segunda-feira, novembro 20, 2006

Sonhos Destruídos


Um beco sem saída.
Daqueles em que ninguém se quer encontrar. Perante as vicissitudes que a vida nos coloca, por vezes somos confrontados com situações que parecem irreais e distantes, que nem sabemos como devemos ou mesmo se podemos reagir, porque parece não existir nada que possa abrir o caminho bloqueado por uma força desumana e intransponível.
Por inépcia ou incúria, um segundo é quanto basta para tudo se alterar. Nada é definitivo. Quantas vezes num filme, num livro, numa história que alguém conta ou a que se assiste com um distanciamento seguro, se conclui que seria impossível encontrar-se nesta ou naquela posição? Como quase sempre acontece, todos achamos que é inverosímil que um lapso de tempo insignificante possa condicionar toda uma existência e, por isso mesmo, vive-se deliberadamente na inconsciência consciente, porque não obriga à reflexão sobre os nossos actos, numa condição de permanente ilusão, que permite esquecer a responsabilidade, e atribuindo-se ás possíveis consequências, que podem revelar-se esmagadoras e irresolúveis, a mesma importância que ao obituário de um jornal.
Consideramos invariavelmente estar a salvo da ignomínia e do infortúnio. Quando o inesperado acontece, quase sempre reagimos a despropósito. Normalmente, esperamos que tudo se resolva e desapareça após uma noite de sono. Todo o nosso pensamento se centra no desejo de regresso à nossa normalidade, numa regressão no enredo com que a vida nos presenteou. A pergunta que incessantemente se insinua é: Porquê eu?
Um dia acordamos e logo a seguir dirigimo-nos para o emprego, uma vida patética sem grandes oscilações emocionais. À noite em busca de uma qualquer descarga de adrenalina que nos faça sentir vivos, nem que seja por cinco minutos, decidimos agarrar o único instrumento à nossa disposição naquele instante, que por acaso é um carro. Um desafio com um amigo. Perdidos na noite, embriagados por uma sensação tão poderosa, ignoramos qualquer aviso de que uma tragédia pode estar iminente. No meio de uma gargalhada eufórica, desviamos o olhar por um segundo em busca de partilhar uma emoção. Sem pensar, tudo são reflexos e comportamentos irracionais. Nada mais existe. Nesse preciso instante, uma família pára o seu carro. Sem lugar para estacionar, fica em segundo fila. Finalmente a casa nova que todos ambicionavam, os sonhos são tão grandiosos que ninguém pensa no perigo potencial. Mesmo assim, mandam as duas filhas para a relva brincar.
Um estranho sortilégio ganha forma. Começam a tirar as malas do carro. Um segundo, nem dá para se aperceberem do fim. Apenas sentem o esmagamento, a dor não tem tempo de chegar ao cérebro. Os olhos, como que por reflexo, viram-se na direcção das filhas.
As meninas brincavam distraidamente. Inicialmente, o ruído do carro a alta velocidade. A aproximação fê-las desviar o olhar em simultâneo, mesmo antes do embate. O que se seguiu foi apenas um segundo, mas aos olhos delas a cena prolongou-se. Cada ínfimo momento, cada pormenor do acontecimento foi visto individualmente, como se desenrolado em câmara lenta, com a cena a repetir-se vezes sem conta no seu cérebro. Cada ferida, cada pedaço de sangue, cada movimento desamparado, o último sopro.
No futuro e durante muitos anos, estas imagens inundarão os seus pesadelos. Estão irremediavelmente impregnadas nas suas células. As suas vidas serão terrivelmente condicionadas por um sofrimento impossível de se esquecer porque assistir a algo semelhante é como que se de repente toda a maldade da alma humana lhes fosse dada a conhecer em simultâneo.
Filipe Pinto.

sexta-feira, novembro 17, 2006

A Festa e o Cigano

Diz um ditado espanhol “cada cual opina de la fiesta de acuerdo a como le vaya en ella” e para os senhores congressistas a festa até nem correu nada mal.
Sócrates garantiu, prometeu, jurou, afirmou e refutou e o povo eleito aplaudiu.
Aplaudiu quando garantiu que está a governar à esquerda, quando prometeu que vai modernizar o país, quando jurou que vai servir Portugal e os Portugueses, quando afirmou combater as desigualdades, quando refutou as críticas de que não há debate interno e…aplaudiu muitas mais vezes; quando falou contra os sindicatos e os manifestantes, contra a esquerda e contra a direita, a favor das reformas, do rigor e da modernidade e… continuariam a aplaudir mesmo que tivesse dito: Boas! Boas! Boas! São mesmo as congressistas de Ermesinde!
O Congresso não foi propriamente um fórum de reflexão e de debate, mas também não foi para isso que foi realizado e ninguém pode negar que foi uma bonita cerimónia de entronização.
Mesmo assim, (no melhor pano cai a nódoa), há sempre alguém a querer estragar a festa, com suficiente descaramento para proferir frases pindéricas do tipo:
“Para a história do socialismo fica a criação do Serviço Nacional de Saúde por António Arnaut e não as taxas moderadoras dos internamentos”
“Os sacrifícios das finanças públicas só valem a pena se servirem para resolverem o principal défice do país, o social”.
“A Reforma da Administração Pública tem de ser feita com e não contra os Funcionários Públicos”,
Manuel Alegre.
“Não faz sentido cortar só por cortar, até porque a classe média e os Trabalhadores em geral esperam mais serviço do Estado e não menos”, José Leitão.
“Temos que fazer uma pergunta: será que estamos a fazer no Governo o que prometemos? Temos que ser implacáveis nesta resposta”, Helena Roseta.
Aqueles Senhores ainda não perceberam que o José Sócrates é o fundador do Socialismo Moderno que ninguém sabe o que é, mas como diria Fernando Pessoa, se soubessem o que é, que saberiam?
O Filósofo espanhol Ortega e Gasset, no seu livro “A Rebelião das Massas” conta o seguinte episódio:
“Um cigano foi confessar-se; mas o padre precavido, começou por perguntar se sabia os mandamentos da Lei de Deus. A isto o cigano respondeu “olhe vossemecê, Senhor Padre, eu até ia aprendéri, mas ouvi um runrum de que a iam tirári”.
Também anda para aí um runrum que já não regem os mandamentos da esquerda no partido socialista…
… e eu que até me ia filiari!!!
Jorge Gaspar

sexta-feira, novembro 10, 2006

Dois Anos d'A Fábrica


Este senhor é o artista adulado da "Pop Art".
Andy Warhol (1928-1987), foi também a fonte de inspiração do nome deste blog.
Não pretendo ter 15 minutos de fama, apenas tempo para alguns apontamentos, notas e pensamentos.


Foi desta forma que este blog começou, decorrem precisamente, hoje, dois anos. A todos os que passaram por cá, deixo o meu sincero agradecimento, quer seja, pelas vossas palavras, pelas vossas sugestões, pela vossa solidariedade, pela vossa critíca, mas acima de tudo, o meu muito obrigado, pelo vosso encorajamento.
Um abraço a todos.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Os Humanistas?!

O Primeiro Ministro, Eng.º José Sócrates, afirmou em conferência de imprensa, no final da XVI Cimeira Ibero-americana, realizada no passado fim-de-semana em Montevideu, que “Em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontra melhor exemplo do que os EUA, a política externa (Norte Americana) valoriza estes pontos”.
Como já estamos habituados a que o Sr. Primeiro Ministro diga o contrário daquilo que pensa, é muito possível que quando diz “não encontro melhor exemplo”, esteja a pensar “não encontro pior exemplo” e se assim for, pensa muito bem.
Destacamos quatro paradigmas da visão humanista daquele País, designadamente: a aplicação da pena de morte, a base naval de Guantánamo, a invasão do Iraque e a liberdade de expressão.

