sábado, julho 01, 2006

Bravo, Ricardo!


Ricardo parece ter sido eleito para brilhar nos desempates da marca de grande penalidade. Depois de ter desempenhado o papel principal no apuramento para os quartos-de-final do Euro'2004, defendendo sem luvas o remate do britânico Vassel, hoje o guarda-redes português estabeleceu um novo recorde na história dos campeonatos do Mundo, sendo o primeiro a conseguir defender três penáltis. O guarda-redes Ricardo defendeu três remates ingleses, Frank Lampard, Steven Gerrard e Jamie Carragher. Ao bater este recorde histórico, Ricardo deixou para trás oito guarda-redes que tinham defendido dois penáltis, na série pós-prolongamento, em fases finais de Mundiais, entre eles, o alemão Shumacher e o argentino Goycoechea.
Ricardo o principal responsável, pela brilhante qualificação da selecção portuguesa para as meias-finais do Mundial de futebol Alemanha2006, ao ser o herói da vitória sobre a Inglaterra por 3-1, no desempate por grandes penalidades (0-0 no fim do prolongamento).
Portugal bateu os ingleses da mesma forma como o fez no Euro2004, quando se impôs por 6-5 no desempate por grandes penalidades (2-2 no fim do prolongamento) e o seleccionador Luiz Felipe Scolari afastou a Inglaterra de Sven Goran-Eriksson pela terceira vez, depois de também o ter feito no comando do Brasil, em 2002.
A selecção portuguesa actuou em superioridade durante uma hora, devido à expulsão do avançado Wayne Rooney aos 62 minutos, por agressão a Ricardo Carvalho, mas não conseguiu desfazer o "nulo", apesar de ter tido um golo anulado a Hélder Postiga, por fora de jogo.
David Beckham lesionou-se pouco antes, aos 52 minutos, e foi substituído por Aaron Lenonn, deixando desfalcada do seu habitual capitão a selecção britânica, que voltou a baquear no desempate por grandes penalidades.
A Inglaterra não conseguiu contrariar o que parece ser o seu destino, depois das eliminações nos penalties nos Mundiais de 1990 (frente à Alemanha) e 1998 (Argentina) e nos Europeus de 1996 (Alemanha) e 2004 (Portugal).


Arena AufSchalke, em Gelsenkirschen
Árbitro: Horacio Elizondo (Argentina)
Inglaterra – Robinson; Neville, Rio Ferdinand, John Terry e Ashley Cole; Owen Hargreaves; Beckham (Lennon, 51 m (Carragher, 118 m)), Gerrard, Frank Lampard e Joe Cole (Crouch, 65 m); Wayne Rooney.
Suplentes não utilizados: David James, Carson, Sol Campbell, Wayne Bridge, Jermaine Jenas, Carrick, Downing e Walcott.
Portugal – Ricardo; Miguel, Fernando Meira, Ricardo Carvalho e Nuno Valente; Tiago (Hugo Viana, 74 m), Petit e Maniche; Figo (Hélder Postiga, 85 m), Pauleta (Simão, 63 m) e Cristiano Ronaldo.
Suplentes não utilizados: Quim, Paulo Santos, Paulo Ferreira, Caneira, Ricardo Costa, Boa Morte e Nuno Gomes.
Disciplina: cartão amarelo a John Terry (29 m), Petit (43 m), Hargreaves (106), Ricardo Carvalho (110 m); cartão vermelho a Wayne Rooney (61 m)
Resultado: 0-0
Desempate nas grandes penalidades: Simão marcou (0-1); Lampard falhou (0-1); Hugo Viana falhou (0-1); Hargreaves marcou (1-1); Petit falhou (1-1); Gerrard falhou (1-1); Hélder Postiga marcou (1-2); Carragher falhou (1-2); Cristiano Ronaldo marcou (1-3).

Joguem e Ganhem


Portugal tenta hoje repetir a história e qualificar-se para as meias-finais de uma grande competição às custas da Inglaterra, em jogo dos quartos-de-final do Mundial de futebol Alemanha2006, depois da vitória de há dois anos no Euro2004.
às 16:00 de Lisboa, em Gelsenkirchen, portugueses e ingleses dão o pontapé de saída para o terceiro jogo dos "quartos" do Alemanha2006, que colocará a equipa vitoriosa na rota de Brasil ou França, que reeditam às 20:00, em Frankfurt, a final do Mundial de 1998 no último encontro de acesso às meias-finais.
Scolari, que já foi "carrasco" de Inglaterra no Euro2004 e no Mundial de 2002, ao serviço do Brasil, com o qual se sagraria campeão do Mundo, espera poder repetir a proeza, colocar Portugal entre as quatro melhores selecções do Mundo e levar de novo a melhor sobre o seu rival do banco inglês, o sueco Sven-Goran Eriksson.


Equipas prováveis:
Estádio: do Campeonato do Mundo, em Gelsenkirchen.
Árbitro: Horacio Elizondo [Argentina] Assistentes: Dario Garcia [Argentina] e Rodolfo Otero [Argentina] 4º árbitro: Coffi Codjia [Benim].
Inglaterra: Robinson, Garry Neville, Rio Ferdinand, Terry, Ashley Cole, Hargreaves, Gerrard, Lampard, Beckham, Joe Cole e Rooney.

Treinador: Sven-Goran Eriksson.

Portugal: Ricardo, Miguel, Fernando Meira, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Petit, Maniche, Figo, Simão Sabrosa, Cristiano Ronaldo e Pauleta.

Treinador: Luiz Felipe Scolari.

Joguem e ganhem!
O país parece ter a respiração suspensa, à espera deste momento de glória.
Força, Portugal.

sexta-feira, junho 30, 2006

Uma Maneira Diferente, de Vibrar com a Selecção Nacional...


"Para as longas semanas do Campeonato do Mundo de Futebol", diz a publicidade.
...Provavelmente, a sugestão é mais adequada aos "intelectuais do rectângulo à beira-mar plantado", que à maioria das mulheres portuguesas.

terça-feira, junho 27, 2006

Ronaldo: O Melhor Marcador da História do Mundial


Ronaldo tornou-se o melhor marcador da história do Campeonato do Mundo aos quatro minutos do jogo Brasil-Gana desta terça-feira. O golo que marcou em Dortmund foi o 15º do «Fenómeno» em fases finais e permitiu-lhe ultrapassar Gerd Muller, o «Bombardeiro» alemão que detinha o recorde há mais de 30 anos.
Ronaldo já tinha marcado dois golos no Mundial 2006, frente ao Japão, que junta aos oito de 2002 e quatro de 1998.
Por outro lado, o golo de Adriano contra Gana foi o 200.º golo do Brasil em Mundiais. É a primeira selecção a alcançar este número.
O Brasil, que participou de todos os Mundiais, tem agora 200 golos e é perseguido pela Alemanha, com 186 tentos. Os germânicos participaram em menos dois Mundiais que o Brasil, mais concretamente em 1930 e 1950.
O primeiro golo do Brasil foi marcado por Preguinho, a 14 de Julho de 1930.

O centésimo aconteceu em 1970 e o seu autor foi Pelé, na final contra a Itália (4-1).

segunda-feira, junho 26, 2006

A Batalha de Nuremberga


Fantástico! Portugal garantiu, este domingo, um lugar entre as oito melhores selecções do planeta ao alcançar, em Nuremberga, o apuramento para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo Alemanha-2006. O triunfo (1-0) sobre a formação ‘laranja’ não só reforçou a ‘tradição’ de a Equipa das Quinas levar a melhor sobre o conjunto actualmente orientado por Marco Van Basten – seis vitórias em dez encontros disputados, havendo apenas lugar a um desaire –, como fez, ainda, os comandados de Luiz Felipe Scolari atingir os objectivos a que se propuseram desde que foi garantida a sua presença em terras germânicas: chegar aos ‘quartos’.Pela frente, a nossa Selecção terá, agora, a Inglaterra, vencedora, horas antes, do duelo com o Equador, com um tento solitário de David Beckham. Gelsenkirchen (sábado, pelas 16h00, hora de Portugal Continental) será, então, o palco da quinta etapa de uma caminhada que todos desejamos só termine no próximo dia 9 de Julho, em Berlim.
- Ficha do Jogo -
Oitavos-de-final do Campeonato do Mundo Alemanha-2006.
Estádio do Campeonato do Mundo de Nuremberga.
Assistência: 41 mil espectadores.
Árbitro: Valentin Ivanov (Rússia).Árbitros Assistentes: Nikolay Golubev (Rússia) e Evgueni Volnin (Rússia).4º Árbitro: Marco Rodriguez (México).
PORTUGAL: Ricardo, Miguel, Fernando Meira, Ricardo Carvalho e Nuno Valente, Costinha, Maniche e Deco, Luís Figo (cap.) (Tiago, 84’), Cristiano Ronaldo (Simão Sabrosa, 33’) e Pauleta (Petit, 45’).
Suplentes não utilizados: Quim, Paulo Santos, Paulo Ferreira, Ricardo Costa, Marco Caneira, Hugo Viana, Boa Morte, Hélder Postiga e Nuno Gomes.
Treinador: Luiz Felipe Scolari.
Golos: Maniche (23’).
Disciplina: Cartão amarelo exibido a Maniche (19’), Costinha (31’ e 45’+1’), Petit (49’), Figo (59’), Deco (72’ e 77’), Ricardo (75’) e Nuno Valente (76’). Cartões vermelhos exibidos a Costinha (45’+1’) e a Deco (77’).
HOLANDA: Edwin Van der Sar (cap.), Khalid Boulahrouz, Andre Ooijer, Joris Mathijsen (Rafael Van der Vaart, 54’), Giovanni Van Bronckhorst, Wesley Sneijder, Mark Van Bommel (John Heitinga, 67’), Phillip Cocu (Jan Vannegoor of Hesselink, 84’), Robin Van Persie, Dirk Kuyt e Arjen Robben.
Suplentes não utilizados: Henk Timmer, Maarten Stekelenburg, Kew Jaliens, Denny Landzaat, Ruud Van Nistelrooy, Jan Kromkamp, Tim De Cler, Hedwiges Maduro e Ryan Babel.
Treinador: Marco Van Basten.
Disciplina: Cartões amarelos exibidos a Van Bommel (2’), Khalid Boulahrouz (7’ e 62’) e Van Bronckhorst (58’ e 90’+5’), Wesley Sneijder (72’) e Van der Vaart (74’). Catão vermelho exibido a Khalid Boulahrouz (62’) e a Van Bronckhorst (90’+5’).FonteFPF.

