Porto, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através
da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destrui-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado, a 17 de Dezembro de 1996, com a Grã Cruz da Ordem de Mérito de Santiago da Espada. A 18 de Dezembro de 1996, foi-lhe atribuída, pelo Ministro da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural, na Fundação Calouste Gulbenkian. Durante esta homenagem nacional, o dia 24 de Novembro foi instituido pelo ministro da Ciência, Mariano Gago para Dia Nacional da Cultura Cientifica, por ser o dia do nascimento desta personagem singular do século 20 português. A 19 de Fevereiro de 1997 a morte chega para Rómulo de Carvalho.
Várias Fontes.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Os Grandes Portugueses


Muita tinta já correu por causa do programa da RTP “Os Grandes Portugueses”. Essencialmente, essa tinta foi gasta, pela não inclusão da biografia de António Oliveira Salazar, no site do concurso.
Ora, quer se não goste, quer se odeie, Salazar foi uma figura incontornável do século vinte português. A democracia não pode ter medo do fantasma do “Senhor Doutor”, porque exceptuando os taxistas, ninguém precisa de um “novo Salazar”.
Segundo o site da RTP, o programa de entretenimento “Os Grandes Portugueses”, é um programa que “de forma bem disposta, combina o Documentário com o Grande Espectáculo” e pretende “motivar os portugueses a nomear a sua figura histórica preferida”.
Sem pretender ferir susceptibilidades, colocar: Herman José, Mariza, Mário Viegas, João César Monteiro, Raul Solnado, Ruy de Carvalho, Catarina Eufémia, Jesus Correia, Eduardo Souto Moura, Joaquim de Almeida, Luís Miguel Cintra, Maria Medeiros, Livramento, António Guterres, Durão Barroso, Luís Figo, José Mourinho, entre muitos outros, como “figuras históricas” com possibilidades de serem eleitos o melhor português, é no mínimo, enxovalhar as verdadeiras figuras na nossa História.
Muitas destas pretensas figuras históricas, não merecerão uma pequena nota de rodapé, quando passarem pelo crivo da História.
Somos um país de muitos e grandes vultos, não precisamos de pretensas”figuras históricas” para confundir ainda mais, o já débil conhecimento da nossa história, por parte da esmagadora maioria dos portugueses.
Mais de oitocentos e cinquenta anos de História, fornecem uma panóplia de nomes para escolher: pela pena, pelo pensamento, pela bravura, pela liderança, pela espada, pela compaixão, pelo génio, ou por outra qualquer via, há muitos portugueses que conquistaram por mérito próprio e com toda a justiça, um lugar no sub inconsciente nacional.
Na realidade, a dificuldade estará em escolher o “melhor entre os melhores” se, se quiser encarar o voto com a dignidade que esta iniciativa merece. Por isso, há que definir critérios, para dignificar esta iniciativa.
O meu critério de votação passa pela escolha da personalidade cuja a acção ou obra, resultou numa projecção de Portugal, de forma ímpar, na História Universal.
Aplicando este critério, as personalidades que mais se salientam, na minha opinião, são três:
1º- D. Afonso Henriques, cuja estratégia, valentia, coragem e liderança, levaram à fundação de Portugal;
2º- João II, pela superior liderança do País durante o seu reinado e pela repercussão que teve as suas decisões para Portugal, principalmente a assinatura do Tratado de Tordesilhas.
3º-Fernão de Magalhães.
A minha escolha recai sobre: FERNÃO DE MAGALHÃES.
E recaiu sobre Fernão de Magalhães, porque a sua viagem mudou irremediavelmente o curso da História e a forma como vemos o Mundo. Esta viagem alterou para sempre as ideias que o mundo ocidental tinha sobre cosmologia e geografia. Demonstrou entre outras coisas, que a terra era redonda, que as Américas não faziam parte da Índia, que os oceanos cobriam a maior parte do Planeta. Fernão de Magalhães acrescentou ao planisfério o Oceano Pacífico, baptizado por ele. A viagem de circum-navegação do planeta é viagem marítima mais importante jamais empreendida, e ainda hoje, “têm uma poderosa ressonância”.
Embora não tenha dado o nome a nenhum continente ou país, o nome de Magalhães foi atribuído a um grupo de ilhas a nordeste das Marianas, o arquipélago de Magalhães, ao estreito de ligação entre o Atlântico e o Pacífico, a sul do continente americano, o estreito de Magalhães, a uma região do Chile meridional, a ocidente da cordilheira dos Andes, o território de Magalhães. Ainda em sua homenagem, o seu nome encontra-se ligado às duas nebulosas mais próximas da nossa galáxia, baptizadas pelo astrónomo Hevelius, as nuvens de Magalhães.
Hoje li na revista SÁBADO, uma "entrada" que desconhecia e que vou partilhar convosco, porque tem a ver com a ilustre personalidade retratada no post:
"Não é por acaso que os astronautas rezam a Fernão de Magalhães cada vez que se preparam para uma viagem ao Espaço. Fazem-no porque o navegador português é o protector dos descobridores".
(Revista SÁBADO, Nº131, 1 a 8 de Novembro de 2006).