1. Hoje, os EUA fazem parte de um grupo de países resistentes, onde a pena de morte é ainda oficialmente permitida, sendo o segundo País, depois da China, onde mais pessoas são executadas anualmente.
A Amnistia Internacional, revelou que pelo menos 2.148 pessoas foram executadas em 2005 – 94% dos quais nos EUA, Irão, Arábia Saudita e China. 20.000 pessoas estão no corredor da morte.
Apesar dos esforços desenvolvidos por inúmeras organizações não governamentais bem como dos acórdãos e tratados internacionais com vista à abolição da pena de morte, os EUA, não se limitam a mantê-la, como ainda violam sistematicamente a Convenção de Viena, não informando os demais países das detenções e condenações de cidadãos estrangeiros, ao ponto de terem sido condenados (em 1999) pelo Tribunal Internacional de Justiça, por ignorarem os direitos de (Walter e Karl LaGrand), dois irmãos de origem alemã executados.
2. Ainda em matéria humanista, os Estados Unidos na sua caminhada imperial do “quero posso e mando” votaram contra o projecto da criação do Tribunal Penal Internacional, (com competência para julgar crimes de guerra, genocídios e crimes contra a humanidade), de modo a evitar que seus soldados viessem a ser julgados por esse tribunal, ao mesmo tempo que tratam (à sua maneira) os prisioneiros suspeitos de terrorismo, em total desrespeito pelos direitos humanos.
O exemplo disso são as detenções em Guantánamo (Cuba), em que centenas de pessoas estão há 5 anos presas, sem acusação nem julgamento, vendo os seus direitos mais elementares serem-lhes negados, sujeitos a torturas e maus-tratos. Os prisioneiros não têm acesso ao tribunal, aconselhamento jurídico ou a visitas dos seus familiares.
Têm sido reveladas tentativas de suicídio e greves de fome (segundo o Jornal The New York Times, para não morrerem, são amarrados em cadeiras e obrigados a alimentarem-se por um tubo).
Veja-se a propósito, o filme estreado este ano, de Michael Winterbottom, “Caminho para Guantánamo”, e que ganhou o “Urso de Prata” no Festival de Berlim. O filme mostra as condições degradantes em que se encontram os detidos e suscita questões sobre a eventual inocência de muitos deles.
Por sua vez, o Comité da ONU contra a Tortura, recomendou aos Estados Unidos que encerre o centro de detenção na baía de Guantánamo. O Comité concluiu que se deve permitir aos detidos acesso à justiça ou então libertá-los o quanto antes e que não devem ser enviados para países onde praticam a tortura (uma prática corrente).
3. Ainda em nome da luta contra o terrorismo, os EUA invadem países, ao bom modo das cruzadas religiosas da idade média, e sob o desígnio de um deus justiceiro, (na luta do bem contra o mal), matam centenas de milhares de inocentes, destroem as infra-estruturas, saqueiam, tomam conta, mandam matar os seus dirigentes, impõem as suas leis e deixam por onde passam um rastro de sangue, miséria e destruição.
A propósito dos métodos utilizados na guerra “preventiva” contra o Iraque, a rede de televisão italiana, RAI exibiu, em 2004, um documentário intitulado Fallujah onde se comprova o uso de armas químicas por militares americanos, designadamente o uso de fósforo branco, queimando “as carnes até aos ossos”, queima indiscriminadamente, as mulheres e as crianças são as principais vítimas.
Sempre se soube que no Iraque não havia armas de destruição maciça, nem que apoiava o terrorismo e, quanto a ser uma ditadura sanguinária, sempre se pode perguntar quantas ditaduras sanguinárias são amigas e apoiadas pelos americanos. Mas essas não pesam na consciência. O Paquistão, A Arábia Saudita, Israel, algumas ditaduras da América Latina, entre outras, representam o “Bem” nessa cruzada.
4. As garras do “Tio Sam” também se viram contra aqueles que ousam criticar a politica do Sr. Bush, e sobre isso é elucidativo um artigo ontem publicado no jornal espanhol “ El País” subscrito por Javier del Pino “…Natalie Maines, vocalista do grupo country Dixie Chicks, disse há três anos, num espectáculo em Londres que estava envergonhada por o Presidente dos Estados Unidos ser do Texas como ela. Foi o fim da sua carreira. As emissoras de rádio deixaram de emitir a sua música e as várias cadeias de televisão recusaram emitir o anúncio de um documentário que narra este incidente. O documentário “Shut up and sing” (cala-te e canta) mostra o declive imediato do que era até esse momento, o grupo country mais famoso e rentável dos Estados Unidos, As Dixies Chicks…”.
“Tristemente isto diz muito sobre o nível do medo que há nessa sociedade. Põe na lista negra um filme sobre um grupo de artistas que foram postos numa lista negra por exercerem o seu direito à liberdade de expressão”.
Sr. Primeiro Ministro (depois desta pequena espreitadela à “realpolitik” ou à “Ideological Politics”-fica ao critério de quem lê), parece-me que a frase que V Ex.ª proferiu fica muito melhor se sofrer “pequenas” alterações, podendo ficar assim: “Em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontro, no chamado mundo civilizado, pior exemplo do que os EUA, a politica externa (Norte Americana) valoriza estes pontos”.
Mas, lapsus linguae, cada um pode ter.


Jorge Gaspar

terça-feira, novembro 07, 2006

Acabou a Fantochada


A condenação “medieval” de Saddam Hussein à morte por enforcamento, no primeiro de vários processos por atrocidades cometidas durante o seu regime, terminou da pior maneira para haver a possibilidade da Justiça triunfar.
Quero deixar bem claro, que a minha posição em relação à pena de morte, é a mesma que a da Amnistia Internacional: a pena de morte é a punição mais cruel, desumana e degradante e, acima de tudo é, uma violação clara do direito à vida.
Ao ser condenado à morte por este caso, relativo à execução de 148 aldeões, o sequestro de 399 famílias e a destruição das suas casas e terras agrícolas na aldeia de Dujail, em 1982, muitos dos mais terríveis crimes cometidos por Saddam, poderão ficar por desvendar.

Saddam Hussein é suspeito por crimes contra a humanidade e crimes de guerra em vários casos, de entre eles contam-se: a operação de Al-Anfal contra os curdos, em 1988, que fez 180.000 mortos; o gaseamento de cerca de 5.000 curdos em Halabja, no mesmo ano; a repressão dos xiitas, em 1991, com milhares de mortos; a invasão do Kuwait, um ano antes; o massacre de 8000 membros da tribo dos Barzani (um clã curdo), em 1983, e o assassínio de líderes de partidos políticos e de dignitários religiosos xiitas entre 1980 e 1999.
Com uma tão extensa lista de crimes gravíssimos a condenação à morte logo no primeiro julgamento não tem algum sentido e obrigatoriamente impõe a formulação algumas perguntas:

A sentença será executada, ou Saddam Hussein será julgado por todos os outros crimes que é acusado?
Pararão o corrente julgamento, do caso Al-Anfal, para o executar?
Foi esta sentença uma benesse aos republicanos, numa tentativa desesperada de estes vencerem as eleições de hoje nos EUA?
De momento não há respostas a estas perguntas e Saddam Hussein, como todos os humanos, tem apenas uma vida.
Após o anúncio da sentença, devemos reflectir sobre o significado deste julgamento. O julgamento de crimes de guerra normalmente ocorrem no fim de um período de trauma quando a sociedade está pronta a enfrentar os seus fantasmas, após um período de ausência de violência e de retribuição extrajudicial.

O julgamento de Saddam Hussein não cumpriu nenhum destes requisitos.
O Tribunal Especial Iraquiano também não ajudou em coisa alguma, para dar credibilidade ao julgamento, com a mudança sucessiva de Juízes e o assassinato de três advogados de defesa de Saddam Hussein.
O sistema judicial iraquiano ou o que quer que isso seja, sem qualquer tipo de contemplações transpôs o rubicão, espera-se agora pressão da comunidade internacional, especialmente por parte da União Europeia, que é a única região do Mundo, livre desta prática hedionda, para que haja uma moratória na execução da ignóbil sentença, porque sem a força legitimadora das instâncias internacionais, este julgamento, é o que é: uma fantochada.
O julgamento de Saddan Hussein, tem fortes possibilidades de ser recordado historicamente, como um fraco espectáculo que desacreditou as novas autoridades iraquianas e toda a Administração Americana, especialmente o Presidente George W. Bush.

Se havia esperança de se alicerçar um Estado de Direito no Iraque, a violência quotidiana e esta condenação à morte por enforcamento, bem provar que o Iraque tem um muitíssimo longo caminho a percorrer, para alcançar esse tal Estado de Direito. Se conseguir.

sexta-feira, novembro 03, 2006

"Rosa Alaranjado"


“Politica é a arte de mentir a propósito”
Voltaire

Sr. 1º Ministro,
Parece que a palavra de ordem do momento é – Liberalizar, Liberalizar, Liberalizar – mas, enquanto a direita económica se regozija, a direita política anda completamente à deriva.
V. Ex.ª usurpou-lhe o programa, as ideias e os métodos, de tal modo que, os coitados, para se afirmarem como alternativa de poder, apenas reivindicam a alteração da cor do papel em que são dados os despachos ministeriais.
Consideram que o rosa é uma cor velha, esbatida e gasta e que não se coaduna com as novas exigências de modernidade, pelo que propõem em sua substituição um laranja shock, mais em consonância com o choque tecnológico que V. Ex.ª prometeu, com o choque fiscal que V. Ex.ª ofereceu e com choque emocional que V. Ex.ª provocou nos portugueses que acreditaram em si.
Tenho de concordar que a cor laranja fica melhor como pano de fundo ao ataque ao Sector Público, ao desmantelamento das funções sociais do Estado, à privatização dos serviços públicos, bem como à coragem demonstrada na grande ofensiva contra os privilégios dos reformados, pensionistas, idosos, doentes e toda essa gentinha que representa um encargo insuportável e que em nada contribui para o saneamento das contas públicas.
Mas V. Ex.ª esteve muito bem, quando em sessão plenária, na Assembleia da República, a propósito da discussão sobre o “estado da Nação”, dirigindo-se à bancada Social-Democrata disse: “ V. Exas. estão zangados porque gostariam de ter feito o que nós estamos a fazer e não o fizeram”, foi muito bem dito sim senhor! Nem imagina como me ri ao ouvir V. Ex.ª.
Também concordo com V. Ex.ª quando diz que todos estão de acordo que é necessário fazer sacrifícios, desde que sejam os outros a fazer e, como prova disso, os deputados, que apoiam incondicionalmente as medidas restritivas do seu governo, apenas protestaram, quando V. Ex.ª tentou acabar com alguns dos seus privilégios, obrigando-o, num verdadeiro golpe de rins, a um estratégico e sensato recuo
Mas, deixe que lhe diga que os portugueses são uns ingratos, então não é que quando V. Ex.ª vem anunciar, com pompa e circunstância, como o caso merece, um forte investimento na Ciência e na Investigação, assistimos a uma manifestação de investigadores que vêm protestar contra a precariedade do emprego e contra as más condições de trabalho? Não bastavam já os funcionários públicos, os professores, os trabalhadores dos transportes e todos esses desordeiros que andam por aí?
Mas enfim, nem tudo são más notícias, os portugueses sempre se podem animar com o espectáculo das opas, fusões, transacções e isenções, bem como, com os paraísos fiscais e a revista Forbes que nos mostra que num país de pobres, existem uns quantos que têm fortunas dignas de destaque internacional.
Não posso deixar de mencionar que no ano de 1928, numa conjuntura político/económica difícil e complexa, um Senhor, ministro das finanças, de nome Oliveira Salazar, publicou a reforma orçamental e, no período de 1928/29, registou um saldo positivo que lhe granjeou grande prestígio. Também ele exigiu o controlo sobre as despesas de todos os ministérios e impôs forte austeridade e rigoroso controlo das Contas do Estado, conseguindo um superavit nas finanças públicas e… foi o que foi…
Sr. 1º Ministro, os portugueses não têm dúvidas que V. Ex.ª vai controlar o deficit e vai ter sucesso nesse desígnio nacional de cumprimento do Programa de Estabilidade e Crescimento com que o País está comprometido. O que não querem, seguramente, é serem espectadores de mais uma página menos honrosa da História de Portugal, e muito menos que ela seja protagonizada por um partido de esquerda.


