segunda-feira, maio 08, 2006

Insegurança Social


A mudança e a evolução esperadas de alguns comportamentos da Humanidade não estão a atingir os níveis desejados, mesmo em questões pequenas no contexto global. É devido a estas últimas, que se vão observando diariamente, que o pessimismo se nos vai enraizando na alma. Alguém disse um dia que um optimista é um pessimista mal informado. Nesta perspectiva, podemos avaliar estas questões enquadradas na importância que deveria ter a articulação, no actual modelo de Educação, entre as matérias disciplinares e o estabelecimento de referências. Não existem referências efectivas que motivem as pessoas a agirem de maneira diferente, que não podem limitar-se a serem conceitos abstractos, sem sentimentos reais envolvidos. Tem que passar a mensagem de que são algo de fundamental à consolidação da democracia. A verdade é que as escolas tornaram-se especialistas em formar “debitómetros” de conceitos teóricos, muito importantes para o desenvolvimento profissional, mas esquecem-se de complementar isto com formação cívica, importante para o desenvolvimento do ser Humano.
Considerando a nossa transição de ditadura para um novo regime democrático, que foi feita de uma forma tão surpreendentemente pacífica e rápida, o que contribuiu para imbuir todos os portugueses de uma estranha sensação de desorientação. A facilidade com que se obteve levou a que as pessoas não se esforçassem o suficiente para a manter saudável e progressivamente mais sólida. Nos anos que se seguiram até aos dias de hoje, em muitos aspectos, viveu-se num país de fantasia, onde o pensamento dominante foi de que tudo estava garantido para sempre e, de uma forma ou de outra, com raízes profundas nos anos da ditadura em que não existiam direitos nenhuns, cada sector da sociedade foi impondo a sua força para obter dos governos as suas pretensões, nem sempre de forma razoável, até ao ponto em que se encontram agora.
É fácil de perceber que a actual situação não se pode protelar por muito mais tempo sob pena de não haver retorno possível. Teremos sim um País onde o instinto de auto-preservação será o sentimento dominante, algo semelhante a outros onde se presenciavam filas para conseguir papel higiénico. Ao que parece, a mensagem de que algumas coisas são incomportáveis para o País coincidiu com o surgimento de uma grave crise de problemas auditivos, ou então de óbvia diminuição de capacidades intelectuais, numa espécie de acefalia generalizada. Ninguém quer perder os seus direitos e recomendam que os problemas se resolvam sempre à custa dos outros.
Analisando com rigor e desinteressadamente a situação actual, cada um por si chegará à conclusão que é necessária a participação de todos, que é necessário um esforço conjunto para que se garanta a sustentabilidade das gerações vindouras. E é nestes que temos que pensar. Então estamos ou não a preparar o futuro das próximas gerações? Parece-me evidente que se não organizarmos o presente, o futuro não será o que todos ambicionámos. Não há, neste momento, qualquer lugar para ambivalências. Não será esta uma forma de egoísmo? Ou a tão propalada solidariedade entre gerações só tem um sentido, aquele que nos interessa.
Uma das manchetes desta semana do JN revelava que 85% dos pensionistas tem uma reforma inferior a 374€. Estas reformas baixas resultam necessariamente de rendimentos baixos durante as suas carreiras profissionais e, portanto, o problema da segurança social não se coloca em relação a estes mas aos restantes. Qual será a parte destes 15% que, aproveitando as lacunas da legislação (nada de extraordinário em Portugal), não efectuou a totalidade dos descontos sobre os seus rendimentos à excepção dos últimos 10 anos? A solidariedade geracional foi esquecida enquanto foi conveniente, pelos mesmos que agora não se esquecem de a cobrar na forma de pensões elevadíssimas, que nada têm a ver com a realidade da sua carreira contributiva. Aliás, seria um exercício revelador aplicar as regras que agora vão regular esta matéria a estas reformas de luxo e verificar o resultado final. Ao abrigo da treta dos direitos adquiridos e de uma legalidade imoral, muitas pessoas, premeditadamente, planearam os timings das suas contribuições de modo a que tirassem o máximo benefício de todos os seus rendimentos. São estes que estão a arruinar o sistema, reclamando uma solidariedade quando não foram absolutamente nada solidários.
O autismo que isto revela, contribui para criar uma sensação de injustiça que, inevitavelmente, afasta os restantes do cumprimento dos seus deveres de cidadãos. Este afastamento também tem consequência para todos. Não é evidente que quem não cumpre as suas obrigações sociais não só prejudica os outros como também a si próprio? Momentaneamente e a título pessoal, poderá ter uma vida melhor, mas os serviços que a todos dizem respeito, tornar-se-ão, inevitavelmente, piores. Ao não contribuir para a melhoria global do País da qual, obviamente, beneficiaria, empurra-o para um estado de insolvência donde, se as coisas não mudarem, provavelmente não conseguirá sair.
É preciso salientar os perigos inerentes ao protelar destes problemas. Nesta fase da nossa democracia e com a tendência que a Humanidade tem para se repetir em ciclos, podemos estar a por em causa os valores democráticos e a preparar a sua substituição. A permanente referência ao Estado na terceira pessoa do plural é algo claramente elucidativo. O Estado não são “eles”, somos “nós”. É esta visão comunitária da sociedade que falta para fazer evoluir o país.
A esperança pode não estar morta, mas está para já moribunda. A indignação, contudo, cresce a olhos vistos.

Filipe Pinto.

domingo, maio 07, 2006

Obviamente demitia-os!


Volto a insistir.
Não podemos ficar quietos, calados e deixar esquecer, o que se passou na sessão da Assembleia da República na sessão antes da Páscoa.
Como foi tornado público e não foi desmentido, houve uma fraude, de vinte e oito deputados, que assinaram o registo de presenças e não compareceram, em nenhum momento da sessão.Isto significa que no dia anterior, assinaram a presença do dia seguinte.

Estamos perante uma ilegalidade; a assinatura antecipada do livro de registo de presenças.Mas, tudo indica que ao registarem uma presença antecipada, não o fizeram inocentemente, mas sim, com a intenção de ludibriar e manter os benefícios, de uma ausência prevista.A ser verdade e não diviso outra explicação quanto a outro motivo, os deputados em causa, pretenderam enganar o Estado e receber todos os benefícios constituídos, através da mentira e da fraude, de uma presença/ausência.
À luz dos princípios da honestidade, da rectidão e confiança, que são devidos aos cidadãos e eleitores, não podemos aceitar esta tentativa de apropriação fraudulenta de benefícios que lhes é garantida, no exercício pleno das suas funções.Este acto não pode desculpabilizar a debandada de outros deputados, mas não a gravidade desta atitude, só pode merecer o mais profundo repúdio e nojo.
Em nome dos altos valores da democracia os deputados em causa, deveriam ser demitidos dos seus partidos e se tivessem vergonha, deveriam solicitar a recusa do lugar de deputado.Deixo aqui um apelo a toda a blogosfera: não deixem cair esta aldrabice, denunciem-na, façam-na circular, estabeleçam uma corrente de denúncia por todo o sítio. Exigimos acções e saber a lista dos nomes dos deputados que assinaram a presença e não puseram lá os pés.
"Entre os que faltaram à votação (79) - assinaram o livro de presença, mas não estiveram no hemiciclo até ao final da sessão - ou os que nem passaram pelo Parlamento (28) e aqueles que estiveram em Missão ao Estrangeiro (13), os serviços da Assembleia registaram a ausência de 120 parlamentares, menos dos que os 116 necessários para que possa existir deliberação. "(PD)
Porque concordo com a indignação do Fernando, do blogue, charagoesquerdo, aqui está a reprodução do texto, por ele feito.
Se não concordarem com a fraude feita pela esmagadora maioria dos deputados, por nós eleitos e pagos com ordenados principescos, para nada fazerem, divulguem este texto.
Sejamos reinvidicativos e politicamente responsáveis.
Um bom Domingo para todos.

sexta-feira, maio 05, 2006

Sigmund Freud


Passam amanhã 150 anos do nascimento de Sigmund Freud, e como não podia deixar de ser a Fábrica terá que escrever sobre o assunto, apesar de a imprensa nacional ter já editado uma verdadeira história de todo o seu saber. Do mal-estar que continua sendo detectado na civilização às infindáveis interpretações posteriores do sonho, o seu nome continua, apesar de severas críticas, sendo a mais polémica de todas a recente edição do Livro Negro da Psicanálise, e revisões, presente no nosso imaginário. Apesar de todas as polémicas, parece ser incontestável que Sigmund Freud, foi um dos maiores pensadores do século XX. A essência do legado de Freud fica longe de ser reduzido, apenas, à sua psicanálise. É possível que o próprio, se estivesse vivo, apontasse falhas nas teorias que desenvolveu. “Ele não via na terapia a sua grande obra, mas na importância cultural da psicanálise”, observou o psicólogo Wolfgang Mertens. O legado de Freud deverá ser ligado aos pontos de intersecção da psicanálise com a literatura, a filosofia, o cinema, a sociologia, a antropologia e outros saberes que tornam nítida a necessidade de lembrar Freud. Não deixa de ser curioso, o contraste entre as suas palavras e o seu legado à Humanidade, " Nunca fui realmente ambicioso. Procurei na ciência a satisfação que se oferece durante a pesquisa e no momento da descoberta, mas nunca fui daqueles que não podem suportar o pensamento de serem levados pela morte sem terem deixado o nome gravado numa rocha."
Sigismund (mais tarde Sigmund) Schlomo Freud nasceu a 6 de Maio de 1856, em Freiberg, Morávia - actual Pribor, na Republica Checa – que então, fazia parte do Império Austro-Húngaro. Na época em que nasceu o seu pai, Jakob Freud, tinha 41 anos e a sua mãe, Amália, 21, ambos professavam a religião judaica. Sobre a sua relação com a religião, Freud diria uns mais tarde, "Sempre me mantive distanciado da religião judaica, assim como de qualquer outra religião. Elas interresam-me apenas enquanto objecto de análise científica. No entanto, sempre me senti solidário para com o meu povo, procurando transmitir esse sentimento aos meus filhos. De uma certa forma, todos nós mantivemos a qualidade de judeus."