domingo, junho 25, 2006

Futebol a Alegria do Povo


Está na moda, pelo menos de parte de alguma da elite pensante portuguesa, atacar a alienação da população portuguesa provocada pelo mundial de futebol. Contudo, por muito que tentem esclarecer em longas e exaustivas dissertações, continuam sem explicar porque consideram que existe um problema com esta temporária fuga da realidade.
Não é necessário um raciocínio demasiado elaborado para perceber que este corte com o quotidiano é auto induzido e, não sendo perceptível a diferença entre o antes e o depois na forma como abordam a vida e os seus problemas, tudo isto mais parece um ataque ao jogo do que outra coisa qualquer. A única diferença reside nos limites da alienação. Assim, a atitude normal é fingir que os problemas não existem, enquanto que neste momento, durante os jogos esvaziam o cérebro de todos os pensamentos e retrocede-se do ponto de vista existencial aos primórdios da evolução humana, quando o significado da vida não era a questão fundamental.
Ao ler alguns artigos, sobreveio claramente uma ideia que quase se pode generalizar. Há pessoas que, na sua redutora concepção do mundo, não percebem que os outros possam ter interesses diversos dos seus. O comum dos mortais gosta de futebol. Quem se considera além dessa comunidade não pode sofrer dos mesmos males, sob pena de se tornar também comum. Se assim fosse, estes espíritos narcisistas estariam de alguma forma a negar-se o direito de serem condescendentes. Ao contemplarem extasiados a sua existência, intitulam-se de guardiães da moral pública e cívica, enquanto, deslumbrado e inconsciente, o povo apenas se preocupa com o futebol.
Convencem-se que apenas eles continuam a manter a vigilância perante tudo o que corre mal neste país, alertando todos os incautos que, quando a festa chegar ao fim, todos os problemas ainda cá estarão. Esta atitude é de uma arrogância e de um autismo sem limites.
De uma arrogância porque é uma forma de se colocarem à margem num patamar de superioridade, conseguindo, deste modo, evidenciar-se. A sua mensagem é simples:
-As pessoas inconsequentes não têm a capacidade de perceber as consequências deste estado de transe futebolístico e são, por isso mesmo portadoras de uma insondável imoralidade, com origem na forma efusiva com que vivem o mundial de futebol. Para grandes males, grandes remédios e cá estão os auto nomeados protectores para impedir o esquecimento e, aproveitando a ocasião, exercerem a sua função de educadores.
De autismo, e aqui é que se revelam no seu pior, porque não se apercebem o porquê da necessidade de alienação, ou melhor, de uns momentos de abstracção. Se atentarmos ás agruras com que quase todas as pessoas convivem diariamente, este distanciamento conseguido, ainda que efémero, constitui o único momento de ausência de preocupações, uma espécie purga momentânea do sofrimento suportado.
Assim, com maior ou menor gravidade, a vida não está fácil para a maioria de população mundial. As guerras, a fome, as doenças, problemas ambientais, os problemas sociais, são factores não apenas de instabilidade social, mas também, e fundamentalmente, de instabilidade pessoal.
Quem pode, por tudo isto, condenar esta busca de esquecer? Ninguém. Confrontar-se minuto a minuto com o espectro do desemprego, com o mês que sobra para o dinheiro que se tem, com a falta de expectativas para o futuro, é algo desesperante. Dói na alma com uma intensidade, que só que tem estes problemas o sente verdadeiramente. Para os outros, esses que escrevem, não passam de temáticas para emitirem um opinião massacrante e desfasada da realidade.
Às pessoas a quem são pedidos continuamente sacrifícios, a quem se apontam todos os defeitos, para os quais crise e vida são uma e a mesma coisa exige-se mais do que é possível suportar. A título de exemplo e não raras vezes, eis que surge uma série de iluminados com comentários do género, - “temos que subir a taxa de juro, para controlar a inflação” – palavras que ferem com adagas o já muito mutilado cérebro obrigado a uma permanente ginástica mental para a sobrevivência económica, enquanto sentem o nó na garganta a apertar mais um bocadinho.
Que convive diariamente com a subida dos lucros dos bancos em coexistência com a subida das suas dificuldades para sobreviver, não merece que lhe dêem alguma folga existencial? À sua escolha? Sem virem os arautos da desgraça e putativos portadores da moral cívica a exercer uma crítica que não é justa.
O futebol é, deste modo, como o álcool, sem provocar os estragos quase permanentes que estão associados ao alcoolismo. Assim como a ressaca traz consigo as lembranças que o álcool pretendia afogar, o fim dos jogos ou da festa trazem a vida com eles. Só que uma purga pode ter efeitos rejuvenescedores, o distanciamento conseguido pode permitir amolecer uma qualquer obsessão e garantir um reposicionamento face aos problemas. Se assim não for, o caminho para a depressão é retomado, após um curto intervalo. Em suma, o que se procura é uma abstracção que permita alguma espécie de felicidade, ainda que efémera. Será isto condenável?

Filipe Pinto.

Uma Dose Extra de Vitamina C...


... antes de comer os bifes!
A Holanda volta hoje a estar no caminho de Portugal rumo à final de uma grande competição de futebol, agora nos oitavos-de-final do Mundial Alemanha2006, às 20:00 , em Nuremberga.
A última vez que as duas equipas defrontaram foi a 30 de Junho de 2004 nas meias-finais do Euro2004, tendo então Portugal "carimbado" o acesso à final com uma vitória por 2-1, com golos de Cristiano Ronaldo e Maniche e um auto-golo de Jorge Andrade.
O encontro do Estádio José Alvalade, em Lisboa, marcou a última derrota dos holandeses em competições oficiais e ainda a despedida de Dick Advocaat do comando técnico da equipa "laranja".
A Holanda passou então a ser orientada por Marco van Basten e nos 12 encontros da qualificação para o Mundial averbou 10 vitórias e dois empates, pelo que, somando os jogos do Alemanha2006, já vai numa série de 15 jogos oficiais sem conhecer a derrota.
O único desaire sob o comando de Van Basten aconteceu a 12 de Novembro de 2005, por 3-1 num encontro particular com a Itália, disputado em Amesterdão.
Na Alemanha, a Holanda venceu os dois primeiros jogos, face à Sérvia e Montenegro (1-0, com um tento de Arjen Robben) e à Costa do Marfim (2-1, com golos de Robin van Persie e do "inevitável" Ruud van Nilstelrooy) e empatou com a Argentina (0-0).
Se o passado recente dá aos holandeses razões para acreditar nas credenciais de Marco Van Basten, a história de confrontos com a turma das "quinas" é largamente favorável aos portugueses: cinco vitórias, três empates e uma derrota (11-5 em golos).
Portugal pode ainda orgulhar-se de ter conseguido o pleno de pontos no Grupo D da fase preliminar do Mundial, a par com Alemanha, Brasil e Espanha, marcando cinco golos e apenas sofrendo um, na vitória sobre o México, por 2-1.
Pauleta, Cristiano Ronaldo, Deco, Maniche e Simão foram os autores dos cinco golos de Portugal, que na primeira fase registou ainda triunfos frente a Angola (1-0) e Irão (2-0).
Em Nuremberga, deverá quase repetir o "onze" que venceu a Holanda em Alvalade, excepção feita a Jorge Andrade, substituído por Fernando Meira devido à lesão sofrida pelo jogador do Deportivo da Corunha ainda antes do Mundial.
A Holanda mudou bastante sob o comando de Van Basten e apenas o guarda-redes Van der Sar, o defesa Van Bronchorst, o médio Cocu, o extremo Robben e o avançado Van Nistelrooy se mantêm como prováveis titulares em relação ao jogo do Euro2004, embora o ponta-de-lança do Manchester possa até ceder o lugar Dirk Kuyt.
O vencedor do encontro defronta nos quartos-de-final a selecção que ganhar o outro encontro de hoje, a disputar a partir das 16:00 entre Inglaterra e Equador, em Estugarda.
- Em Nuremberga, 20:00 (SIC e SportTV).

Equipas prováveis:
Holanda: Van der Sar, Boulahrouz, Ooijer, Mathijsen, Bronckhorst, Van Bommel (Van der Vaart), Sneijder, Cocu, Van Persie, Van Nistelrooy (Kuyt) e Robben.
Portugal: Ricardo, Miguel, Fernando Meira, Ricardo Carvalho, Nuno Valente, Costinha, Maniche, Deco, Figo, Cristiano Ronaldo e Pauleta.
Lusa.

sábado, junho 24, 2006

Por Favor, Faça Download...


...e dê uma ajuda à música portuguesa.
"Sempre que sacas uma música estás a contribuir para que os nossos concertos acabem".
D'zrt.

sexta-feira, junho 23, 2006

Ronaldo iguala Müller como melhor marcador da história dos Mundiais


O atacante Ronaldo igualou ontem o alemão Gerd Müller como o melhor marcador da história dos Campeonatos do Mundo, ao fazer dois golos na vitória do Brasil, por 4 a 1 contra o Japão, em Dortmund, na última jornada do Grupo F na competição.
O jogador do Real Madrid marcou o primeiro e o quarto golo da selecção na goleada sobre os japoneses. Com isso, o atacante Ronaldo chegou à marca de 14 golos e igualou o alemão Müller, que havia marcado por dez vezes no Mundial do México em 1970 e quatro no Mundial da Alemanha em 1974.
Além dos dois golos marcados ontem na partida diante do Japão, Ronaldo foi o goleador do Mundial Coreia-Japão em 2002 com oito golos, e fez mais quatro na edição de 1998, em França.
Na partida em Dortmund, o avançado do Brasil deixou para trás na tabela dos melhores goleadores em Mundiais o francês Just Fontaine, que soma 13 golos, todos no Mundial da Suécia em 1958 e Pelé, que totaliza 12, em quatro edições do torneio.
Lista dos melhores marcadores da história dos Mundiais:
.1. Gerd Müller (ALE) 14 + Ronaldo (BRA) 14 .
2. Just Fontaine (FRA) 13 .
3. Pelé (BRA) 12 .
4. Sandor Kocsis (HUN) 11 .+. Juergen Klinsmann (ALE) 11 .
5. Helmut Rahn (ALE) 10 .+. Teófilo Cubillas (PER) 10 .+. Grzegorz Lato (POL) 10 .+. Gary Lineker (ING) 10 .+. Gabriel Batistuta (ARG) 10.
6. Eusébio (POR) 9.

quinta-feira, junho 22, 2006

A Mão de Deus


De acordo com um inquérito aos fãs de futebol levado a cabo pelo Yahoo!, o controverso golo de Diego Maradona marcado com a “Mão de Deus” contra a Inglaterra, em 1986, é o momento mais recordado da história do Mundial de Futebol.
O inquérito, patrocinado pela Philips, questionou 4.500 adeptos de futebol na Argentina, Brasil, México, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, França, Espanha e Holanda, sobre vários temas relativos ao Mundial de Futebol, antecipando o próximo Campeonato que se disputa na Alemanha e do qual a Philips é Patrocinador Oficial.
45% dos inquiridos consideraram o golo do jogador argentino contra a selecção da Inglaterra em 1986 como o momento mais memorável dos Campeonatos do Mundo. Este exemplo recolheu maioria de votos em países como a Argentina, Brasil, México e Itália.

Passam hoje vinte anos.
Certamente este foi um dos golos mais famosos da carreira do polémico génio argentino. A partida, válida para os quartos-de-final do Campeonato do Mundo de 1986, no México, estava cercada de expectativas. Poucos anos antes, Inglaterra e Argentina tinham- se envolvido num conflito armado pela posse das Ilhas Malvinas.
Liderando uma selecção visivelmente limitada, Maradona era a maior fonte de preocupações da Selecção Inglesa. Com marcação especial, a selecção britânica vinha conseguindo segurar o jogador argentino até o sexto minuto do segundo tempo.
Porém após uma tabela entre Maradona e o atacante Valdano, um recuo errado do defesa central Peter Reid propiciou ao craque argentino ter condições de disputar uma bola aérea com o guarda-redes inglês Peter Shilton.
Contudo, Peter Shilton estava melhor colocado e a bola estava dentro da área, onde ele poderia se antecipar usando o braço. Surpreendendo Shilton, Maradona aproveitou-se do posicionamento que encobria a visão do árbitro tunisino Ben Naceur e esticou a mão, fazendo um “chapéu” ao guarda-redes e marcando o golo que abriria o caminho para a vitória.
Os jogadores ingleses correram para o árbitro certos de que ele anularia o golo. Só a diferença de estatura entre Shilton e Maradona já era o suficiente para concluir que Maradona não podia alcançar a bola sem usar o braço. Mas Naceur olhou para o seu auxiliar, que validou o golo.
O episódio destabilizou a equipa inglesa, que ainda veria Maradona marcar mais um, desta vez um golo legal, considerado o mais bonito golo de toda a história dos Mundiais.A uma pergunta sobre o lance após o jogo, Maradona limitou-se a responder: “Este golo foi feito pela cabeça de Maradona e a mão de Deus”.

Data: 22 de Junho de 1986

Assistência:114580 espectadores.

Argentina 2 – 1 Inglaterra

Local: Estádio Azteca, na Cidade do México.

Argentina: Pumpido; Cuciuffo, Brown, Ruggeri, Olarticoechea; Batista, Giusti, Burruchaga (Tapia) e Enrique; Valdano e Maradona.

Inglaterra: Shilton ; G.M.Stevens, Butcher, Fenwick e Sansom; Hoddle, Steven (Barnes), Reid (Waddle) e Hodge; Lineker e Beardsley.

Golos: Maradona aos 51 e aos 54 minutos; Lineker aos 80 minutos.

quarta-feira, junho 21, 2006

Qual Choque Tecnológico?...