Jorge Gaspar.

quarta-feira, novembro 01, 2006

É Urgente Mudar


Recentemente foi lançado mais um alerta prévio. O anúncio de que no ano 2050 serão necessários os recursos de dois planetas iguais à Terra para suportar a população mundial. Este aviso foi mais uma vez subvalorizado como uma espécie de profecia apocalíptica, parte integrante dos delírios de cientistas loucos e desfasados, com tendências para dramatizações desnecessárias. Convenientemente, são feitas mais algumas tentativas de relativizar a sua importância e, como andam todos absorvidas numa vida já de si complexa e o horizonte é ainda demasiado longínquo em termos da duração média de uma vida humana, é claramente preferível pensar que não é verosímil que se concretize, até para garantir alguma paz de espírito e a eliminação do sentimento de culpa.
É-lhe, por tudo isto, atribuída menor relevância do que a uma previsão astrológica. Só que efectivamente não o é. Ao contrário do pensa a quase totalidade da humanidade, os recursos do planeta são finitos e, por isso mesmo, nos próximos anos as coisas vão ficar complicadas. Estamos a trabalhar para a nossa extinção.
O mais espantoso disto tudo são as preocupações que prevalecem como fundamentais. Embora o dinheiro, o poder absorvam a atenção diárias da quase totalidade da população, as grandes questões da humanidade neste momento, giram em torno de discussões teológicas e de rivalidades internacionais que se revelam mesquinhas em face daquilo que poderá estar em causa. A extinção da espécie e, perante isto, para que interessa o resto. Por um lado, discute-se quem possui a ligação mais directa a um Deus que cada um diz que representa melhor na Terra, isto é, todos acham que são o povo escolhido. Por outro lado, nas relações internacionais discutem-se questões de identidade, de nacionalidade entre povos com o intuito de definir melhor fronteiras e nações, dividindo a Humanidade com base em pressupostos que no futuro serão irrelevantes.
Pensa-se que estas atitudes trazem algum benefício à espécie, quando muito mais importante que isto é o facto de que poderemos estar à beira de um retrocesso civilizacional.
E o que significa isto para cada um individualmente?
É aqui que habitam os fantasmas futuros que dominam o meu pensamento. Em confronto com estes, os do passado não têm qualquer possibilidade de aflorarem com intensidade relevante, até porque, com maior ou menor dificuldade, vamos vivendo. Com os do futuro, já não posso dizer o mesmo. Impotentes perante o desenrolar dos acontecimentos, inevitavelmente e de forma progressiva instalar-se-á o desespero.
Esta espécie de pesadelo em que me deixo envolver, imagens a preto e branco, como numa banda desenhada que olho as minhas filhas a dormir e fecho os olhos imaginando qual o seu futuro, se é que vão ter algum. A luz que nos iluminava desaparecerá sem remissão. Imagens de sofrimento, de gente esfomeada de trajes andrajosos e imundice, as lutas pelo mais pequeno pedaço de comida, o abandono das conquistas civilizacionais em detrimento da simples sobrevivência.
Os comportamento atávicos irão emergir como dominantes e a escuridão abater-se-á sobre a humanidade. A noite deixará de estar iluminada pela obra do Homem porque os recursos se esgotaram. As almas tornar-se-ão negras ao esquecer que a essência do ser humano vai para além da supressão da sensação de fome, o que configura uma regressão a um estado existencial em tudo igual a um vulgar animal que mais não sente que a necessidade de comer para sobreviver. Deixaremos de ser sensitivos para sermos instintivos.
Face a isto, os olhos da inocência têm um efeito notável. Quando uma criança olha para um pai, normalmente, o que se vislumbra são sinais de uma adoração e amor quase sem limites. Para nós, a sensação é tão forte que é como se todas as células do nosso corpo fossem unidas por uma corrente de origem mística e, em conjunto, todo o nosso ser se tornasse um só sentimento. Só que é preciso agir, pois os nossos comportamentos deveriam proteger o futuro e não coloca-lo em causa. A mais importante demonstração de que somos merecedores de tais sentimentos, é assegurar que possam vive num mundo onde a essência da humanidade não se desvanece ao som da nostalgia.
Se assim não for, seremos certamente alvo de julgamentos quando eles crescerem e verificarem que tudo era uma ilusão, o que lhes foi ensinado era irrelevante perante o desastre iminente e as demonstrações de afecto soarão eternamente a falsidade e a egoísmo. Este sentimento que nos une não deve ser apenas expressa em palavras, algo que nos faz sentir bem apenas e só enquanto estivermos presentes, deveria persistir para além do nosso tempo. A sensação que lhe está associada deve levar-nos a um esforço de preservação com motivação acrescida nesta época do desenvolvimento Humano. Pensamos estar a construir o futuro, educação, bens materiais, tudo em prol deles, mas existe sempre com algum egoísmo envolvido. Uns mais que outros, sentimos que realmente conseguimos algo e esquecemos o principal.
Seremos tão inconscientes que as nossa preocupações com aqueles que nos suscitam as emoções mais fortes que são passíveis de serem sentidas estão apenas associadas à nossa mortalidade? Penso que não será necessário passar muito tempo para se iniciar a reversão da adoração, do amor, do reconhecimento, quando os donos do futuro, se aperceberem da cruel realidade. Estamos a destruir aquilo que eles vão necessitar para viver. O ódio vai-se instalar, em resultado do desespero que será sobreviver e para o que não foram, seguramente, preparados pelos mesmos que os traíram e durante anos lhes juraram amor. Seremos considerados indignos de qualquer sentimento de reciprocidade.

Filipe Pinto.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Os Grandes Portugueses


Muita tinta já correu por causa do programa da RTP “Os Grandes Portugueses”. Essencialmente, essa tinta foi gasta, pela não inclusão da biografia de António Oliveira Salazar, no site do concurso.
Ora, quer se não goste, quer se odeie, Salazar foi uma figura incontornável do século vinte português. A democracia não pode ter medo do fantasma do “Senhor Doutor”, porque exceptuando os taxistas, ninguém precisa de um “novo Salazar”.
Segundo o site da RTP, o programa de entretenimento “Os Grandes Portugueses”, é um programa que “de forma bem disposta, combina o Documentário com o Grande Espectáculo” e pretende “motivar os portugueses a nomear a sua figura histórica preferida”.
Sem pretender ferir susceptibilidades, colocar: Herman José, Mariza, Mário Viegas, João César Monteiro, Raul Solnado, Ruy de Carvalho, Catarina Eufémia, Jesus Correia, Eduardo Souto Moura, Joaquim de Almeida, Luís Miguel Cintra, Maria Medeiros, Livramento, António Guterres, Durão Barroso, Luís Figo, José Mourinho, entre muitos outros, como “figuras históricas” com possibilidades de serem eleitos o melhor português, é no mínimo, enxovalhar as verdadeiras figuras na nossa História.
Muitas destas pretensas figuras históricas, não merecerão uma pequena nota de rodapé, quando passarem pelo crivo da História.
Somos um país de muitos e grandes vultos, não precisamos de pretensas”figuras históricas” para confundir ainda mais, o já débil conhecimento da nossa história, por parte da esmagadora maioria dos portugueses.
Mais de oitocentos e cinquenta anos de História, fornecem uma panóplia de nomes para escolher: pela pena, pelo pensamento, pela bravura, pela liderança, pela espada, pela compaixão, pelo génio, ou por outra qualquer via, há muitos portugueses que conquistaram por mérito próprio e com toda a justiça, um lugar no sub inconsciente nacional.
Na realidade, a dificuldade estará em escolher o “melhor entre os melhores” se, se quiser encarar o voto com a dignidade que esta iniciativa merece. Por isso, há que definir critérios, para dignificar esta iniciativa.
O meu critério de votação passa pela escolha da personalidade cuja a acção ou obra, resultou numa projecção de Portugal, de forma ímpar, na História Universal.
Aplicando este critério, as personalidades que mais se salientam, na minha opinião, são três:
1º- D. Afonso Henriques, cuja estratégia, valentia, coragem e liderança, levaram à fundação de Portugal;
2º- João II, pela superior liderança do País durante o seu reinado e pela repercussão que teve as suas decisões para Portugal, principalmente a assinatura do Tratado de Tordesilhas.
3º-Fernão de Magalhães.
A minha escolha recai sobre: FERNÃO DE MAGALHÃES.
E recaiu sobre Fernão de Magalhães, porque a sua viagem mudou irremediavelmente o curso da História e a forma como vemos o Mundo. Esta viagem alterou para sempre as ideias que o mundo ocidental tinha sobre cosmologia e geografia. Demonstrou entre outras coisas, que a terra era redonda, que as Américas não faziam parte da Índia, que os oceanos cobriam a maior parte do Planeta. Fernão de Magalhães acrescentou ao planisfério o Oceano Pacífico, baptizado por ele. A viagem de circum-navegação do planeta é viagem marítima mais importante jamais empreendida, e ainda hoje, “têm uma poderosa ressonância”.
Embora não tenha dado o nome a nenhum continente ou país, o nome de Magalhães foi atribuído a um grupo de ilhas a nordeste das Marianas, o arquipélago de Magalhães, ao estreito de ligação entre o Atlântico e o Pacífico, a sul do continente americano, o estreito de Magalhães, a uma região do Chile meridional, a ocidente da cordilheira dos Andes, o território de Magalhães. Ainda em sua homenagem, o seu nome encontra-se ligado às duas nebulosas mais próximas da nossa galáxia, baptizadas pelo astrónomo Hevelius, as nuvens de Magalhães.
Hoje li na revista SÁBADO, uma "entrada" que desconhecia e que vou partilhar convosco, porque tem a ver com a ilustre personalidade retratada no post:
"Não é por acaso que os astronautas rezam a Fernão de Magalhães cada vez que se preparam para uma viagem ao Espaço. Fazem-no porque o navegador português é o protector dos descobridores".
(Revista SÁBADO, Nº131, 1 a 8 de Novembro de 2006).