Seu pai já tinha dois outros filhos de um primeiro casamento: Emanuel e Philipp. Juntamente com eles, viviam também duas crianças, filhos de Emanuel e que eram apenas um ano mais velho do que Sigmund. Essa situação pode ter predisposto Freud, mais tarde a estudar o problema da circulação do desejo dentro das estruturas familiares. Em 1860, devido à guerra Austro-Italiana, os negócios de lã do seu pai, foram à ruína e a família foi obrigada a transferir-se para Viena. "Qualquer pessoa que tenha vivido o sofrimento da miséria na juventude e suportado a indiferença e a arogância dos ricos deveria estar isenta da suspeita de não ter compreensão e boa vontade para as tentativas de eliminação das diferenças económicas entre os homens e de tudo o que elas provocam", diria Freud falando da sua juventude.
É nesta cidade, que Freud iniciou os seus estudos e onde viveu até 1938. “No Gymnasium fui o primeiro da minha turma durante sete anos e desfrutei de privilégios especiais, quase nunca tendo de ser examinado na aula(...) O meu profundo interesse pela história da Bíblia teve, conforme reconheci muito mais tarde, efeito duradouro sobre a orientação do meu interesse. Sob a influência de uma amizade formada na escola com um menino mais velho, e que veio a ser um político conhecido, desenvolvi, como ele, o desejo de estudar Direito e dedicar-me a actividades sociais. Ao mesmo tempo, as teorias de Darwin, que eram então actuais, atraíram-me fortemente, pois ofereciam esperanças de um extraordinário progresso na nossa compreensão do mundo, e foi ouvindo o belo ensaio de Goethe sobre a Natureza, lido em voz alta numa conferência pelo professor Carl Bruhl, pouco antes de ter deixado a escola, que resolvi tornar-me estudante de Medicina.” Aos 17 anos, terminados os estudos secundários, Freud dominava perfeitamente o Inglês, o francês, o latim, o grego e o hebreu; possuía conhecimentos de espanhol e de italiano.
Ingressou na Universidade de Viena em 1873. Durante o curso, desenvolveu algumas pesquisas com alguns dos seus professores; com Ernest Bruucke, trabalhou durante seis anos numa pesquisa sobre o sistema nervoso central; em psiquiatria, trabalhou com Theodor Meynert, considerado o mais brilhante na sua especialidade, neuropatologia. Findo o curso, vê-se obrigado a trabalhar como médico de clínica geral, pois não consegue arranjar trabalho como pesquisador na Universidade. Entretanto, conheceu Martha Bernays, filha de um dos rabinos mais importantes do mundo judaico da época. Casou-se em 1886 e nesse mesmo ano abriu o seu consultório de neuropatologia. O casal teve seis filhos (Mathilde, 1887; Jean-Martin, 1889; Olivier, 1891; Ernst, 1892; Sophie, 1893; Anna, 1895). O início da obra freudiana está ligado à descrição clínica do caso Anna O., que Freud desenvolveu juntamente com Josef Breuer e que seria publicado sob o título de Estudos Sobre a Histeria, em 1895. Nesse livro, Freud afirma que os sintomas dos doentes histéricos são resíduos e símbolos de ocorrências traumáticas, nas quais um processo afectivo qualquer foi desviado da sua elaboração consciente normal. A hipnose revivesceria esse facto passado. A este processo foi dado o nome de catarse. Após este estudo, Freud convenceu-se de que todo o conteúdo das neuroses possuía uma origem sexual, e que a hipnose e o método catártico não apresentava bons resultados em todos os pacientes. Passou então a utilizar o método da associação livre e foi aí que, segundo as suas próprias palavras, nasceu a psicanálise. Esse método consistia em deixar o paciente livre para falar o que lhe viesse à mente, e competia ao analista interpretar as ideias a fim de clarificar o trauma responsável pela origem da perturbação nervosa. Num estudo publicado anos mais tarde, seria desenvolvida a tese de que a natureza da neurose era de origem sexual, tratando-se de impulsos reprimidos na infância do paciente, daí as considerações que fez sobre o complexo de Édipo e sobre a sexualidade infantil, como determinantes básicas do comportamento humano. O termo “psicanálise” foi concebido por Freud em 1896.”Demos o nome de psicanálise ao trabalho pelo qual trazemos à consciência do doente o psíquico que há recalcado nele”, definiria Freud.
Após romper com Breuer, e passando por uma crise, devida à morte de seu pai, Freud iniciou sua auto-análise em 1897, ao examinar seus sonhos e fantasias, contando com o apoio emocional de seu amigo íntimo, Wilhelm Fliess.
A Interpretação dos Sonhos, obra que Freud considerou como sendo o mais importante de todos os seus livros, foi publicado em 1899. Entretanto, foi nomeado Professor na Universidade de Viena e fundou a “Sociedade Psicológica das Quartas-feiras” em 1902 (reunião semanal de amigos, em sua casa, com o propósito de discutir os trabalhos que vinha desenvolvendo), a qual se veio a tornar a Associação de Psicanálise de Viena, em 1908. Por volta de 1906, um pequeno grupo de seguidores juntaram-se em torno de Freud, incluindo William Stekel, Alfred Adler, Otto Rank, Abraham Brill, Eugen Bleuler e Carl Jung.
Sándor Ferenczi e Ernest Jones juntaram-se ao círculo psicanalítico e o “Primeiro Congresso de Psicologia Freudiana” teve lugar em Salzburg, em 1908, contando com a presença de quarenta participantes de cinco países. Em 1909, Freud foi convidado por Stanley Hall para proferir cinco conferências, na Clark University (Worcester, Massachussets), que mais tarde seriam editadas com o título de Cinco Lições de Psicanálise. Seria esta a sua única visita aos Estados Unidos da América, mas esta oportunidade marcou definitivamente a sua carreira, ao atrair a atenção mundial para os seus trabalhos. O movimento psicanalítico foi sendo gradualmente reconhecido e uma organização internacional, chamada “International Psychoanalytical Association” foi fundada em 1910. A revista de psicanálise “Imago” foi criada em 1912. Conforme o movimento se ia difundindo, Freud teve que enfrentar a dissidência entre os membros de seu círculo. Adler (1911) e Jung (1913) deixaram a “Associação Psicanalítica de Viena” e formaram as suas próprias escolas de pensamento, discordando da ênfase dada por Freud à origem sexual da neurose.
Os anos da Primeira Guerra Mundial, foram improdutivos para Freud, que referindo-se à Grande Guerra, diria" Não duvido de que a humanidade se recuperará desta guerra, mas sei com segurança que eu e os meus compatriotas nunca mais haveremos de viver num mundo tão alegre quanto aquele em que vivemos. Tudo isso é muito repelente. E a coisa mais triste de todas está em que tudo isso é exactamente aquilo que a psicanálise esperava do homem e do seu comportamento." Só em 1919 é que escreveu uma das suas mais importantes obras: Além do Princípio do Prazer, onde demonstrou a existência de dois instintos opostos no homem. Um, de preservação, ligado ao Prazer (Eros) e outro de destruição(Tanatos). Alguns factos ocorridos no início dos anos 20 vieram a alterar profundamente a vida de Freud: Primeiro a morte da sua filha Sofia, em 1920 e depois a morte do seu neto, filho de Sofia. Entretanto, em 1923 é-lhe diagnosticado um cancro no maxilar superior e Freud é submetido à primeira de uma série de 33 operações na boca, que o levou a perder todo o maxilar superior. Mas a sua produção intelectual permaneceu bastante intensa. Em 1923, publicou o Ego e o Id, onde apresentou um modelo dinâmico da mente, constituído pelo Ego, Superego e Id. O Id constitui a fonte dos impulsos ou tendências de uma pessoa; o Superego representa os educadores introjectados no indivíduo; e o Ego é uma espécie de relações públicas entre o ser, os seus impulsos e a sociedade. Freud usou a seguinte metáfora para mostrar como essas três instâncias se relacionam: “o Ego é um cavaleiro tentando meter freio a um cavalo selvagem (o Id), seguindo as ordens do professor de equitação (Superego).”
No ano seguinte, ocorreu a ruptura com dois dos seus discípulos, Otto Rank e Sándor Ferenczi, devido à teoria do trauma do nascimento. Em 1930 Freud foi laureado com o “Prémio Goethe”. A década de 30 marcou a ascensão do nazismo na Alemanha. Os livros de Freud e de muitos pensadores modernos foram queimados na praça pública. Em 1934, Freud começou a escrever Moisés e o Monoteísmo, onde procurou esclarecer a origem da religião judaica. Nos anos seguintes, Hitler e os nazistas, continuam a invadir os países vizinhos e a endurecer as leis contra os judeus. Em 1938 anexa a Áustria e Freud é imediatamente incomodado. Freud que sempre se manteve afastado da prática religiosa, não evitou que a Gestapo investigasse a sua casa, de onde roubaram preciosos objectos da sua colecção de antiguidades e prenderam e interrogaram a sua filha Anna durante um dia. Várias pessoas intervieram a favor dele, conseguindo que Freud escapasse da Áustria, juntamente com a sua mulher e com a sua filha Anna. Já bastante debilitado pela doença, Freud passou o último ano da sua existência em Londres. Sigmund Freud faleceu, aos 83 anos de idade, no dia 23 de Setembro de 1939, em Londres.

quinta-feira, maio 04, 2006

Quando Nietzsche Chorou


Friederich Nietzsche, o filósofo do desespero, está no limite de uma depressão suicida, incapaz de encontrar cura para as insuportáveis enxaquecas que o afligem. Josef Breuer, médico distinto e um dos pais da Psicanálise, aceita tratar o filósofo com uma terapia nova e revolucionária: conversar com Nietzsche e, assim, tornar-se um detective na sua cabeça.
A estes dois vultos da cultura europeia do século XIX, junta-se um jovem médico interno de hospital chamado Sigmund Freud: estes três elementos combinam-se para criar a saga inesquecível de um relacionamento imaginário entre um extraordinário paciente e um terapeuta talentoso.
Misturando realidade e ficção de maneira perfeita, Irvin D. Yalom, recria uma profunda amizade entre Friederich Nietzsche e Josef Breuer.

Tendo como fundo Viena, nos últimos meses de 1882, a amizade começa quando Breuer, amigo de Freud, é procurado por Lou Salomé para tratar de Nietzsche, seu ex-amante.
Deprimido por ter perdido Lou, Nietzsche está com uma depressão suicida. Josef Breuer também está depressivo por ter fantasias sexuais com Anna O., uma jovem recentemente curada com o seu novo método de “terapia através da conversa”.
Ao começar a tratar o seu paciente, Josef Breuer irá encontrar na filosofia de Nietzsche algumas respostas para as suas próprias dores existenciais. Ao alternarem as funções de médico e paciente, o relacionamento torna-se irresistível, com fantásticas discussões filosóficas, sobre Psicanálise e as dores da alma.
Na vida real, Nietzsche e Breuer nunca se conheceram, mas os componentes essenciais deste romance - a angústia mental de Breuer, Anna. O., o caso entre Nietzsche e Lou Salomé e o desespero do filósofo - existiram historicamente.

As cartas escritas por Nitzsche para Lou Salomé, apresentadas ao longo do livro, também são autênticas. O caso de Anna O. foi o primeiro descrito em “Estudos Sobre a Histeria" de Freud e Breuer, o livro que desencadeou a revolução psicanalítica.
Não é só pelo conteúdo que o livro se destaca, mas também na forma como está magistralmente escrito. Possui todos os hábeis ingredientes para manter o leitor concentrado na história, muito bem contada, que vai deixando o leitor sobre tensão, umas vezes angustiado outras vezes relaxado, obrigando-o a não parar de ler até que vire a ultima página. No fim, fica-se com aquela sensação de querer mais, já que se fica totalmente apegado às personagens.