Portugal é um dos seis países da União Europeia onde mais de metade da população não tem quaisquer competências informáticas básicas. A nível global, os números são igualmente significativos mais de um terço da população europeia (37%) tem conhecimentos nulos de informática. Estes resultados obtidos pelo Eurostat, o instituto de estatística da UE, são uma má notícia para os responsáveis europeus, que perspectivam uma economia competitiva baseada na inovação.
De acordo com o estudo realizado pelo Eurostat relativo ao ano 2005, a Itália, a Grécia, a Hungria, Portugal e Chipre são os países com os maiores índices de desconhecimento informático na Europa. Pelo contrário, são essencialmente os países nórdicos que apresentam os melhores indicadores, surgindo em primeiro lugar a Dinamarca, a Suécia e o Luxemburgo. Em Portugal, este “analfabetismo informático” atinge 54% da população, que é considerada incompetente de acordo com os seis critérios utilizados pelo Eurostat para medir tais capacidades.
O estudo avaliou a capacidade de usar um “rato” para lançar programas como os que permitem aceder à Internet ou utilizar o processamento de texto “Word”; copiar ou mover um ficheiro; copiar, duplicar ou transferir informação; efectuar operações básicas de aritmética (subtracção, adição, divisão e multiplicação); comprimir ficheiros; ou ainda escrever um programa de computador usando linguagem especializada. Mas a idade tem uma importância fundamental nestes resultados. Do total de portugueses totalmente incompetentes na matéria, apenas 13% pertencem ao grupo etário dos 16-24 anos, enquanto 49% integram o grupo dos 25-54 anos.
Em Portugal, como noutros estados-membros, a educação também é factor determinante das competências informáticas. Só 1% dos estudantes e 5% dos cidadãos com um grau de educação superior e se revelam incompetentes. Em contrapartida, os desempregados portugueses registam um índice elevado, 57%, de iliteracia informática.Piores que os portugueses, estão os gregos (dos quais 65% não sabem usar um computador), italianos (59%) e húngaros (57%). Chipre e Lituânia apresentam taxas de iliteracia informática de 54 e 53%, respectivamente.
No extremo oposto, aparecem Dinamarca, Suécia, Luxemburgo, Alemanha e Reino Unido onde só menos de um quarto da população se encontra nessa situação.No conjunto da UE-25, mais de um terço da população não tem quaisquer competências na matéria, com diferenças assinaláveis entre gerações e entre grupos sociais. Em média, 65% dos idosos (entre 55 e 74 anos) não sabem usar o computador, embora a percentagem de iliteratos varie entre 93% na Grécia e 27% na Dinamarca e Suécia. Não foram disponibilizados dados relativos aos idosos portugueses.
O Eurostat também quantifica a percentagem de população com um elevado nível de conhecimentos informáticos. Aqui a média europeia é de apenas 22%, contra 42% no Luxemburgo e 39% na Dinamarca e 32% na Suécia.
Em Portugal, a distribuição da população com maiores conhecimentos informáticos é notória em particular na escalão dos 16-24 anos (42%) e entre os estudantes (65%) e os detentores de graus superiores (63%). Em termos gerais, 21%da população portuguesa revela bons conhecimentos nesta área. O estudo do Eurostat foi realizado sem os dados de oito países da UE (França, Espanha, Bélgica, Irlanda, República Checa, Malta, Holanda e Finlândia), tidos como fortes em conhecimentos informáticos, mas representa 60% da população europeia. JN.

segunda-feira, junho 19, 2006

Roald Amundsen


Roald Engelbregt Grauning Amundsen, nasceu em 16 de Julho de 1872, perto de Oslo, Noruega e deixou a sua marca na era heróica das expedições antárcticas como um dos mais bem sucedidos exploradores polares. A sua carreira de aventuras começou aos 15 anos, quando abandonou os estudos medicina, para se juntar à expedição belga à Antártida em 1899,comandada por Adrien de Gerlache, esta expedição foi a primeira a passar um Inverno na Antártida. Mais tarde, Amundsen tornou-se o primeiro a atravessar a famosa Passagem do Noroeste, no seu navio “Gjoa”, entre 1903 / 1906. Após esta expedição, Amundsen estabeleceu os planos para alcançar o Pólo Norte, a bordo do famoso navio de Nansen, o “Fram”. Porém, a notícia do sucesso de Peary da chegada ao Pólo Norte fez com que ele mudasse o seu objectivo.
“O Pólo Norte foi alcançado”, era a notícia que se espalhou por todo o mundo como um relâmpago. Robert E. Peary tinha alcançado o Pólo Norte em 6 de Abril de 1909 mas só em Setembro de 1909 a noticia chegou a Amundsen. O plano original para a terceira viagem do “Fram” – a exploração da calote polar norte – foi rapidamente deixado de lado. Para salvar a expedição, Amundsen imediatamente voltou a sua atenção para o Sul, enquanto enfatizava aos seus financiadores que a viagem do “Fram” ao Árctico seria, de todo modo, uma expedição científica, e não teria nenhum propósito de quebrar recordes. Daí por diante, tanto quanto os patrocinadores estavam cientes, a viagem de Amundsen ao Árctico não seria influenciada de nenhuma maneira pelo sucesso de Peary. Como ele estava tão endividado, sentiu que deveria manter os seus planos de dirigir-se ao Pólo Sul em segredo.
Amundsen escreveu: “Eu sei que tenho sido reprovado por não ter esclarecido os meus planos publicamente ao menos uma vez, de maneira que, não apenas os meus patrocinadores, mas também os exploradores que se preparavam para seguir para as mesmas regiões tivessem conhecimento deles. Eu estava bem ciente de que essas críticas viriam e, daí por diante, sempre pesei cuidadosamente este lado da questão”.Também achou importante manter as suas intenções secretas para os colegas exploradores: “... Nem senti grandes escrúpulos em relação às outras expedições antárcticas que estavam a ser planeadas naquela época. Eu sabia que poderia informar o Capitão Scott da extensão de meus preparativos antes que ele deixasse a civilização, e então, alguns meses a mais ou a menos não poderiam ser de grande importância. Os planos e equipamentos de Scott eram tão diferentes dos meus próprios, que eu considerei o telegrama que lhe mandei mais tarde, com a informação de que estávamos de partida para a região antárctica, mais como um acto de cortesia do que como uma comunicação que pudesse fazê-lo alterar os seus planos no mais ínfimo grau. A expedição britânica foi planeada exclusivamente para fins de pesquisa científica. O Pólo Sul era apenas um objectivo secundário, enquanto no meu plano era o objectivo principal”.
A intenção de Scott de tentar alcançar o Pólo Sul era amplamente conhecida, e certamente não era um objectivo secundário. Amundsen admitia que estava endividado, e sabia que a melhor maneira de conseguir dinheiro, para pagar as dívidas, seria alcançar um triunfo espectacular. Escreveu; “Se, àquela altura, eu tivesse tornado os meus planos públicos, somente teria dado ocasião para uma grande polémica pelos jornais, e possivelmente teria matado o meu projecto à nascença. Tudo tinha que ser aprontado rápida e calmamente. O meu irmão, em cuja absoluta discrição eu podia confiar cegamente, foi a única pessoa a quem eu confiei o segredo da minha mudança de planos, e ele fez muitos serviços importantes durante o tempo em que somente nós, dividimos este conhecimento. O outro homem a saber da mudança de planos foi o comandante do navio, Tenente Thorvald Nielsen. Amundsen manteve seus planos tão secretos, que apenas estes dois homens, juntamente com os Tenentes Prestrud e Gjertsen, sabiam deles antes que o “Fram” alcançasse a Ilha da Madeira, ostensivamente em rota para Buenos Aires, de onde partiria rumo ao Norte, para o Árctico. A viagem até a Ilha da Madeira tinha, supostamente, o propósito de pesquisa oceanográfica.
Os noruegueses deixaram Oslo, na Noruega, a 9 de Agosto de 1910, oito semanas depois que a expedição de Scott havia deixado Cardiff. A bordo, estavam 97 cães da Groenlândia, a chave para o sucesso de Amundsen, junto com uma cabana e provisões para dois anos na Antártida. Um mês depois, o “Fram” chegou à Ilha da Madeira, e abasteceu-se de água e outras provisões. Pequenos reparos foram feitos no navio, enquanto a tripulação aproveitava algum tempo livre em terra.
Na noite de 9 de Setembro, cerca de três horas antes de partir para a Antártida, Amundsen pediu a atenção da tripulação. Muitos dos homens ficaram intrigados e irritados, pois estavam a escrever as últimas cartas para casa. Quando chegaram ao “deck”, Amundsen estava em pé, próximo a um mapa da Antártida pregado ao mastro principal. Então disse: “É minha intenção rumar ao Sul, desembarcar um grupo no continente, e tentar alcançar o Pólo Sul”.Gjertsen escreveu: “A maioria ficou, boquiaberta, olhos pregados no Chefe, como outros tantos pontos de interrogação”.Amundsen perguntou pessoalmente, a cada homem, se, se juntariam a ele nesta jornada épica. O último homem a ir à terra foi o irmão de Amundsen, Leon. A sua tarefa seria enviar as cartas da tripulação, e enviar uma mensagem a Scott... mas nunca antes do início de Outubro, quando Amundsen sabia que estaria além do ponto de retorno possível.
Depois de deixar a Ilha da Madeira, Amundsen desapareceu, rumando para destino desconhecido. Scott nunca sonharia que este era o Mar de Ross, na Antártida. Scott, a bordo do “Terra Nova”, chegou a Melbourne na noite de 12 de Outubro de 1910.
Junto com o correio que o esperava, estava o telegrama de Amundsen, mandado da Ilha da Madeira, o qual trazia uma completa surpresa:“Estou partindo. Informo-o. Destino Antárctida. Amundsen”.
Levou quatro meses para que o “Fram” chegasse à Baía do Mar de Ross, em 14 de Janeiro de 1911. Amundsen escolheu a Baía das Baleias como quartel-general de Inverno, por várias razões. Primeiro, eles desembarcariam um grau mais perto do Pólo Sul do que Scott, que o colocaria 60 milhas mais perto do Pólo. Segundo, Amundsen poderia instalar o seu quartel-general bem junto ao campo de trabalho. Terceiro, a vida animal na Baía das Baleias era extraordinariamente rica, e oferecia toda a carne fresca que a tripulação precisava, na forma de focas, pinguins, etc. Além disso, ela oferecia um local favorável para investigação das condições meteorológicas em todas as direcções, e era muito fácil de ser atingida por navio. O descarregamento começou a 15 de Janeiro, com o acampamento estabelecido 2 milhas (3,2 km) terra adentro.
O primeiro trenó foi carregado com mantimentos, atado a oito cães, e conduzido para lá por Amundsen.Durante as três semanas seguintes, cinco trenós, 46 cães e cerca de 10 toneladas de mantimentos foram descarregados no campo base. Enquanto isso, o carpinteiro, Jorgen Stubberud, supervisionava a montagem da cabana pré-fabricada. Depois de uma visita do “Terra Nova” de Scott, o campo base foi baptizado de “Framheim – A casa de Fram”, e as viagens para estabelecer os depósitos de mantimentos de apoio começaram. Dentro de um período de três semanas, depósitos foram estabelecidos a 80ºS, 81ºS, 82ºS... Mais de uma tonelada e meia de mantimentos foram armazenadas dentro de um raio de 480 milhas (770 km) do Pólo. Em 21 de Abril, o Sol finalmente pôs-se, e o longo Inverno começou.
Uma grande quantidade de trabalho tinha que ser feita durante os quatro meses seguintes, preparando a expedição ao Pólo. Amundsen estava plenamente consciente dos problemas potenciais que poderiam advir de ter nove homens confinados em quartos pequenos durante as longas noites de Inverno, e assim introduziu rapidamente uma rotina estrita. Durante seis dias da semana, os homens levantavam às 7:30 da manhã, tomavam o café da manhã, começavam a trabalhar às 9:00 e almoçavam às 12:00. Voltavam para o trabalho às 2:00 da tarde até às 5:15, com o resto dia para fazer o que quisessem.
Em 24 de Agosto o Sol reapareceu, e os trenós carregados foram tirados dos seus abrigos subterrâneos. Porém, outros dois longos e frustrantes meses se passaram, até que o tempo aquecesse o suficiente para permitir a partida. A tensão aumentava a cada dia que passava. Amundsen, várias vezes, preparou os homens e os cães para partirem, apenas para cancelar tudo à última hora. No dia 8 de Setembro, partiram através do gelo: oito homens com trenós, puxados por 86 cães. A princípio, o tempo estava esplêndido, e eles cobriram 31 milhas em três dias.
Mas, as condições mudaram abruptamente, com a temperatura caindo vertiginosamente, tiveram que desistir, e voltar ao acampamento. Finalmente, a 20 de Outubro de 1911, Amundsen, Bjaaland, Wisting, Hassel and Hanssen partiram na sua jornada definitiva para o Pólo Sul. Quatro trenós foram usados, cada um puxado por 13 cães. O progresso foi bastante bom, apesar de alguns problemas com fendas no gelo, chegaram ao depósito situado a 80ºS a 24 de Outubro.
Alimentaram os cães com carne de foca, armazenada ali, e repuseram as provisões que gastaram no caminho. No dia seguinte, partiram cedo, com os cinco homens em esquis. Percorriam em média 20 milhas (32 km) por dia, e alcançaram 82ºS a 4 de Novembro.Em 11 de Novembro, avistaram alguns picos de montanhas ao longe, as quais Amundsen chamou de “Serra da Rainha Maud”, em homenagem à então Rainha da Noruega.
Chegando ao sopé da serra, acamparam e discutiram a estratégia a ser empregada na arrancada final para o Pólo, distante ainda, cerca de 340 milhas (544 km).O plano final consistiu em separarem provisões para 30 dias, juntamente com os restantes 42 cães, e subir a serra. Depois de alcançar o topo, 24 dos cães seriam mortos, e a carne utilizada para alimentar os outros, pois não seriam mais necessários, usando os outros 18 cães para chegar ao Pólo. Lá chegando, mais 6 cães seriam mortos, para alimentar os 12 restantes na viagem de volta à base. A 17 de Novembro, eles começaram a escalada do glaciar Axel Heiberg.O tempo estava agradável, e a escalada foi muito tranquila, pois cobriram 12 milhas (19,2 km) antes de montar acampamento, a 650 m de altitude.
Quatro dias depois, a 21 de Novembro, encontravam-se no topo, tendo conseguido carregar 1 tonelada de provisões a 3.000 m. 24 Cães foram mortos, e a equipa permaneceu ali por mais 4 dias, antes de partir. Como já haviam esperado dois dias a mais do que haviam planeado, não tinham escolha, que a de sair dali o mais rápido possível.Durante os 10 dias seguintes lutaram, 5 homens e 18 cães, contra a neve, rajadas de vento de até 35 milhas (56 km) por hora, e espessa neblina. Finalmente alcançaram o planalto, só para se defrontarem com o “Salão de Dança do Diabo”, um glaciar com uma fina camada de neve cobrindo perigosas e profundas fendas no gelo. Esta provou ser a parte mais difícil da jornada.A 8 de Dezembro, com o sol brilhando, cruzaram o ponto mais ao sul alcançado por Shackleton, 88º23’S. Estavam a apenas 95 milhas (152 km) do Pólo.
Os cães estavam famintos e exaustos, e os homens tinham muitos ferimentos, e queimaduras faciais, mas ainda assim, seguiram em frente. Quanto mais se aproximavam do Pólo, mais Amundsen temia ser derrotado por Scott.A tentação de correrem para o Pólo, a toda velocidade, era compartilhada por todos eles. Às 15.00 horas do dia 14 de Dezembro de 1911, houve um grito geral de “Alto”, pois os instrumentos dos trenós marcavam a chegada ao Pólo Sul. Haviam alcançado o seu objectivo. Num acto simbólico do seu esforço e união, todos os homens empunharam uma bandeira da Noruega nas suas mãos queimadas pelo gelo, e fincaram-na no chão duro do Pólo Geográfico Sul. Amundsen nomeou o planalto de “Planalto do Rei Haakon VII”.Houve uma pequena festa na tenda, naquela noite, com cada homem recebendo uma pequena porção de carne de foca.
À meia-noite, observações astronómicas situaram-nos a 89º56’S. Prontamente, eles circularam em redor da tenda, num raio de cerca de 2,5 milhas (4 km), para se certificarem de passar sobre o Pólo. Ao meio-dia de 17 de Dezembro, as medições finais foram feitas, e ficou claro que eles haviam feito tudo que podiam, e era hora de partir. Uma tenda foi erguida, e recebeu o nome de “Poleheim – Casa do Pólo”, onde Amundsen deixou uma mensagem para Scott, juntamente com uma carta para o rei Haakon.Entretanto, Robert Falcon Scott (nasceu 1868, morreu em 1912) tinha partido do seu acampamento – base no dia 1 de Novembro de 1911 com 16 homens, 233 cães, 10 póneis siberianos e 13 trenós, com um pesado equipamento para pesquisa científica. Em determinados intervalos, alguns homens propositadamente abandonavam a equipa e retornavam ao acampamento base, deixando mantimentos ao longo do caminho para assegurar o retorno de Scott e a sua equipa. Alguns trenós quebraram, os póneis tiveram de ser abatidos e os cães não tinham condições para carregar tanto peso.
No dia 4 de Janeiro de 1912, enquanto Amundsen já fazia a viagem de regresso do Pólo Sul, o último auxiliar deixou a equipa. Scott, ficou com 4 homens, Bowers,Evans, Oates e Wilson. Com enormes dificuldades alcançaram o Pólo Sul no dia 17 de Janeiro de 1912 e descobriram que Amundsen já tinha alcançado o feito histórico.Os britânicos, exaustos e desiludidos começaram a viagem de regresso ao acampamento base. Entretanto condições de tempo muito adversas e problemas de falta de mantimentos iria impedi-los de chegarem ao acampamento. O primeiro a morrer foi Evans. Alguns dias depois Oates abandonou a barraca improvisada e nunca mais voltou.As fortes ventanias obrigaram os 3 homens restantes a permanecer no interior da barraca a cerca de 18 quilómetros do próximo depósito de mantimentos. Scott continuou a escrever no seu diário, sabendo que “o fim está próximo... pela Graça de Deus, tomem conta das nossas famílias”.
Os corpos congelados de Scott, Wilson e Bowers foram encontrados juntos aos seus pertences oito meses depois.Amundsen entretanto retornava ao acampamento base, como planeado, com todos os cinco homens e 11 cães pura “pele e osso”, era o dia 25 de Janeiro de 1912 após uma caminhada ininterrupta de três meses ao longo de 3000 quilómetros.A viagem de 30 dias até a Tasmânia foi extremamente frustrante para Amundsen, que queria ser o primeiro a anunciar sua conquista.
A 7 de Março de 1912, Amundsen finalmente pode enviar uma mensagem ao seu irmão Leon a noticiar o feito histórico.Apesar do drama vivido por Scott, a comunidade internacional celebrou o feito de Amundsen que foi possível graças à excelente organização e à escolha do melhor equipamento.Durante a Primeira Guerra Mundial, Amundsen conseguiu uma quantia significativa de dinheiro, comerciando com os países beligerantes. Assim, conseguiu construir um navio, o “Maud”, com o qual continuou as suas aventuras árcticas.
Completou a passagem noroeste, em redor da Sibéria mas falhou a sua tentativa de ir ainda mais ao Norte.A seguir, Amundsen passou a dedicar-se ao voo. Juntamente com seu patrocinador, Lincoln Ellsworth, fez história quando foi de Spitzbergen ao Alasca, sobrevoando o Pólo Norte, no aeroplano “Norge”.Este foi o primeiro voo Trans – Árctico directamente feito sobre o Pólo. Depois disso, Amundsen, com sua reputação solidamente estabelecida, retirou-se das explorações.
Quando fazia uma expedição de resgate e salvamento do explorador italiano Umberto Nobile, o seu avião despenhou-se, e Amundsen desapareceu sem deixar rasto, era o dia 18 de Junho de 1928.

