quarta-feira, março 08, 2006

A Estupidez Circular

Se há coisas que me irritam para lá do normal, uma delas é o racismo. Não interessa a circunstâncias e principalmente quando o manifestam de forma ofensiva, publica e provocatoriamente, com o intuito de humilhar. Foi o que se passou com o Samuel Eto´o.
O insulto ao jogador sob a forma de ruídos simiescos, perpetrado pelos acéfalos adeptos do Saragoça, num comportamento resultante de uma espécie de estupidificação generalizada, levou-o ao desespero e, compreensivelmente, a ameaçar abandonar o jogo. Mesmo que as pessoas defendam aqui o direito à manifestação, neste caso nem sequer é a defesa de uma qualquer ideologia, mas uma forma desumana e baixa de provocar despropositadamente uma pessoa, não fazendo, por isso, qualquer espécie de sentido defender esta atitude com o recurso à liberdade de expressão, pois entramos no campo do insulto fácil e gratuito. Não acredito que todos os estivessem imbuídos num espírito racista mas, ao compactuarem com esta conduta, ainda são piores que os que o fizeram com convicção. Conheço casos de pessoas que abandonaram um local em sinal de protesto com a opinião do orador. Eu próprio já disse e fiz muita estupidez a este respeito. Todavia, nunca foi a minha intenção melindrar ninguém. Um dia apercebi-me que há coisas que não sendo ofensivas na essência, passam a sê-lo se tivermos em atenção à história da humanidade. O carácter ofensivo e pejorativo das palavras advém do facto de ainda estarem profundamente enraizadas na alma das pessoas as monstruosidades cometidas durante séculos. E que não se esquecem em tão pouco tempo. Esta percepção das coisas resultou de uma experiência insólita que até parece inverosímil. Um dia um amigo falou-me de um fenómeno emergente que estava a ser objecto de estudos, os alegados raptos de seres humanos por extraterrestres. Mostrei-me céptico e ele emprestou-me um livro chamado “Sequestros” escrito por Jonh Mack um psiquiatra de grande prestígio. Este livro mais não era que uma compilação de histórias dos seus pacientes que, sujeitos à terapia de hipnose regressiva, recordavam experiências profundamente dolorosas dos raptos alienígenas. De todos os relatos, e subjacente aos raptos, discutiam-se os sentimentos e o atroz sofrimento que aquelas experiências induziam. Eram tão avassaladoramente intensos, resultando do domínio absoluto sobre a vontade individual, conjugado com uma impotência para esboçar qualquer reacção, que era como se fossem ratos num labirinto, com a diferença que estes tinham consciência que o eram. Tentem abstrair-se e imaginar o que seria se fossemos nós a ser vítimas de uma desconcertante indiferença perante os nossos sentimentos, semelhantes aos perpetrados pelo médico nazi Mengel aos judeus indefesos.
Mesmo continuando a manter a minha posição de céptico sobre este assunto, fiz um exercício mental, mas partindo do pressuposto que era verdade. Conclui que continuava a ser uma hipótese remota, uma vez que qualquer civilização que cá chegasse seria incomparavelmente mais evoluída e, que se a evolução seguisse o mesmo caminho que na Terra, era incontornável o aparecimento de uma consciência colectiva, uma espécie de humanização da sua sociedade, o que invalidava o pressuposto inicial. Caso contrário, pensei eu na altura, configuraria um tipo de racismo, o que não faz o menor sentido para mentes desenvolvidas sadiamente. Foi então que me apercebi. Se pensarmos que o racismo tem a sua génese na escravatura, que mais não era que um domínio avassalador sobre a vontade do esclavagista sobre o escravo, sempre e inexoravelmente presente, que na ausência quer na presença do dominador, com a conivência dos poderes vigentes na altura, que elevava a impotência que eles sentiam a um nível que só quem passa pelo mesmo entende, facilmente se percebe o paralelismo.
A discussão feita pelo psiquiatra em torno dos sentimentos foi, por isso, reveladora, assim como a natural tendência para o ressentimento contra todos os que reavivem a memória, pelos seus actos, de situações profundamente marcantes. Este raciocínio nada elaborado levou-me a compreender este ressentimento e a evitar palavras que são susceptíveis de ferir sensibilidades. As atrocidades cometidas durante esses anos criaram clivagens que dificilmente serão esquecidas. A contínua humilhação de seres humanos e o sofrimento causado, levou a algumas demonstrações de grandeza em pequenos actos. Rosa Parks, foi uma das pessoas que o fez ao recusar ceder o seu lugar no autocarro. Mas não é só o que fica para a história que é digno de ser recordado. Contou-me alguém de quem gosto muito que durante as andanças pela guerra de ultramar, a sua companhia passou por uma roça (penso que era de cacau), onde um capataz exercia arbitrariamente a sua autoridade com castigos físicos sobre os trabalhadores. Ao avistar os militares, sentiu-se como que legitimado na sua autoridade e reforçou a violência. Acto contínuo, o comandante enfiou-lhe um murro dizendo :- É por causa de filhos da puta como tu que nós temos que cá estar.
Eu gostava de ter feito aquilo. É como se ser um simples participante destes momentos nos engrandecesse enquanto seres humanos. É o mesmo desejo que tenho de ter sido eu a dar o isqueiro àquela senhora que queimou o sutiã, em sinal de protesto na sua luta pela emancipação das mulheres. Por outro lado, a ciência já provou, sem lugar para ambiguidades, que não é possível distinguir geneticamente as pessoas, defraudando aqueles que o defendiam fervorosamente. O que está mais que provado é que a oportunidades iguais, correspondem, na generalidade, resultados iguais, existindo aqui e ali algumas idiossincrasias que facilmente são observáveis ao nível de algumas modalidades desportivas.
E por falar em desporto, recordo emocionado a atitude dos dois atletas que, após a sua vitória, erguerem a sua mão com o punho fechado, sinal do seu empenhamento na luta pelos seus direitos cívicos. Foram censurados pelo acto quando expressavam o seu direito à indignação. Estes e outros como Nelson Mandela, Frederik de Klek, Rosa Parks, Martins Luther King, são símbolos de uma mudança que a história não esquecerá. Os restantes, como diz o Ricardo de Araújo Pereira, figurarão nos livros com o epíteto de “Bestas do Caralho”.
O racismo é a negação da humanidade. Um racista tem problemas com a sua própria identidade e afirmação enquanto ser humano, não se enquadrando, por isso, neste espantoso acontecimento cósmico que é a vida. Nunca é demais frisar o valor da ciência neste campo das desmistificações, que também descobriu que o chimpanzé partilha 97% do nosso genoma. Há por isso toda uma escala até aos 100% que tem de ser preenchida por alguém. Temos então o PNR. Estou a ler um livro de onde saiu o título deste texto, a estupidez circular mais não é de que aquela que, independentemente do ângulo de observação, é sempre estupidez.

Filipe Pinto.

terça-feira, março 07, 2006

Dia Internacional da Mulher


Durante séculos, o papel da mulher resumiu-se sobretudo à sua função de mãe, esposa e dona de casa. Ao homem estava destinado um trabalho remunerado no exterior do núcleo familiar. Com o aparecimento da Revolução Industrial, muitas mulheres passaram a exercer uma actividade laboral, embora auferindo uma remuneração inferior à do homem.
Lutando contra essa discriminação, as mulheres encetaram diversas formas de luta na Europa e nos EUA. Numa dessas acções reivindicativas, no dia 8 de Março de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para exigirem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, deflagrou um incêndio, e 130 mulheres morreram queimadas.
O dia 8 de Março significou mais do que um dia trágico na história da humanidade, na verdade, elevou ao máximo a violência e a tirania para com as mulheres operárias, que ao ocuparem a fábrica têxtil em que trabalhavam, foram queimadas sem qualquer piedade por estarem a lutar contra a exploração e a desigualdade tanto salarial quanto social em relação aos homens.
Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como "Dia Internacional da Mulher".
Passados 149 anos da histórica jornada de luta das mulheres operárias têxteis de Nova Iorque, se, na verdade, perante a lei da maioria dos países, não existe qualquer diferença entre um homem e uma mulher, a prática demonstra que ainda persistem muitos preconceitos em relação ao papel da mulher na sociedade.
Apesar dos progressos feitos desde Conferência de Pequim, em 1995, a discriminação contra as mulheres subsiste em todas as regiões e sociedades e os seus direitos continuam ser objecto de violações flagrantes e sistemáticas. Não existe, actualmente, um único país do mundo onde as mulheres gozem das mesmas oportunidades que os homens.
Apesar de alguns passos dados, em algumas áreas nos últimos anos, muito há a fazer, especialmente, para fazer cumprir os Objectivos de Desenvolvimento do Milénio (ODM). Na Declaração do Milénio, entre várias recomendações, destaca-se uma atenção renovada às questões da igualdade entre os sexos.
Com um empenhamento especial para pôr fim à violência contra a mulher, especialmente à violência doméstica ( a violência contra as mulheres é um crime público, quer seja cometido no seio da família, quer em espaços públicos quer ainda em situações de conflito), ao comércio de mulheres e à mutilação genital.
O Projecto do Milénio pede, um maior acesso das mulheres à educação, emprego e bens, nomeadamente terras e habitação, melhores cuidados de saúde, especialmente serviços de saúde reprodutiva.
No centro dos esforços da comunidade internacional para garantir a igualdade entre os sexos encontram-se, para além da protecção contra a violência, a saúde e os direitos reprodutivos das mulheres. Um tratamento igual e a igualdade de acesso à educação e aos serviços de saúde, ao crédito, emprego, propriedade e herança, e a protecção contra a discriminação, factores essenciais para uma participação plena das mulheres na comunidade, bem como para a sua autonomização.
Só com leis, políticas e práticas não discriminatórias é que as mulheres poderão realizar todo o seu potencial e ter uma vida sadia, produtiva e segura, em termos de bem-estar, de protecção da violência e de plena participação na tomada de decisões, beneficiando a qualidade de vida das suas famílias, das suas comunidades e do mundo em geral.

segunda-feira, março 06, 2006

Os Vencedores da Noite

Ang Lee nasceu em Taipei em 23 de Outubro de 1954, licenciou-se no National Taiwan College of Art,tendo-se deslocado para os Estados Unidos em 1975, onde estudou realização na Universidade de Illinois e produção fílmica na Universidade de Nova Iorque. Em 1985 alcança um prémio pelo seu trabalho como estudante e, embora tenha passado os seis anos seguintes a trabalhar em argumentos, conseguiu a sua estreia como realizador em "Pushing Hands", uma comédia sobre os problemas culturais e geracionais vividos por uma família de originária de Taiwan a viver em Nova Iorque.
Em 1993 surge "Banquete de Casamento", a história de um rapaz homossexual que vive em Nova Iorque mas finge um casamento de conveniência para agradar aos seus pais, vindos de Taiwan para visitar o filho. O filme foi extraordinariamente bem recebido pela crítica, tendo a película vencido o Urso de Ouro para Melhor Filme no Festival de Berlim e um prémio de Melhor Realizador no Festival de Seattle, para além de nomeações para os Globos de Ouro e para os Óscares da Academia. Com a sua reputação internacional em crescimento, Ang Lee realiza "Comer Beber Homem Mulher", mais uma película sobre um conflito de gerações. O êxito alcaçado leva-o a tentar algo de muito diferente: a adaptação ao grande ecrã de uma obra de Jane Austen, "Sensibilidade e Bom Senso". Mais uma vez a crítica é unânime nos elogios, sendo que o filme recebeu até uma nomeação para melhor película. Em 1997 dedicou-se a explorar os conflitos de uma família nos anos 70 em "A Tempestade de Gelo" , obtendo mais uma vez vários prémios, num filme com um elenco notável, que incluía Kevin Kline, Sigourney Weaver, Joan Allen e Christina Ricci.