terça-feira, maio 02, 2006

O Inverno Nuclear


Uma semana depois da comemoração dos 20 anos de Tchernobil, apeteceu-me tentar ficcionar como seriam os dias após uma guerra nuclear. Este texto é uma homenagem ao Brasil e aos brasileiros, que em cada vez maior número visitam o nosso blog. É também uma ocasião para homenagear Marcos Pontes. O primeiro a exprimir em português a sensação de ter chegado à última fronteira. Este feito revela o potencial do Brasil.
As bombas começaram a cair há uma semana. As comunicações são quase inexistentes e foram solicitados voluntários para prestar o auxílio humanitário possível nestas circunstâncias. Eu ofereci-me. Ás vezes temos que fazer este tipo de coisas para nos sentirmos vivos. Estive no espaço. A percepção da condição Humana, da sua fragilidade, ganha lá uma dimensão colossal. O nosso campo de visão na Terra é um horizonte cheio de vida, permutando entre um fundo negro, polvilhado de estrelas, e um azul com o imenso Sol. No espaço, é uma imensidão de negro e um Planeta azul, agarrado a nada, literalmente suspenso no vazio, onde todos no entrecruzamos. A vida existe apenas porque nós o sabemos. O universo visível adquire uma grandeza que apenas é perceptível através da experiência de olhar para a Terra daquela perspectiva, o que, por sua vez, reforça a sua posição de excepcionalidade. A nossa atitude nunca mais é a mesma. Nem sequer é o cliché de darmos importância ás coisas que realmente interessam. Tudo interessa. Viver é que é importante. Cada um à sua maneira com respeito pelos outros e pelo privilégio da consciência de estar vivo.
Quando acontece uma coisa destas não dá para compreender o porquê. Toda a gente conhecia as consequências. Do ataque e do contra-ataque. Do Inverno nuclear. Não interessa quem tem razão todos vão morrer. Todos vamos morrer. Se um dia alguma espécie com inteligência suficiente estudar a nossa civilização, também não vai compreender. Como pode uma espécie com tanto potencial, ter uma capacidade criativa que apenas é igualada pela sua capacidade para se autodestruir? A criação nunca prevalece sobre a destruição. Não nestes casos. Onde todos os que o poderiam fazer são também destruídos. Todas as marcas vivas de uma existência que deveria florescer até ao infinito serão obliterados.
Decidimos entrar por Portugal. Sempre gostei do País. Não pela coisa do País irmão, mas por aquilo que nos une. A língua. Quando nos dói verdadeiramente a alma, não importa quão fluentemente falamos outro idioma, exprimir a dor na sua totalidade e a sua compreensão só é possível quando a língua materna, aquela que nos acompanhou no desenvolvimento dos mecanismos do cérebro responsáveis pelos sentimentos e nos dá lógica aos pensamentos, é comum. Talvez mais importante que isso é que a consciência também se desenvolveu em português. É se há momento para sofrer e partilhar é este. A ressaca do holocausto nuclear.
Alguém apertou o botão. Em minutos, Mísseis balísticos lançados desde submarinos começaram a atingir aeroportos. Pouco tempo depois, Mísseis balísticos intercontinentais atingiram bases militares, centros de comando e a infra-estrutura industrial. Algumas horas mais tarde, chegam os bombardeiros, que atacaram os alvos não atingidos pelos mísseis. O hemisfério norte ficou devastado.
Dia 1
O barco chegou à costa portuguesa e lançou a âncora. Dirigimo-nos a terra nos botes. À medida que nos aproximávamos a destruição foi ganhando forma. Parecia que alguém tinha andado a brincar com legos. Prédios em pé, quase nenhum, o cheiro nauseabundo foi aumentado também. Não se via vivalma.
Chegamos a terra. A morte reina sem limites. Totalmente aleatória com cadáveres espalhados por todo o lado, um cenário dantesco. Alguém comenta que estes tiveram sorte ao morrer nos primeiros ataques. Provavelmente tem razão. Nestas áreas os níveis de radiação são tão elevados, que a morte como consequência dos seus efeitos é inevitável, lenta e profundamente dolorosa.
Somos enviados para o hospital mais próximo. Pelo caminho, ninguém vivo. O hospital era um amontoado de pedras, com algumas alas ainda de pé. Uma delas era a maternidade. Um quadro horrível, um parto que ficou a meio, apenas se via a cabeça do bebé nas pernas da mãe morta. A equipa médica também. Vómitos ao meu lado. As lágrimas afloram-me aos olhos. A imagem é simbólica. A espécie humana, acabada de nascer para o universo, perdeu a vida ainda antes de se compreender. A zona das incubadoras, todos fugiram e no berçário também. Felizmente tudo estava tão negro que era impossível distinguir as formas com olhares de relance e apressados. Não existia outra cor que não o preto em toda a extensão do nosso olhar. Era como se tudo estivesse de luto por si próprio.
Um dos meus parceiros a chorar diz-me – Marcos, a minha filha perguntou-me o que seria de nós. Não consegui articular nada e apenas senti uma imensa vergonha por fazer parte da geração que destruiu o futuro.
Tentar descrever este cenário era um exercício inútil. Neste caso, uma imagem vale muito mais que mil palavras.
Dia 2
À medida que nos afastamos das zonas de impacto, começaram a surgir os primeiros sobreviventes, cuja designação rapidamente se alterará. A gravidade da sua situação não lhes augura grande futuro. Os dramas humanos repetem-se a cada metro. Os médicos fazem o que podem, mas não podem acudir a todos. Os corpos como que se dissolvem sob o feito da radiação. As feições desfazem-se como que sob a pressão de uma força desconhecida, é como se cada um dos doentes naqueles momentos fosse só sofrimento, fazendo emergir o sentimento de impotência e o desespero. As florestas ainda ardem. O fumo em algumas zonas torna o ar ainda mais negro, já de si pouco respirável. Algumas figuras ainda de pé, cambaleiam em frente aos nossos olhos, aparentemente loucos sem uma direcção definida. Limitam-se a andar de um lado para o outro com um olhar esgazeado, colocado no horizonte, o olhar a abarca tudo mas não vê nada.
Dia 3
O caos e anarquia tomaram conta das cidades menos afectadas. O regresso à idade da pedra, o fim da civilização. Os motins que se viram há alguns anos nas televisões, são manifestações de pacifistas comparados com isto. Hiroshima e Nagasaki ensaios de laboratório. A poeira já cobre uma parte significativa do céu e a temperatura começa a descer. Não tardará a atingir níveis que farão congelar a água. Nós somos 70% de água. Se alguém ficar cá, imaginem como será o seu fim. A chuva radioactiva acabará com tudo antes. Os incêndios ainda são visíveis por todo o lado e os gases tóxicos contribuem para a matança.
Dia 4
À medida que penetramos na Europa, observam-se as deslocações de refugiados para sul. A suprema ironia para os países ricos. Nas colunas de pessoas a cada segundo cai uma ou morta ou ferida para lá do recuperável. Ninguém olha para trás, a indiferença instalou-se. Os laços familiares, de solidariedade a compaixão, desapareceram em face de tamanha tragédia, fazendo lembrar um bando de gnus perante os predadores que se limitam a tentar individualmente sobreviver.
Espanha, terra de Picasso e Velasques. Guernica e As Meninas, considerado por muitos o mais espantoso quadro alguma vez pintado. O do Picasso que é símbolo da Paz. Representa o bombardeamento na segunda guerra à cidade com o mesmo nome. Dois dos maiores ícones da arte humana desapareceram no fogo do inferno. Todos nos tornamos iconoclastas da criatividade e da imaginação.
Dia 5
Paris. Acercamo-nos do Louvre. Destruído quase na totalidade. Encerrava a essência humanidade nas obras de arte ali expostas. Ninguém teve coragem para entrar. A torre Eiffel vergada ao poder das bombas como que de joelhos subjugado por um poder insuperável. Norte Dame aos bocados no rio Sena. A escuridão que se via, não era só a poeira que impedia a luz solar de penetrar. A cidade luz apagou-se. Se o planeta fosse uma entidade viva, era aqui que estaria alojada a alma do mundo. Esta escuridão é como se representa-se a sua morte. O pensador de Rodin derretido pelo calor como que a dizer que a consciência e o pensamento estão condenados a resistir intemporalmente como uma marca fossilizada do que antes foi grande. O beijo com os amantes partidos em pedaços. O fim do amor e do desejo. A humanidade vai definhar. Os distúrbios psíquicos perante catástrofe são já evidentes. Já ouvimos falar em canibalismo. Não há alimentos para todos. Não tardarão as doenças contagiosas na forma de epidemias e pandemias.
Dia 6
Roma. Vaticano. As dúvidas da divindade assolam-me. Como pode um Deus colocar à disposição do livro arbítrio dos seus filhos a capacidade de se auto destruir? De aniquilar a Sua própria criação? Nenhum ser humano no seu juízo perfeito coloca uma arma ao alcance dos seus filhos, sabendo quais as possíveis consequências, quanto mais uma entidade que é supostamente omnipotente e omnisciente. A capela de S. Pedro. Construída para incutir humildade aos visitantes. Um amontoado de pedras que noutras alturas provocaria o gáudio de uns quantos fundamentalistas. Só que agora, católicos, muçulmanos, judeus e outros que tais, estão de braço dado até o fim da sua existência. Não restará ninguém para manter a luta pela prevalência religiosa que, diga-se de passagem, também era ilógica. O interesse das religiões deveria confinar-se ao reforço do desenvolvimento de uma ética existencial comum na defesa da Vida. É como se espécie humana estivesse dividida em raças, não com definição biológica, mas com fundamentação religiosa. Isto não tem pés nem cabeça. Como cada grupo achava sempre que tinha razão, não reconhecendo qualquer mérito aos outros, alimentava os ódios e resultou nisto. Capela de Cistina. Miguel Ângelo representou a criação divina com o toque divino em Adão. Agora a mão de Deus aponta para as pedras.
Dia 7
Paramos, ou descansámos ao sétimo dia. Numa semana a quantidade de luz diminuiu drasticamente. Falta água, comida, combustíveis. As culturas foram quase totalmente destruídas. A temperatura desce cada vez mais. Quando chegar abaixo do ponto de fusão da água, os oceanos começarão a congelar, o fitoplâncton morre e interrompe-se a cadeia alimentar. O fim está próximo.

Filipe Pinto.

sábado, abril 29, 2006

Chelsea é bi-campeão Inglês

O Chelsea FC sagrou-se este sábado bicampeão inglês em grande estilo. Ao receber em Stamford Bridge o seu adversário directo na corrida pelo título, o Manchester United FC de Cristiano Ronaldo, a turma de José Mourinho necessitava apenas de um empate para revalidar o ceptro. Porém, os "blues" quiseram fazer a festa da melhor forma possível e bateram o United por claros 3-0, com Ricardo Carvalho a apontar o derradeiro golo.
E para que não restassem dúvidas sobre de quem era o dia, William Gallas fez o 1-0 logo aos 4 minutos, de cabeça, na sequência de um pontapé de canto apontado por Frank Lampard. Um golo que surgiu cedo, mas que espelhou a superioridade da formação do Chelsea, que apresentou Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho a titulares, para além de Maniche no banco de suplentes. Com Cristiano Ronaldo na equipa, os "red devils" tentaram reagir e Wayne Rooney esteve perto de marcar aos 21 minutos. Porém, o Chelsea tinha total controlo sobre as operações.
Quem esperava uma reviravolta dos visitantes na segunda parte, enganou-se redondamente. Aos 60 minutos, o Chelsea aumentou a vantagem para 2-0, desta feita por intermédio de Joe Cole, e a festa começou em Stamford Bridge. Mas o melhor momento da tarde ainda estava para vir. Aos 73 minutos, o português Ricardo Carvalho efectuou uma grande jogada e aumentou para 3-0, para gáudio dos adeptos que enchiam o estádio. O jogo estava resolvido e Chelsea sagrava-se campeão de Inglaterra pela segunda temporada consecutiva.
Um ano menos um dia depois, José Mourinho voltou a festejar um troféu e continua "em grande", apesar de esta ter sido a época "menos conseguida", ao contabilizar "apenas" um sucesso.
Envergando um cachecol de Portugal, Mourinho esteve no centro da festa que se antecipava, recebendo pelo quarto ano consecutivo um troféu de campeão nacional - depois de dois pelo FC Porto, em Portugal, agora dois pelo Chelsea.