sexta-feira, outubro 27, 2006

Um País à Beira Mar Plantado


De acordo com as conclusões do “Painel População” dos Censos 2001, verifica-se a consolidação da faixa litoral ou da oposição litoral/interior, com extensão do litoral algarvio, através do Alentejo litoral, com 80% da população, evidenciando-se o eixo Braga-Setúbal, com 70%, sendo que, praticamente todas as zonas do litoral viram nas últimas décadas crescer a sua população enquanto as zonas do interior tiveram taxas de variação demográfica negativa.
A Partir dos Censos 2001, João Ferrão traça-nos uma panorâmica das dinâmicas territoriais e trajectórias de desenvolvimento do País.
Para o efeito considerou 4 domínios de observação: Ocupação do Território; Famílias; Empregabilidade e Condições de Vida.
Concluiu que estamos perante um país espacialmente desequilibrado – maior concentração de pessoas, actividades, competências, oportunidades, numa parcela reduzida do território.
O mesmo autor refere
“O Portugal urbanizado, industrializado, infra-estruturado e demograficamente dinâmico – o litoral – destaca-se do Portugal rural, agrícola, subdesenvolvido, demograficamente repulsivo – o interior…”
“…A oposição litoral/interior pressupõe acção, vinculada neste caso a uma ideia chave das sociedades modernas, deve ser ordenado e planeado através de politicas públicas”.
Refira-se que João Ferrão é tão só e apenas o actual Secretário de Estado do Ordenamento do Território e das Cidades, pelo que caberá perguntar se terá o Governo alguma estratégia de desenvolvimento e de planeamento territorial que contrarie esta tendência.
Tomemos como exemplo, uma medida emblemática da actuação deste executivo - encerramento das urgências e maternidades – e leiam-se, a propósito, algumas passagens de uma intervenção, do deputado João Semedo, dirigida ao Ministro da Saúde:
“Sabemos que não são poucos nem pequenos os problemas do serviço de saúde. De cada vez que o governo tropeça num problema a resposta é invariavelmente a mesma: o encerramento do serviço em causa, trate-se de uma maternidade, hospital ou de uma urgência. Se o problema está numa maternidade fecha-se. Se o problema é o hospital fecha-se. Se é na urgência fecha-se. Este ministério não é um ministério é uma comissão liquidatária”.
“Muitos dos serviços que o governo se prepara para encerrar, precisam de mais meios humanos, técnicos e meios financeiros, para cumprirem as suas funções. E é isso que se exige que um governo faça”.
“O Governo refugia-se e argumenta com os múltiplos pareceres e relatórios como tudo se pudesse reduzir a uma questão de natureza exclusivamente técnica, insensível ao contexto local, à dimensão social e humana e tantas vezes dramática da prestação de cuidados de saúde e à necessidade de assegurar o equilíbrio e a solidariedade entre regiões no acesso aos serviços públicos de saúde”.
“Hoje é a maternidade que fecha, amanhã é o centro de saúde, mas, entretanto, o mesmo governo e a mesma politica já acabou com o posto de correios, a estação de comboios, a escola e o tribunal, deixando as populações entregues a si próprias. O Estado está em debandada. Esta politica contribui para a desertificação do interior e o esvaziamento das zonas menos desenvolvidas, dificulta a fixação nessas regiões e acentua as conhecidas assimetrias de desenvolvimento do país”.

Esta e muitas outras medidas parecem andar ao arrepio das verdadeiras necessidades de desenvolvimento do interior, com vista a uma maior coesão social e territorial e, cada vez mais acentuam, na dicotomia litoral/interior, aquilo que alguns autores referem como um país a duas velocidades. Eu não sei bem a que velocidade anda o litoral, mas seguramente que no interior está engrenada a marcha-atrás.
Numa lógica empresarial de rentabilidade e, de economia de escala, estaremos de acordo que nada será viável no interior, por isso não se fazem estádios, nem outros grandes equipamentos por que não há públicos, os serviços são onerosos, as infra-estruturas caras, os investimentos não têm retorno, e nesta perspectiva só há uma saída como qualquer empresa que não tem lucros, fecha-se a porta. Seja o governo, como dizia João Semedo, comissão liquidatária de todo o interior (neste caso) e vamos os restantes 20% viver para o litoral (ainda cabemos) e transforme-se o resto numa coutada, com parques de recreio e lazer para os nossos parceiros europeus.
Ou talvez não…
Estes dados demonstram a necessidade de outro tipo de desenvolvimento integrado e sustentado, que terá que passar por uma nova concepção social e politica da administração do território e aqui a Regionalização tem um papel fundamental a desempenhar por forma a combater as assimetrias no desenvolvimento do pais, a melhorar aproveitamento dos recursos, com definição de politicas concretas de povoamento, e da criação de centros urbanos com pólos de desenvolvimento, melhorar o investimento para vencer o isolamento e facilitar a fixação de quadros. Enfim, uma efectiva descentralização de poderes, competências e de meios.
É um debate que está por fazer na sociedade portuguesa.
Concordo com um dos comentadores a um anterior artigo que referia o papel fundamental da educação, pois sem massa crítica, digladiam-se argumentos de um e de outro lado, de forma dramática e, o “Zé” que está habituado a discutir cada assunto como discute o futebol, i.e., com entusiasmo clubista, nunca enxerga as faltas que a sua equipa comete e culpa os árbitros, os dirigentes, os adversários e a má sorte, pelos erros da sua própria equipa e vai deixando que (os do seu clube) governem a seu bel-prazer.
Apetece parafrasear o ilustre poeta futurista e tudo – Almada Negreiros – quando no início do século dizia “inventaram-se todos os remédios que hão-de salvar a humanidade, só falta mesmo salvar a humanidade”.


Jorge Gaspar

quarta-feira, outubro 25, 2006

A Razão Tem Sempre Cliente


O Humor Negro, melhor dizendo, o Miguel Velhinho, passou as crónicas do seu blogue, A Razão tem sempre Cliente, a livro. Penso que fui o primeiro blogger a dizer-lhe que as crónicas que ele escrevia, mereciam ser editadas em livro, por isso sinto-me contente, com a edição deste livro. Para além de estar contente, já o encomendei.
Com prefácio de Edson Athayde, o livro é uma caricatura de Portugal e dos Portugueses na boa tradição lusa de escárnio e maldizer. A Razão Tem Sempre Cliente é assim um retrato da alma lusa que reúne cerca de 150 crónicas que versam sobre os mais variados temas da actualidade: da Razão da Saudade, à Razão do Orgasmo, passando pela Razão da Improdutividade, pela Razão da Borla ou pela Razão do Fado, de Fátima e do Futebol. Enfim, razões de sobra para não perder este livro hilariante e acutilante.
Diz Edson Athayde: “Gosto de quem não tem medo de afirmar. Mesmo sabendo que amanhã pode mudar de opinião. Mesmo sabendo que por ter uma razão, não significa que todas as outras pessoas tenham que ter a mesma. É aqui que reside uma das grandes diferenças entre os chamados “fazedores de opinião” e os cronistas.Os cronistas querem é ter o prazer da narrativa e da escrita. Querem descrever, contar, aumentar um ponto e fazer um conto. Diferente dos comentadores tradicionais sempre hirtos e solenes na sua necessidade de explicar ao gentio que o mundo ou é preto ou é branco, nunca cinza. […]É um livro de crónicas, sim senhor. Dentro da melhor tradição lusa de escárnio e maldizer. São textos mais concisos do que curtos que tentam fazer a radiografia da nação com doses cavalares de material radioactivo. Típico método de quem não está à procura do melhor tratamento para o enfermo (até porque sabe que o doente é incurável nas suas manias, defeitos e feitios) e sim de uma forma de registar para a posteridade os pontos negros que tinha na alma.Alma. Estamos, pois claro, a falar da alma lusa. Sempre sob a forma de uma divertida caricatura.”