domingo, junho 18, 2006

O Meu Lado Masoquista...


Exceptuando o Professor Marcelo Rebelo de Sousa, penso que nenhum outro português, consegue ter "Uma viagem inesquecível de avião para Frankfurt...". Mas enfim, também nunca pensei, que o professor fosse capaz de tentar escrever sobre futebol e ainda por cima, muito mal.
Sempre me considerei equilibrado, mas desde que começou o Mundial que desconfio que tenho um lado masoquista.
Este lado "sado-maso", advém do facto de ler diariamente no jornal "A Bola", a crónica do professor Marcelo, intitulada "O Postal do Professor".
Não haverá ninguém das relações dele, que lhe possa passar a informação para deixar de escrever sobre aquilo que não percebe nada, é confrangedor ter que ler todas estas parvoíces.
Até, tento ser politicamente correcto, mas há crónicas que extravasam todo e qualquer bom-senso, daquilo que deve ser informação, ainda por cima num jornal auto-intitulado a “ bíblia do desporto".
Não restam dúvidas que o Professor é muito melhor a falar dos livros que não lê...

sexta-feira, junho 16, 2006

O Regresso

Tive uma fase de branca. Não conseguia escrever, pura e simplesmente. Nem sequer era por preguiça, apenas uma absoluta, e espero que passageira, incapacidade de dissertar sobre o que quer que fosse que apoquentava a alma. Nem sequer eram as famosas horas de angústia perante a folha de papel imaculada à espera de ser desflorada, somente uma espécie de desmoronamento interior onde, por algum tempo, deixou de ser possível encaixar os pedaços.
Sentimentos ambivalentes surgem. Uma vontade imensa de escrever e de não o fazer, acompanhada por uma estranha letargia mental e física que se sobrepõe a tudo, sentem-se as ideias mas estas têm preguiça de saltar para o papel como se donas de vontade própria e as palavras fossem inimigas mortais. Uma espécie de dor auto-infligida num processo de nostalgização que é absolutamente desconcertante.
À minha escala percebi as convulsões interiores geradas pelo confronto entre a vontade de escrever e criar e a impossibilidade de o fazer perante forças que escapam ao controlo de que tem este tipo de vivências. Os bloqueios que dominam o pensamento, que se tornam obsessões incontroláveis e que, por sua vez, dominam a existência, associado a uma noção cristalina da inexorabilidade do tempo que se escapa, são certamente os piores inimigos dos verdadeiramente grandes, quando perante uma folha a caneta não avança. Nem fraco nem bom, apenas nada.
Há também alturas em que o rio das ideias seca, uma aridez semelhante ao deserto provocada por uma episódica alienação da realidade, que é evidente quando os assuntos que normalmente nos inquietam o espírito e, apesar de nos revelarem as suas incongruências, não nos empurram para as usuais reflexões. A inércia vence, como se a existência fosse um fardo difícil de suportar.
As ideias não são coerentes, saltam aleatoriamente de neurónio em neurónio, são tantas e tão vagas e tão desprovidas de profundidade. Nada serve, como se de repente o nosso discernimento fosse mais profundo que o habitual e apenas restassem devaneios deprimentes que nos parecem, constantemente, de uma pobreza aviltante.
É por isso que a cada fase assim, sucede uma melhor e nos reencontramos com alguma paz interior. A desordem que lhe deu origem e que se apoderou da pessoa cria um estado de espírito que nos atira para uma crise existencial. Como dizem os psicólogos, reconhecer um problema é o primeiro passo para a cura, e nesse instante apercebemo-nos que permitimos que um pensamento obsessivo nos dominasse por um período, mais ou menos longo, o que possibilita o regresso ao equilíbrio, de dimensão obviamente subjectiva.
Esta de conquista configura uma espécie de regresso.
Com talento ou sem ele, exercer o direito à indignação perante as pragas que induzem o sofrimento de milhões é uma obrigação de todos. A presença de qualquer coisa que nos indigna deveria constituir um motivo com força suficiente para nos arrancar de qualquer estado letárgico. Tentar enquadrar um qualquer conceito que exponha a condição humana, descrevendo a vida nem que seja numa das mais simples dentro das suas infinitas cambiantes, pode ser uma forma de melhorar a existência de alguém. Não fazer nada, tendo a possibilidade para o fazer será um acto que, muito provavelmente, tornará o arrependimento uma obsessão implacável.
Perante isto, a única forma de acabar com a óbvia indiferença que grassa pela humanidade, claramente contra ela própria, é a exposição pública do mal. Escrever é a forma mais consistente de o fazer. As palavras, quando colocadas na ordem certa, podem ganhar a imortalidade e influenciar o futuro, pela denúncia daquilo que se afigura como inconsequente. Sonhar com um mundo melhor não basta é preciso lutar por ele com os recursos que possuímos.
O melhor, por isso, é aproximarmo-nos de qualquer sítio onde costumamos escrever, porque as reflexões fazem-se em todos os momentos de solidão, e assim tentar estabelecer um diálogo com a folha à nossa frente, colocar a caneta na posição, como que abraçada pelos dedos, e deixa-la fluir, ganhar vida própria, ser o prolongamento físico do nosso corpo, o objecto que permite a transmigração das ideias desde o cérebro até ao plano físico, acessíveis a todos, pois só aí desempenham o papel que lhes está reservado.
É que as ideias também querem sair, mas por vezes não o sabem. E quando ganham coragem para o fazer, se tiverem valor, podem mudar o mundo, ou pelo menos alterar visão que alguns têm dele. Nesses instantes é como se se conseguisse eliminar uma doença qualquer, uma espécie de demónio interior que nos faz levantar, sentar coçar, andar, estar parado, sentar outra vez, falar, calar numa inquietude incessante.
Então, o silêncio das ideias passa a ser coisa do passado, as palavras parecem fluir como água num rio, não nos limitamos a ver as coisas, reparámos nelas, devoramos a sua existência numa ânsia desmedida e incontrolável de aprisionar a sua essência. Deixamo-nos envolver pela beleza, pelo que provoca felicidade, sorvendo todos os segundos como se um único perdido fosse motivo para chorar.
Este texto é apenas isto, uma tentativa de ordenar a minha mente, dominada pelo cansaço e que algures no tempo se rendeu sem a determinação necessária ao medo de não o conseguir.