Verdadeiro ídolo do Chelsea, a quem "deu" dois dos três campeonatos do historial, o "manager especial", como ele próprio se chamou, nasceu em Setúbal a 26 de Janeiro de 1963 e atinge os 43 com o melhor palmarés de treinador da actualidade, por muito que isso irrite a concorrência.
Em 2005/2006, o Chelsea falhou na Liga dos Campeões (eliminado pelo Barcelona), na Taça (afastado pelo Liverpool) e na Taça da Liga (pelo Charlton), mas no campeonato conseguiu uma bela proeza, liderando da primeira à última jornada.

No entanto, nem tudo são rosas para Mourinho apesar de ter conquistado o segundo título consecutivo. Em declarações após o jogo com o Manchester United, o "Special One" surpreendeu: "No decurso da época pensei mais do que uma vez em bater com a porta e ir-me embora no final da temporada. Este é o pior clube do Mundo para se ser treinador, mas estou muito, muito feliz por ter decido ficar, porque ao fim e ao resto é um clube especial".
Mais adiante, José Mourinho explicou o porquê do seu mau estar: "Antes do início da temporada tivemos nove jogos sem perder e mais tarde conseguimos outra fase de muitas vitórias, mas nunca, nunca, nunca fui escolhido para 'treinador do mês'... Ninguém te reconhece o mérito se fores treinador do Chelsea... Posto isto, percebe-se porque é que eu devia ser o treinador mais feliz do Mundo, após ter ganho dois campeonatos seguidos, mas na realidade não sou...".
Parabéns ao "Special One", ao Silvino, ao Paulo Ferreira e ao Ricardo Carvalho.
Fontes:Uefa, Lusa e Jogo.

José Mourinho, o Arrogante?


José Mourinho é, indiscutivelmente, uma personalidade controversa. No entanto, algumas das opiniões acerca dele começam a exasperar-me, chegou a um ponto de que quase não pode fazer nada sem aparecerem logo os iluminados a criticar, a chamar a atenção para os seus pensamentos, palavras, actos e omissões. É, por isso, que forma nobre e altiva (ao contrário de arrogante) como resiste aos ataques de uns quantos amantes da subserviência é claramente algo digno de ser realçado.
Como abutres a rondar uma carcaça de um animal doente, esperam um sinal de fraqueza que lhes garanta uma posição de vantagem de modo a sentirem-se bem consigo próprios e a conseguirem esquecer as suas próprias frustrações. O que é vago e incoerente nesta tentativa de o desacreditar é a argumentação aplicada. O epíteto de arrogante é, por isso, altamente discutível e o seu significado depende claramente de quem o profere. Sendo assim, as razões para estes ódios de estimação resumem-se rapidamente.
Por conseguinte, há pessoas que não sabem lidar com o seu insucesso e, ao mesmo tempo, vivem permanentemente na esperança que alguém lhes descubra o seu talento escondido. Só que as oportunidades e o tempo passam de forma vertiginosa, escapando ao seu controlo. Se, num determinado momento, uma pessoa se destaca dos seus pares, estes interpretam este facto como uma lembrança permanente da sua vulgaridade existencial. Não passam de quase virtuosos e sabem-no. O quase faz toda a diferença, sendo responsável por este estado de frustração em que vivem, sem se conseguirem libertar da pergunta que os destrói como uma doença – Porquê ele e não eu?
Então, quando o sucesso alheio vai ganhando substância ao ponto do consenso quase generalizado, este sentimento transforma-se em ódio visceral, assumindo o objecto de ciúme um papel de inimigo de estimação a ser criticado e ridicularizado a cada oportunidade. Partindo do princípio que as pessoas não concebem ser indiferentes aos outros, é como se tudo o que o odiado disser ou fizer configure uma provocação pessoal.
O que acontece, normalmente, é que quem tem sucesso a este nível, raramente dá razão para se atacar o trabalho e, portanto, as opções de ataque limitam-se ao homem., sendo esta atitude uma demonstração de ódio pessoal perante a ausência de outros argumentos.
Surge então a inveja que se traduz de várias formas. Há aqueles que invejam sem desejar o mal, porque é próprio da natureza humana, e há os outros que invejam e que, como resultado de alguma lucidez relativamente à sua própria mediocridade, não lhes basta invejar, desejam claramente que quem atingiu um patamar que eles almejam apesar de o saberem ser inatingível, caia em desgraça. É como se, no seu íntimo, preferissem dizer coitadinho do drogado do que parabéns pelo sucesso.
A inveja, como escreveu e muito bem na revista DEZ, é a arma dos incompetentes e dos frustrados. Provavelmente não é à toa que a última palavra dos Lusíadas é Inveja. Camões, na sua imensa capacidade de metaforizar os defeitos dos portugueses, escolheu talvez a mais marcante de todas.
Mourinho suscita este tipo de sentimentos e ambiguidades. Todavia, como alguém um dia disse – A modéstia é uma qualidade excessivamente valorizada. José Mourinho não é modesto, mas, indiscutivelmente não o pode, sob pena de cair no ridículo, nem tem que o ser. Os resultados estão à vista. Só não vê quem não quer, ou então tem uma compreensão errada da natureza da estatística. No caso de Mourinho, pode não gostar-se do estilo, mas pelo menos respeite-se o óbvio.
Na mesma medida, é irrefutável dizer – A falsa modéstia é um defeito excessivamente desvalorizado. Os falsos modestos que grassam pelo mundo, de quem todos aparentemente tanto gostam, para além do grave defeito de carácter, gostam de ser bajulados, necessitam, em regime permanência, que quem os rodeia se refira à sua grandeza para que, também quem o diz, não se esqueça desse facto.
É como se quem tiver sucesso tiver de pedir desculpa pelo facto de o ter. Ora, isto configura uma inversão dos conceitos e a pergunta do ignóbil jornalista espanhol é bem elucidativa disso mesmo. Para além da resposta que teve, a sua intervenção é uma tentativa de insulto que rebate para quem o proferiu. A questão era ofensiva, redutora mas revela mais sobre quem questiona do que sobre o questionado.
Carlos Tê escreveu e Rui Veloso deu a voz a um pensamento que melhor traduz estes sentimentos:
"...Já bebi a minha conta
E a taberna está fechada
Vinguei-me hoje da afronta
Que o mundo me fez passar
Passam-se os anos na pele
Numa azia sem sentido
E a gente acumula o fel
Do tempo mal digerido..."
Ainda no seu artigo semanal na DEZ, faz referência ao desperdício do potencial humano. A exortação à inteligência por parte de algumas pessoas que se julgam os donos do mundo, como Sousa Cintra no Sporting quando despediu Bobby Robson e Mourinho, é reveladora disso mesmo. C
oncordo, plenamente, com a análise de Mourinho da realidade Portuguesa.
O fado português traduz-se, também, na opinião que têm no estrangeiro dos nossos concidadãos. É como se a cidadania portuguesa fosse uma espécie de doença contagiosa. Sobre os que andam a “pastar”, eu fui um dos que ao ler as suas palavras aprendi uma lição. Neste momento posso dizê-lo com toda a segurança jamais deixarei de defender um clube português e o segundo clube do meu coração será aquele onde José Mourinho estiver.
A juntar a isto, alguns insuportáveis comentadores desportivos, que aos cinco minutos de jogo, recorrente a advérbios de tempo demasiado enfatizados pelo timbre da voz (O Chelsea não está a jogar absolutamente nada), parecendo, desta forma, que naquele e em qualquer outro momento, a equipa tivesse a obrigação de estar a dar um banho de bola e a ganhar cinco a zero. Além de tentar anular o mérito de Mourinho, desvalorizam os seus adversários de forma atroz.
Finalmente, como português que é e se afirma pela competência, tem que ser duas vezes mais competente que um brasileiro (os donos da sapiência futebolística por direito próprio auto proclamado), 3 vezes mais competente que um espanhol (para quem Portugal e os portugueses são uma província e um povo abandonados por que não desejados), 4 vezes mais que um francês (o pais onde os Manueis e as Marias eram empregado para fazer o trabalho que os franceses não queriam sendo depreciativamente tratados por isso mesmo) e seis vezes mais competente que um inglês (que se acham acima de toda a humanidade). Só assim terá a aceitação de todos.

Filipe Pinto.(Postado em 15 de Março)

sexta-feira, abril 28, 2006

Os Setenta Anos do “Campo da Morte Lenta”

Em Abril de 1936, mais precisamente no dia 23, o decreto n.º 25 539 criava a Colónia Penal do Tarrafal, na ilha cabo­‑verdiana de Santiago. A criação daquele que ficou conhecido como o “Campo da Morte Lenta” foi mais um passo decisivo na instauração de um regime fascista em Portugal, em muito semelhante aos que vigoravam na Itália de Mussolini e na Alemanha de Hitler.
«Quem vem para o Tarrafal vem para morrer!». Assim recebia os presos Manuel dos Reis, durante anos director daquela “Colónia Penal”. Estas palavras resumiam como nenhumas outras os verdadeiros objectivos que estiveram na base da criação do campo de concentração do Tarrafal. Muito para lá do objectivo hipocritamente proclamado no decreto fundador, de «recolher os presos condenados a pena de desterro, pela prática de crimes políticos», com a criação do campo de concentração pretendia­‑se a eliminação física dos opositores políticos do fascismo.
Durante os 18 anos em que funcionou, o Tarrafal ceifou a vida a 32 antifascistas, entre os quais o secretário­‑geral do PCP, Bento Gonçalves. Alguns dos prisioneiros acabariam mesmo por falecer anos depois de expirada a pena a que tinham sido condenados. Muitos dos presos nunca tiveram pena sequer. Era assim a “legalidade” fascista… Durante este período, passaram pelo campo da Achada Grande do Tarrafal, na ilha de Santiago, 340 prisioneiros, que cumpriram, somados, um total de dois mil anos, onze meses e cinco dias de prisão.
Outro ponto do decreto fundador do campo de concentração apontava a instalação da “colónia penal” num local que salvaguardasse as «melhores condições de salubridade e funcionamento». Suprema hipocrisia. Mais uma vez, a realidade revela a verdadeira natureza do campo e os seus objectivos. A Achada Grande do Tarrafal é, do ponto de vista climático, uma das piores zonas de Cabo Verde.
Afirma Cândido de Oliveira, no seu livro Tarrafal, o pântano da morte, que na região não havia água potável e que «nada ali se produz a não ser milho – e quando chove». Prosseguindo o seu relato, denunciava: «As “condições necessárias” satisfatórias, evidentemente, significam a instalação da colónia num pântano da baía do Tarrafal, na zona de mais intenso paludismo de Cabo Verde; e a certeza de que a maioria dos deportados seria dizimada pela biliosa ou ficaria com a saúde tão abalada pelo paludismo crónico que, regressados à metrópole, não teriam vontade de prosseguir na actividade antifascista.»
Somando a isto a falta de medicamentos, a má alimentação, os trabalhos forçados e a brutalidade dos carcereiros, pouco ou nada destinguia o Tarrafal dos muitos campos de concentração que, na época, polvilhavam o continente europeu. Os objectivos eram os mesmos. Os métodos também.
Com o fim da II Guerra e com a derrota dos aliados ideológicos do fascismo português, a manutenção de um campo de concentração torna-se insustentável. Graças à luta do povo português e à solidariedade internacional, a ditadura é obrigada a encerrar o Tarrafal em 1954. Ainda voltaria a abrir, anos mais tarde, para encarcerar os patriotas angolanos que combatiam o colonialismo português.

«TUDO CONTRA A NAÇÃO, NADA CONTRA A NAÇÃO!»