Título: A Razão Tem Sempre Cliente
Autor: Miguel Velhinho
Editor: 101 Noites
PVP: 16 euros

Se o livro for comprado on-line, será autografado pelo autor: http://www.101noites.com/encomendas.html
Texto das 101 Noites.

Uma questão de vírgulas


Onde colocar a vírgula na frase abaixo?

"Se o homem soubesse o valor que tem a mulher andaria de rastos à sua procura."

As mulheres geralmente colocam a vírgula após o substantivo "mulher"; os homens, por sua vez, gostam de colocar a vírgula após a forma verbal "tem".

Ambos, parecem ser, pouco letrados!

sexta-feira, outubro 20, 2006

Governem Contra Nós


Em tese pode aceitar-se que o país tem pela frente um desafio de consolidação das contas públicas e que o esforço da dívida nos vai empurrar para uma política de contenção das despesas públicas e de medidas restritivas ao consumo, com emagrecimento dos já parcos rendimentos das famílias.
Também é pacífico aceitar que o estado a que as coisas chegaram se deve a uma série de politicas erradas dos sucessivos governos que esbanjaram, sem qualquer critério, os milhões que recebemos da Europa com o propósito de modernizar e desenvolver o país com vista a uma plena integração no mercado europeu, mas que em vez de nos aproximar, nos foi afastando cada vez mais dos nossos parceiros e, sobre isto já muito foi dito e redito por políticos, economistas, gestores, empresários, jornalistas e demais comentadores.
Assistimos então a uma série de medidas governamentais e de iniciativa legislativa na Assembleia da Republica que visam esse desiderato de redução da despesa em todos os sectores de actividade (sem desperdiçar, numa primeira fase o aumento da receita, via aumento de impostos, porque esta tem um efeito imediato e urge diminuir o défice).
Estamos num processo reformista em larga escala, com especial incidência na Administração Pública, com uma série de medidas contundentes em todas as direcções: Congelamentos de carreiras; de salários; de admissões; o novo Estatuto da Carreira Docente; a Reforma da Segurança Social; o Pacto da Justiça, alterações no Sistema de Saúde com a racionalização das unidades de cuidados prestados, (sendo as Urgências e as Maternidades os exemplos mais visíveis); a nova Lei das Finanças Locais; os excedentários; a introdução de novas metodologias de avaliação de desempenho de Serviços e Funcionários, e assim por adiante, enfim, uma panóplia de iniciativas que traduz uma dinâmica governamental nunca antes vista.
Contudo poder-se-ia perguntar o que pensa cada um de nós sobre tais medidas?
Concordando, com a tese enunciada, que deve seguir-se uma politica de rigor e de contenção, damo-nos conta, desde logo, de muitos aspectos que nos deixam apreensivos.
Independente do mérito de todas as medidas anunciadas elas têm como denominador comum a redução da despesa e isto suscita a pergunta legitima de saber se há vontade de reformar para optimizar recursos, implementar novas técnicas de gestão, rentabilizar e aumentar a eficácia e eficiência dos serviços, premiando a competência e a qualidade nos serviços prestados e beneficiando os bons artificies ou, antes, elas têm apenas subjacente questões economicistas, de poupança, diminuindo as condições de vida dos trabalhadores e baixando a qualidade dos serviços prestados.
Sendo medidas consideradas boas para o país e para as populações a médio prazo, porque são tão penalizantes e tão mal recebidas pelos seus destinatários?
Porque não se tomam medidas efectivas para combater a corrupção que é generalizada na Administração Pública, importando saber quantas pessoas ao longo das últimas décadas entraram num emprego público pela sua competência?

Quantos lugares de nomeação obedecem a esse critério?
Porque são nomeados milhares de fieis sempre que o governo muda?
Porque não se combatem interesses instalados no nosso País?
Porque temos que mandar os nossos filhos estudar medicina para a República Checa ou Espanha?
Porque tem a Banca um estatuto fiscal privilegiado?
Porque conseguem a banca e alguns grupos económicos arrecadar receitas fabulosas quando o resto da população vive um empobrecimento crescente?
Porque não se combate eficazmente a fraude e a evasão fiscal e não se acaba com o sigilo bancário?
Porque não se faz uma verdadeira reforma na justiça em vez de um vago pacto entre os 2 principais partidos passando esta a ser célere e eficaz não só para os pequenos infractores mas também para os chamados crimes de colarinho branco? E para quando deixam os tribunais de serem locais de humilhação e vexame para os cidadãos?
Porque se introduzem novos mecanismos de perequação na nova lei das finanças locais que, privilegiando o critério "população" em detrimento do" território", beneficiam deste modo os municípios do litoral e acentuam as assimetrias existentes?
Porque não se aposta no desenvolvimento do interior e em vez disso se vai deixando morrer aos poucos, encerrando Serviços, um atrás de outro, por questões de rentabilidade, quando a Europa preconiza exactamente o contrário, com apoios a regiões mais pobres e periféricas?
Porque temos mais de dois milhões de pessoas a viver no limiar da pobreza enquanto os 100 portugueses mais ricos têm uma fortuna equivalente a 17% do Produto Interno Bruto?
Porque se deixam cair uma a uma as promessas eleitorais dizendo que se vai baixar os impostos quando se aumentam? que se vão criar 150.000 postos de trabalho quando aumenta o desemprego? se vão manter as SCUTS, grande bandeira do partido do poder,, em sinal do apoio às zonas do país mais desfavorecidas e afinal verifica-se que também aqui era mentira.
Por onde vai o nosso País?

Qual o futuro dos nossos filhos?
Que medidas estão a ser tomadas que lhes possam dar esperança?
Que lhes dizemos?
Estas e muitas outras perguntas são as que ouvimos na rua, nos cafés, nos locais de trabalho, todos os dias, mas que pelos vistos os nosso governantes não escutam e vão continuando a (des)governar este país contra o povo que afinal, segundo dizem, foi quem os legitimou a tal tarefa - governem contra nós.


Jorge Gaspar.

Há muito tempo que tinha feito o convite ao Jorge Gaspar para escrever neste blogue. Parece que, finalmente, aceitou o desafio.
Bem vindo e um abraço.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Samora Machel