Em 1999, realiza o drama “Ride With the Devil”, sobre a Guerra Civil americana, onde dirige Tobey Maguire e Skeet Ulrich. Em 2000, Ang Lee conseguiu realizar um projecto já muito antigo e dedicar-se às artes marciais, “O Tigre e o Dragão”, que veio recuperar uma tradição cinematográfica chinesa e, de certa forma, trazer o Oriente para mais perto do Ocidente. A inesperada passagem pela adaptação de um dos ícones da banda-desenhada norte-americana em “Hulk” (2003) não obteve uma recepção tão calorosa, mas apresentou uma invulgar e criativa perspectiva sobre o universo dos super-heróis, num interessante blockbuster de autor. Com “O Segredo de Brokeback Mountain”, ganhou o Óscar na categoria de Melhor realizador.
Philip Seymour Hoffman nasceu em 23 de Julho 1967 em Fairport, Nova Iorque, e antes de se estrear na sétima arte fez alguns trabalhos em teatro. “Scent of a Woman”, de 1992, foi o primeiro filme em que participou, e logo lado-a-lado com um nome carismático, Al Pacino. “Quando um Homem Ama uma Mulher” (1994) ou “Tornado” (1996) foram consideráveis êxitos junto do grande público que contaram com o actor entre o elenco, mas Hoffman destacar-se-ia perante a crítica com os papéis que interpretou nas obras de Paul Thomas Anderson, “Hard Height” (1996) e “Boogie Nights” (1997). “Felicidade”, de Todd Solondz ou “O Grande Lebowski”, dos irmãos Coen, de 1998, deram continuidade aos contactos do actor com o cinema independente, que foram mais reforçados pelos seus desempenhos no incontornável “Magnólia” (mais uma colaboração com Paul Thomas Anderson) e no controverso “O Talentoso Mr. Ripley”, de Anthony Minghella, no ano seguinte, tendo ganho por ambos o prémio de Melhor Actor Secundário da National Board of Review. “True West”, uma das suas passagens pelos palcos da Broadway, valeu-lhe uma nomeação para os Prémios Tony, e em 2000 integrou o elenco de de mais duas películas aclamadas, “Quase Famosos”, de Cameron Crowe, e “State and Main”, de David Mamet. “A Última Hora”, de Spike Lee, e “Dragão Vermelho”, de Brett Rattner, também contaram com o talento de Hoffman, assim como “Embriagado de Amor”, de Paul Thomas Anderson, uma das comédias românticas mais atípicas de 2001. A série televisiva “Empire Falls” (2005) foi outro projecto elogiado (que lhe possibilitou um Emmy), mas o desempenho da sua vida, no papel de “Capote”, a primeira longa-metragem de Bennett Miller, veleu-lhe o Óscar de Melhor Actor Principal.
Reese Witherspoon nasceu a 22 de Março de 1976 em Baton Rouge, Louisiana e e participou em alguns anúncios televisivos antes de se estrear na sétima arte aos catorze anos com “The Man in the Moon” e “Wildflower”, em 1991. Embora não tenham sido filmes especialmente populares, os desempenhos da jovem actriz não passaram despercebidos, e dois anos depois Whiterspoon participou em “Jack the Bear” e “A Far Off Place”. Depois de “S.F.W.”, de 1994, interrompeu a sua carreira para se dedicar ao curso de literatura inglesa na universidade de Stanford, retomando-a em 1996 ao colaborar nos thrillers “Fear” e “Freeway”, este último um ousado filme de culto onde contracenou com Kiefer Sutherland numa versão mais negra e actual do conto “Capuchinho Vermelho”. “Pleasantville” (1998), “Election” (1999), “Planos Ocultos” (1999) e “American Psycho” (2000) marcaram a sua passagem pelo cinema independente, evidenciando a sua versatilidade intrepretativa e suscitanto elogios da crítica, que cada vez menos a encarava como uma confirmação e não uma promessa. Apesar desses papés bem sucedidos, foi com “Legalmente Loira” (2001) que se tornou num rosto familiar para o grande público, e o seu carisma terá contribuído para que esta comédia familiar tenha sido uma das mais vistas dos últimos anos, conseguindo resultados de bilheteira na ordem dos 100 milhões de dólares nos Estados Unidos. A sequela das peripécias de Elle Woolds, “Legalmente Loira 2” (2003) e “Sweet Home Alabama” (2002) deram continuidade ao mesmo tipo de registo, e mesmo não tendo atingindo um sucesso tão elevado asseguraram a prosperidade da carreira de Witherspoon. “Just Like Heaven” (2005), mais uma comédia romântica, ajudou a sedimentary o seu estatuto de “queridinha do público”, enquanto que “A Feira das Vaidades” (2005) lhe possibilitou optar por papéis mais complexos. Com a interpretação da cantora “country” June Carter Cash, “Walk the Line” (2005), ganhou o Óscar de Melhor Actriz Principal.
George Clooney nasceu a 6 de Maio de 1961 em Lexington e participou, logo aos cinco anos, num programa televisivo, “The Nick Clooney Show”, um talk show apresentado pelo seu pai. Contudo, o actor só voltaria a aparecer nos ecrãs vários anos depois, uma vez que inicialmente almejou seguir carreira como jogador de basebal, aspiração que entretanto deixou de lado, apsotando então em anúncios televisivos. Da publicidade passou para a interpretação de pequenos papéis em 15 episódios-piloto de várias sérias televisivas, todos eles fracassos, assim como nas sitcoms “The Facts of Life”, “Roseanne” ou “Sisters”. O drama hospitalar “E.R.”, ao contrário das anteriores, concedeu-lhe um papel de maior relevo e tornou-o numa figura mais mediática, e o seu carisma fez dele um dos actores mais bem sucedidos junto do público feminino. O êxito desta série fez de Clooney um nome subitamente muito requisitado em finais dos anos 90, tanto para projectos mais comerciais– a comédia romântica “One Fine Day” (1996), onde contracenou com Michelle Pfeiffer, ou “Batman & Robin” (1997), onde encarnou o homem-morcego – como alternativos – o bizarro e delirante “Aberto Até de Madrugada” (1996), de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez. “Romance Perigoso” (1997), de Steven Soderbergh, que protagonizou juntamente com Jennifer Lopez, trouxe novo fôlego aos género de acção, e a versatilidade de Clooney seria também testada em filmes de guerra como o poético “A Barreira Invisível” (1998), de Terrence Malick, ou o satírico “Três Reis” (1999), de David O. Russel. “Irmão, Onde Estás?” (2000), dos irmãos Coen, proporcionou-lhe um Globo de Ouro, e a colaboração com Soderbergh voltou a evidenciar-se em “Façam as Vossas Apostas” (2001) e “Solaris” (2002), filmes que não poderiam ser mais distintos mas pelos quais o actor recebeu elogios. Para além de se destacar no campo da interpretação e, pontualmente da produção (de “Insónia”, por exemplo), Clooney assinalou em 2002 a sua estreia na realização com “Confissões de Uma Mente Perigosa”, numa primeira obra promissora. Em “Crueldade Intolerável” (2003) mostrou-se capaz de ser convincente num registo carregado de humor negro, e “Boa Noite e Boa Sorte” (2005) regista agora um dos filmes em que mais se empenhou, tendo sido responsável pelo seu argumento, realização e desempenhando ainda um dos papéis mais proeminentes. Esta película sobre os meandros do jornalismo recebeu quatro nomeações para os Globos de Ouro e seis para os Óscares, incluindo a de Melhor Realizador. O thriller político “Syrianna”, de Stephen Gaghan, possibilitou-lhe a conquista do Óscar para Melhor Actor Secundário.

Rachel Weisz nasceu a 7 de Março de 1971 em Londres e, depois de se dedicar a experiências como modelo durante a adolescência, tentou seguir uma carreira de actriz depoisde terminar os estudos de inglês em Cambridge. A participação numa adaptação numa peça que adaptou “Design for Living”, de Noel Cowards proporcionou-lhe um prémio do Critics’ Circle e essa distinção abriu-lhe as portas para integrar o elenco da série da BBC “Scarlet and Black”, em 1993. Três anos depois, Weisz participou em longas-metragens como “Stealing Beauty”, de Bernardo Bertolucci, e “Reacção em Cadeia”, onde contracenou com Keanu Reeves. Após participar em filmes mais discretos, a actriz obteve no blockbuster “A Múmia” (1999) o seu primeiro grande papel, que lhe trouxe uma maior projecção internacional, reforçada pela sua sequela, “O Regresso da Múmia” (2001). “Sunshine” (1999) e “Inimigo às Portas” (2000) marcaram a sua colaboração em películas entre o drama e o filme de guerra. Na carismática comédia “Era uma Vez um Rapaz” (2002), de Paul Weitz, protagonizado por Hugh Grant, apresentou um dos seus desempenhos mais elogiados, e nos thrillers “Confiança” (2003) e “O Júri” (2003) testou outros tipos de registos. Em “Constantine” (2005), baseado no herói de banda-desenhada homónimo, voltou a contracenar com Keanu Reeves, e apesar do filme ter sido um considerável êxito de bilheteira não foi alvo de uma aclamação do público e da crítica semelhante à que acolheu “O Fiel Jardineiro”. Foi com o segundo filme do brasileiro Fernando Meirelles que Weisz comprovou a sua maturidade interpretativa, oferecendo a actuação mais memorável da sua carreira na pele da obstinada jornalista Tessa, permitindo-lhe vencer o Óscar na categoria de Melhor Actriz Secundária.