A criação da Colónia Penal do Tarrafal, em Abril de 1936, e a chegada dos primeiros prisioneiros, em Outubro do mesmo ano, foi um passo decisivo e particularmente brutal na fascização do Estado. Mas esteve longe, muito longe, de ser o único.
Tomando como modelo a Itália de Mussolini, o salazarismo começou desde cedo a construir o edifício fascista em Portugal. Em Julho de 1930 é criado o partido único, a União Nacional e, em 1932, o ditador formula a sua concepção de “Estado forte”: reforço dos poderes do governo, abolição dos partidos e interdição dos sindicatos, manutenção da censura imposta com o golpe militar de 28 de Maio de 1926, modernização da polícia e das forças armadas. A Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), que antecedeu a PIDE, é criada em 29 de Agosto de 1933.
A 19 de Março de 1933 é proclamada a Constituição, depois de um “plebiscito” em que é reprimida qualquer propaganda da oposição e as abstenções são contadas como votos a favor. Com a promulgação da Constituição, o fascismo institucionalizava-se e terminava o chamado “período de transição”, iniciado com o golpe de 1926. Em Setembro do mesmo ano, é publicado o Estatuto do Trabalho Nacional, à semelhança da Carta del Lavoro italiana. São criados os “Sindicatos Nacionais” e é imposto o modelo corporativo de organização dos trabalhadores, do patronato, e da sua relação com o Estado.
Em 1935, os funcionários públicos passam a ser obrigados a assinar uma declaração anticomunista e o governo é autorizado a suspender e a demitir das suas funções aqueles que não derem provas de aceitação e fidelidade aos princípios da Constituição fascista. São demitidos milhares de funcionários públicos. No ano seguinte, e à imagem da Alemanha nazi, é criada a Mocidade Portuguesa e a Legião Portuguesa.
Ao mesmo tempo, o fascismo promove a concentração capitalista. Como escreveu Álvaro Cunhal no Rumo à Vitória, «em 1926, na indústria, como na banca e no comércio, ainda a média burguesia tinha um peso considerável. Ainda na maior parte dos ramos industriais estava ausente o domínio monopolista». O golpe militar de 1926 e a ditadura fascista, prossegue, «foi preparado e executado pelas forças reaccionárias do grande capital e dos grandes agrários. O objectivo foi pôr o aparelho de Estado ao seu serviço, arredar do poder a pequena e a média burguesia, travar o movimento operário».

«UM RECTÂNGULO DE ARAME FARPADO»


«O campo de concentração do Tarrafal é um rectângulo de arame farpado, exteriormente contornado por uma vala de quatro metros de largura e três de profundidade. Tem duzentos metros de comprimento por cento e cinquenta de largo e está encravado numa planície que o mar limita pelo poente e uma cadeia de montes por Norte, Sul e nascente». Assim descreve Pedro Soares o campo de concentração para onde foi enviado em Outubro de 1936 e, depois, novamente, em 1940.
Com a terra tirada para fazer a vala, foi feito um talude «que se eleva a três metros acima do nível do campo». Lá dentro, prossegue, «há apenas quatro barracões sem higiene, algumas barracas de madeira, nas quais estão instaladas as oficinas e o balneário, uma cozinha, sem condições de asseio, e algumas árvores».
No seu relato, o comunista (falecido pouco depois do 25 de Abril num acidente de viação juntamente com a sua companheira Maria Luísa da Costa Dias) destacava ainda que «a falta de vegetação, os montes escarpados, o mar e o isolamento a que os presos estão submetidos, dão à vida, aí, uma monotonia que torna mais insuportável o cativeiro». Como únicos vestígios do mundo, havia o «ar carrancudo dos guardas e das sentinelas negras que vigiam, as cartas das famílias que demoram meses a chegar, e dias a ser distribuídas, os castigos e os enxovalhos, os trabalhos forçados, as doenças e a morte de alguns companheiros».
Pedro Soares encontrava-se no grupo de 150 presos que inauguraram, em Outubro de 1936, o famigerado campo. Durante quase dois anos, foram alojados em doze barracas de lona, com sete metros de comprimento por quatro de largo, onde deveriam viver doze homens. «Essas barracas, que o sol e a chuva depressa apodreceram, serviram para nos arruinar a saúde.»

A “FRIGIDEIRA”

Se o Tarrafal passa à história como o “Campo da Morte Lenta” muito o deve à famosa “frigideira”, uma caixa de cimento para onde eram enviados os presos que ficavam de “castigo”. Conta Francisco Miguel, histórico militante comunista, que «lá dentro era um forno» e que «aquela prisão merecia o nome que lhe tínhamos dado».
Num impressionante relato, o comunista recordava: «O sol batia na porta de ferro e o calor ia­‑se tornando sempre mais difícil de suportar. Íamos tirando a roupa, mas o suor corria incessantemente. A “frigideira” teria capacidade para dois ou três presos por cela. Chegámos a ser doze numa área de nove metros quadrados. A luz e o ar entravam com muita dificuldade pelos buracos na porta e em cima pela abertura junto ao tecto.»
Mais adiante, Francisco Miguel lembrava que «pouco depois de o Sol nascer já o ar se tornava abafado, irrespirável. Despíamos a roupa e estendíamo-nos no cimento para nela nos deitarmos. O Sol ia­‑se erguendo sobre o horizonte e o calor aumentava, aumentava e suávamos, suávamos. Sentíamos sede, batíamos na porta a pedir água, mas não tínhamos resposta. A água da bilha não tardava em ficar quente. Havia momentos em que a sede era tanta que passávamos a língua pela parede por onde escorriam as gotas da nossa respiração que ali se condensava. Os dias pareciam infindáveis. Suspirávamos pela noite, pois o frio nos era mais fácil de suportar. Mas pelo entardecer também a sede aumentava. A excessiva transpiração não era devidamente compensada. A “frigideira” matava». Francisco Miguel passou na “frigideira” mais de cem dias. A sua saúde ficou arrasada. Mas, como muitos outros, não cedeu.
Gustavo Carneiro.
Avante!

quarta-feira, abril 26, 2006

Desastre Nuclear de Tchernobil


Escrevia ontem no jornal Público, o ex. Presidente da ex.União Soviética, Mikhail Gorvatchov, que “ o desastre nuclear de Tchernobil…foi, ainda mais do que o lançamento da minha Perestroika, a verdadeira causa do colapso da União Soviética cinco anos depois. De facto, a catástrofe de Tchernobil foi um momento de viragem histórico :houve uma era antes do desastre e há uma nova era depois dele”, sendo verdade que o colapso da União Soviética, foi um dos acontecimentos históricos mais significativos para o Mundo, no último quarto do século passado, o preço pago e a pagar, é demasiado elevado.
Há 20 anos, em 26 Abril de 1986, o mundo acorda para o pesadelo dos desastres nucleares .

Às 01h23 da manhã, explode o reactor número quatro do complexo nuclear de Tchernobil, na União Soviética. O incêndio provoca a destruição parcial do coração do reactor que, no momento, funcionava a apenas sete por cento da sua potência normal, pois encontrava-se em fase de descarga de combustível. Às 01h25 os bombeiros da central começam a atacar o incêndio. Às 02h15, as autoridades de Pripyat (localidade mais próxima) interditam a região num raio de 15 quilómetros. Entretanto, a estação meteorológica mais próxima regista um aumento anormal de radioactividade. No dia 27, com a extinção do incêndio, começa a evacuação de 50 mil pessoas da cidade de Pripyat, em 1100 autocarros formando uma coluna de 27 quilómetros. Na Ucrânia, as autoridades estendem o perímetro de segurança para 30 quilómetros. No dia 28, o ministro sueco da energia e o ministro do ambiente da Dinamarca solicitam à União Soviética explicações sobre a origem da poluição radioactiva detectada, fazendo-se a evacuação dos habitantes num raio de 30 quilómetros da central. Às 21h00, a agência noticiosa soviética, TASS, emite um comunicado do Conselho de Ministros da União Soviética, admitindo um acidente nuclear em Tchernobil, com uma quantidade indefinida de mortos.
Sobre este atraso na divulgação da notícia ao mundo, diz Gorbatchov, que “…o mundo soube do desastre através de cientistas suecos, criando a impressão de que estávamos a esconder alguma coisa. Mas, na verdade, não tínhamos nada a esconder e, simplesmente, não tivemos qualquer informação durante um dia e meio. Só alguns dias depois soubemos que o que aconteceu não foi um simples acidente mas uma verdadeira catástrofe nuclear…” .
A nuvem radioactiva afectou principalmente a Ucrânia, a Finlândia, a Suécia, a Polónia, a Alemanha Ocidental e Oriental e a França. Além das perdas humanas, a radioactividade de Tchernobil contaminou os solos e águas de 137 mil quilómetros quadrados de territórios na Ucrânia, na Bielorússia e na Rússia. Tchernobil inutilizou ainda 114 mil hectares de terra e 492 mil hectares de floresta, forçando cerca de, 400 mil pessoas a abandonarem as suas habitações. O acidente provocou a morte de 59 pessoas e libertou uma radiação duzentas vezes superior às bombas atómicas de Hiroxima e Nagasáqui.
“Tchernobil abriu-me os olhos como nenhum outro acontecimento: mostrou-me as horríveis consequências do poder nuclear, mesmo quando não é usado para fins militares. Agora todos podemos perceber melhor o que aconteceria se uma bomba atómica explodisse. Há cientistas que dizem que apenas um SS-18 pode conter 100 Tchernobils.”, diz Gorbatchov.

Fotografia, EPA/Sergey Dolzhenko. Vyacheslav Konovalov, biólogo ucraniano exibe um feto humano e um de um porco. Konovalov estuda as mutações biológicas provocadas pela exposição a radiações.
Passados 20 anos sobre Tchernobil, ainda não há consenso sobre o número de vítimas. Segundo a Organização das Nações Unidas, apenas 59 pessoas morreram devido ao acidente e estima em 4 mil o número dos que podem vir a perder a vida devido a cancros. Por sua vez a Organização Não Governamental, Greenpeace, garante que o acidente causou, nos países mais afectados, a Ucrânia, a Rússia, e a Bielorússia, cerca de 200 mil mortos.