Samora Moisés Machel nasceu na aldeia de Madragoa, actual Chilembene em 29 de Setembro de 1933.Filho de um agricultor relativamente abastado, Samora entrou na escola primária com 9 anos, quando o governo colonial português entregou a “educação indígena” à Igreja Católica. Quando terminou a escola primária, o jovem de cerca de 18 anos quis continuar a estudar, mas os padres só lhe permitiam estudar teologia e Samora decidiu ir tentar a vida em Lourenço Marques.
Teve a sorte de encontrar trabalho no principal hospital daquela cidade e, em 1952 começou o curso de enfermagem. Em 1956, foi colocado como enfermeiro na ilha da Inhaca, em frente da cidade de Maputo, onde casou com Sorita Tchaicomo, de quem teve quatro filhos, Joscelina, Edelson, Olívia e Ntewane.
Samora Machel foi educado como nacionalista e, como estudante, foi sempre um “rebelde” e tomou conhecimento dos importantes acontecimentos que se davam no mundo: a formação da República Popular da China, com Mao Tse-Tung, em 1949 a independência do Gana, com Kwame Nkrumah, em 1957, seguida pela de vários outros países africanos. Mas foi o seu encontro com Eduardo Mondlane de visita a Moçambique, em 1961, que nessa altura trabalhava no Departamento de Curadoria da ONU, como investigador dos acontecimentos que levavam à independência dos países africanos, que juntamente com a perseguição política de que estava a ser alvo, levou à decisão de Samora de abandonar o país, em 1963 e juntar-se à FRELIMO, na Tanzânia. Para lá chegar, teve a sorte de, no Botswana, encontrar Joe Slovo com um grupo de membros do ANC que ofereceu boleia a Samora num avião que tinham fretado.
Dado que nessa altura, já a FRELIMO tinha chegado à conclusão que não seria possível conseguir a independência de Moçambique sem uma guerra de libertação, o jovem enfermeiro Samora Machel foi integrado num grupo de recrutas receber treino militar na Argélia. No seu regresso à Tanzânia, ele tornou-se imediatamente num comandante. Em Novembro de 1966, na sequência do assassinato do então Chefe do Departamento de Defesa e Segurança da Frelimo, Filipe Samuel Magaia, Samora foi nomeado chefe do novo Departamento de Defesa, com as mesmas funções do anterior, enquanto Joaquim Chissano foi nomeado chefe do Departamento de Segurança, tratando dos problemas de espionagem que estavam a minar aquele movimento de libertação.
Em 1967, Samora Machel criou o Destacamento Feminino para envolver as mulheres moçambicanas na luta de libertação e, em 1969 casou-se oficialmente com Josina Muthemba, de quem teve um filho, Samora Machel Jr. Em 1968, foi reaberta a “Frente de Tete”, que foi a forma como Samora respondeu a dissidências que se verificaram dentro do movimento, reforçando a moral dos guerrilheiros. Em 3 de Fevereiro de 1969, Eduardo Mondlane, então Presidente da FRELIMO, foi assassinado. Uria Simango, o Vice-Presidente, assumiu a presidência, mas o Comité Central, reunido em Abril, decidiu rodeá-lo de duas figuras – Machel e Marcelino dos Santos -, formando um triunvirato.
Simango, em Novembro desse ano, publicou um documento dando apoio aos antigos dissidentes (que não tinham sido ainda afastados do movimento) e acusando Samora e vários outros dirigentes de conspirarem para o matar. Em Maio de 1970, noutra sessão do Comité Central, Simango foi expulso do movimento e Samora Machel foi eleito Presidente da FRELIMO, com Marcelino dos Santos como Vice-Presidente.
Nos anos seguintes, até 1974, Samora conseguiu organizar a guerrilha de forma, não só a neutralizar a ofensiva militar portuguesa, comandada pelo General Kaúlza de Arriaga, a quem foi dado um enorme exército de 70 000 homens e mais de 15 000 toneladas de bombas, mas também organizar as Zonas Libertadas, que abrangiam cerca de 30 % do território. Para além disso, Samora dirigiu uma ofensiva diplomática, em que granjeou apoios, não só dos tradicionais aliados socialistas, mas inclusivamente do Papa, que era um tradicional aliado de Portugal.
A seguir ao 25 de Abril, que tinha tido como causa imediata a incapacidade de resolver a questão colonial pela força das armas, o então Ministro dos Negócios Estrangeiros português, Mário Soares, encabeçou uma delegação a Lusaka, em que propôs à FRELIMO um cessar-fogo e a realização dum referendo para decidir se os moçambicanos (incluindo os moçambicanos de origem portuguesa) queriam a independência. Samora recusou, afirmando que “A Paz é inseparável da independência” e expandiu as operações militares, contando com a fraqueza do exército colonial. Em Julho, cercou um destacamento português que se rendeu; este facto, muito propagandeado pela imprensa, levou Lisboa a mudar de atitude e, em 7 de Setembro de 1974, foram assinados os Acordos de Lusaka entre o governo português (cuja delegação era então dirigida por Melo Antunes, Ministro sem Pasta), em que se decidiu que no mesmo mês se formaria um governo de transição, integrando elementos nomeados por Portugal e pela FRELIMO, e que a independência teria lugar a 25 de Junho de 1975.
A FRELIMO decidiu que o Primeiro Ministro do governo de transição não devia ser Samora, mas Chissano, ainda chefe do Departamento de Segurança. Entretanto, Samora fez várias viagens aos países socialistas e a países vizinhos de Moçambique, para agradecer o seu apoio durante a luta armada e solicitar apoio para a construção do Moçambique independente. Durante uma sessão do Comité Central, realizada na praia do Tofo (Inhambane) e dirigida por Samora, foi aprovada a Constituição da República Popular de Moçambique e decidido que Samora Machel seria o Presidente da República.
No plano interno, Samora sempre assumiu uma política populista, tentando utilizar nos meios urbanos os métodos usados na guerrilha e angariar o apoio do povo para o desenvolvimento do país em bases socialistas. Menos de um mês depois da independência, Samora anunciou a nacionalização da saúde, educação e justiça; passado um ano, a nacionalização das casas de rendimento, criando a APIE (Administração do Parque Imobiliário do Estado), que alugava as casas com rendas que estavam de acordo com o rendimento do agregado familiar; lançou grandes programas de socialização do campo, com o apoio dos países socialistas, envolvendo-se pessoalmente numa campanha de colheita do arroz.
Conseguiu ainda o apoio popular, principalmente dos jovens, para operações de grande vulto, tais como o recenseamento da população, em 1980, e a troca da moeda colonial pela nova moeda, o Metical, no mesmo ano. Outras políticas populares foram as “ofensivas” a favor do aumento da produtividade e contra a corrupção, geralmente anunciadas em grandes comícios, com grande participação da população.
No entanto, poucas destas campanhas tiveram êxito e, em parte, levaram ao abandono do país de grande número de residentes de origem estrangeira, o que provocou a paralisação temporária de muitas empresas e, mais tarde, por falta de capacidade de gestão, ao colapso de muitos sectores, tais como a indústria têxtil, metalúrgica e química.
Outras medidas impopulares foram o encarceramento em “campos de reeducação” das Testemunhas de Jeová, dos “improdutivos” e das prostitutas e a colocação em locais remotos de jovens com cursos superiores; estas medidas tinham como alegado objectivo o desenvolvimento de regiões onde havia pouca população.
Na frente externa, Samora sempre seguiu uma política de angariar amizades e apoio para Moçambique, não só entre os “amigos” tradicionais, os países do “bloco soviético” e unindo os países vizinhos numa frente de integração regional, a SADCC, mas até entre os seus “inimigos”, tendo sido inclusivamente sido recebido (embora com frieza) por Ronald Reagan e assinado um acordo de boa-vizinhança com Pieter Botha, o presidente da África do Sul dos últimos anos do apartheid (o Acordo de Nkomati). Apesar disso, Samora não conseguiu suster a guerra que, iniciada logo a seguir à independência pelos vizinhos regimes racistas (a África do Sul e a Rodésia de Ian Smith, se tornou numa verdadeira guerra civil que durou 16 anos, provocou cerca de um milhão de mortos e cinco milhões de deslocados e destruiu grande parte das infra-estruturas do país.
O insucesso da sua política de socialização e a guerra levaram a um colapso económico e Samora, nos últimos anos, teve de abrandar a sua política de índole comunista, permitindo que os “quadros” tivessem acesso a bens que o comum dos cidadãos não tinham, encetando conversações com a RENAMO e, finalmente, organizando acordos com o Banco Mundial e FMI, no sentido de estancar a guerra e relançar a economia.
Não conseguiu, no entanto, ver realizados os seus propósitos, uma vez que, em 19 de Outubro de 1986, quando se encontrava de regresso duma reunião internacional em Lusaka, o Tupolev 134 em que seguia, junto com muitos dos seus colaboradores, se despenhou em Mbuzini, em território sul-africano, mas perto da fronteira com Moçambique.
O acidente foi atribuído a erros do piloto russo, “a tripulação estava embriagada com Vodka”, disse o ministro dos negócios estrangeiros sul africano, Pik Botha, mas ficou provado que este tinha seguido um radiofarol, cuja origem não foi determinada; isto levou a especulação sobre a possível cumplicidade do governo sul-africano, mas nunca se conseguiu provar.
Na passagem do vigésimo aniversário da sua morte, que se evoca hoje, , o presidente sul africano, Thabo Mbeki, anunciou que a África do Sul vai reabrir as investigações à morte de Samora Machel. Este compromisso, pretende de uma vez por todas desvendar se o acidente do Tupolev, que vitimou o Presidente Machel, foi causado por erro humano ou foi um atentado. Se foi um atentado, ainda é preciso desvendar, se há a participação do regime de apartheid sul-africano ou se porventura estão implicados os dirigentes da FRELIMO da altura.
Referência:Samora – Uma Biografia, de Iain Christie.