Filipe Pinto.

sexta-feira, junho 09, 2006

Quem é John Matias?

Sempre nos demos mal com a norma. Os portugueses não são um povo dado a insurreições mas se poderem defecar em cima da lei, fazem-no. Este é o país onde um acidente por excesso de velocidade é encarado como uma contingência da audácia rodoviária. Somos heróis à nossa maneira. Europeus, mas especiais. Uma espécie de Epá sem chiclet. De facto, Portugal vê a Europa como um gelado. O problema é que está sempre a chupar no pau.
Falemos agora dos males da época.
A espécie mais exemplificativa do charme luso é John Matias. Quem é John Matias? Passo a explicar:

Newark – 8:30 a.m.

Numa casa de um bairro de subúrbio votado ao esquecimento pela polícia, um casal com dois filhos faz as malas para partir de férias.
- Bob, onde está a tua irmã? – pergunta a mãe – Já são horas!
- Está no W.C. a vomitar. Ontem ela break-up com o boyfriend e depois apanhou uma carroça.
- Ó Bob, diz a essa motherfucker que se não sai da casa de banho enfio-lhe um estouro no ass! – grita, John Matias, o extremoso pai revoltado.
Tudo se resolve. A família sai de casa bem trajada:
Pai – T-Shirt lilás sem mangas, contrafacção da Armani, calções pretos e sapatilhas brancas Nike.
Mãe – Fato-de-treino adidas verde, também contrafacção, sapatilhas Nike brancas, óculos de sol castanhos e duas latas de laca no cabelo.
Filho – T-Shirt do Benfica, calções Benfica TBZ e sapatilhas brancas Nike.
Filha – T-Shirt branca com a cara da Madonna estampada, mini-saia de ganga e sapatos rosa de salto alto.
A ida para o aeroporto faz-se de autocarro disponibilizado pela companhia aérea. Pelo caminho, o pai Matias recorda com saudade os seus tempos de menino e o lançamento do primeiro álbum do Boy George.
A viagem de avião para Portugal é rapidamente efectuada. No aeroporto de Lisboa as irmãs de John Matias esperam-no.
- Oh, João, Oh, João – gritam com as lágrimas nos olhos.
- Ó pai, quem é esse João? – pergunta Christie Carina, a filha do casal.
- Era assim que me chamavam quando eu ainda vivia in Portugal – responde
- Voltaste! – continuam as histerias irmãs – Estás mais gordo. Já viste o ácido úrico? Olha que o Sr. Justino da junta morreu a semana passada por causa disso.
A conversa, as lágrimas, o ranho e a loucura continuam. Ao longe, os dois filhos do casal visionam toda esta cena com o espanto de quem chegou a um zoo.
John Matias, mede 1,64m. Pesa 94kg. Ostenta bigode, é calvo e usa mais comprida a unha do dedo mínimo da mão direita. Fuma. Cospe para chão e rega a sua existência com flatos. Em breve estará a caminho do Lindoso, onde, depois de cumprimentar o resto da família, comerá meio presunto e dois litros de vinho para empanturrar a saudade. Calada a boca da fome, falará nas vicissitudes da emigração e no quão infinitamente melhor é viver um ano na penúria para poder esbanjar tudo no verão em futilidades num país que já foi seu.
Christie Carina e Bob estarão sentados no alpendre da casa. Ele suspirando pela Playstation e por civilização, ela vertendo lágrimas de dor depois de ter descoberto que o sexo anal pode não ser o suficiente para obrigar um adolescente a continuar um namoro.
Sheila Maria, a mulher de John, olha para fotos do marido no tempo da tropa com 40 Kg a menos e questiona-se como é que um homem outrora atraente pôde degenerar numa espécie de estupidez com sotaque.

Lá fora está calor, o país desidrata-se; seca.
Bandeiras na janela. Scolari na presidência.
O défice social adormece ao som de relatos de futebóis. Um povo embalado pela falsa música de um hino ao serviço de uma federação.

Não.
Não.

Deixem-me dormir.
Deixem-me.
A minha bandeira é branca.

quarta-feira, junho 07, 2006

Planeta Futebol


De 9 de Junho a 9 de Julho o planeta inteiro vai ser submergido por uma vaga muito particular: a do futebol, cuja fase final do Campeonato do Mundo se desenrolará na Alemanha. Trata-se do mais universal acontecimento desportivo e televisivo. Vários milhares de milhões de telespectadores, em audiência acumulada, vão seguir as sessenta e quatro partidas da prova, que opõe trinta e duas equipas nacionais representando seis continentes.
A confrontação atingirá a sua máxima intensidade no domingo 9 de Julho quando, em Berlim, no estádio olímpico (construído por Hitler para os jogos olímpicos de 1936), as duas equipas finalistas disputarão o final. Nesse momento, mais dois mil milhões de pessoas – um terço da humanidade – em duzentos e treze países (quando a Organização das Nações Unidas só conta com 191 Estados) se encontrarão frente aos seus écrans. E nada mais contará para elas.
A competição funcionará então como um colossal pára-vento e esconderá qualquer outro acontecimento. Para grande tranquilidade de alguns. Por exemplo, em França: Chirac e Dominique de Villepin esperam sem dúvida esta hipnótica distracção para fazer esquecer o “caso Clearstream”. E respirar um pouco.
«Peste emocional» [1] para uns, «paixão exaltante» [2] para outros, o futebol é o desporto internacional número um. Mas é indiscutivelmente mais do que um desporto. Senão não suscitaria um tal tropel de sentimentos contrastantes. «Um facto social total», disse dele o grande ensaísta Norbert Elias. Poder-se-ia afirmar também que ele constitui uma metáfora da condição humana. Porque ele dá a ver, segundo o antropólogo Christian Bromberger, a incerteza dos estatutos individuais e colectivos, assim como todas as dimensões da fortuna e do destino [3]. Ele convida a uma reflexão sobre o papel do indivíduo e do trabalho em equipa, e origina debates apaixonados sobre a simulação, o arbitrário e a injustiça.
Como na vida, os perdedores no futebol são mais numerosos que os ganhadores. Por isso mesmo é que este desporto sempre foi de multidões que vêem nele, consciente ou inconscientemente, uma representação do seu próprio destino. Elas sabem também que amar o seu clube é aceitar o sofrimento. O importante, em caso de derrota, é permanecer unidos, manter a união. Graças a esta paixão partilhada fica-se com a garantia de não mais se estar isolado. «You’ll never walk alone» [«Tu nunca mais caminharás sozinho»], cantam os fãs do Liverpoll FC, o clube proletário inglês.
O futebol é o desporto político por excelência. Ele está na encruzilhada de questões cruciais como a pertença, a identidade, a condição social e até, por causa do seu aspecto sacrificial e a sua mística, da religião. É por isso que os estádios se prestam tão bem a cerimónias nacionalistas, aos localismos e aos extravasamentos identitários ou tribais que desencadeiam por vezes violências entre apoiantes fanáticos.
Por todas estas razões – e, sem dúvida, por outras, bem mais positivas e festivas – este desporto fascina as massas. Estas, por sua vez, interessam não só aos demagogos mas sobretudo aos publicitários. Pois, mais do que uma prática desportiva, o futebol é hoje um espectáculo televisionado para um vasto público com as suas vedetas pagas a preço de ouro.
A compra e venda de jogadores reflecte bem o estado do mercado nesta época da globalização liberal: as riquezas localizam-se no Sul mas são consumidas no Norte, uma vez que só este último tem os meios de as comprar. E este mercado (de enganos, frequentemente) produz modernas formas de tráfico de seres humanos [4].
Os meios financeiros que são mobilizados são demenciais. Se a França se qualificar para a final, o preço de um anúncio publicitário de 30 segundos na TV atingirá o montante de 250.000 euros (ou seja, quinze anos de salário mínimo francês!). E a Federação Internacional de Futebol (FIFA) vai receber nunca menos de 1.172 mil milhões de euros pelos direitos de transmissão televisivos e patrocínios do campeonato do mundo na Alemanha. Estima-se, por outro lado, que o total de investimentos publicitários ligados a esta competição seja de 3 mil milhões de euros.
Tais montantes de dinheiro enlouquecem. Toda uma fauna de negócios gira à volta da bola redonda. Ela controla o mercado de transferências de jogadores, ou o das apostas desportivas. Certas equipas, a fim de garantir a vitória, não hesitam em fazer batota. Casos desses são uma legião. Como confirma o escândalo que actualmente abala a Itália. E que poderia levar a Juventus de Turim, acusada de ter comprado os árbitros, a descer de divisão.
Assim vai pois este desporto fascinante. No meio de esplendores sem igual e das suas infâmias, cujo efeito é semelhante ao da lama colocada num ventilador. Cada qual fica enlameado.
Ignacio Ramonet.
Le Monde diplomatique.
[1] Jean-Marie Brohm, La Tyrannie sportive. Théorie critique d’un opium du peuple, Beauchesne, Paris, 2005.
[2] Pascal Boniface, Football et mondialisation, Armand Colin, Paris, 2006.
[3] Christian Bromberger, Football, la bagatelle la plus sérieuse du monde, Bayard, Paris, 1998.
[4] Johann Harscoët, "Tu seras Pelé, Maradona, Zidane" ou... rien, Le Monde diplomatique, Junho de 2006.