Óscares

O melhor filme de 2005 foi “Colisão”, do canadiano Paul Haggis, segundo a Academia de Cinema, Artes e Ciências norte-americana, que distinguiu ontem à noite a longa-metragem sobre as tensões étnicas em Los Angeles com o Óscar de melhor filme. Ang Lee foi considerado o melhor realizador, por “O Segredo de Brokeback Mountain”, filme em que recaíam as principais apostas e expectativas para a noite dos Óscares e que acabou por receber três prémios, tantos quanto “Colisão”.
Nomeado em seis categorias, o filme “Colisão” obteve mais duas estatuetas:
melhor argumento original, para Paul Haggis e Bobby Moresco, e melhor montagem.
“O Segredo de Brokeback Mountain”, que conta a história de amor de dois cowboys homossexuais e estava nomeado para oito Óscares, também conquistou três estatuetas: melhor realizador, para Ang Lee, melhor argumento adaptado (Larry McMurtry e Diana Ossana) e melhor banda sonora original (Gustavo Santaolalla).
Philip Seymour Hoffman foi distinguido com o Óscar de melhor actor principal pela sua composição do escritor Truman Capote para o “biopic” “Capote”, e Reese Witherspoon recebeu
emocionada a estatueta de melhor actriz principal pela sua interpretação da cantora “country” June Carter Cash, no filme sobre o cantor Johnny Cash “Walk the Line”.
George Clooney recebeu o Óscar de melhor actor secundário por “Syriana”, que também produziu, e a britânica Rachel Weisz foi distinguida na mesma categoria pelo trabalho em “O Fiel Jardineiro”.
“A Marcha dos Pinguins” foi distinguido com o Óscar para o melhor documentário e a longa-metragem sul-africana “Tsotsi” venceu na categoria de melhor filme estrangeiro.
Com o mesmo número de prémios que “Colisão” e
“O Segredo de Brokeback Mountain” ficaram dois filmes de grande orçamento: “King Kong” e “Memórias de uma Gueixa”, distinguidos em categorias técnicas. O “remake” das aventuras do gorila gigante obteve os Óscares de melhores efeitos especiais, melhor som e melhor mistura de som e “Memórias de uma Gueixa” foi galardoado pela direcção artística, guarda-roupa e fotografia.
De entre os outros galardões atribuídos na cerimónia realizada ontem à noite no Kodak Theatre, em Los Angeles, perante 3300 membros da academia cinematográfica norte-americana
e centenas de milhões de telespectadores, o Óscar de melhor filme de animação foi para “Wallace e Gromit: A Maldição do Coelhomem”, do britânico Nick Park, e a equipa do filme “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa: As Crónicas de Nárnia” recolheu o prémio para a melhor caracterização.
Dois filmes que se encontravam entre os mais nomeados ficaram ausentes da lista dos vencedores: “Boa Noite e Boa Sorte”, de George Clooney, sobre o combate de um jornalista contra o “McCarthysmo”, nomeado em seis categorias, e “Munique”, de Steven Spielberg, que tinha cinco nomeações.
Hollywood aproveitou também a 78ª edição dos Óscares para prestar homenagem ao cineasta Robert Altman, que recebeu um Óscar honorário pelo conjunto da sua obra.

sexta-feira, março 03, 2006

A Maldade



Antes de iniciar a leitura deste texto e para melhor se enquadrar aquilo que pretendo dizer com estas humildes palavras sugiro uma leitura da frase de abertura deste Blog, essa sim de uma profundidade só ao alcance dos imortais. E John Stuart Mill é de facto um imortal. Considerado em alguns círculos como o ser humano mais inteligente que já alguma vez viveu, deixa-nos este brilhante pensamento que deveria ser um dos lemas do desenvolvimento humanitário. Curvo-me perante a grandeza.
Na semana passada aconteceu algo que nos deveria levar a questionar a forma como são educadas algumas crianças, nomeadamente, as que o são nas instituições e, neste caso, de dirigentes com ligações à Igreja Católica. Um homem que era homossexual, transsexual, toxicodependente e sem-abrigo, atributos marcadamente estigmatizadas pela sociedade em que vivemos, foi abominavelmente assassinado por um grupo de jovens. A maldade do acto é de uma dimensão impensável. As sovas. A tortura sádica. O abandono. O regresso para a estocada final.
É importante discutir agora algumas das possíveis causas para este actos. Partindo do princípio que o nosso pensamento gravita em torno do bem e do mal, o que diferencia as pessoas é a sua consciência. É elucidativo disto mesmo que os grandes escritores, ao conceberem as suas personagens, consigam por em evidência as características e as acções de quem está num e noutro campo, sem maniqueísmos, uma vez que são arquétipos do mundo real.
Shakespeare, expoente máximo da literatura e drama do século XVI, descreveu a alma humana em todas as suas cambiantes e, numa das adaptações das suas peças ao cinema (Titus Andronicus com Anthony Hopkins), fiquei manifestamente perturbado com uma das cenas. O enredo é uma sucessão de vinganças em que, a determinada altura, a filha do herói é raptada. Quando o pai a encontra, esta está prostrada no que restava de um tronco de uma árvore cortada, com ramos no lugar das mãos decepadas.
É fácil, por isso, inferir que a maldade não exclusiva de quem a pratica mas é transversal ao pensamento de todos e a diferença reside no desenvolvimento de uma consciência, pelas referências que nos vão surgindo no nosso percurso de vida e nos levam num ou noutro caminho. Além disso, o ser humano tende a desenvolver estratégias de auto-desculpabilização para os actos que comete como se estes fossem apenas e só uma consequência de uma qualquer influência externa.
Estes jovens encaixam perfeitamente no perfil traçado anteriormente. Se concordarmos que as referências fazem toda a diferença vejamos então o mundo em que a sua mentalidade, a sua personalidade se vai formando no que a este assunto diz respeito. É a politica vigente e o pensamento dominante na Igreja Católica relativamente a este assunto, traduzida pela voz de alguns dos seus mais proeminentes representantes, que se comenta seguidamente:
A homossexualidade é uma doença – Nuno Serras Pereira – Padre Franciscano, na revista Sábado.
Não me sinto com competência técnica para avaliar a validade desta afirmação. Todavia, merece algumas considerações, até pelo contexto em que ela o foi proferida. É claro que esta minha análise, como qualquer outra opinião, tem o direito de ser expressada. E, também, contestada. A utilização da palavra doença é um desrespeito pelos que estão efectivamente doentes, e que querem deixar de o estar, atribuindo à palavra mesmo uma conotação pejorativa, como se estes fossem os leprosos da era moderna.

Não é necessário grande esforço de memória para demonstrar que, sendo homossexuais, existiram seres humanos que foram, são e serão faróis da humanidade (para se compreender mais facilmente, evoco o nome de Leonardo da Vinci), cujo brilhantismo e criatividade são os único e verdadeiros milagres à face da Terra. Não necessitam de ter uma vida austera, auto flagelante, de sacrifico inútil para depois uma qualquer comissão científica nada independente os elevar ao estatuto de santos ou beatos. Ao contrário, durante muitos séculos, os homens da religião foram os buracos negros da humanidade, sorvendo tudo o que os rodeava e impedindo a sua evolução.
Por outro lado, na mesma medida, o celibato pode ser considerado uma doença. Uma negação dos instintos humanos da mesma forma que um homossexual negaria os seus. Mas, sendo uma opção de vida, não é susceptível de julgamento, sendo a frase anterior completamente desprovida de propósito, a menos que os celibatários (se é que os há) considerem a sua situação imbuída de alguma espécie de supremacia moral.
E já que falamos em algumas contradições, o apelo contínuo à elevação espiritual em simultâneo com a redução do ser humano ao ser biológico, cuja função sexual deveria servir apenas para a reprodução, sempre imbuída numa aura pecaminosa, quando é, indiscutivelmente, uma das componentes mais importante do equilíbrio emocional. Continuam a defender esta posição mesmo sabendo a grande maioria dos católicos não tem esta perspectiva de vida, nem esta redutora concepção de ser humano.
É pior o Aborto do que a violação de uma criança. – Não me lembro do nome de quem fez esta afirmação, mas estava num Jornal.
Pior que a quantificação dos actos, vota quem foi vítima de abuso sexual a um caso de somenos importância. Nem sequer consigo começar a imaginar como estas pessoas estão afectadas psicologicamente, como estão condicionadas durante toda a sua existência por feridas que nunca cicatrizam. A redução da dimensão de uma agressão à inocência infantil, que tem dolorosos e castrantes efeitos, é inqualificável.
O cardeal D. José saraiva Martins, perfeito para a congregação da causa dos santos, em entrevista às televisões, sobre o casamento de homossexuais e a adopção de crianças por parte destes casais:
È uma aberração. – diz ele
Apesar de envolvido em algumas beatificações e canonizações controversas, de pessoas de santidade controversa e de milagres ainda mais controversos, teceu esta “notável” consideração. Se em relação à adopção partilho da essência mas nunca da forma, uma vez que, atendendo ao ambiente da sociedade actual, a homossexualidade é um estigma social pesado dos potenciais candidatos à adopção, que seria transferido para o adoptado, não tendo este último nem escolha nem defesas.
No entanto, eu acredito na espécie humana, e a morte é rejuvenescedora das mentalidades, as gerações sucedem-se e a esperança reside na possibilidade de que as seguintes façam melhor que as anteriores. Quanto ao casamento, chamem-lhe outra coisa, mas permitam-lhes os mesmos direitos, já que os deveres também são os mesmos. O caminho para a felicidade é traçado individualmente.
Em jeito de conclusão, estas opiniões, que mais não são que ideologias atávicas, por si só, não têm o poder suficiente para manipular as pessoas, mas constituem parte integrante da matriz educacional destes jovens, já de si problemáticos. Conjugado com a sua juventude e a fase de desenvolvimento em que se encontram, a adolescência, onde qualquer coisa assume uma dimensão a maior parte das vezes despropositada, obtemos uma combinação explosiva. Quando se formam grupos, este mal-estar existencial latente, mais facilmente se liberta sob a forma de violência. A agravar tudo isto, a psicologia dos comportamentos de multidões diz-nos que tudo se torna incontrolável, sucedendo-se coisas que individualmente seriam impensáveis.
Regressando à frase de abertura, de John Stuart Mill. Encerra toda a sabedoria da humanidade. Dado o seu nível intelectual, intocável, são homens como este que criaram sugestões de normas de conduta pelas quais nos deveríamos gerir. Resta a nós termos a capacidade para o fazer. Parece que não temos.

Filipe Pinto.