Dados apresentados por cientistas apontam para que mais de 200 mil de pessoas nas próximas gerações possam continuar a ser afectadas pelo maior acidente do género da história da humanidade. Actualmente, a radioactividade libertada é associada a aproximadamente quatro mil casos de cancro na tiróide. Cientistas israelitas e ucranianos também descobriram evidências de que pequenas doses de radiação poderiam provocar mudanças no ADN humano e que estas passam para futuras gerações. As análises a crianças, que nasceram depois da explosão de Tchernobil, descendentes de pais que limparam o reactor da central nuclear russa, registaram um grande aumento de mutações, que poderão ser de longa duração, revelou um estudo.
Mikhail Gorbachov termina o seu artigo com uma mensagem de esperança, “O 20º aniversário da catástrofe de Tchernobil recorda-nos que não devemos esquecer a terrível lição ensinada ao mundo em 1986. Devemos fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para tornar as instalações nucleares seguras. E devemos também começar seriamente a trabalhar na produção de formas de energia alternativa.”
Numa altura em que o debate sobre a energia nuclear parece querer voltar à agenda política portuguesa, estas sábias palavras de Mikhail Gorbatchov, devem servir de alavanca a todos aqueles, que querem o país longe, da opção da energia nuclear.

sexta-feira, abril 21, 2006

Desligue a TV


A televisão ocupa um espaço significativo na vida quotidiana dos portugueses. Não tenho números certos, mas certamente haverão mais televisores em Portugal que lares. Independente do nível social, a televisão está presente em todos os lares e representa a principal fonte de informação e diversão, de uma esmagadora maioria dos portugueses. A televisão tornou-se hoje em dia um poder colossal, podemos dizer que é em potência o mais importante de todos, como se tivesse substituído a voz Divina. Assim continuará, por muito tempo, enquanto continuarmos a suportar os seus abusos e a sua programação de baixo nível cultural.
Fiquei a saber hoje, que existe uma Organização Não Governamental (ONG), que se propõe a discutir e a pôr em causa, a maneira como passamos o tempo em frente da “caixinha mágica”. Esta ONG é a TV-Turnoff Network( http://www.tvturnoff.org/) e a sua congénere brasileira é a Desligue a TV (www.desligueatv.org.br).
A TV-Turnoff Network, é uma organização americana sem fins lucrativos que encoraja crianças e adultos a verem menos televisão com o intuito de promover vidas e comunidades mais saudáveis. Fundada em 1994, TV-Turnoff Network dedica-se à crença de que todos nós temos o poder de determinar o papel que a televisão terá nas nossas vidas. Ao invés de esperarmos que os produtores façam uma melhor programação televisiva, podemos desligá-la com mais frequência para nos dedicar às nossas famílias, aos nossos amigos e a nós mesmos. TV-Turnoff Network já ajudou milhares de pessoas a fazerem exactamente isso. Com os seus dois programas iniciais, o TV-Turnoff Week (Semana Sem Televisão) e o More Reading, Less TV (Mais Leitura, Menos TV), ajuda as pessoas, especialmente as crianças, a desligarem a televisão e a terem actividades diferentes, especialmente ao ar livre. Na “Semana Sem Televisão”, vários programas são propostos e implementados, actividades desportivas, cinemas e teatros com promoções e horários alternativos, caminhadas ecológicas, passeio turísticos, visitas a museus com programação e preços especiais, festivais de música e poesia, livrarias como centro de convivência e estímulo à leitura, e conversa, com amigos, família e filhos. Por mais difícil que esta tarefa possa parecer, a sua forma de aplicação, agregando vários sectores da sociedade, tem atingido resultados surpreendentes, desde 1995, mais de 24 milhões de pessoas já participaram no projecto em mais de 84 países como: Canadá, México, Coreia do Sul, Noruega, Itália, e muitos outros.
Para finalizar deixo aqui as palavras de John Condry, no livro “Televisão: Um Perigo Para a Democracia”, feito a duas mãos, juntamente com Karl Popper:

“A televisão não está predestinada a desaparecer e é pouco provável que venha a constituir um ambiente favorável à socialização das crianças. É uma realidade que devemos aceitar. Podemos tentar melhorar as coisas, garantir que os programas que oferecemos aos nossos filhos sejam de melhor qualidade, mas o mais importante é mostrarmos às crianças que a televisão não é uma fonte de informação sobre o mundo. Se queremos que consagrem menos tempo à televisão, devemos propor-lhes outras actividades. O que faz falta às crianças é mais experiência e menos televisão.
A televisão não é capaz de ensinar às crianças aquilo que necessitam para se tornarem adultos. A televisão é um instrumento publicitário, e é legítimo que ocupe um lugar enquanto tal. Pode ser uma diversão, e o facto de nos divertir-mos não é mau em si. Pode ter um papel de informação e isso é uma coisa boa. Contudo não consegue ser um instrumento de socialização válido. É isso que devemos reconhecer e é sobre esse problema que devemos intervir. A escola e a família devem desempenhar um papel essencial neste domínio e agir mais do que presentemente; e é preciso ajudá-las na medida do possível. Poderíamos começar por reduzir a influência que a televisão exerce na vida das crianças. Seria um bom começo. Chegou o momento de darmos esse passo”.
Este ano, a “Semana Sem Televisão”, é entre 24 de Abril e 30 de Abril.

quinta-feira, abril 20, 2006

Nós e a Estrada


No final das operações de vigilância das estradas em épocas que coincidem com os principias feriados e com grandes deslocações na população, faz-se um balanço que é, invariavelmente, dramático. Os mortos são sempre muitos, os feridos imensos e os acidentes incontáveis. As causas todos as conhecem. As medidas para a resolução dos problemas não conseguem ter efeitos significativos.
Uma forma de enquadrar estas conclusões acaba por ser partilhar a experiência do que é morar na proximidade de uma estrada como o IP4 tentando, desta forma, mostrar o que significa conviver em permanência com o infortúnio resultante dos acidentes que frequentemente sucedem numa estrada como esta.
Certo dia assisti a uma conversa, quando passeava na cidade, bastante elucidativa no que diz respeito ao carácter desconcertante dos comportamentos que as pessoas foram desenvolvendo relativamente às sucessivas tragédias que ocorrem naquele itinerário O assunto era sobre a direcção que uma ambulância seguia, cuja sirene se fazia ouvir aos berros a uma velocidade quase alucinante. O seu conteúdo resume-se facilmente.
Um dos intervenientes fez referência à ambulância, o seu interlocutor rapidamente disse que deveria ser mais um acidente no IP4.Não foi o facto de ter estabelecido a ligação de imediato. Foi a forma como o disse e o timbre de voz utilizado que me deixaram espantado. Um misto de resignação conjugado com uma assustadora certeza na afirmação, como se a sua suposição fosse algo mais que isso, a única hipótese plausível para o surgimento da ambulância. Esta certeza é, por si só, absolutamente desconcertante. É como se o epíteto de “estrada da morte” implicasse de facto uma fatalidade a cada sinal de urgência. Pior que isso, o aparente condicionamento surgido da convivência diária com esta realidade, parece ter como consequência um distanciamento psicológico, em que mais um acidente já não provoca qualquer tipo de choque.
Aliás, uma das mais pungentes ocorrências que testemunhei está precisamente relacionada com o acidente de um amigo.
Num dia como tantos outros, no caminho para o trabalho, oiço no rádio a anunciar um acidente de viação no IP4. Nada de anormal até aqui. Como já sucedeu algumas vezes e porque esse é o seu percurso diário, normalmente, recebo uma chamada a pedir para eu avisar no serviço que vai chegar tarde. As filas resultantes costumam ser grandes e demoradas. De facto recebi a chamada, mas para meu espanto, não me disse que ia chegar atrasado, mas sim que o acidente tinha sido com ele.
Desloquei-me ao local e, ao chegar, o aparato do costume, enfim nada a que quase toda a população portuguesa ainda não tenha feito. Dirijo-me ao carro e subitamente apercebi-me da frágil condição humana, numa reacção desencadeada pelo aparecimento de pessoas com relações de amizade e que, instintivamente, nos fazem ceder aos nossos sentimentos mais profundos.
Assim, com a voz embargada, com lágrimas nos olhos, num rasgo de clarividência evidentemente relacionado com a proximidade com a morte, apenas disse:
-Pensei que nunca mais via os meus filhos.
Fui trespassado por um sentimento de solidariedade. Nesse momento, as lágrimas acercaram-se dos meus olhos e apenas não chorei por mero acaso.O resto não interessa.
Este drama humano, tantas vezes visto e revisto, terminou sem sequelas maiores, mas quantos e quantos não voltaram a ver os filhos, as mulheres e os maridos, os pais e os irmãos. Um manto de morte distende-se ominosamente sobre todas as estradas e parece que não faz diferença absolutamente nenhuma. Tudo o que se diz e faz não passa, por um lado, de meros artifícios de linguagem e, por outro lado medidas preventivas sem resultados, invariavelmente, são esquecidos. Nos carros, as pessoas convivem em permanência com esta condição, pensando que um dia, nesta ou naquela estrada serão confrontados com uma situação semelhante, ou pior.
Regressando às causas parece-me evidente que não podemos imputar os acidentes apenas à qualidade das estradas. As duas principais são o álcool e o excesso de velocidade.
Quanto ao primeiro, está regulado e apenas depende da consciência de cada um.
Quanto a o segundo, ocorre-me a história do escorpião e da rã: Resumidamente a rã ofereceu-se para atravessar o escorpião num riacho. A meio do caminho este espetou o seu ferrão na rã, que já moribunda lhe pergunta
– Porque fizeste isto?
Agora vamos morrer os dois.
Resposta – Não consegui evitar. È a minha natureza.
Quer isto dizer que é muito difícil resistir à tentações, aos fluxos de adrenalina provocados pela velocidade e que viciam e, com os meios disponíveis, utilizam-se. Em Portugal, o nível da falta de civismo na condução é insuperável. Após as várias tentativas infrutíferas de o transmitir à população, tudo continua vergonhosamente na mesma. É, por isso, que provavelmente não é feita a abordagem ao problema que a gravidade da situação exige.
Assim, todos sabemos que grande parte dos acidentes são provocados pelo excesso de velocidade e basta comprar uma revista da especialidade e olhar para a coluna das velocidades máximas para verificar que, pura e simplesmente, não existe uma única marca que indique que seu carro não ultrapassa os 120km/h ou mesmo, os 150Km/h.
Estamos perante, claramente, uma espécie de fábrica de ilusões. É irrefutável que saber de antemão que ao por à disposição das pessoas algo que os pode levar a violar a lei é um estímulo que deveria ser controlado por quem o pode fazer, nomeadamente o Estado, à semelhança do que faz com muitas outras coisas.
Provavelmente, o que é necessário é coragem para regulamentar e enfrentar os lóbis dos construtores de automóveis e ter sempre presente que, ao que parece, a única pessoa que conseguiu resistir à tentação, foi Jesus Cristo.
Filipe Pinto.

terça-feira, abril 18, 2006

O Massacre de Lisboa


A História de Portugal está repleta de factos gloriosos que nos enobrecem enquanto Nação, porém, também têm alguns acontecimentos hediondos, em que o fanatismo e a intolerância, tomaram conta da multidão, levando-os a assassinar cruel e estupidamente milhares de inocentes.
Nos próximos dias, 19, 20 e 21 de Abril, cumprir-se-ão quinhentos anos, de uma das mais negras e vergonhosas páginas da História de Portugal, o massacre de, entre três mil e quatro mil, cristãos - novos na cidade de Lisboa.
Na segunda metade do século XV, a Península Ibérica tinha mais judeus do que qualquer outra região do mundo. Ocupada durante séculos pelos muçulmanos, que concediam aos judeus liberdade de culto, a Península Ibérica tornou-se um refúgio ideal e palco de uma intensa troca civilizacional entre elementos das culturas cristã, muçulmana e judaica.
Com a chegada ao poder dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, que se auto-intitulavam protectores da Igreja e defensores da fé e, instigados pelo triste e dramaticamente célebre Torquemada, confessor da rainha Isabel e figura principal da Inquisição espanhola, a vida calma dos judeus sefarditas estava a chegar ao fim, com o crescimento da política anti-semita, baseada no desejo de uma unificação e purificação religiosa. Torquemada explorava a desconfiança popular em relação aos judeus e difundia a suposta necessidade de que o país contasse apenas com sangue puramente cristão.
Com um clima de crescente intolerância, em 30 de Março de 1492 Fernando e Isabel publicaram o seu édito de expulsão, que determinava que os judeus que não se convertessem teriam de deixar o país até ao dia 3 de Agosto de 1492 (por curiosidade histórica, este foi o dia em que Cristóvão Colombo, deixou o porto de Palos, na sua viagem de descoberta da América), a partir daí, os que fossem encontrados seriam mortos.
Muitos dos judeus procuraram refúgio em Portugal, (os cálculos sobre os números dos que então se fixaram em Portugal oscilam, segundo as fontes, entre 30 000 e 90 000), sendo protegidos pelo rei Dom João II.
No entanto esta protecção seria sol de pouca dura, pois com a morte do rei D. João II, subiu ao trono de Portugal, D. Manuel I, que começou alimentar o sonho de ser rei de toda a Península Ibérica. O fundamental passo para a sua ambição, era o casamento de D. Manuel com a filha dos Reis Católicos, de modo a facilitar uma união dinástica, no entanto havia uma condição sine qua non para o casamento, a expulsão dos judeus de Portugal. O Rei no seu sonho e ambição, acabou por aceitar a exigência espanhola de expulsar todos os judeus residentes em Portugal que não se convertessem ao catolicismo, assim no dia 5 de Dezembro de 1496, promulgou o édito de expulsão dos judeus. Por este édito os judeus e os mouros deveriam abandonar o reino até Outubro de 1497.
Na realidade D. Manuel não tinha qualquer interesse em expulsar esta comunidade, que então constituía um destacado elemento de progresso nos sectores da economia e das profissões liberais. A sua esperança era que, retendo os judeus no país, os seus descendentes pudessem eventualmente, como cristãos, atingir um maior grau de aculturação. Para obter os seus fins lançou mão de um subterfúgio, em vez de expulsar os judeus, decidiu convertê-los à força, tendo ordenado que os filhos menores de catorze anos fossem tirados aos pais a fim de serem convertidos.