segunda-feira, junho 05, 2006

Massacre da Praça de Tiananmen


Milhares de pessoas reuniram-se, ontem, num parque de Hong Kong para render uma emotiva homenagem às vítimas da batalha de Tiananmen.Este foi o único acto público verificado em toda a China para celebrar o ocorrido.
Os manifestantes acenderam velas, criando um mar de luzes no parque Victoria de Hong Kong. Mantiveram-se em silêncio durante alguns instantes e cantaram um hino à democracia, enquanto os organizadores colocaram coroas de flores num sepulcro improvisado dedicado aos "mártires da democracia".
É certo que a maior parte da população não participou em qualquer acto, mas também é verdade que o Governo de Pequim proibiu qualquer manifestação. Na Praça de Tiananmen, a Polícia montou vigilância apertada e, pelo menos, duas pessoas foram detidas.A matança de Tiananmen continua a ser um tema tabu no grande país asiático, à excepção de algumas regiões semi-autónomas, como Hong Kong e Macau.(JN).
A 3 de Junho de 1989 atinge-se o auge de uma série de manifestações pro-democráticas, lideradas por estudantes chineses. A 15 de Abril, a seguir à morte do secretário-geral do partido comunista e do reformista democrático Hu Yaobang os estudantes desencadearam manifestações pacíficas em Xangai, Pequim e noutras cidades. Hu tornou-se um herói entre os chineses liberais quando recusou fazer parar os distúrbios em Janeiro de 1987. As manifestações pro-democráticas continuaram com as pessoas a pedirem a mudança do líder supremo da China, Deng Xiaoping e também a cúpula de todos os funcionários do Partido. A 4 de Maio cerca de 100 000 estudantes e trabalhadores marcharam em Pequim pedindo reformas democráticas. No fim desse mês as manifestações continuaram mesmo durante a visita de Mikhail Gorbachev.
Durante as sete semanas que duraram as históricas manifestações dos estudantes universitários de Pequim, irradiou da praça da Paz Celestial para o mundo um sopro de entusiasmo e esperança. Eles pediam democracia e fim da corrupção, a justeza das suas reivindicações fez em poucos dias multiplicarem-se os manifestantes, que passaram de 20 mil para quase 2 milhões, envolvendo praticamente todos os sectores da sociedade.
Mas o fim seria trágico.
Depois da tentativa frustrada do Exército controlar Pequim pacificamente, porque os soldados recuaram frente aos apelos dos manifestantes. A cúpula do Partido Comunistas e do Exército de libertação, obrigaram os soldados a intervir activamente e a tropa abre fogo sobre os estudantes e o povo da cidade de Pequim. Os mortos são estimados entre duzentos e quatro mil, ferindo dez mil pessoas e prendendo milhares de estudantes e trabalhadores. A repressão continuou em todo o país, até hoje, com prisões e execuções sumárias, controle da imprensa e não respeito pelos Direitos humanos.

domingo, junho 04, 2006

São Judas Iscariotes


A colega do blogue cao-com-pulgas, Fátima Pinto Ferreira, vai lançar no próximo dia 7 de Junho o livro "São Judas Iscariotes". Já li alguns trechos do livro no seu blogue, editados na altura da Páscoa, e parece-me um livro extremamente interessante, que certamente comprarei na primeira oportunidade.

sexta-feira, junho 02, 2006

Hoje, o Rapaz...


...Faz quarenta e dois anos.
Um abraço a todos!

quarta-feira, maio 31, 2006

Clint Eastwood

Clint Eastwood nasceu a 31 de Maio de 1930, em São Francisco. Em 1955, fixou-se em Hollywood, fazendo pequenos papéis como actor. Foi em Itália que ganhou fama ao interpretar o herói «homem sem nome» com os chamados western spaghetti, dirigidos por Sergio Leone. Protagonizou a trilogia For a Fistful of Dollars/Por Um Punhado de Dólares (1964), The Good, the Bad, and the Ugly/O Bom, o Mau e o Vilão (1966) e For a Few Dollars More/Por Mais Alguns Dólares (1967).
No início dos anos 70, criou a sua própria companhia produtora - a Malpaso Productions. O filme que o consagrou definitivamente como estrela de cinema foi Dirty Harry (1971). Como realizador dirigiu vários trabalhos na categoria de western, ganhando o respeito do público e da crítica. Em 1980, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque produziu uma retrospectiva dos seus filmes e em 1985, na sequência também de uma retrospectiva do seu trabalho na Cinemateca Francesa, foi condecorado pelo governo francês. De 1986 a 1988 foi eleito presidente da câmara de Carmel, na Califórnia.
Da filmografia de Clint Eastwood enquanto actor destacam-se: The Good, the Bad, and the Ugly/O Bom, o Mau e o Vilão (1966), Where Eagles Dare/O Desafio das Águias (1969), Kelly’s Heroes/Heróis Por Conta Própria (1970), The Beguiled/Ritual de Guerra (1971), High Plains Drifter/O Pistoleiro do Diabo (1973), The Outlaw Josey Wales (1976), The Gauntlet/Barreira de Fogo (1977), Any Which Way You Can/O Regresso do Rebelde (1980), Honkytonk Man (1982), Tightrope/Um Agente na Corda Bamba (1984), Pale Rider/O Justiceiro Solitário (1985), The Dead Pool/Na Lista do Assassino (1988), White Hunter, Black Heart/Caçador Branco, Coração Negro (1990), Unforgiven/Imperdoável (1992), In The Line of Fire/Na Linha de Fogo (1993), A Perfect World/Um Mundo Perfeito (1993), The Bridges of Madison County/As Pontes de Madison County (1995), Wild Bill: Hollywood Maverick (1996), Absolute power/Poder Absoluto (1997), City (1998), True Crime/Um Crime Real (1999), Space Cowboys/Cowboys do Espaço (2000) e Blood Work/Dívida de Sangue (2002).A sua carreira de realizador conta já com vários títulos: The Gauntlet/Barreira de Fogo (1977), Bird/Fim do Sonho (1988), White Hunter, Black Heart/Caçador Branco, Coração Negro (1990), Unforgiven/Imperdoável (1992), galardoado com os Óscares de melhor filme e melhor realizador, A Perfect World/Um Mundo Perfeito (1993), The Bridges of Madison County/As Pontes de Madison County (1995), Absolute power/Poder Absoluto (1997), Midnight in the Garden of Good and Evil/Meia-noite no Jardim do Bem e do Mal (1997), True Crime/Um Crime Real (1999), Space Cowboys/Cowboys do Espaço (2000), Blood Work/Dívida de Sangue (2002) e Mystic River (2003).
Em 2003, Clint Eastwood foi candidato à Palma de Ouro do Festival de Cannes com o filme realizado por si, Mystic River. Apesar de não ter ganho o galardão máximo do festival, Eastwood saiu de Cannes com o Carosse d´Or, um prémio atribuído por um conjunto de cineastas franceses a um realizador de carreira. Em 2004, Mystic River voltou a receber novas nomeações, desta feita para os Óscares. O filme foi nomeado em seis categorias:
Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Principal, Melhor Actor Secundário, Melhor Actriz Secundária e Melhor Argumento Adaptado.
Em 2005, o realizador voltou a dar cartas. O seu filme Million Dollar Baby arrebatou dois Globos de Ouro: o de Realizador e o de Actriz Dramática, para Hilary Swank. Na cerimónia dos Óscares, venceu 4 estatuetas douradas: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz Principal e Melhor Actor Secundário. Fonte Biblioteca Universal.

segunda-feira, maio 29, 2006

O Barbecue, Essa Instituição Masculina!


Após os longos meses de Inverno, podemos finalmente convidar uns amigos e fazer um barbecue.Talvez porque há um certo risco envolvido na actividade, este é o único tipo de cozinha a que um verdadeiro homem se deve dedicar.Contudo, não é tarefa fácil.
Quando um homem aceita fazer o barbecue põe-se em marcha uma cadeia de acções:
1º) A mulher compra os alimentos;
2º) A mulher faz as saladas, prepara as batatas fritas, o arroz, o feijão preto e a sobremesa;
3º) A mulher prepara a carne para ser cozinhada, tempera-a, coloca-a numa travessa e leva-a ao homem que já está à espera ao pé do grelhador, de cerveja fresca na mão;
Aqui vem a primeira parte realmente importante da questão:
4º) O homem coloca a carne na grelha;
5º) A mulher vai para dentro e põe a mesa;
6º) A mulher apercebe-se que o homem está com os outros homens a contar anedotas e vem cá fora a correr a avisar que a carne se está a queimar;
7º) O homem aproveita e pede-lhe mais uma cerveja fresquinha;
8º) A mulher vem cá fora trazer a cerveja e uma travessa...
... e é então que aparece a segunda parte importante do processo:

9º) O homem tira a carne da grelha e entrega-a à mulher;
10º) Depois de comerem, a mulher levanta a mesa, lava a louça, arruma a cozinha e lava a grelha;
11º) Toda gente dá os parabéns ao homem pela fantástica refeição que ele preparou;
12º) O homem pergunta à mulher se lhe soube bem o tempo de folga de que usufruiu e, perante o ar chateado dela, conclui que há mulheres que nunca estão satisfeitas com nada ...
(Recebido por e-mail.A minha mulher teve a gentileza de me enviar este e-mail, apesar de eu não compreender o sentido e a intenção do envio...).

quinta-feira, maio 25, 2006

69 - O Número da Besta

Sejamos claros: Se Portugal é um país voltado para o Atlântico, Espanha invadiu-nos por trás. É uma canzana que ainda hoje dói no Portalegre de cada um (fabulosa analogia anal!). Serve isto para introduzir o tema que hoje vou tratar: o sexo em Portugal.
Por entre os brandos costumes, o português comum não para de pensar em sexo. Na verdade, depois de um pequeno inquérito por mim efectuado a duas pessoas residentes em Mondim de Basto, conclui que o comum cidadão trocaria a sua vida actual por uma dose de sexo industrial e duas latas de atum. Este priapismo lusitano tem duas faces: a masculina e feminina.

O homem sexual português:

Este espécimen é adepto da linguagem frontal. O seu grande sonho é encontrar mulheres semi-inconscientes que utilizem com frequência diária a expressão “Penetra-me na varanda”. Porém, esta aparente virilidade detém-se quando falamos do acto propriamente dito. O homem português é fã do legado missionário, posição que pratica com invariável mecânica, se possível com uma sandes de chouriço ferrada entre os dentes. E sim: o sexo e a comida são, para o descendente de Viriato, a mesma coisa. Berrar e grunhir, pelo contrário, estão totalmente reservados ao futebol. Assim quando ouvir um homem gemer, provavelmente a culpa é do Ronaldo ou do Figo.

P.S. – Para o homem, 69 é mais do que um simples ano em que não houve campeonato do mundo de futebol

A mulher portuguesa e o sexo:

No que toca ao género feminino tudo é diferente. Na mulher o ímpeto não está à superfície (encontra-se encoberto por pilosidades). Para ela o sexo é um casino, sendo elas o croupier, a roleta e o próprio baralho de cartas. A sedução é uma espécie de jogo constantemente no intervalo até que a mulher sopre o apito (mais uma brilhante alusão sexual!). A fêmea reserva a si o direito constitucional no que diz respeito às relações. Adora fins-de-semana românticos recheados de luxos e imploração. Eis algumas frases que o raçudo lusitano deve evitar dizer a uma mulher para obter sexo:

- Viste a vaselina?
- Telefonei para a Abanderado e eles dizem que já não fazem XXXL há dois anos
- Ou te despes ou masturbo-me
- Ordenha-me
- Tira-me um galão

Já agora, a roleta sexual é a única na qual o jogador pode usar mais do que uma bola sem ser penalizado por isso.

quarta-feira, maio 24, 2006

Estou de Volta, À Aldeia Global!