quinta-feira, março 02, 2006

Mikhail Gorbachev


Com o fim da Segunda Guerra Mundial acabou a hegemonia da Europa no mundo. Duas potências dividiram a herança: Estados Unidos da América e União Soviética. Tendo como base a disputa pela hegemonia mundial entre as duas potências, a guerra fria estenderar-se-á por mais de 40 anos. Com sistemas sociais e políticos opostos, armas nucleares e políticas de conquista da hegemonia mundial, Estados Unidos e União Soviética mantiveram o mundo sob a ameaça de uma guerra nuclear. O senhor de quem se fala, é o principal protagonista, juntamente com o homólogo americano, Ronald Reagan, pelo fim da mesma. Mikhail Sergeevich Gorbachev, nasceu a 2 de Março de 1931, filho de Sergei Andreevich e Maria Panteleyvna, foi o último secretário-geral do Comité Central do Partido Comunista da União Soviética de 1985 a 1991. As suas tentativas de reforma terminaram com o poderio do Partido Comunista da União Soviética, levando, mesmo, à dissolução da União Soviética. Estudou direito na Universidade de Moscovo, onde em Junho de 1955 se forma em Direito. Entretanto tinha conhecido Raisa Maksimovna, com a qual se tinha casado em 25 de Setembro de 1953.Mikhail Gorbachev inscreveu-se no Partido Comunista em 1952 com 21 anos de idade. Entre 1955 e 1979 desempenha várias funções no Governo do seu Distrito natal, Stavropol. Em 1970 foi nomeado Primeiro Secretário da Agricultura e, no ano seguinte, foi eleito membro do Comité Central no XXIV Congresso do partido.. Em 1972, dirigiu uma delegação soviética à Bélgica e, dois anos mais tarde, em 1974, tornou-se representante do Soviete Supremo. No dia 1 de Março de 1978 recebe a Medalha da Revolução de Outubro e é promovido a Secretário do Comité Central, responsável pela agricultura. Entra para o Politburo em 17 de Novembro de 1979, onde recebeu a protecção de Yuri Andropov, o poderoso chefe do KGB e também natural de Stavropol. Com a morte de Brejhnev em 10 de Novembro de 1982, Yuri Andropov torna-se Secretário Geral do PCUS e promove Mikhail Gorbachev a seu delfim. Com a morte de Andropov em 9 de Fevereiro de 1984, sucede-lhe Chernenko e Mikhail Gorbachev torna-se o numero dois do Partido e é eleito Presidente do Soviete Supremo para a Comissão dos negócios estrangeiros. Com a morte a 10 de Março de Chernenko, Mikhail Gorbachev é eleito Secretário Geral do Comité Central do PCUS, nomeado por Gromyko. Tornando-se na prática o Presidente da União Soviética, tenta reformar o partido, que dava então mostras de decadência, ao apresentar o seu projecto que se resumia nas expressões glasnost (“abertura”) e perestroika (“reestruturação”) e que foi no apresentado no XXVII Congresso do Partido Comunista Soviético em Fevereiro de 1986. Entretanto neste ano de 1986, diversos acontecimentos levam Gorbachev, a separar-se das doutrinas de Brejhnev. Em 25 de Abril de 1986, dá-se a explosão de Chernobyl, que o levam às negociações na Islândia, para redução do arsenal nuclear, com Ronald Reagan. Em Dezembro desse ano liberta Sakharov, que estava exilado em Gorky desde os anos setenta. Em 1988, Gorbachev anuncia que a União Soviética abandonava oficialmente a Doutrina Brejhnev, ao admitir que a Europa de Leste adoptasse regimes democráticos, se desejassem. Isto levou à corrente de revoluções de 1989, nos países de Leste. Neste mesmo ano a União Soviética retira as suas tropas do Afeganistão e em Novembro dá-se a queda do muro de Berlim. Terminava assim a Guerra Fria, o que justificou a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Gorbachev em 15 de Outubro de 1990. Gorbachev foi eleito em 15 de Março de 1990, para um mandato de cinco anos como presidente executivo com mais poderes. Os seus planos de reforma económica no país não conseguiram evitar uma crise de produtos alimentares no Inverno de 1990-1991 e o seu desejo de preservar uma única URSS centralmente controlada deparou-se com a resistência das repúblicas soviéticas que pretendiam uma maior independência. Em 23 de Abril de 1991 assina um Tratado de União com 9 outras Repúblicas que não querem sair da URSS, criando a CEI, contudo, a democratização da URSS e dos países de Leste, ao levar à perda de poder do Partido Comunista, conduziu à situação que culminou com o Golpe de Agosto de 1991, como objectivo de o retirar do poder. Durante este tempo foi sequestrado durante três dias (de 19 a 21 De Agosto) na sua casa de férias na Crimeia, antes de ser libertado e reaver o poder. Na sequência desta tentativa falhada de golpe de estado levada a cabo por homens da linha dura, a aceitação internacional da independência dos estados bálticos e os avanços rápidos em direcção à independência verificados noutras repúblicas levaram a que a base de poder de Gorbachev como presidente soviético ficasse grandemente enfraquecida. Nessa altura, Boris Yeltsin começava a receber mais apoios em detrimento de Gorbachev. Este viu-se obrigado a demitir um grande número de membros do Politburo e, em vários casos, houve ordem de prisão. Pouco depois do seu regresso ao poder, Gorbachev foi obrigado a abandonar a liderança do partido, a renunciar ao comunismo como doutrina do estado, a suspender todas as actividades do partido comunista (incluindo os seus órgãos mais poderosos, o Politburo e o Secretariado) e a delegar muitos dos seus poderes centrais nos estados. Durante os meses seguintes, esforçou-se por obter um acordo sobre o tratado de união por ele proposto, na esperança de evitar a desintegração da União Soviética, mas não conseguiu manter o controlo da situação e, em 25 Dezembro 1991, demitiu-se da presidência e entregou o poder a Boris Ieltsin levando ao colapso da União Soviética. Criou a Fundação Gorbachev em 1992. Em 1993, fundou também a Cruz Verde Internacional. Foi um dos principais promotores da Carta da Terra, em 1994. Tornou-se, igualmente, membro do Clube de Roma. Em Novembro de 1999, Mikhail Gorbachev foi distinguido com uma alta condecoração alemã pelo seu contributo para a unificação da Alemanha. A 26 de Novembro de 2001, Gorbachev fundou, igualmente, o Partido Social Democrata Russo. Resignou como líder partidário em Maio de 2004 em consequência de desacordos com o presidente do partido em relação às posições tomadas durante as eleições de Dezembro de 2003, que elegeram Putin.
Faz hoje 75 anos. Nasdrovie, Tovarich!

quarta-feira, março 01, 2006

Vergílio Ferreira


Vergílio Ferreira escritor, professor ensaísta, morreu, faz hoje precisamente, dez anos.
Nasceu “ a 28 de Janeiro de 1916, às três horas da tarde de uma sexta-feira, dizia a minha mãe. É a hora de Cristo, dizia a minha mulher”.
Natural de uma pequena aldeia de Gouveia, a aldeia de Melo, com a Serra por companheira. De criança lhe ficou por aquela paisagem a certeza de que seria como ela:”duro, solitário, obstinadamente hostil”.
Passou a maior parte da sua infância com as tias maternas, devido à emigração dos pais para os Estados Unidos em 1920, que esperavam mandá-lo chamar, mas assim não quis o destino.
Aos dez anos de idade ingressou no seminário do Fundão, que abandonou em 1932, tempo cuja má recordação, segundo o próprio, só se desfez após a escrita de Manhã Submersa (1954).
Em casa tinham ficado o livro de poemas e o violino que tanto gostava de tocar. Fora o padre da terra que o ensinara, mas nas paredes nuas do dormitório já não o conseguia ouvir.
Depois de deixar o seminário, acabou o curso liceal no Liceu da Guarda e entrou, em 1936, para a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde se formou em Filologia Clássica, em 1940, tinha 24 anos.
Aí nasceu o seu interesse pela Literatura, “praticava-a desde há muito tempo em versos infantis”, mas foi nesses tempos de juventude que decidiu recomeçar a escrever. Dedicou-se inicialmente à poesia, que, embora nunca tenha publicado, nunca o abandonou, como o prova o lirismo da sua prosa.
Quando termina o curso decide optar por uma carreira no ensino, para mostrar como pode ser bela a nossa língua e o modo de a expressar. Depois de ter concluído o estágio no Liceu D. João III, em Coimbra, leccionou, até 1981, em diversos liceus do país: Faro (1942); Bragança (1944); Évora (1945-59), que deixou profundas marcas em vários romances, nomeadamente em Aparição (1959); Lisboa, no liceu Luís de Camões (a partir de 1959).
Em 1939 escreveu o seu primeiro romance, O Caminho Fica Longe, que publicou quatro anos mais tarde.Inicialmente ligado ao neo-realismo, acabou por se desligar deste movimento literário, evoluindo a sua obra no sentido de uma temática existencialista e de um humanismo trágico. A sua obra é atravessada por uma constante reflexão sobre a condição humana, um constante registo das grandes interrogações do homem, da procura de sentido para as razões essenciais da vida e da morte.
Esta orientação foi seguida a partir do romance Mudança (1950), ficando definitivamente associada às obras seguintes do escritor.A par desta interrogação filosófica sobre o destino do homem, os textos de Vergílio Ferreira, nomeadamente os ensaios, traduzem também uma reflexão sobre os problemas da arte e da civilização europeias.
Durante esta fase da sua vida, identificou-se ideologicamente com uma forma de estar muito próxima do comunismo. A clandestinidade do Partido e a afronta a um Poder repressivo de que não gostava, quase o fez tornar-se militante. Por muito pouco o não foi. Considerado um dos grandes escritores portugueses do século XX, Vergílio Ferreira manteve-se à margem de polémicas estritamente políticas e de grupos literários, o que lhe valeu algumas críticas por parte de outros nomes do mundo cultural português.
Durante os 40 anos foi professor dividiu os seus dias entre a carreira docente e a escrita, sem a qual não podia viver:”escrever é tão importante como respirar. Entrarei no paraíso a escrever”.
Vergílio Ferreira publicou as obras de ficção, O Caminho Fica Longe (1943), Onde Tudo Foi Morrendo (1944), Vagão J (1946), Mudança (1950), A Face Sangrenta (1953), Manhã Submersa (1954, obra adaptada ao cinema por Lauro António), Aparição (1959, Prémio Camilo Castelo Branco), Cântico Final (1960), Estrela Polar (1962), Apelo da Noite (1963), Alegria Breve (1965, Prémio da Casa da Imprensa), Nítido Nulo (1971), Apenas Homens (1972), Rápida A Sombra (1975), Contos (1979), Para Sempre (1983), Uma Esplanada Sobre o Mar (1986), Até ao Fim (1987, Grande Prémio de Novela e Romance da Associação Portuguesa de Escritores), Em Nome da Terra (1990), Na Tua Face (1993, Grande Prémio de Novela e Romance da APE) e, já após a sua morte, Cartas a Sandra (1996). É também autor dos ensaios Terá Camões Lido Platão? (1942), Sobre o Humorismo de Eça de Queirós (1943), Do Mundo Original (1957), Carta ao Futuro (1958), Da Fenomenologia a Sartre (1962), André Malraux: Interrogação ao Destino (1963), Espaço do Invisível 1 (1965), Invocação ao Meu Corpo (1969), Espaço do Invisível 2 (1976), Espaço do Invisível 3 (1977), Um Escritor Apresenta-se (1981), Espaço do Invisível 4 (1987), Arte Tempo (1988, ”Em Nome da Terra” (1990), ”Na Tua Face” (1993), e “Cartas a Sandra” (1996).
Foram-lhe atribuídos, entre outros, o Prémio do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários (1985, pelo conjunto da sua obra), o Prémio Femina (1990), o Prémio Europália (1991) e o Prémio Camões (1992).
Várias obras suas foram adaptadas ao cinema: além de Manhã Submersa, já mencionada, Cântico Final, e os contos O Encontro, A Estrela e Mãe Genoveva. Algumas das suas obras encontram-se traduzidas em várias línguas.
Romancista de fina-flor da Literatura portuguesa, Vergílio Ferreira escreveu também um diário intitulado “Conta-Corrente”, Conta-Corrente I (1980), Conta-Corrente II ( 1981), Conta-Corrente III (1983), Conta-Corrente IV (1986), Conta-Corrente V (1987), Pensar (1992), Conta-Corrente Nova Série 1 (1993), Conta-Corrente Nova Série 2 (1993), Conta-Corrente Nova Série 3 (1994), Conta-Corrente Nova Série 4 (1994), onde se define, mas não na totalidade pois “a biografia de um autor é a sua bibliografia” e por isso nada melhor que ler os seus livros para descobrir a sua verdadeira dimensão.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Uma Questão de Mentalidade

“Na sua acção governamental as dissenções são perpétuas. Assim o partido histórico propõe um imposto: porque não há remédio, é necessário pagar a religião, o exército, a lista civil, a diplomacia… - propõe um imposto:
- Caminhamos para a ruína! Exclama o presidente do concelho – O deficit cresce! O País está pobre A única maneira de nos salvarmos é o imposto que temos a honra, etc…
…- Como assim! Exclamam todos, mais impostos!?”