"Na manhã de 19 de Março de 1497, padres e frades alinharam-se no adro de todas as igrejas de Portugal. Mas foram muito poucos os filhos dos judeus conduzidos espontaneamente à pia baptismal. Então, os funcionários do Rei foram de casa em casa e, arrancando os filhos do colo dos pais, levaram-nos à força. Muitos pais sufocaram os filhos ao apertá-los num derradeiro abraço. Muitas mães atiraram os bebés aos poços e depois suicidaram-se". Depois, quando chegou a data do embarque dos que se recusavam a aceitar o catolicismo, alegou que não havia navios suficientes para os levar e determinou um baptismo em massa dos que se tinham concentrado em Lisboa à espera de transporte para outros países. Muitos foram arrastados até à pia baptismal pelas barbas ou pelos cabelos. Ao que parece, cenas semelhantes registaram-se noutras cidades do país. Não existe contudo documentação oficial que confirme estes factos.
No fim do mês de Setembro de 1497, ficava saldado o preço que D. Manuel tivera de pagar para casar com a Princesa Isabel, de Espanha. O Rei respondeu à namorada afirmando que já não havia nenhum judeu em Portugal.
Para além dos que anteriormente tinham aceitado o baptismo sob pressão das circunstâncias, Portugal passava então a contar com uma enorme quantidade de cristãos -novos extremamente relutantes em aceitar o estatuto que lhes fora imposto. A situação dos convertidos era agora trágica. Antes, como judeus, tinham liberdade absoluta de praticar a sua religião. Agora, como cristãos por lei, não poderiam seguir o culto tradicional senão secretamente, sob pena de graves consequências. Céptico quando à ortodoxia dos convertidos, sobretudo dos forçados, D. Manuel promulgou a 30 de Maio de 1498 uma medida no sentido de que durante vinte anos não devessem ser molestados pelas suas convicções ou práticas religiosas.

Até 1506, os cristãos - novos puderam levar uma vida relativamente calma e prosperar. Mas o clero insistia:” O comportamento ambíguo dos marranos,( termo pejorativo, que designava os judeus obrigados a baptizarem-se à força, mas que continuavam a professar secretamente a sua fé), põe em causa muitas das certezas dos cristãos. E as consequências estão à vista: os costumes vão-se degradando, treme até o equilíbrio social. São necessários castigos exemplares, regras rígidas e dissuasoras. Nos casos mais graves, a própria morte.”
Devido a uma violenta seca que assolava Portugal, no princípio do ano de 1506 Portugal estava reduzidol à fome, agravada com uma peste que assolava a cidade de Lisboa, sendo que a sua intensidade em Abril era tanta que chegavam a “morrer um cento de indivíduos por dia”. “A culpa é dos marranos, que provocaram a ira de Deus com os seus pecados contínuos”, era a opinião comum. "Na manhã da Páscoa, 19 de Abril de 1506, uma enorme multidão enche a Igreja de São Domingos, para implorar o fim da epidemia. Por entre densas espirais de incenso e cânticos lúgubres, celebra-se a missa na Capela de Jesus. No momento da consagração, do braço de um crucifixo de madeira erguido ao lado do ostensório do altar-mor, solta-se inesperadamente uma luz. Alguém grita, Milagre! De imediato todos começaram a gritar e devido ao espanto e ao medo caíam por terra, desmaiavam, contorciam-se em convulsões, batiam no peito gritando a minha culpa. Entre a multidão enlouquecida, um marrano, murmurou, que era apenas um feixe de luz. De repente já ninguém se interessava pela cruz milagrosa. Logo se acendeu contra ele a indignação dos crentes, incitada talvez pelos autores do suposto milagre. O blasfemo foi empurrado para fora da Igreja e desfizeram-na antes de poder pôr o pé no adro. O seu corpo foi arrastado pelas ruas e depois queimado."
Entretanto, os marinheiros alemães, holandeses, franceses que estavam atracados no porto de Lisboa, juntaram-se à multidão em fúria. Seguiu-se um massacre. "Nesse Domingo, seiscentos marranos foram apanhados de surpresa nas suas cozinhas, nos pátios, nas hortas, na rua e até nas igrejas cristãs onde tinham procurado refúgio. Os homens foram degolados, as crianças esquartejadas, as mulheres violadas, foram saqueadas e incendiadas as casas, os animais, as hortas e os jardins".
No dia seguinte, dois dominicanos ,o frei português João Mocho e o frei aragonês Bernardo, alimentaram a fúria do povo marchando pelas ruas com o crucifixo milagroso na mão, e gritavam, “heresia, heresia!” incitando o povo a dar caça aos hereges. Rapidamente se alastrou o fanatismo e o desgoverno pela cidade. "
Os cristãos novos que desprevenidamente circulavam pelas ruas eram espancados e mortos, arrastados, às vezes ainda vivos, atirados às fogueiras prontamente construídas na Ribeira e no Rossio. A barbárie tomou as formas mais perversas, dando lugar à vingança, à calúnia, à luxúria e ao roubo. Alguns dos cristãos velhos foram perseguidos e, para se salvar, tiveram que mostrar que não eram circuncidados. Invadiram e saquearam as casas dos cristãos novos, maltratando homens, mulheres, velhos e crianças. Tomavam crianças dos peitos das mães e, segurando-as pelos pés, atiravam-nas contra paredes, esmagando seus crânios. Donzelas e mulheres casadas eram violadas e atiradas às fogueiras espalhadas pelas ruas inundadas por sangue. Com a chegada da noite veio também o cansaço dos carniceiros e a barafunda cessou, dando oportunidade para que os cristãos novos fugissem ou se escondessem, auxiliados por cristãos velhos verdadeiramente tementes a Deus". Nesse dia morreram cerca de dois mil cristãos novos. Na terça, 21 de Abril, como as vitimas escasseavam a multidão foi-se acalmando, deixando atrás de si, entre três e quatro mil lisboetas mortos.
Entretanto um mensageiro tinha ido ao encontro do Rei D. Manuel I, que devido à peste se encontrava, no seu palácio em Abrantes, para lhe dar conhecimento do massacre que estava em curso na cidade de Lisboa.
"O Rei Dom Manuel foi arrebatado por uma raiva incontrolável. Ficou horrorizado com a terrível matança, mas acima de tudo não admitia que os padres se arrogassem o direito de provocar massacres, e ordenando o castigo de quem provocara o “santo delírio”, enviou para Lisboa um pequeno exército chefiado pelo regedor Ayres da Silva e pelo governador Álvaro de Castro.

Os dois frades foram destituídos, estrangulados e queimados na fogueira. Foram executados mais 30 homens vistos a apunhalar, estuprar, desmembrar e queimar marranos. Os cidadãos em geral foram multados num quinto das suas propriedades e privados do direito de eleger os conselheiros comunais. Lisboa foi castigada com a proibição de exibir, durante seis meses, o altíssimo título de “cidade sempre leal”.

sábado, abril 15, 2006

A Modernidade Dos Pecados


Um leigo não pode ter a presunção de querer discutir religião a um nível demasiado elevado. O que se pode discutir são sentimentos. Uns sentem que não existe Deus, afirmação tão válida e respeitável como dizer o contrário. O problema é esta espécie de transe religiosa do qual não se consegue escapar por manifesto condicionamento, e que é continuamente alimentada por uma máquina de propaganda que exacerba os sentimentos religiosos, colocando-os no topo das preocupações existenciais sem a devida relativização. Neste sentido, mesmo nos tempos que correm, por vezes somos confrontados com algumas coisas que são absolutamente desarmantes. Por exemplo, descobrimos através da comunicação de um auto proclamado porta-voz da divindade, que algumas das principais actividades do mundo moderno podem ser consideradas pecados.
Uma pequena reflexão levanta uma questão pertinente. Quais os reais motivos que levam a considerar navegar na Internet, ver Televisão ou ler Jornais um pecado, mesmo se o tempo gasto nelas for superior ao que se “perde” a ler as sagradas escrituras? A resposta é obviamente simples, qualquer destas acções pode ter como consequência o despertar para as contradições entre o professado pelas religiões e a vida real. Enquanto que a formação hermética das sagradas escrituras impede a libertação do pensamento ao condicioná-lo nas suas opções e horizontes, qualquer destas práticas, no limite, tende a eliminar as barreiras da ignorância.
Ao que parece, estes pecados da era moderna não foram integrados por decreto papal em nenhuma lista oficial desta índole, o que seria supremamente irónico atendendo ao dogma da infalibilidade do Papa. Até porque afirmar que não é o acto em si, mas o tempo que se ocupa em cada uma das coisas que é importante, não é algo facilmente assimilável. Será que não é mais importante uma atitude correcta perante a vida do que ler as sagradas escrituras? Será que fazê-lo no lugar das outras coisas, confere ou retira dignidade moral enquanto ser humano? Se assim for, quem não dedicar tempo nenhum ás sagradas escrituras, ao fim de três segundos na Net, na TV ou a ler jornais, torna-se imediatamente um herege.
Em relação à televisão, ver alguns dos programas é realmente um pecado. Só que isto está apenas relacionado com o conteúdo e não com tempo que se passa em frente ao televisor. Mas mesmo assim, tais comportamentos têm de ser compreendidos. A vida, por vezes, é tão difícil que as pessoas precisam é de algo que as entretenha e não de ler um livro que ao longo das suas páginas, na sua análise ascética da natureza humana, lhes diz que tudo o que fazem é pecado. Na verdade, alguns dos programas são absolutamente inúteis e, portanto, o tempo poderia ser ocupado a ler jornais ou livros. Só que isto também é pecado. Se bem que em Portugal, atendendo aos números da literacia, o cumprimentos desta espécie de decreto já é seguida há muito tempo. Há sempre coisas em que nos conseguimos antecipar.
Como normalmente acontece, em face das críticas, inicia-se a vitimização. Acusam-se os que se pronunciaram contra esta espécie de censura de terem retirado do contexto as palavras proferidas e, na falta de argumentos, atacam quem se levanta contra as suas tentativas de condicionamento global. O mais comum é afirmar tudo não passa de uma alerta contra os comportamentos da sociedade e não como qualquer tipo de censura. Depois aparecem os seus arautos. Os defensores da moral religiosa e da sua prevalência sobre Homem, acusando quem não assume a sua fé (católica), de ser desequilibrado, e de não resistir ás tentações do mundo. Ou então a afirmar que se deveriam queimar todos os livros que questionam as palavras da Igreja Católica. Queimar livros, na essência, é queimar também quem os escreveu. Uma espécie de regresso ao período da inquisição, substituída pela inquisição ao pensamento, ao tentar obliterar qualquer forma de liberdade intelectual que não seja a sua.
Mas isto vai mudar. Se Deus quiser. Lá estou eu a pecar. A invocar o Santo nome de Deus em vão. (Ou não?)