quinta-feira, outubro 12, 2006

Orhan Pamuk


O prémio Nobel da Literatura 2006 foi atribuído ao escritor turco Orhan Pamuk, anunciou a Academia Sueca. O escritor Orhan Pamuk, é um dos principais nomes da nova literatura turca e a sua obra está traduzida em 34 idiomas em mais de 100 países.
Orhan Pamuk tem uma obra reconhecida a nível europeu, que lhe valeram vários prémios no passado, de entre eles, destacam-se: O Prémio The Independent para ficção estrangeira, em 1990, o Prémio Descoberta Europeia, em 1991, o Prémio Francês da Cultura em 1995, Prémio do Melhor Livro Estrangeiro,França, em 2002, o Prémio Grinzane Cavour, em 2002, o Prémio irlandês IMPAC em 2003, o Prémio da Paz do Comércio Livreiro Alemão, em 2005, o Prémio Médicis, França, para uma obra estrangeira, em 2005 e o Prémio Mediterrâneo - Estrangeiro, França, no corrente ano.
Ferit Orhan Pamuk nasceu a 7 de Junho de 1952, no seio de uma família rica de Istambul e formou-se em Jornalismo pelo Instituto de Jornalismo da Universidade de Istambul em 1976, depois de ter desistido de um curso de arquitectura.
Reside actualmente em Istambul, mas viveu três anos em Nova Iorque, para além de breves estadas na Alemanha.
Aos 23 anos decidiu consagrar a sua vida à literatura. Sete anos mais tarde publicou o seu primeiro romance, em 1982.
Mas, a obra que o daria a conhecer internacionalmente foi “O Livro Negro”, editado em 1990, um dos romances mais lidos da Turquia. Escreveu também “O Meu Nome é Vermelho” e “Neve”.
A sua última obra é um livro sobre a sua cidade natal, com um registo autobiográfico.
O comité Nobel anunciou que decidiu recompensar um escritor que “em busca da alma melancólica da sua terra natal encontrou novas imagens espirituais para o combate e para o cruzamento de culturas”, indica o comunicado que fundamenta a escolha.
Criticado pelos nacionalistas pela sua defesa das causas arménia e curda, Pamuk é autor de uma obra que descreve as divisões da sociedade turca entre ocidente e oriente.
“Um milhão de arménios e 30 mil curdos foram mortos aqui, mas ninguém para além de mim ousa dizê-lo”, afirmou em Fevereiro de 2005 em declarações a uma revista suíça.
Foi acusado de “insulto deliberado à nação turca”, um crime punido com pena de seis meses a três anos de prisão. Mas, a acusação acabou por ser abandonada no início deste ano, numa altura em que o Governo turco tentava não denegrir a sua imagem tendo em vista as negociações para adesão à União Europeia.
Descrito como alto, grisalho, desengonçado, nervoso e habituado a falar depressa, Pamuk foi o primeiro escritor do mundo muçulmano a condenar abertamente o fatwa de 1989 contra o escritor Salman Rushdie e também defendeu o seu colega turco Yasar Kemal quando este foi chamado aos tribunais em 1995.
Pai de uma menina adolescente, Ruya de seu nome, Pamuk é divorciado desde 2001 de Aylin Turegen, com quem se tinha casado em 1982. Apesar da controvérsia que suscita, o escritor evita aparecer em público e prefere a desordem do seu escritório aos ecrãs da televisão.
Este prémio tem o valor de 10 milhões de coroas suecas (cerca de 1,1 milhões de euros) e será entregue a 10 de Dezembro.
O escritor turco, tem dois livros publicados em Portugal, pela Editorial Presença: “Os Jardins da Memória”, editado em Junho de 2004 e “A Cidadela Branca”, editado em Maio de 2000, ambos com uma tiragem de três mil exemplares.
Lista dos vencedores nos últimos quinze anos:
2005: Harold Pinter (Inglaterra)
2004: Elfriede Jelinek (Áustria)
2003: John Maxwell Coetzee (África do Sul)
2002: Imre Kertész (Hungria)
2001: VS Naipaul (Grã-Bretanha/Índia)
2000: Gao Xingjian (França/China)
1999: Günter Grass (Alemanha)
1998: José Saramago (Portugal)
1997: Dario Fo (Itália)
1996: Wislawa Szymborska (Polónia)
1995: Seamus Heaney (Irlanda)
1994: Kenzaburo Oe (Japão)
1993: Toni Morrison (Estados Unidos)
1992: Derek Walcott (Santa Lúcia)
1991: Nadine Gordimer (África do Sul)
1990: Octavio Paz (México)