O parágrafo transcrito é uma citação e, normalmente, no fim de o fazer coloca-se o nome do seu autor e o lugar de onde ela foi retirada. No entanto, aquilo que se pretende realçar com este texto, e com o intuito de mais facilmente nos apercebermos do quanto é caricato o momento em que se encontra o País, optei por aguardar para o fim deste texto para fazer a revelação.
Após o 25 de Abril, os governos foram-se sucedendo, os ministros foram-se substituindo, o País foi crescendo, com a melhoria substancial da rede viária, aproximando as populações, com o investimento na Educação, factor indispensável ao desenvolvimento de qualquer País, na saúde, na modernização, etc, tudo isto com vista à melhoria da qualidade de vida das populações.
Quando se esperava um reforço do exercício da cidadania, eis que surge um problema de difícil resolução. Infelizmente, com todas as mudanças que o País sofreu, os habitantes e a sua mentalidade continuam os mesmos. Vejamos então o que isto significa.
A classe política está num processo acelerado de perda de credibilidade, quer os governos quer as oposições. Os dois maiores partidos, PS e PSD, foram-se substituindo, governo institucional após governos institucional, e a cada troca, aparentemente, mais do mesmo.
Os discursos do governo empossado resvalam, invariavelmente, para as críticas ao anterior, ao mesmo tempo que prometem dar um rumo ao País o que, convenhamos, está cada vez mais difícil.
O partido que saiu do governo (passou portanto para a oposição) inicia a sua rota em direcção ao poder através de campanhas de críticas, mais ou menos lógicas, mais ou menos honestas, mais ou menos desprovidas de convicções e valores. A maioria das vezes limitam-se a acompanhar a opinião pública com óbvio interesse de o capitalizar em votos.
O governo em funções avisa a navegação de que é difícil melhorar a situação devido à pesada herança e que vão ser necessários sacrifícios, antes de se conseguir alterar o caminho que estava a ser seguido rumo à perdição.
Entretanto no parlamento, temos as dissenções. O actual modelo de funcionamento é de utilidade questionável. Não se percebe qual o propósito dos debates e muito menos se percebe como alguém pode pensar que estas discussões trazem algum beneficio para o País. Os argumentos utilizados dissolvem-se na intenção com que os aplicam, uma vez que nunca há consenso visível, vislumbrando-se apenas sucessivas acusações de incompetência e de ausência de bom senso.
Aliás, a palavra discussão adquiriu uma conotação pejorativa no parlamento. Em bom rigor, para as coisas terem algum nexo e face a um qualquer problema, deveriam surgir propostas, que seriam debatidas, sobre as quais todos deveriam opinar, no sentido da obtenção do maior consenso possível. Esta é a única forma de impedir que as leis surjam em resultado de uma imposição por maioria de voto, facto que implica que a cada alteração de governo se altere também a legislação.
E assim, de pesada herança em pesada herança, está o povo como o tolo no meio da ponte, sem saber para que lado se virar, porque uns dizem que é assim, outros dizem que é assado apenas porque o comportamento esperado é contradizer em absoluto os adversários políticos. E, porque não acredita nem nuns nem noutros, por desespero por falta de expectativas, dá um mergulho no rio, onde se pode safar sozinho sem ter que ouvir ninguém.
Tudo se resume, portanto, a uma questão de credibilidade. Quem não confia, não age de acordo com o interesse comum, mas reage permanentemente de forma a auto preservar-se. Arranjam-se uns esquemas, foge-se aos impostos, perde-se o sentido comunitário e é cada um por si. Não é egoísmo, é a exteriorização do factor humano. E os esquemas são infindáveis. Se há uma possibilidade de contornar a lei, os portugueses encontram-na. Sejam os empresários que ao formarem uma empresa criam logo várias para diluir os lucros e não pagarem impostos, ao mesmo tempo que contratam o melhor contabilista possível que os ajude a fugir. Sejam os acordos entre patrões e empregados para nunca declarem aquilo que realmente ganham. Sejam os ordenados dos profissionais liberais. Sejam os que estão a receber o fundo desemprego e a trabalhar, ou de baixa e a trabalhar. Sejam as falências fraudulentas onde fecham numa porta e abrem noutra, a lista é interminável.
Para além disso, um português gasta mais do que pode, uma família de portugueses gasta mais do que pode, uma cidade de portugueses gasta mais do que pode e, como seria de esperar, o estado português gasta mais do que pode. Isto não é uma conclusão retórica, é algo cultural, enraizado até ás profundezas na nossa alma.
Assim, o problema não é apenas dos governantes, mas também dos governados, até porque dos últimos são escolhidos os primeiros. Há, claramente, uma questão de mentalidade cultural que exige um esforço concertado para se conseguir uma inversão nos comportamentos. O trabalho para mudar as coisas tem que começar por aqui de maneira a acabar-se com expressões deste género: Quem eu? Não pago os impostos. Vou dar o dinheiro ao Estado, não?
A questão é começar por onde. Provavelmente é tentar perceber qual a influência que o nível de analfabetismo do nosso País tem no que respeita à importância dada ao exercício da cidadania na sua plenitude, principalmente o pagamento dos impostos.
Em primeiro lugar, o incumprimento por este motivo é elevadíssimo. A essência deste problema reside na ignorância existente, em resultado do analfabetismo, cuja consequência é uma visão redutora da sociedade, da vida e do mundo. A génese está, portanto, na incapacidade destas pessoas em vislumbrar numa perspectiva mais abrangente.
Em segundo lugar, há também aqueles que tiveram acesso à Educação escolar e de quem se esperaria algo mais, sobretudo que soubessem o lugar que ocupam na sociedade e cumprissem com as suas obrigações de forma natural. Em vez disso, revelam uma atroz falta de formação cívico a este respeito. Qual o motivo? A construção das suas personalidades foi feita numa matriz cultural pobre, indissociável da ignorância, do qual não se conseguem libertar.
Por um lado, se a percentagem de população que não sabe ler e escrever é cada vez menor, já os que o sabem fazer e não sabem interpretar o que lêem é cada vez maior. São os chamados analfabetos funcionais. O exemplo mais elucidativo que conheço: Quem é que nunca foi a uma agência bancária e o funcionário não colocou uma cruz no local de assinatura. E porquê? Porque a maioria das pessoas não se dá ao trabalho de interpretar o formulário.
Por outro lado, os que não são analfabetos funcionais e optam por não cumprir as suas obrigações, deveria ser cada vez menos mas, ao que parece, não são. O seu comportamento é altamente recriminável, pois agem em consciência. A acção sobre estes deveria ser ainda mais incisiva. No entanto, a leis também têm que mudar. A prescrição das dívidas fiscais é impensável. Quem não cumpre, está a roubar toda a gente. Ao mesmo tempo que beneficia dos direitos que os cumpridores têm, direitos estes que são garantidos pelo dinheiro dos impostos. Vai para tribunal e, através das manobras conhecidas de todos os advogados, continuam a roubar toda a gente, pelos atrasos na Justiça que levam as prescrições. O sentimento de impunidade resultante desta inoperância leva a que, inevitavelmente, o comportamento seja recorrente.
Curioso é que nos Países mais desenvolvidos, para além de todos serem fiscais de todos, a questão do pagamento dos impostos é de uma importância tal que, pelos motivos já referidos, temo nunca venha a ser entendida pelos portugueses. Por exemplo dos E.U.A. a fuga aos impostos é severamente punida. Um dos gangsters mais famosos da época de lei seca, Al Capone, apenas foi apanhado pelo seu némesis, o intocável Elliot Ness, por fuga aos impostos e não pelos seus outros crimes tão sobejamente conhecidos.
É neste ponto que se revela a importância da Educação no desenvolvimento de um País. Em 1900 na Inglaterra existiam cerca de 3% de analfabetos. Hoje, em Portugal, são muito mais que isso. A inteligência colectiva desta matriz populacional é incomparável. O ideal comum, a ideia de nação é muito mais fácil de implementar num País onde é intuitivo acreditar nas instituições, como um valor de todos, porque elas são mais importantes que as pessoas que por vezes as lideram. Todos sabem que sem as instituições seria a anarquia.
Em Portugal, nada disto se passa. O exemplar exercício da cidadania é uma espécie de doença contagiosa de que se foge a sete pés, o País dos esquemas, onde Chico-esperto é valorizado socialmente pela sua capacidade de ludibriar. Tudo o que existe em Portugal é o resultado da contribuição de alguns, dividido por todos, os que podem e contribuem, os que não podem contribuir e os que podem e não contribuem. No entanto, estes últimos, não deixam de se queixar das reformas baixas, dos funcionários públicos, do sistema nacional de saúde, enquanto beneficiam de tudo sem nada contribuírem. Quando se divide o que é pago por poucos por muitos, o resultado não pode ser bom. A realidade está à vista. Um País onde cada palavra é mal interpretada por que é mal entendida ou não entendida de todo, onde por natureza se desconfia de todos os outros é um País sem futuro. Se todos em conjunto não intervierem neste combate pela inversão das mentalidades, única forma de levar o País a bom porto, é inevitável a queda num poço sem fundo, a caminho, lenta e inexoravelmente, de uma situação de caos social. Se calhar é isto que é preciso, cair no fundo para que o que tem de melhor sobressaia, que a solidariedade nas causas menores seja transposta para as grandes causas, que a ousadia, a coragem de outros tempos regresse e assim se possa fazer de Portugal algo grandioso.
Finalmente, voltando à transcrição inicial que serviu de introdução ao texto. Há 135 anos Eça de Queiroz e Ramalho Ortigão (Farpas Julho de 1871) escreveram aquele parágrafo que, vergonhosa e inacreditavelmente, não perdeu qualquer actualidade. Dá que pensar não dá?

Filipe Pinto.

sábado, fevereiro 25, 2006

Peter Benenson e a AI


Peter James Henry Solomon Benenson nasceu no dia 31 de Julho de 1921, em Londres e morreu no hospital John Radcliffe, em Oxford, faz precisamente um ano, em 25 de Fevereiro de 2005. Neto de um banqueiro judeu de origem russa, Benenson nunca passou por grandes dificuldades materiais. Na escola, preocupava os professores devido às suas “tendências revolucionárias” e aos 16 anos organizou a sua primeira campanha para obter apoios para a causa dos órfãos republicanos da guerra Civil Espanhola.
Quando se candidatou a Oxford, escolheu o curso que acreditava poder dar uma outra dimensão aos seus protestos: Direito. No entanto, quando se viu numa sala de audiências, apercebeu-se de que não seria assim.
Aos 39 anos, ao folhear um jornal, uma notícia chamou-lhe a atenção.