Estive ausente oito dias, uma constatação, mas certamente que ainda não tinham dado por isso.
Fui em trabalho à China e como toda a gente sabe, na "República Popular" ninguém têm acesso ao "blogspot", portanto pura e simplesmente, não podia escrever nada.
Por falar na China, os chineses estão cada vez piores, imaginem que ainda não conseguiram copiar o filme " O Código Da Vinci" para DVD! Tive que me contentar em comprar o "Voo 93" e o "Basic Instinct 2" e mais alguns, ao "astronómico" preço de 80 cêntimos de Euro por filme!
Um abraço a todos. Vou dormir!

quinta-feira, maio 18, 2006

O Belo e o Monstro

Este título poderia facilmente conduzir a pertinentes desdobramentos tais como “O Espectacular e o Menos Lindo”, “O Escorreito e o Indecoroso” ou mesmo “O meu tio e uma lista telefónica”. No início deste texto a probabilidade de eu optar por qualquer um destes títulos era igual para todos eles. As probabilidades são um caso estranho de intermitência lógica. Senão vejamos: Enquanto lê o primeiro parágrafo deste texto existem 0,6% de hipóteses de morrer de enfarte, 0,4% de hipóteses de estar a chulear um par de calças 0,2% de hipóteses de casar com um trintão sudanês e 1% de hipóteses de ser cego. Pior somente as estimativas à escala planetária. Eis o que se estará passar no mundo quando mudar para o segundo parágrafo:

(Valores percentuais relativos ao total da população terrestre)

49% - Alimentam-se
46% - Têm relações sexuais
2% - Têm relações sexuais envolvendo afecto
1,8% - Estudam
1,0% - Trabalham
0,2% - Desbloqueiam uma “box” da TV por Cabo.

Entramos pois no segundo parágrafo (com todas as consequências que isso acarreta). Que podemos fazer para trocar as voltas às comuns quantificações probabilísticas? Eis uma pequena, quiçá singela, lista de coisas que pode fazer para arruinar qualquer aspiração estatística:

- Organizar um bacanal nas margens do rio Nilo
- Fazer um Papanicolau dentro de um táxi
- Fundar uma república
- Mudar de sexo
- Urinar sem sujar o tampo da sanita
- Desvitalizar um dente ao som de Diana Ross

As mulheres têm a tarefa facilitada no que diz respeito a novidades. Por exemplo, podem apaixonar-se por uma pasta de dentes. Uma fonte anónima, garantiu que a única diferença entre um tubo de Colgate e um homem é o sabor final a flúor, já que a cor se mantém. Essa mesma fonte revelou ainda a chave do EuroMilhões para esta semana e duas fotografias a preto e branco.

terça-feira, maio 16, 2006

O Código Da Vinci


Em semana de estreia do filme “O Código Da Vinci”, e depois de toda a polémica que surgiu com a publicação do livro, o estranho fenómeno mantém-se. Se atentarmos às reacções de alguns líderes religiosos, aparentemente desesperados com os possíveis efeitos do movimento de questionação promovido por ambas as obras, agem de forma irreflectida sem perceberem que, por absurdo que pareça, são eles próprios que o publicitam e instigam com a sua atitude.
Antes de mais refira-se que eu li o livro e se tudo correr bem vou ver o filme. Todavia, considero muito relativa a sua importância. Para sustentar esta posição, que procurarei fundamentar, avaliando o impacto do livro em duas vertentes, o seu valor enquanto obra literária e a sua importância sociológica, nomeadamente no que diz respeito ás questões que levanta do ponto de vista religioso.
Apesar de serem indissociáveis, pode fazer-se uma análise individual de cada uma. Em relação à questão religiosa, é importante referir que qualquer discussão tem que partir da dicotomia inerente à crença ou ausência dela. Assim, não há lugar para ambivalências, uma vez que tudo se resume a sentimentos, e a lógica não tem aqui qualquer lugar. Ou se acredita ou não. A principal novidade apresentada e que originou toda esta polémica, a questão do casamento de Jesus, já estava no mercado há muito tempo. Só que, na falta de prova histórica, esta interpretação da história pretendente a teoria tem tanto valor como qualquer outra do género, ou seja, nenhum.
É sabido que todos, os crentes e os não crentes, por vezes, se envolvem em discussões acerca da legitimidade de cada uma das posições, tentando convencer a outra facção que a sua é a melhor. Nunca ninguém vence porque, e esta uma verdade irrefutável, estes caminhos em busca da verdade, são caminhos de solidão. Se a dúvida existe, apenas olhando profundamente para o interior de cada um ela se desvanece. Partindo deste pressuposto e imaginado uma discussão deste género, onde um dos envolvidos atira - É tudo mentira, Cristo até foi casado. Se não acreditam, leiam “ O código Da Vinci”. Para além de uma valente gargalhada, uma discussão sobre esta temática onde è esgrimido um argumento destes e se, de alguma forma, este representa uma vantagem argumentativa, é suficientemente revelador da importância da discussão. Parece-me, por isso, que com base neste livro, quem tinha fé vai continuar a tê-la e quem não tinha não viu as suas razões reforçadas.
Suponhamos então, num exercício meramente académico, que Cristo casou. Se ele realmente for filho de Deus, será que isto o diminui em alguma coisa? Se atentarmos á oração do Credo, que em determinada altura diz “E se fez Homem”, não será esta uma forma de o fazer completamente? Se assim foi, parece-me esta apenas uma atitude que visa melhor compreender o que é ser Humano, uma espécie de vestir a pele para absorver a condição humana na plenitude. A tentação exercida quer por homens quer por mulheres uns sobre os outros, a forma como se vive o amor e a ausência dele e tudo o que deriva deste sentimento, experimentar primeira pessoa esta realidade é a melhor forma de conhecer os nossos impulsos, donde derivam a maioria daquilo a que muitos chamam pecados.
O outro lado da questão, o valor literário da obra. Perdurará como obra de referência da Humanidade? Claramente não. Limita-se a ser um bom policial. Sem grande esforço, consegue-se elaborar uma lista de livros que levantam questões muito mais profundas sobre esta temática e que as exploram e dissecam muito para além deste. Só que não venderam tanto e este é que é o verdadeiro problema. Este livro limita-se a partir de uma possibilidade, não fundamentada do ponto de vista histórico, e conta de forma notável um enredo, do tipo teoria da conspiração, em volta do esforço da igreja católica para esconder esta alegada verdade.
A estratégia seguida para desacreditar o livro é que é francamente errada. A atribuição de importância é revelada, por exemplo, quando instiga os católicos a processarem o seu autor (e o mesmo em relação ao filme, que surgiu tão rapidamente devido ao êxito do livro e a indústria cinematográfica, inteligentemente, não perdeu a oportunidade de ganhar algum, ou muito, com isto). Que melhor publicidade poderiam esperar? Será que as questões levantadas do ponto de vista religioso têm algum fundamento para provocarem esta espécie de pânico? Ou então é apenas o medo da debandada que já começou há muito tempo, e não por este motivo mas simplesmente devido ao facto de as pessoas já não se identificarem com uma instituição que não os representa? Se alguém alterou a sua posição relativamente à religião após este livro, apenas o fez porque as suas dúvidas já eram profundas o suficiente e isto foi apenas um pretexto. A sua credibilidade enquanto obra relatora de factos históricos é incipiente.
Não se pode, todavia, ter uma visão demasiado redutora do livro. Eu li, não só este como todos os deste autor. E gostei. Não mudaram a minha vida ou criaram um sentimento avassalador como já o fizeram muitos outros, facto que os tornou as minhas obras de referência, mas são os melhores que li do género.
Ler, é por tudo isto, um processo que estimula o auto conhecimento. Já há muitos anos, no auge de uma adolescência muito pouco votada a hábitos da leitura, com a arrogância natural desta fase da vida, comecei a sentir-me vazio. Dentro dos meus limitados horizontes, que de repente se viram alargados exponencialmente sem eu estar preparado, perdi-me na noite. Alguém muito mais experiente do que eu, emprestou-me um livro. Jamais me esquecerei. Contacto de Carl Sagan. Há medida que o lia, senti-me ainda pior. O espelho revelou-se demasiado eficaz. Vi exactamente aquilo que era. Ignorante, principalmente. Mas, ao mesmo tempo, a sua leitura empurrou-me para um mundo sem igual. Tornei-me ávido de conhecimento, apercebi-me do valor dos livros e agora leio compulsivamente.
Se este autor já vendeu um milhão de livros em Portugal, dos quais nem todos seriam leitores assíduos, alguém pode ter sentido o mesmo tipo de revelação. Se 1% começar a ler assiduamente, são 10.000 pessoas que encontraram a origem do seu descontentamento, que iniciaram um caminho através do mundo da leitura, que é sem retorno, queremos sempre mais e mais, e que, certamente, mesmo estando latente, se não fosse esta primeira experiência, não afloraria.


Filipe Pinto.