Filipe Pinto.

quinta-feira, abril 13, 2006

Samuel Beckett


Considerado um dos maiores escritores e dramaturgos do século XX, o irlandês Samuel Beckett , faria hoje 100 anos se fosse vivo.
Samuel Beckett nasceu a 13 de Abril de 1906, na localidade de Foxrock, perto de Dublin, na Irlanda. Nascido no seio de uma abastada família protestante, não teve uma infância muito feliz e depressa se tornou num jovem infeliz. Inadaptado às regras de uma sociedade que considerava repulsiva, refugia-se na solidão, que faz transparecer em toda a sua obra.
Em 1923 ingressa no Trinity College, de Dublin para fazer a sua formação académica, onde em 1927, se licenciou em línguas modernas, francês e italiano, com uma excelente classificação.
Em 1928, Beckett mudou-se para Paris, onde conheceu James Joyce, e depressa se tornou um seguidor do escritor. Esta amizade será decisiva para a sua carreira literária. Aos 23 anos, escreveu um ensaio em defesa de "Ulisses", a obra-prima de James Joyce, que tinha sido proibida na sua Irlanda natal.
Depois de um estudo sobre Proust, Samuel Beckett, chegou à conclusão que o hábito e a rotina eram o “cancro do tempo”: o tempo, inexorável, ao qual estamos presos. Samuel Beckett, faz questão de nos lembrar, que a cada momento, o fim se aproxima, que a morte espreita, que o jogo irá acabar e nós irremediavelmente, perderemos. Se temos conhecimento disso, então por que continua-mos à espera?
Porquê? Porque devemos saber que enquanto se espera a vida continua e devemos vive-la da melhor forma possível, a cada segundo, compreendendo-a pequena e grandiosa ao mesmo tempo.
Por causa destas conclusões, abandonou o seu cargo no Trinity College e iniciou uma viagem pela Europa, visitando a França, Inglaterra e a Alemanha, onde viveu as mais diversas experiências que depois se traduziram em personagens.
Em 1938 fixou residência em Paris, onde dois acontecimentos o vão marcar para o resto da vida: é gravemente ferido ao ser agredido por um estranho, que lhe desferiu uma facada no peito, e conhece Suzanne Deschevaux-Dusmenoil, o amor da sua vida e com quem se casaria em 1961.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Beckett permaneceu em Paris, onde lutou pela Resistência, até que alguns membros o seu grupo foram presos e Beckett foi forçado a refugiar-se, com a sua mulher na zona conhecida como "França Livre", a parte da França que não tinha sido ocupada, pelas tropas nazistas.

Em 1945, regressou a Paris e iniciou o seu período mais prolífico enquanto escritor. No período cinco anos, entre 1948 e 1953, produziu a sua obra mais significativa. Escreveu "Eleutheria" (1948), "À espera de Godot" (1952), e a trilogia, universalmente aclamada como essencial à compreensão da experiência humana, “Molloy” (1951), “Malone está a Morrer” (1951) e “O Inominável” (1953).
O seu primeiro sucesso, chegou, em 1952 com "À Espera de Godot". Apesar das especulações, a pequena peça onde nada acontece, tornou-se num sucesso repentino e um marco no teatro do absurdo. As personagens desta peça, exemplificam a situação do homem encurralado num mundo de rotina: dois vagabundos, Vladimir e Estrabon, indecisos e inertes, esperam em vão a chegada de um personagem enigmático e misterioso, Godot, símbolo do inalcançável, que de um modo inexplicável, melhorará as suas vidas.
Depois do sucesso de "À Espera de Godot", Samuel Beckett dedica-se a traduzir os seus textos para inglês e volta a escrever nesta língua, construindo, um caso raro na Literatura moderna, uma obra bilingue.
As obras de Beckett traduzem com um grande poder de síntese, toda a condição humana. As questões que são necessárias esclarecer dessa condição são amplamente trabalhadas e poeticamente materializadas. Os personagens das suas obras, reflectem a posição do autor em relação à vida, à morte, aos desejos, aos fracassos e à impossibilidade da felicidade.
O reconhecimento crescente do seu trabalho culminaria com o Prémio Nobel da Literatura, em 1969. Depois disso e apesar de ser aclamado a nível mundial, continuou a escrever até à sua morte, que ocorreu em Paris, a 22 de Dezembro de 1989, vitima de enfisema, contra o qual lutou nos últimos três anos, da sua vida .

quarta-feira, abril 12, 2006

Yuri Gagarine


A Terra é azul!
Uma expressão banalíssima, no entanto, há precisamente 45 anos, era uma novidade planetária!
No dia 12 de Abril de 1961, Yuri Gagarine ficaria conhecido na História como o primeiro ser humano a viajar no espaço, a bordo do Vostok 1. Iria viver um sonho inspirado sessenta anos antes pelo cientista russo Constantin Tsiolkovsky, que no início do século XX já tinha arquitectado a base da astronáutica moderna.
Eram 7h07, no Cosmódromo de Baikonur no Casaquistão, quando a nave Vostok 1, descolou para o seu primeiro e único voo espacial. Pouco depois da descolagem, a 327 quilómetros de altura, Yuri Gagarine, por rádio, anunciava a todos os humanos a cor do nosso Planeta:
A Terra é azul!
Foi a exclamação do primeiro homem a ver o nosso planeta do espaço.
Foi um pequeno voo de 108 minutos, o suficiente para que Gagarine se tornasse, aos 27 anos num herói mundial.
Às 9.20 daquele 12 de Abril de 1961, Gagarine aterrou de pára-quedas, junto ao Volga, 700 kms a Sudeste de Moscovo, na aldeia de Saratov, uma camponesa e a sua filha não ganharam para o susto quando apareceu um ser vestido de cor-de-laranja e de escafandro.
-Vens do espaço?
Perguntou a anciã.
-Certamente sim, disse Gagarine, que se apressou a acrescentar, não se alarme, sou soviético.
Tratava-se do primeiro cosmonauta, acabadinho de chegar do espaço, onde esteve durante meia hora, tendo sido forçado a ejectar-se do Vostok 1, a uma altitude de sete mil metros.
Até ao desmoronar da União Soviética esta pequena história dentro da História foi ocultada. Seja pelo caricato da situação seja pelo facto de ter temido a desclassificação do feito por parte da Federação Internacional de Aeronáutica - um recorde só é validado quando tripulante e nave aterram juntos - o certo é que Moscovo ocultou os pormenores do regresso atribulado de Gagarine.
Quando o Vostok 1 estava a sobrevoar o continente africano tudo começou a correr mal. Na altura em que a aproximação ao planeta deveria começar, a cápsula não se soltou do módulo. Gagarine passou uns minutos agitados, para não dizer mais, até que a separação teve lugar, dez minutos depois do planeado. O jovem cosmonauta não teve tempo para retemperar forças: a sete mil metros de altitude a escotilha cede e vê-se obrigado a fazer o restante percurso de pára-quedas.

Quando chegou ao solo foi à procura de um telefone:
“-Está?
-É do Cosmódromo de Baikonur?
-Daqui fala Yuri Gagarine, na região de Saratov. É só para comunicar que já estou na Terra».
Podia ser o final de uma anedota, mas não é, foi através de um simples telefonema como este , hoje parece absolutamente incrível, que as autoridades soviéticas tomaram conhecimento do fim do primeiro voo espacial.
Durante a sua curta viagem, Yuri Alekseyevich Gagarine subiu dois postos na hierarquia militar, sendo promovido de tenente a major.
Yuri Alekseyevich Gagarine, nasceu no dia 9 de Março de 1934, em Klushino, mais tarde rebaptizada com o seu apelido, filho de um carpinteiro.
Quando tinha 7 anos, os alemães invadiram a União Soviética, o pai alistou-se no Exército Vermelho enquanto a sua mãe, ele, o irmão mais velho e a irmã se refugiavam num local mais seguro.
Já em plena Guerra Fria, ingressa numa escola, onde se forma em metalurgia, até ser chamado pela Força Aérea, em 1955.
Se é certo que o baptismo de fogo esteve longe de correr da melhor maneira, a partir daí Gagarine começou a evidenciar-se como um dos alunos mais valorosos. Graduou-se em 1957, pouco depois de Moscovo ter surpreendido o mundo com o lançamento do «Sputnik»,no dia 4 de Outubro de 1957, o primeiro satélite que o Homem colocou em órbita, tendo desencadeado a corrida espacial.
Em 3 Novembro, ainda longe de se imaginar no espaço, Gagarine casa-se com Valya, no dia em que a famosa cadela Laika foi colocada em órbita, a bordo do «Sputnik 2». Após a sua formação, foi colocado na Base Aérea de Murmansk, junto da fronteira com a Noruega, onde devido ao clima, voar era um risco sempre presente.
Dois anos depois, a Força Aérea pede voluntários, numa altura em que a União Soviética explora a Lua, com o envio das sondas «Lunik». Dos 3500 inscritos, foram escolhidos seis. Além de Gagarine, faziam parte dos eleitos Gherman Titov (que foi o primeiro cosmonauta a perfazer mais do que uma órbita, a bordo do Vostok 2), Valeri Bykovsky, Grigory Nelyubov, Adrian Nikolaev e Pavel Popovich.
O chefe do projecto espacial, Sergei Korolev, numa desconcertante atitude democrática, pediu certa vez aos seis futuros cosmonautas para elegerem quem devia fazer as honras do voo inaugural. «Tovarich» Gagarine recolheu três votos.
Dois dias depois, da mítica viagem, a 14 de Abril de 1961, a Praça Vermelha foi palco de uma recepção apoteótica ao “Magalhães do Espaço”, à qual não faltou sequer o líder da União Soviética, Nikita Krushtchev.
As aventuras espaciais do rapaz que ia ser metalúrgico não voltaram a repetir-se. Com a sua figura imortalizada em estátuas e selos, o nome na toponímia e o feito nas páginas de História, Gagarine regressou à sua condição de piloto da Força Aérea. Contudo, não aguentou o peso da fama tornando-se alcoólico.

Em 1962 foi eleito/nomeado deputado ao Soviete Supremo, tendo depois voltado para a “Cidade das Estrelas”, a base soviética de pesquisas e ensaios dos voos espaciais. Em 1967 foi escolhido para o lançamento do Soyuz, contudo este projecto foi abortado, após o acidente com o Soyuz que vitimou Vladimir Komarov.
E foi no «cockpit» de um caça MIG-15, em 27 Março de 1968, que o primeiro homem a orbitar a Terra morreu, durante um voo de rotina junto a Kirzhach. Há várias teorias sobre a causa da trágica morte de Gagarine, que vão desde o assassinato por parte do KGB, passando pela teoria que estava embriagado aos comandos do Mig 15, e finalmente, a teoria mais provável, da despressurização da cabine, que levou a tripulação, devido à falta de oxigénio, a perder o controle do avião e a despenhar-se.
Tinha 34 anos.