Referia que dois jovens tinham sido presos pelo regime de Salazar por terem gritado “Viva a Liberdade!” na via pública. Ao lê-la, Benenson sentiu-se mais impotente do que nunca. Indignado, lançou um apelo no sentido de se organizar uma ajuda prática às pessoas presas devido às suas convicções políticas ou religiosas, ou em virtude de preconceitos raciais ou linguísticos.
Nessa mesma manhã escreveu um artigo de protesto e apelo, intitulado The Forgotten Prisoners (Os Prisioneiros Esquecidos), que foi publicado na edição de 28 de Maio de 1961 do jornal "The Observer".
O artigo começava assim: “Abra o seu jornal em qualquer dia da semana e encontrará uma notícia que numa parte do mundo alguém foi detido, torturado ou executado, porque as suas opiniões ou religião são inaceitáveis para o governo do seu país... O leitor do jornal sente um mau estar de impotência. Contudo se estas sensações de indignação puderem ser unidas numa acção conjunta, algo de efectivo pode ser feito”.
O seu artigo estava ilustrado com fotografias de seis presos de Angola, Estados Unidos, Grécia, Hungria, Roménia e Checoslováquia, que tinham em comum terem sido presos por dissidência de opinião. O advogado então lançou um “pedido de amnistia”.
Nascia assim a Amnistia Internacional (AI). Uma jovem artista inglesa, Diana Redhouse, desenhou o logótipo do movimento: uma vela cercada por um arame farpado. Em seguida surgiram as ofertas de ajuda e foi confiada a cada militante a missão de adoptar três prisioneiros, um do bloco comunista, um do Ocidente e um do Terceiro Mundo. A neutralidade do movimento era primordial. Depois de um ano de existência, a Amnistia Internacional estava encarregada de 210 prisioneiros. Uma regra sagrada guiava todos seus membros: os “adoptados” não deviam ter empregue a violência, nem tê-la incentivado.
Com o passar dos anos, a lista de presos – e de libertados – amplia-se. Entre eles, há uma multidão de anónimos, mas também são muitos os prisioneiros célebres, como o russo Andrei Sakharov, o dramaturgo checoslovaco e futuro presidente checo Vaclav Havel, o pianista argentino Miguel Angel Estrella, a democrata birmanesa Aung Saan Suu Kyi (que ainda se encontra presa), os dissidentes chineses Wei Jingsheng e Fang Lizhi, da “Primavera de Pequim”, o sul-coreano Kim Dae-Jung, entre muitos outros. O prisioneiro político mais famoso, o sul-africano Nelson Mandela, sempre foi defendido pela Amnistia Internacional, mas jamais foi adoptado porque promoveu a violência como acção política.
A Amnistia Internacional realiza, a nível mundial, campanhas que tentam obter a libertação de prisioneiros de consciência, a realização de julgamentos imparciais para todos os prisioneiros, o fim generalizado da pena de morte, da tortura e de outros tratamentos desumanos, bem como a cessação das execuções extrajudiciais e dos “desaparecimentos”. Situa-se à margem das organizações políticas e económicas, baseando a sua acção na Declaração Universal dos Direitos do Homem.
Tem um voto consultivo junto da Organização das Nações Unidas (ONU), da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), do Conselho da Europa, da Organização dos Estados Americanos (OEA), da Organização da Unidade Africana (OUA).A AI possui 1,8 milhões de membros e delegações em 50 países. Para garantir a imparcialidade da AI, cada grupo ocupa-se de casos ou campanhas relativas a outros países diferentes do seu, escolhidos pela sua diversidade geográfica e política. A investigação sobre as violações dos direitos humanos e sobre as vítimas é conduzida pelo Secretariado Internacional da organização. Em 1977, foi-lhe atribuído o prémio Nobel da Paz.
Para terminar, ficam as palavras de Peter Benenson, proferidas na comemoração do 40º aniversário da Amnistia Internacional: “Quarenta anos passados a Amnistia Internacional obteve muitas vitórias. Os seus ficheiros estão cheios de cartas de antigos prisioneiros de consciência ou de vítimas de tortura agradecendo à Organização por ter “feito” a diferença. A tortura está proibida por acordos internacionais. Todos os anos mais países rejeitam a pena de morte. O mundo terá brevemente um Tribunal Penal Internacional que assegurará que os acusados dos piores crimes no mundo sejam apresentados à justiça. A mera existência do Tribunal será dissuasora de alguns crimes. Mas os desafios ainda são grandes. A tortura está proibida, mas em dois terços dos países do mundo ela ainda é praticada em segredo. Demasiados governos permitem que os seus agentes façam detenções arbitrárias, matem ou façam “desaparecer” pessoas, com total impunidade. Aqueles que hoje ainda sentem um sentimento de impotência podem fazer algo: apoiar a Amnistia Internacional, podem ajudá-la a impor-se pela justiça e liberdade. Em 1961 escrevi, “A pressão da opinião pública há 100 anos teve como consequência a emancipação dos escravos.” A pressão da opinião pública é agora necessária para ajudar a Amnistia Internacional a alcançar o seu objectivo máximo: deixar de ser necessária. Só então quando o último prisioneiro de consciência for libertado, quando a última câmara de tortura for fechada, quando a Declaração Universal dos Direitos Humanos for uma realidade para todo o mundo, o nosso trabalho estará terminado”.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Capote, Truman Capote.


O filme “Capote” é um ensaio biográfico sobre uma parte da vida de Truman Capote, mais precisamente, as peripécias porque passou o escritor, para fazer o relato do quádruplo homicídio de uma família do Kansas em 1959, que daria origem ao género de romance documental, com o seu livro “A Sangue Frio”.
Em 15 de Novembro de 1959, o escritor Truman Capote (Philip Seymour Hoffman, que excelente interpretação deste actor!) lê um artigo no New York Times que descreve o homicídio de quatro membros de uma abastada família do Kansas: a família Clutter. Capote pensa que esta é a oportunidade de provar a sua teoria, de que a realidade pode ser tão emocionante como a ficção e convence a revista New Yorker a dar-lhe o caso. Viaja para o Kansas e a acompanhá-lo vai Harper Lee (Catherine Keener), sua amiga desde a infância no Alabama e que irá vencer o Prémio Pulitzer e alcançar a fama com o livro "Por Favor Não Matem a Cotovia".
No Kansas a sua estranha forma de vestir e a sua maneira de ser, dão origem a alguma hostilidade, mas acaba por ganhar a confiança do Agente Alvin Dewey, que é o chefe da polícia e líder da investigação. Pouco tempo depois os homicidas (Perry Smith (Clifton Collins Jr.) e Dick Hickock (Mark Pellegrino) são apanhados em Las Vegas e devolvidos ao Estado do Kansas para serem julgados. Acabam por ser condenados à morte. Capote trava conhecimento com eles e começa a fazer sucessivas visitas à prisão, para tomar conhecimentos de todos os pormenores da factídica noite de 14 de Novembro de 1959. À medida que os vai conhecendo, descobre que aquilo que inicialmente tinha sido pensado como um artigo de revista cresceu e deu lugar a um livro, um livro que poderia tornar-se um dos mais importantes na literatura moderna. O seu tema é agora tão profundo, como qualquer outro tratado, pelos grandes escritores americanos: é o choque entre duas Américas, o país seguro que os Clutter conheciam e o país desenraizado e amoral habitado pelos seus assassinos.
O filme está nomeado para cinco Oscar’s da Academia Cinematográfica de Hollywood: melhor filme, realizador (Bennett Miller), argumento (Dan Futterman), actor (Philip Seymour Hoffman) e actriz (Catherine Keener). A National Society of Film Critics, associação que reúne 45 dos mais destacados críticos de cinema norte-americanos, elegeu este filme, o Melhor Filme de 2005.

Ficha técnica:
Titulo:”
Capote”
Título original: ”Capote”
Realização: Bennett Miller
Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Catherine Keener, Clifton Collins,
Jr., Chris Cooper
Género: Biografia/Drama
Origem: Canada/EUA
Ano:2005
Duração: 98 minutos

Truman Streckfus Persons nasceu em Nova Orleães, a 30 de Setembro de 1924, filho de um vendedor e de uma adolescente de 16 anos. Os seus pais divorciaram-se quando Truman tinha quatro anos, pelo que passou a ser criado por familiares próximos, residentes em Monroeville, no estado de Alabama. Quando a sua mãe voltou a casar, Truman mudou-se para Nova Iorque, adoptando o apelido do padrasto. Aos 17 anos desistiu dos estudos e começou a trabalhar na revista The New Yorker, atraindo desde logo as atenções pela sua forma excêntrica de vestir.
Em 1949, Capote viajou para a Europa, onde escreveu ficção e não-ficção e argumentos para cinema e teatro.
Após ter alcançado cedo o sucesso como escritor de prosa brilhante nas histórias de Other Voices, Other Rooms (1948), que retratava uma relação homossexual, e no romance Boneca de Luxo (1958), já de regresso aos EUA, a carreira de Capote decaiu até que o sensacional «romance não ficcional» A Sangue Frio (1965) fez dele uma celebridade.
Entre as suas obras posteriores incluem-se Music for Chameleons (1980) e a obra publicada a título póstumo Answered Prayers (1986), um romance inacabado constituído por escandalosos boatos sobre colunáveis.
A sua bibliografia inclui:A Tree of Night and Other Stories (1949), Local Color (1950), The Grass Harp (1951), Beat the Devil (1954), The House of Flowers (1954), The Muses have Heard (1956), The Innocents (1961), Observations (1959), Selected Writings (1963), A Christmas Memory (1966), The Thanksgiving Visitor (1967), Among The Paths to Eden (1967), Laura (1968), House of Flowers (1968), Trilogy (1969), Experiment in Multimedia (1969), Behind Prison Walls (1972), The Glass House (1972), The Dogs Bark (1973), Crimewatch (1973), Then it all Came Down (1976), One Christmas (1982), Conversations With Capote (1985), Súplicas Atendidas (1986), um retrato dos vícios e da perversão dos intelectuais e artistas que Capote conhecera, A Capot Reader (1987) e Marilyn Monroe: Photographs 1945-1962 (1994).
O escritor faleceu em Los Angeles a 25 de Agosto de 1984, devido a problemas causados pelo consumo exagerado de álcool.