segunda-feira, maio 15, 2006

Humberto Delgado


O centenário do nascimento de Humberto Delgado assinala-se hoje com o lançamento de um livro sobre a carreira aeronáutica do piloto-aviador que fundou a TAP a pedido de Salazar, vinte anos antes de ser assassinado pelo regime. Conhecido pelos portugueses desde 1958, a partir da sua candidatura a Presidente da República, como o «general sem medo», Humberto Delgado notabilizou-se primeiro numa carreira militar dedicada à aeronáutica e à aviação civil, ao serviço do regime de Salazar, de quem foi admirador e, mais tarde, principal opositor. A Fundação Humberto Delgado, presidida pela filha mais nova do general, Iva Delgado, decidiu lembrar essa faceta, lançando, o livro «Humberto Delgado e a Aviação Civil», editado pela Chaves Ferreira Publicações e pela ANA-Aeroportos de Portugal. A obra é da autoria de Frederico Rosa, neto de Delgado, doutorado em Etnologia pela Universidade de Paris, que se dedica desde 2001 à investigação da carreira militar e aeronáutica do avô e é actualmente coordenador do Arquivo Digital da Fundação Humberto Delgado (Lusa).
Bastou uma simples frase, para que Humberto Delgado, escrevesse o seu destino na história política de Portugal contemporâneo. O episódio a que esta frase se refere, passou-se no café lisboeta, Chave D'Ouro, no dia 10 de Maio de 1958, respondendo a uma pergunta feita pelo jornalista Mário Neves, sobre qual seria o destino do Presidente do Conselho, Oliveira Salazar, se o general vencesse as eleições, disse: "demito-o, obviamente", a afirmação passaria à história com as palavras em ordem inversa.
Humberto Delgado nasceu a 15 de Maio de 1906 em Boquilobo, Torres Novas. Cedo ingressou na carreira das armas, frequentando o Colégio Militar e a Escola do Exército onde se formou em Artilharia em 1925. Participou no golpe militar de 28 de Maio de 1926 que depôs o regime republicano. Em 1928 optou pela carreira da Aeronáutica obtendo o curso de oficial piloto aviador.
Em 1936 conclui o curso de Estado-Maior. Em 1942 foi nomeado representante do Ar para as negociações com a Inglaterra para a cedência de bases nos Açores. Devido à eficiência demonstrada, o governo inglês outorgou-lhe a Ordem do Império Britânico (CBE), salientando que arriscara a sua carreira e o seu futuro pela causa dos Aliados e da liberdade. Em 1944 é nomeado director-geral do Secretariado de Aviação Civil.
Em 1945 funda os Transportes Aéreos Portugueses (TAP) e cria as primeiras linhas aéreas de ligação com Angola e Moçambique, a chamada “Linha Imperial”. Em 1952 é nomeado adido militar na Embaixada de Portugal em Washington e membro do comité dos representantes militares da NATO. Promovido a general com 47 anos é o mais novo oficial daquela patente. Em 1956 o Governo Americano concedeu-lhe o grau de oficial da Ordem de Mérito.
Em 1958, acedendo ao convite da oposição democrática, apresentou-se como candidato independente às eleições presidenciais.
A vasta movimentação popular que se seguiu permitiu criar pela primeira vez em três décadas de ditadura uma dinâmica de unidade da oposição contra o regime salazarista.
O carisma do “General sem medo” surgiu como um fenómeno inesperado, bem como a erupção de massas no processo eleitoral. O candidato da oposição anunciou o então facto inédito de não desistir da ida às urnas. Após os incidentes e tumultos ocorridos no Porto e em Lisboa, a 14 e 16 de Maio, a polícia política (PIDE) aumentou a repressão contra a população que participava espontaneamente na campanha apelidada de “subversiva” pela imprensa controlada.
Apesar do mecanismo eleitoral ser manipulado desde o recenseamento, apesar das dificuldades intransponíveis na cópia dos cadernos eleitorais e na distribuição por parte da oposição dos boletins de voto, ainda assim o Estado Novo, temendo um enorme desaire eleitoral, decretou a proibição da fiscalização do escrutínio por parte da oposição.
Os números oficiais deram quase 25% dos votos a Humberto Delgado, contra 75% do candidato oficial, Américo Tomás, não sendo possível ainda hoje apurar os resultados reais dada a amplitude da fraude. Com medo de no futuro passar por um outro “golpe constitucional” que representava a possibilidade de a oposição voltar a lançar-se numa campanha eleitoral como a de 1958, Salazar promove, em Agosto de 1959 uma revisão constitucional na qual se suprime o sufrágio directo sendo substituído por sufrágio indirecto proporcionado por um colégio eleitoral de total confiança do Governo.
No rescaldo das eleições o governo demitiu Humberto Delgado das funções de Director-geral da Aeronáutica Civil, a 12 de Junho de 1958, e tudo fez para conseguir afastá-lo para o Canadá. Apesar da desmobilização que se seguiu à campanha e da perseguição a que foi sujeito, Humberto Delgado lançou as bases do que viria a ser o Movimento Nacional Independente, com o objectivo de dar continuidade à actividade política, apoiando-se para tal nas frágeis estruturas que a unificação das candidaturas de oposição permitira obter. Mas num evidente desafio ao poder político continuou a dar entrevistas à imprensa estrangeira e a acusar o Governo de fraudulento.
Foi então sujeito a processo disciplinar que o separou do serviço militar e colocou sob a alçada da PIDE. Avisado de que estava preparada uma falsa manifestação de apoio em frente da sua residência, com elementos da PIDE e da Legião, com intuitos de o assassinarem, refugiou-se na Embaixada do Brasil, a 12 de Janeiro de 1959.
O Embaixador Álvaro Lins, figura conhecida da intelectualidade portuguesa, espantou o governo português ao acolher o refugiado sob a bandeira brasileira. Após demoradas negociações diplomáticas que duraram cerca de três meses, durante as quais o próprio Salazar escreveu directamente ao Presidente do Brasil Kubitschek de Oliveira pedindo-lhe que não concedesse o asilo, o Embaixador Álvaro Lins manteve uma linha de não cedência às pressões que em Portugal e no Brasil se faziam contra o asilado.
Para o governo português interessava esvaziar o conteúdo político do gesto de Humberto Delgado acusando-o de protagonismo internacional e de auto propaganda como líder da oposição. O governo brasileiro, forçado pela opinião pública interna e pelas forças de oposição que despertaram não só para a situação anti-democrática vivida em Portugal, como para o paternalismo da “fraternidade luso-brasileira”, pedra de toque da política internacional portuguesa, permitiu que o asilado seguisse viagem para o Rio de Janeiro a 21 de Abril de 1959, após a intervenção de um jornalista, João Dantas, director do Diário de Notícias do Rio de Janeiro.
No exílio, logo em Novembro de 1959 faz uma viagem à Grã-Bretanha onde é recebido por membros do Partido Trabalhista e dos outros partidos. Durante a passagem pela Holanda é-lhe proibida a possibilidade de falar em público sobre a situação em Portugal, mas a pressão da opinião pública e da oposição obriga o Governo de Joseph Luns a retirar a proibição.
De regresso ao Brasil entra em contacto com núcleos oposicionistas portugueses na América Latina forçando-se por unificar a acção contra Salazar.
Firmou um acordo com o Governo espanhol no exílio, chefiado por Emílio Herrera, e assumiu a responsabilidade política da controversa captura do navio Santa Maria, operação levada a cabo por Henrique Galvão e membros do Directório Revolucionário Ibérico de Libertação (DRIL) em 22 de Janeiro de 1961.
Nos finais de 1961, Humberto Delgado entra clandestinamente em Portugal para tomar parte na fracassada revolta de Beja, conseguindo iludir a vigilância da PIDE durante quinze dias. No regresso ao Brasil encontrou dificuldades por parte das autoridades brasileiras que consideraram aquela acção como quebra do estatuto de asilado.
Deixa definitivamente o Brasil, em finais de 1963 com destino à Europa, incompatibilizado com grupos rivais e cansado da perseguição que a PIDE lhe movia.
Devido ao estado de saúde que entretanto se agrava e por mediação de Álvaro Cunhal permanece três meses na Checoslováquia onde é submetido a delicada intervenção cirúrgica.
Após a recuperação, no Verão de 1964 instala-se na Argélia onde o Presidente Ben Bella o recebe com honras de chefe de Estado.
Em Argel assume a chefia da Junta Revolucionária Portuguesa, órgão directivo da Frente Patriótica de Libertação Nacional, composta por diversas correntes da oposição. Após uma fase inicial de tentativa de equilíbrio dessas correntes, nas quais dominavam os comunistas, entra em ruptura com os membros da Frente quanto à forma de derrube da ditadura salazarista.
A PIDE, que já no Brasil fizera uma tentativa de assassinar Humberto Delgado, infiltrou certos círculos da oposição mantendo uma apertada vigilância sobre todos os movimentos do líder da oposição portuguesa no exílio. Uma intensa campanha de descrédito e de isolamento alimentada pelos serviços secretos, fomentou gradualmente ao longo de um período de cinco anos, a criação de uma rede de informadores que conseguiu obter a confiança do general. Foi assim que ele anuiu ir ao encontro de Badajoz. Convencido que se ia reunir com oficiais portugueses interessados em derrubar o regime, Delgado foi de facto ao encontro da morte. Uma brigada da PIDE chefiada pelo inspector Rosa Casaco atravessou a fronteira utilizando passaportes falsos, a fim de montar a cilada que vitimaria o general e a sua secretária brasileira, Arajaryr Campos Moreira. 13 de Fevereiro de 1965 é a data do encontro fatídico, marcado para os correios de Badajoz, donde aliás enviou quatro postais a quatro amigos em quatro países diferentes e assinados com o nome de sua irmã- Deolinda. O objectivo do envio destes postais correspondia a um código, previamente combinado, que significava: estou vivo e não estou preso. Foi o último sinal de vida e por isso esta data é considerada a data do seu assassinato que se pressupõe ter ocorrido perto de Olivença. O desaparecimento de Humberto Delgado deixa os seus companheiros de exílio mergulhados na inquietação. Passam-se semanas sem qualquer notícia do seu paradeiro. Dois meses e meio, a 26 de Abril, os corpos do general e da secretária são encontrados por duas crianças, em adiantado estado de decomposição. No entanto diversos elementos permitem identificá-los, dando início a um longo e árduo processo judicial, que só terminaria após o 25 de Abril de 1974, com a condenação em tribunal militar dos ex. agentes da PIDE directamente implicados e com a trasladação dos restos mortais do "general sem medo" para o Panteão Nacional. Em 1990 Humberto Delgado foi promovido a título póstumo a marechal da Força Aérea.

Links: vidaslusofonas.
mundoportugues.

domingo, maio 14, 2006

A Importância do Passado


Recentemente, quando regressava a casa depois de um dia de trabalho, dei por mim a ouvir um programa cujo assunto versava sobre a existência ou ausência de arrependimentos de actos cometidos no passado de cada um. Como invariavelmente acontece quando regressamos a casa, ou estamos nos momentos em que fazemos uma recapitulação do dia e do que, em consequência, temos de fazer no seguinte, ou então estamos mergulhados em elucubrações que derivam das questões que nos apoquentam. Foi o que sucedeu com a discussão lançada nas ondas hertzianas. Interessou-me o tema.
Por entre as conversas, surgiu um ouvinte em particular que, com uma convicção que roçava a arrogância, disse que não se arrependia de nada do que tinha feito. Esta postura resulta de uma de duas coisas. Ou estamos perante alguém que acredita que em cada encruzilhada com se deparou não interessa o caminho seguido, que o resultado final é sempre o mesmo, portanto, um partidário da teoria da predestinação, ou então teve uma vida tão simples que qualquer opção que se colocasse no seu percurso, além de não diferirem muito na sua essência, os resultados também não eram assim tão diferentes, ao ponto de se considerados relevantes no seu contexto existencial.
Será esta última o tipo de vida que desejamos?

Uma onde as opções são quase iguais em conteúdo e, necessariamente, em consequências?
Uma vida rica do ponto de vista existencial não será aquela em que ao serem colocadas as opções se sente o sabor do poder de escolha?
A própria existência de opções significativas, férteis em provocar dúvidas sobre qual a melhor, não será por si só sinal de uma vida preenchida?
A incerteza nas encruzilhadas provoca descargas de adrenalina e cada um escolhe de acordo com um critério subjectivo. Somos, enquanto seres humanos, o resultado de cada uma das opções tomadas e vamos crescendo, colocando pedra em cima de pedra, como se construíssemos uma casa para albergar a nossa alma. Este processo contínuo torna o passado parte integrante e indissociável do nosso Ser. Não se arrepender de nada é uma alienação completa. Não se pode é viver agarrado aos erros e permitir qualquer tipo de condicionamento. A vida contínua, por muito que isto cheire a lugar comum.
Escolher, sobretudo quando o fazemos mal, deveria significar apenas amadurecimento, uma melhoria enquanto ser humano. Não escolher, quando existe possibilidade de o fazer, é que é motivo de arrependimento. E estar arrependido não significa viver agarrado ás opções que se revelaram erradas. Significa, apenas e só que, nas mesmas circunstâncias, a experiência passará a ditar as regras. A inércia perante a vida inevitavelmente será o que recordaremos com insustentável nostalgia, o arrependimento resultante unir-se-á a alma como um qualquer vulgar parasita, que a destruirá todos os dias um pouco por não termos seguido, por cobardia, o caminho que, de alguma forma, sempre sentimos ser o nosso.
O que seria de nós sem o passado?

A resposta é simples.Não Seríamos.
Umberto Eco no seu livro, “A Misteriosa Chama da Rainha Loana”, retrata a vida de um homem que perdeu a memória de si próprio e que, para a recuperar, encetou uma viagem até aos locais do seu passado em busca dos acontecimentos com eles relacionados e que o fizeram ser quem era. Em certa medida isso acontece naqueles momentos em que nos impõe com firmeza militar a organização de alguns dos recônditos cantos das nossas casas, onde vamos empilhando objectos que, em determinada altura, tiveram um significado especial, e que mais não são do que as provas materiais dos sentimentos que lhes estão associados. São as pedras que fomos colocando, e que nos fizeram o que somos. Obviamente que o pretendido é que os encaminhemos para um destino algo definitivo. No entanto, esta exigência é profundamente penosa, sendo muitas vezes uma impossibilidade desfazer-nos de um objecto, tão forte é a ligação criada e que, também, é difícil de explicar.
A razão para esta hesitação não é o objecto em si, é a viagem que feita ao longínquo tempo em que o tornamos nosso, e que fez aquele momento que se revive ser mais importante que os restantes. São os sentimentos inerentes que afloram. É o mar de sensações provocadas por algo que vagueava por entre os infinitos ecos do passado, impregnadas no cérebro por mecanismos incompreensíveis, e que foi nossa decisão imortalizar, à nossa escala. O objecto apenas serve de estímulo à memória, e encerra em si um capítulo importante com, mais ou menos perceptíveis, reflexos no presente. Estes objectos permitem evocar a galeria de recordações que, caminhando lado a lado no tempo connosco, nos permitem reviver, com deleite ou desprezo, o momento que os fez serem especiais. Acredito que sem estes auxiliares de memória, sem estes pedaços da nossa vida, esses momentos seriam como tantos outros, meros segundos sem história.
Há, no entanto, uma pequena ressalva a fazer. Nestas viagens pode ficar-se agarrado a um determinado momento, do qual não nos conseguimos libertar. As origens das psicoses estão no passado, segundo dizia Freud. Encerrar qualquer capítulo da nossa vida que nos tolda a existência é, por isso, a conquista final. Sendo esta apenas uma forma de arrumar e ordenar o caos, é preciso perceber que não há forma de esquecer nada, fazer de conta que não existe. Esse é o peso das pedras que nos constituem São impossíveis de retirar sem que se crie um novo Ser. E isso ninguém quer. Perder a identidade significa perder aquilo que somos. Esse é o desespero da personagem que Umberto Eco retrata no seu livro e que se torna o nosso quando pensamos o que seria se sucedesse connosco.


Filipe Pinto.