O Pretexto


A determinada altura pensei em escrever algo sobre as caricaturas do profeta Maomé. Reflecti sobre o assunto e o que escrevi pareceu-me insuficiente para tentar enquadrar os acontecimentos à luz da minha avaliação da condição humana nos países muçulmanos. Já nem sei onde coloquei o texto. No entanto, os recentes acontecimentos no Iraque e a iminência de uma guerra civil revelam que os problemas são mais complexos e de difícil, se não mesmo impossível, resolução.
É que, sejamos sérios, os protestos não são apenas contra as caricaturas em si, ou seja apenas de cariz religioso, mas principalmente um reflexo do permanente ressentimento que deriva da incomparável qualidade de vida no ocidente.
O incitamento ao ódio religioso e a existência de uma enorme insatisfação perante as limitações de qualidade de vida destas sociedades são duas faces da mesma moeda. Os conflitos entre xiitas e sunitas são apenas e só uma consequência da conjugação destes elementos, sendo uma forma de extravasar a raiva e o ódio que resulta de um sentimento de impotência permanente perante os poderes vigentes. É uma espécie de libertação de energias acumuladas sob os incontroláveis comportamentos das multidões que potenciam os comportamentos individuais.
Os incompreensíveis discursos de exaltação religiosos a incendiar as massas são artifícios utilizados por alguns utilizando, precisamente, estes poderosos sentimentos latentes. Há coisas que a história ensina aos poderosos, não é necessário nenhum Maquiavel para demonstrar a um príncipe como actuar para manter e reforçar o poder (o poder corrompe – não é verdade?). As elites dirigentes desta zona, de forma a manterem o seus próprio status social, agem de forma a manipularem as pessoas, demonizando o ocidente, numa espécie de criação de um inimigo comum, que definem permanentemente como sendo um retrocesso moral, aproveitando alguma ignorância generalizada e o medo.
Nem de propósito, ontem aprendi uma palavra nova, plutocracia (influência dos ricos e poderosos nos governos), cujo significado, em conjugação com a oligarquia, se aplica e explica o fenómeno das manifestações muçulmanas. A problemática das caricaturas poderá, por tudo isto, revelar-se substancialmente mais grave que o que neste momento podemos pensar. Ao aprofundar o fosso civilizacional numa matriz já de si complicada de gerir, atendendo ao conflito Israel/Palestina, a emergência dos partidos radicais e as diferenças entre classes sociais que, em lugar de se esbaterem estão-se a agravar, poderá este ser o início de um conflito de grandes proporções.
A alteração deste estado de coisas tem que passar por aqui. Senão vejamos.
As diferenças sociais, que nestes países são mais que evidentes, subsistindo uma espécie de sociedade medieval feudal, radical com acesso à tecnologia do século XXI e a toda a sua capacidade destrutiva. Conjugada com a velocidade com que as suas acções são divulgadas em exaltação heróica, gerando o medo nos agredidos e o fervor religioso nos agressores, condiciona de sobremaneira seja quem for que nasça neste ambiente e não lhes seja apresentada a diferença.
Sem falar por desconhecimento, eu estive na Dinamarca e, apesar de ser Europeu e o nosso país apresentar um razoável nível de vida se comparamos com a maioria (salvo erro estamos no lugar 23 dos índices de desenvolvimento), apercebi-me claramente de que aquilo é outro patamar de desenvolvimento social. Mais importante, é um patamar que todos deveriam almejar atingir e não podemos permitir que se faça uma demonização deste modelo social.
Não existe nenhum país muçulmano que, na globalidade, se possa sequer comparar aos índices de desenvolvimento da Dinamarca. Este é um país que apenas se limita a trabalhar continuamente em prol da melhoria do nível de vida dos seus cidadãos e não em castrar o pensamento livre através da imposição de uma conduta pela interpretação que alguns fazem das palavras dos profetas.
É preciso não esquecer que a Cristandade já sofreu dos mesmos problemas. Em determinada fase da história era impossível distinguir religião de Estado, tais eram as estreitas relações entre um e outro. Só que nessa altura as pessoas forçaram a separação entre estas duas componentes da vida e os países evoluíram.
No entanto, a dependência do Ocidente dos recursos petrolíferos da região e o conluio resultante dos interesses instalados, da sede de lucro que rege os destinos da humanidade nesta fase do desenvolvimento da Espécie, não augura o aparecimento de grandes progressos para esta situação.
Finalmente as declarações do nosso ministro dos negócios estrangeiros.Absolutamente descabidas e a resposta do embaixador iraniano são, no mínimo, de uma gritante ausência de noção do valor da vida humana.
A suas palavras, duvidando dos seis milhões de mortos, utilizando a palavra incinerar perpetrada sobre seres humanos, como que em certa medida desculpabilizando aqueles inqualificáveis actos dos Nazis, resumindo a ignomínia e a discussão do holocausto ao número de mortos, diz tudo acerca de indivíduos que estão na iminência de possuir poder nuclear. Não me parece que hesitem em situações de crise em utilizar as suas armas. Estas pessoas não inspiram nenhuma confiança.

Filipe Pinto.

Nota:Dou as boas-vindas ao meu amigo Filipe Pinto, que escreverá semanalmente, à sexta-feira, na Fábrica.Estamos a ultimar uns pormenores para ser ele a postar directamente.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Frida Kahlo


A maior e mais completa exposição realizada nas últimas décadas sobre a pintora mexicana Frida Kahlo abre as portas a 24 de Fevereiro no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. Vinte e seis obras estarão expostas até 21 de Maio. A exposição - que já passou pela Tate Modern de Londres e pela Fundación Caixa Galicia, em Santiago de Compostela - inclui obras do Museu Dolores Olmedo, no México.Do total das 26 obras apresentadas no Grande Hall do Centro de Exposições destaca-se “A Coluna Partida” (1944), “O Camião” (1929), “Hospital Henry Ford” (1932) e “Auto-retrato com macaco” (1945).A exposição fica completa com uma colecção de fotografias e objectos pessoais da pintora, pertencentes ao museu mexicano.

Frida Kahlo é a mais famosa pintora mexicana de sempre. Magdalena Cármen Frida Kahlo y Calderón, conhecida como Frida Kahlo, nasceu em 6 de Julho de 1907, em Coyoacan, no México e teve uma vida que se pautou por acontecimentos trágicos, os quais exerceram uma grande influência na forma de ver o mundo, que a levaram a abraçar a pintura como forma de poder exteriorizar todos os sentimentos que a assolavam por dentro. Aos seis anos, contraiu poliomielite, o que lhe deixou marcas visíveis na perna direita e no pé esquerdo, que Frida tentou esconder passando a usar calças na adolescência e, mais tarde, compridas saias mexicanas. Aos 18 anos, o autocarro em que seguia Frida Kahlo embateu num eléctrico. A jovem Frida sofreu ferimentos na coluna vertebral, de tal modo graves que os médicos questionavam-se se sobreviveria ou não. Passou nove meses na cama de um hospital, completamente privada de liberdade e de movimentos corporais. Foi precisamente neste período que começou a pintar pela primeira vez, como forma de se distrair do sofrimento que a consumia.

Os auto-retratos, “Eu pinto-me porque estou muitas vezes sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor”e as representações de cenas do hospital ou de procedimentos médicos foram retratados de forma a fazer o observador partilhar da sua dor. Retratou a lápis a cena do acidente, sem respeito por regras ou perspectivas. Saída do hospital, e postas de lado as hipóteses de vir a tornar-se médica, Frida Kahlo começou a dedicar todo o seu tempo à pintura, afirmando que a sua obsessão era começar de novo e passar a pintar as coisas tais como os seus olhos as viam. Por esta altura, a artista decidiu quebrar os tabus do seu tempo e passou a representar nos seus quadros imagens muito pessoais, intimamente relacionadas com o corpo e sexualidade femininas. A pintora começa igualmente a relacionar-se com artistas e intelectuais do seu tempo e acaba por casar-se com Diego Rivera, um famoso pintor mural mexicano. Quando se casou com Frida, a família dela comparou a união ao casamento de um elefante com uma pomba - ele era imenso e 21 anos mais velho. Mas os dois formaram o casal de artistas mais original da época. Frida amargou muito com os relacionamentos extra-conjugais do marido, seu grande amor e reconhecido mulherengo. No entanto Frida Kahlo, também viveu romances paralelos com mulheres e homens, o mais famoso com o revolucionário russo León Trotski. Apesar das traições do marido, a maior dor de Frida foi a impossibilidade de ter filhos, o que ficou claro em muitos dos seus quadros. Em 1930, viaja para os EUA com o marido. Frida Kahlo, mais mexicana do que nunca, chocava na sociedade americana, com as suas roupas, risos e gestos. Em Detroit, Frida engravida, mas sofre um aborto, facto que mais de uma vez leva embora o seu sonho de ser mãe. Nesse período, Frida começou a produzir telas, a respeito do aborto, do quarto do hospital e dos sentimentos inerentes a estas perdas. De volta ao México, teve de superar ainda a morte da mãe, mais um aborto e algumas crises no seu casamento com Diego Rivera, que a traía com a sua irmã mais nova, Cristina. Em 1939 parte sozinha para Nova Iorque, onde faz a sua primeira exposição individual, na galeria de Julien Levy, que é um sucesso. Em seguida, segue para Paris, onde é hospitalizada com uma infecção renal, mas também entra no mundo da vanguarda artística dos surrealistas. Conhece Pablo Picasso, Wassily Kandinsky, Marcel Duchamp, Paul Éluard e Max Ernst. O museu do Louvre adquire um dos seus auto-retratos. No mesmo ano, divorcia-se de Diego Rivera, com quem volta a casar-se um ano depois. Em 1942 começa a dar aulas de arte numa escola recém aberta na Cidade do México. Entretanto, o seu estado de saúde piorou, e o colete antes de gesso, foi substituído por um de ferro que impedia até a sua respiração. Em 1946 a sua coluna precisou ser operada. Com fortes dores na perna direita, em 1950 é tratada no Hospital Inglês durante todo o ano. Os médicos diagnosticam a amputação da perna e ela entra em depressão. Entre, 1950 e 1951, Frida Kahlo é submetida a sete operações na coluna, que infeccionam, devido ao colete de uso obrigatório. Depois destas operações, Frida Kahlo volta a pintar sendo-lhe montado um cavalete especial na sua cama para que pudesse trabalhar, deitada de costas. Frida Kahlo pintou até à sua morte, que chegou na madrugada de 13 de Julho de 1954. A mexicana sofredora, tinha 47 anos e causa oficial da morte foi uma embolia pulmonar, no entanto a última anotação no seu diário permite aventar a hipótese de suicídio:"Espero alegre a minha partida e espero não retornar nunca mais."

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Robert Edwin Peary


Robert Edwin Peary, explorador norte-americano nascido em Cresson, Pensilvânia, em 6 de Maio de 1856. Em 1881, alistou-se na marinha americana como engenheiro civil e, por vários anos, serviu na Nicarágua, onde trabalhou pesquisando a possibilidade da construção de um canal. Interessou-se pela exploração Árctica, e fez uma viagem ao interior da Groenlândia, em 1886.
Mais tarde, conseguindo uma licença da marinha, liderou uma expedição à Groenlândia para pesquisas científicas e exploração. Foram feitas importantes observações etnológicas e meteorológicas e, numa longa jornada de trenó à costa nordeste da Groenlândia, explorou a “Terra de Peary”, descobriu o fiorde Independência, e comprovou que a Groenlândia era uma ilha.
Estudou a população de esquimós e conquistou a simpatia dos montanheses do Árctico, uma tribo que o ajudou nas excursões. Outras expedições continuaram o trabalho em 1893-5 e em duas viagens, durante os verões de 1896 e 1897, Peary trouxe para os Estados Unidos alguns meteoritos que encontrou. Um relato de suas experiências árcticas apareceu no livro “Northward over the great Ice”.

Conseguindo outra licença da marinha, liderou outra expedição (1898 - 1902), desta vez com o objectivo de alcançar o Pólo Norte. Só conseguiu chegar aos 84º17’N, mas fez importantes pesquisas na “Terra de Ellesmere”, um estudo sobre a superfície e a composição da calote polar. No seu livro “Nearest the Pole” descreveu os eventos da sua expedição de 1905 – 6, quando alcançou o ponto 87 º6’N, que se encontrava a, apenas, 174 milhas (280 km) do seu objectivo.
Em 1908, Peary lançou-se na sua última tentativa de alcançar o Pólo Norte. Partindo da Terra de Ellesmere, acompanhado de Matthew Henson e quatro esquimós, fez uma arrancada final para o Pólo, o qual, afirmou ter alcançado a 6 de Abril de 1909. Anunciou publicamente ter alcançado seus objectivos porém, ao voltar aos Estados Unidos, descobriu que o Dr. Frederick A. Cook, num relato totalmente falso, havia afirmado ter alcançado o Pólo antes dele.
Seguiu-se uma amarga controvérsia. Cook, que havia sido médico da expedição de Peary de 1891 – 2, sustentou a sua conquista até ao fim da vida, no entanto, o Congresso americano reconheceu o feito de Peary, e ofereceu-lhe os seus agradecimentos em 1911, ano em que se retirou da Marinha, no posto de Contra – Almirante.
De qualquer modo e na realidade, Robert Peary não alcançou o Pólo Norte, ficou, sabe-se hoje, a cinco milhas do objectivo.
A esposa de Peary, Josephine Diebitsch Peary (1863 - 1955) acompanhou-o em várias das suas expedições, e deu à luz, no Árctico, à filha dos dois, Marie Ahnighito Peary.
Robert Peary morreu em Washington, D.C. em 20 de Fevereiro de 1920.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Abu Ghraib


Novas imagens do abuso de prisioneiros iraquianos por soldados americanos na prisão de Abu Ghraib, no Iraque, foram exibidas nesta quarta-feira pela rede de TV pública da Austrália SBS. As fotografias indicam que a tortura e abusos teriam sido ainda piores do que aquilo que já se sabia. As fotos mostram um preso coberto do que parece ser excrementos, outro preso com um corte na garganta e uma suposta sala de interrogatórios banhada de sangue.
“Estas são as fotografias que o governo americano não quer que você veja”, disse o apresentador da TV australiana antes de exibi-las.
Algumas das novas fotos trazem ângulos diferentes das fotos já famosas em todo o mundo, como a de um homem encapuzado com fios amarrados aos dedos, presos nus obrigados a empilhar-se uns sobre os outros e presos a ser ameaçados com cães.
De acordo com a emissora australiana, as novas imagens já haviam sido exibidas em sessões reservadas a membros do Congresso americano.
As imagens fazem parte de um total de mais de 100 fotos e quatro vídeos que foram confiscados a militares em Abu Ghraib e entregues à Divisão de Investigações Criminais do Exército americano.
De acordo com a televisão australiana, estas imagens são motivo de uma disputa judicial nos Estados Unidos, onde o governo americano se esforça para evitar que a imprensa tenha acesso a publicá-las.
A direcção de informação da estação televisiva australiana justificou a transmissão das fotografias e dos vídeos afirmando que eles revelam a verdadeira dimensão dos maus tratos.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

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Os protestos no mundo islâmico contra as caricaturas do profeta Maomé levaram muita gente no Médio Oriente a questionar-se porque é que os muçulmanos não costumam agitar-se da mesma forma quando se trata de questões como democracia e direitos humanos.
Numa região predominantemente governada por regimes absolutistas, há pouco incentivo a manifestações contra restrições a liberdades políticas, desemprego ou violações dos direitos humanos, frequentemente relatadas por organizações internacionais.
Nas últimas semanas, milhares de pessoas saíram às ruas do Médio Oriente para protestar contra as caricaturas publicadas originalmente em Setembro na Dinamarca e posteriormente reproduzidas em vários países. Os manifestantes queimaram bandeiras europeias e gritavam palavras de ordem contra o Ocidente. Diversas Embaixadas foram queimadas no Líbano e na Síria e no Irão.
“Por que vemos hoje toda esta solidariedade no protesto às caricaturas, como se só elas tivessem insultado o profeta Maomé?”, questionou Ali Mahdi em carta publicada no jornal libanês As-Safir.
“Vocês não acham que a injustiça, a tortura, o analfabetismo e as restrições às liberdades (no mundo islâmico) são também considerados insultos ao Profeta, que pediu respeito pelos direitos humanos?”
Um relatório divulgado em Setembro pela ONU dizia que o mundo árabe dificilmente atingirá as metas internacionais de redução da pobreza, da fome e do desemprego até 2015, em parte por causa da má distribuição dos rendimentos.
Jihad Al Khazen, influente colunista do jornal Al Hayat, disse que há consenso entre os muçulmanos de que as caricaturas insultaram a sua religião, algo que não ocorre a respeito de temas como democracia e política. “Mais de mil milhões de muçulmanos concordam que tais caricaturas foram um insulto à sua religião e ao Profeta e rejeitam isso”, afirmou.
“(Mas), não há consenso sobre a democracia. Alguns árabes desprezam a democracia como sendo um produto do Ocidente”.
Osama Safa, director do Centro de Estudos Políticos Libaneses, oferece uma perspectiva diferente. “A maioria dos protestos contra as caricaturas foram abençoados, se não organizados, por governos locais, que incentivaram tais actos desde que não toquem em questões domésticas delicadas”. Safa disse que o elevado desemprego na região faz com que os jovens árabes deixem de lado reivindicações como mais democracia e maior participação política.
“As pessoas preferem ventilar a sua ira num protesto que não irrite as autoridades locais a correrem o risco de perderem o que têm, mesmo que seja pouco, caso façam uma manifestação pedindo mais coisas”, disse a activista política libanesa Nora Mourad. Com agências.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Agostinho da Silva


Chamaram-lhe utópico, mestre, sábio, visionário, subversivo mas gostava de dizer de si mesmo, que era “um paradoxo”. “Considerando-me paradoxal, dirigem-me o maior elogio”. Agostinho da Silva. Cumpre-se hoje 100 anos do seu nascimento. “Teve vários filhos, assim em números redondos oito”, não tinha número de contribuinte nem bilhete de identidade. Espírito livre, não pactuava com nada excepto com a liberdade de pensamento.
George Agostinho Baptista da Silva nasceu no Porto a 13 de Fevereiro de 1906, o emprego do pai, alfandegário, leva-o do Porto Natal para Barca d’Alba, onde viveu parte da sua infância. Aprendeu a ler aos 4 anos com a sua mãe, Georgina do Carmo Baptista Rodrigues da Silva. Em 1915 a sua família regressa ao Porto, onde Agostinho da Silva faz o exame da 4ª classe .

O pai matricula-o na Escola Industrial Mouzinho da Silveira, a fim de seguir uma carreira técnicoprofissional. O insucesso escolar e a falta aproveitamento aconselham uma mudança área. Em 1917 muda-se para o Liceu Rodrigues de Freitas.
Em 1919 com o esmagamento da “monarquia do Norte”, o pai, Francisco José Agostinho da Silva, é preso e demitido da função pública. Em 1924 Agostinho da Silva conclui o curso geral dos liceus com a classificação de 20 valores e ingressa na Faculdade de Letras do Porto, onde, em 1928, conclui a licenciatura em Filologia Clássica com 20 valores, defendendo uma tese sobre o poeta latino Catulo. Insurge-se contra a extinção da Faculdade de Letras do Porto e com um decreto que impõe a separação dos sexos nas escolas em todos os locais onde existisses mais de uma escola. Começa também a colaborar com a publicação Seara Nova.
Em 1929, com apenas 23 anos, conclui a sua tese de doutoramento: o Sentido Histórico das Civilizações Clássicas. Em 1931 uma bolsa de estudo leva-o até à Sorbonne e ao Collège de France. Dois anos mais tarde, regressa a Portugal e passa a leccionar no Liceu José Estêvão, em Aveiro.
Os textos sobre o desenvolvimento cultural e educativo do país, que divulga nas revistas «Labor» e «Seara Nova», inquietavam Salazar. Apenas dois anos depois de entrar para o ensino público, o professor é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral. Um documento onde tinha que jurar não pertencer a nenhuma sociedade secreta. Para além de Agostinho da Silva, só houve mais duas pessoas a dizer não: Fernando Pessoa e Norton de Matos.
Desempregado, Agostinho da Silva começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mário Soares, mestre Lagoa Henriques, Manuel Vinhas, os irmãos Lima de Faria foram apenas alguns dos seus pupilos. O professor inicia também uma série de palestras públicas, de Norte a Sul do país. E começa a publicação dos seus famosos cadernos de iniciação cultural, sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura.
No total 120 cadernos foram escritos e editados por Agostinho da Silva, entre 1937 e 1944. Foram os cadernos «O Cristianismo», editado em 1943, e «Doutrina Cristã», 1944, que abriram um fogo-cruzado entre Agostinho da Silva, Igreja e Estado Novo. Mesmo exonerado, Agostinho da Silva incomodava. Depois de muitos duelos travados na imprensa com personalidades como o padre Raul Machado, da Universidade de Lisboa, ou o cardeal patriarca de Lisboa, Agostinho da Silva acaba preso na cadeia do Aljube. A sua biblioteca é confiscada e inventariada.
Cansado de Portugal, Agostinho da Silva parte para o Brasil, onde deu continuidade à sua «missão» de divulgador cultural. No outro lado do Atlântico, participou na fundação de universidades e centros de estudo, sobretudo fora dos centros urbanos: a Universidade Federal de Paraíba, a Federal de Santa Catarina, a Universidade de Brasília, o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía. Um abraço entre o povo português, africano e brasileiro, foi um sonho que despertou em Agostinho desde novo.
É a ideia de uma Comunidade luso-afro-brasileira que partilha no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-brasileiros, em 1959, na universidade da Baía. No colóquio participa Marcelo Caetano (ainda como reitor e ex-ministro).
Contrariando todas as ideias em que assentava a intervenção o homem que viria a suceder a Salazar, Agostinho lança para a mesa aquilo que considera os verdadeiros problemas das colónias africanas.
«O futuro das ideias e das tradições em geral do mundo africano, a dignidade do indivíduo e a liberdade do homem, o impacto da civilização de carácter familiar sobre uma mentalidade fortemente tribal. E outro problema! Sabermos o que pensarão de nós no futuro milhões de africanos».
Como representante do Brasil, cuja cidadania adquiriu em 1958, esteve no Japão, em Macau e em Timor Leste. Viagens, por onde fundou por exemplo, o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, em Tóquio, o Centro de estudos Ruy Cinatti e o Centro de Estudos Brasileiros, ambos Dili. A chegada da ditadura ao Brasil, traz Agostinho de regresso a Portugal, em 1969. Por cá, passa pela direcção do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e foi consultor do Instituto Cultura e Língua Portuguesa (ICALP). Inicia também um grande contacto com a Galiza e com a Catalunha.
Marcando uma posição de certa forma marginal em relação aos grupos da intelectualidade portuguesa, as suas intervenções, por vezes desconcertantes ou provocadoras, e a sua visão utópica e voluntarista tornaram-no uma figura amada do grande público. Da variada temática a que se dedicou, salienta-se o tema do sentido histórico de Portugal e do povo português e seu futuro.
Nos últimos anos de sua vida, Agostinho da Silva tornou-se extremamente popular, quando, no início dos anos noventa, começou a participar no programa “Conversas Vadias” da RTP2. A partir daí, o avozinho de Portugal conquistou milhões de portugueses, eu incluído, que se colavam ao ecrã para ouvir os seus pensamentos.
Morreu em Lisboa no Hospital de S. Francisco de Xavier num domingo de Páscoa, a 3 de Abril de 1994.
A nível literário publicou a obra de poesia Uns Poemas de Agostinho (1989) e os ensaios Sentido Histórico das Civilizações Clássicas (1929), A Religão Grega (1930), Glosas (1934), Conversações com Diotima (1944), Reflexão (1957), Um Fernando Pessoa (1959), As Aproximações (1960), Fantasia Portuguesa para Orquestra de História e de Futuro (1981) e Educação de Portugal (1989).