sexta-feira, outubro 06, 2006

Amália Rodrigues


Amália da Piedade Rebordão Rodrigues nasceu em 1920, em Lisboa, no seio de uma família pobre originária da Beira Baixa. A data certa do nascimento é desconhecida: em documentos oficiais nasceu a 23 de Julho, mas Amália sempre considerou que nasceu no dia 1 de Julho. Educada pela avó, cantou pela primeira vez em público em 1929 numa festa da Escola Primária da Tapada da Ajuda, que frequentava. Mais tarde trabalhou como bordadeira.
Em 1933, empregou-se numa fábrica de bolos e rebuçados em Lisboa e dois anos mais tarde, com a irmã Celeste, trabalhou numa loja de souvenirs no Cais da Rocha, acompanhada pela mãe, vendedora de fruta. Em 1935, desfilou na Marcha de Alcântara e cantou pela primeira vez acompanhada à guitarra numa festa de beneficência. Estreou-se em 1939 no Retiro da Severa, a casa de fados mais importante da altura, acompanhada por Armandinho, Jaime Santos, José Marques, Santos Moreira, Abel Negrão e Alberto Correia, interpretando três fados.
Em 1940 casa com o guitarrista amador Francisco da Cruz. No dia 25 de Junho de 1940 é a atracção convidada da revista do Teatro Maria Vitória, Ora Vai Tu! A primeira de muitas revistas em que participou.
A sua estreia no estrangeiro, a 7 de Fevereiro de 1943, ocorreu em Madrid, a convite do embaixador Pedro Teotónio Pereira. Amália separa-se do primeiro marido. Em 1944 viajou pela primeira vez para o Brasil, onde actuou no Casino de Copacabana. O sucesso levou a prolongar a estada de seis semanas para três meses, tendo regressado no ano seguinte ao País. Amália Rodrigues gravou os primeiros discos de 78 rotações, a 17 de Outubro de 1945, no Brasil para a etiqueta Continental.
A estreia no cinema ocorreu a 16 de Maio de 1947 com o filme Capas Negras, de Armando Miranda, que bate todos os recordes de exibição, com 22 semanas consecutivas em cartaz no cinema Condes, em Lisboa. Em Fevereiro de 1948 recebeu o Prémio SNI para a melhor actriz de cinema pela sua interpretação de Fado, de Perdigão Queiroga, estreia no Porto e é anunciado como sendo inspirado na vida de Amália, o que a fadista sempre negou.
Em Abril de 1949 cantou pela primeira vez em Paris e em Londres, em festas do Departamento de Turismo organizadas por António Ferro. Em 1950 continua a sua tournée pela Europa, actuando em Berlim, Dublin e Berna. Começa a cantar poemas de Pedro Homem de Mello e David Mourão-Ferreira. Em Dublin, canta Coimbra, que fica no ouvido da cantora francesa Yvette Giraud, que a populariza em França como Avril Au Portugal. Em 1951, Estreia de Vendaval Maravilhoso, de Leitão de Barros, um dos filmes preferidos de Amália entre aqueles em que participou. Gravou pela primeira vez em Portugal, para a editora Melodia (Rádio Triunfo) a. Numa digressão por África canta em Moçambique, Angola e Congo Belga. Em 1952 cantou em Nova Iorque, onde ficou 14 semanas em cartaz, e assinou contrato discográfico com a casa Valentim de Carvalho, fazendo as primeiras gravações nos estúdios da EMI, em Londres. Em 1953 Amália torna-se na primeira artista portuguesa a actuar na televisão americana no famoso programa Coke Time with Eddie Fisher, onde interpreta Coimbra. É de 1954 também o seu primeiro álbum, Amália Rodrigues Sings Fado From Portugal And Flamenco From Spain, publicado nos EUA pela Angel Records. Este álbum nunca foi publicado em Portugal com o mesmo alinhamento.
No ano 1955 participou no filme Os Amantes do Tejo, de Henri Verneuil, onde interpreta a Canção do Mar e o Barco Negro. Filma no México Musica de Siempre com Edith Piaf. No dia 10 de Abril de 1956 estreou-se no famoso Olympia, de Paris, numa das festas de despedida de Josephine Baker, e em Julho de 1958 foi condecorada por Marcelo Caetano na Exposição Mundial de Bruxelas. No dia 4 de Novembro de 1958 estreou-se na televisão portuguesa no papel principal da peça O Céu da Minha Rua, adaptada de uma peça de Romeu Correia.
Em 1961, confirmam-se os boatos que desde há muito andam no ar. Amália casa-se no Rio de Janeiro com o engenheiro César Seabra, e anuncia que vai abandonar a carreira artística passando a viver no Brasil. Um ano depois Amália regressa a Lisboa. Em 1962 foi editado o álbum Amália Rodrigues, mais conhecido como Busto ou Asas Fechadas, grande viragem na sua vida artística, onde canta Estranha Forma de Vida, Povo Que Lavas No Rio, de Pedro Homem de Mello, e, pela primeira vez, músicas de Alain Oulman. Em 1963, em Beirute, é tal o seu prestígio, que a convidam a acompanhar com os seus fados uma Missa de Acção de Graças pela independência do Líbano. Continua sempre a voltar aos países que não se cansam de a reclamar. Em Paris, o acolhimento do público é sempre delirante, não só no Olympia, como participando nos mais sensacionais acontecimentos artísticos.
Em 1964 Amália regressa ao Cinema com Fado Corrido, um Filme de Brum do Canto baseado num conto de David Mourão Ferreira, onde mais uma vez lhe dão um papel de fadista. Na estreia do filme em Lisboa confirmou-se mais uma vez que Amália continuava a ser a artista preferida do público português. Onde quer que aparecesse era sempre uma sensação. Em 1965, Amália atinge a sua melhor interpretação no cinema em As Ilhas Encantadas do estreante Carlos Vilardebó, baseado numa novela de Herman Melville. Neste filme, diferente de todos os outros da sua carreira, Amália pela primeira vez não canta. Amália volta a receber o prémio de melhor actriz com As Ilhas Encantadas e no ano seguinte aparece no filme francês Via Macau. Em 1966, é editado o primeiro disco em que recria o folclore, a que mais dois se seguirão. Com uma grande orquestra sinfónica, dirigida por André Kostelanetz, actua no Lincoln Center, em Nova Iorque, e no Hollywood Bowl, em Los Angeles. Canta em França, Israel, Brasil, África do Sul, Angola e Moçambique. Amália cantou na inauguração da Ponte sobre o Tejo, gravou Concerto de Aranjuez, com uma letra em francês, e Vou Dar De Beber À Dor, de um compositor até então desconhecido, Alberto Janes, que se tornará num dos maiores êxitos de Amália, com mais de 100 mil cópias vendidas. Em 1967 em Cannes, Anthony Quinn, com enorme entusiasmo, anuncia oficialmente que prepara dois filmes para Amália, sendo o primeiro Bodas de Sangue de García Lorca. Mas Amália prefere exprimir-se no canto.
Em 1969 cantou na União Soviética, correndo o mundo que unanimemente lhe reconheceu o talento. Em Janeiro de 1970, Amália parte para Roma para actuar no Teatro Sistina em Roma. O sucesso foi tal que o fenómeno “Amália” se espalha por Itália. Começava então “La Folia per La Rodrigues”. Amália canta pela primeira vez em Tóquio, e também o Japão, apesar de tão longínquo e com uma cultura tão diferente, se rende ao fascínio de Amália. Desde então sucedem-se as tournées pelo Japão abrangendo várias cidades. Todos os seus discos são editados nesse país, que com ela tanto se identifica. É frequente, quando Amália parte para o Japão todos os seus espectáculos estarem já esgotados, lançando assim Amália, uma verdadeira ponte cultural entre Portugal e o Japão. Este disco conquista para Amália os mais importantes prémios da indústria discográfica: IX Prémio da Critica Discográfica Italiana (1971), o Grande Prémio da Cidade de Paris e o Grande Prémio do Disco de Paris (1975). Em 1972 no Brasil, estreia-se no Canecão do Rio de Janeiro Um Amor de Amália, onde pela primeira vez, num espectáculo organizado, Amália canta e conta histórias da sua vida. Tanto é o sucesso que, o show é repetido no ano seguinte. Esse espectáculo, onde Amália é acompanhada para além da guitarra e da viola, por uma orquestra e um coro, foi gravado em disco. No dia 25 de Abril de 1974 dá-se a revolução que derrubou o regime fascista que há 48 anos governava Portugal. Amália, devido a um contrato que tinha para actuar na televisão espanhola, partiu para Madrid no dia seguinte. Em Lisboa, a grande popularidade internacional de Amália fez que de imediato circulassem boatos que a ligavam ao regime deposto. Embora só ligeiramente prejudicando a sua carreira, estes boatos afectaram gravemente a sensibilidade de Amália. Apesar destes boatos, Amália aparece logo no Coliseu onde 5 mil pessoas aplaudem de pé, provando que o seu público nunca a abandonou. A partir dessa altura, faz as mais longas tournées por Portugal, e o seu sucesso internacional continuou a aumentar fazendo tournées por todo mundo.
Em 1976 são editados Amália no Canecão, álbum ao vivo que regista parte do show de Amália naquele palco brasileiro em 1973, e Cantigas da Boa Gente compilação de material lançado anteriormente em singles e Eps. Também neste ano canta no Théâtre de Champs Elysées, em Paris. É publicado pela UNESCO o disco Le cadeau de la vie, onde figura ao lado de Maria Callas, John Lennon, Yehudin Menuhim, Aldo Ciccolini, Gyorgy Cziffra e Daniel Barenboim.
No ano de 1977 são editadas mais duas compilações – Fandangueiro e Anda o Sol na Minha Rua – de um novo single de Alberto Janes, Caldeirada, e de Cantigas numa língua antiga, primeiro álbum de material original de Amália em três anos, embora dele façam parte alguns temas já anteriormente registados pela fadista, aqui gravados em novas versões. Neste ano volta ao Carnegie Hall de Nova York. Em 1980, Amália edita Gostava de ser quem era, o seu primeiro álbum de material inédito em três anos, composto por dez fados originais com letras da própria Amália, escritas em sua casa durante a convalescença de uma doença. Também em 1980 recebeu do Presidente da Republica a condecoração de grande oficial da ordem do infante D. Henrique. Logo em seguida é homenageada pela Câmara de Lisboa. Amália edita, em 1982, com poucos meses de intervalo, O senhor extra-terrestre, um maxi-single com duas canções de Carlos Paião, e “Fado”, um novo álbum de estúdio composto exclusivamente por novas gravações de composições de Frederico Valério, muitas delas criadas por Amália. O álbum atinge o 5º lugar do top de vendas de álbuns compilado pela revista Música & Som.
Em 1983, é editado o álbum Lágrima, composto por 12 originais gravados durante 1982 e 1983, de novo com letras suas. Será o seu último disco de material inédito até à edição de Obsessão, em 1990. É editado, em 1984, Amália na Broadway, que reúne oito standards de musicais americanos gravados por Amália em 1965 nos estúdios de Paço de Arcos com o maestro inglês Norrie Paramor, mas nunca antes editados em disco. As gravações haviam sido pensadas para um álbum de standards americanos que nunca veria a luz do dia. O álbum atinge o 17º lugar do top oficial de vendas de álbuns. A 19 de Abril de 1985, Amália dá o seu primeiro grande concerto a solo no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O sucesso do Coliseu repete-se em Paris onde Amália é condecorada pelo Ministro da Cultura Jack Lang, com o mais alto grau da Ordem das Artes e das Letras. E de Paris de novo parte para o mundo. Em Julho é editado o duplo álbum O melhor de Amália – Estranha forma de vida, que reúne 24 dos mais populares e aclamados fados de Amália e atinge o 1º lugar do top de vendas, mantendo-se oito meses no top e vendendo para cima de 100 mil exemplares. Na sequência do êxito, é editado um segundo álbum compilação, O melhor de Amália volume II – Tudo isto é Fado, que ultrapassa as 50 mil cópias vendidas e atinge o 2º lugar do top.
Em 1987, é editada a biografia oficial de Amália, Amália – Uma biografia, por Vítor Pavão dos Santos, director do Museu Nacional do Teatro, jornalista e talvez o maior admirador de Amália em território português. O primeiro CD de Amália é editado em Portugal: Sucessos, uma compilação concebida originalmente para o mercado internacional, e que apenas ficará em catálogo até se iniciar a transferência para CD dos vários álbuns de Amália. É também lançado neste ano, o triplo - álbum de luxo Coliseu 3 de Abril de 1987, que regista na íntegra o concerto de Amália no Coliseu de Lisboa naquela data. Obtém o Disco de Ouro e atinge o 13º lugar dos tops. Em 1989, comemorando os 50 anos de carreira de Amália, a EMI-Valentim de Carvalho edita Amália 50 anos, uma colecção de oito duplos-álbuns ou CD´s temáticos agrupando muitas das gravações de Amália para a companhia, entre os quais várias raridades e gravações inéditas. Em Portugal sobre o patrocínio do Presidente da Republica Mário Soares, de quem recebe a Ordem Militar de Santiago de Espada, as comemorações são um verdadeiro acontecimento a nível nacional. Festas, condecorações, exposições, tudo para Amália não é demais. Estas festividades, prolongam-se numa grande tournée Mundial. -Lisboa, Madrid, Paris, Roma, Tel Aviv, Macau, Tóquio, Rio de Janeiro, Nova York. Também nesse ano é recebida pelo Papa, no Vaticano, em audiência privada. 1990 Vê ser editado Obsessão, o primeiro álbum de material original e inédito de Amália em sete anos, composto por temas gravados durante o interregno. É editada, em 1991, a cassete de vídeo Amália live in New York City registo do concerto no Town Hall de Novembro de 1990. Recebe do presidente francês, Georges Miterrand, a Legião de Honra. Em 1992 é editado o CD Abbey Road 1952, que reúne a totalidade das primeiras gravações realizadas por Amália para a Valentim de Carvalho nos estúdios de Abbey Road em Londres. Em 1995, é editada pela primeira vez em CD a compilação Estranha forma de Vida – O melhor de Amália, e a RTP transmite, ao longo de uma semana, a série documental Amália – uma estranha forma de vida, cinco episódios de uma hora dirigidos por Bruno de Almeida incluindo muitas imagens de arquivo provenientes dos cinco cantos do mundo e nunca antes exibidas em Portugal. Neste ano é ainda editado Pela primeira vez – Rio de Janeiro, CD que reúne as 16 gravações que Amália realizou no Rio de Janeiro em 1945 para a editora Continental. É a primeira edição oficial em CD destas gravações, há muitos anos indisponíveis em Portugal, restauradas digitalmente em Londres, nos estúdios de Abbey Road.
Em 1997 é editado o seu último álbum com gravações inéditas realizadas entre 1965 e 1975, O Segredo. Também em 1997 o falecimento do marido de Amália, César Seabra, após 36 anos de casamento. Amália publica um livro de poemas “Versos” na editora Cotovia. Nova homenagem nacional na Feira Mundial de Lisboa Expo98.

Amália Rodrigues, foi encontrada sem vida no dia 6 de Outubro de 1999. A morte da Amália Rodrigues aconteceu quando faltavam dois dias para o fim da campanha eleitoral das legislativas de Outubro de 1999. No dia da morte da fadista o Primeiro – ministro António Guterres anunciou três dias de luto nacional e o Presidente da República, Jorge Sampaio, depois de consultados os partidos com assento parlamentar, confirmou um funeral com honras de Estado. O funeral realizou-se no dia 8 de Outubro, sendo Amália Rodrigues sepultada no cemitério nos Prazeres. No dia 8 de Julho de 2001, os restos mortais de Amália Rodrigues foram transladados do Cemitério dos Prazeres para a galeria do Panteão Nacional.
Amália Rodrigues é a única mulher, cujo os restos mortais, se encontram no Panteão Nacional. Fontes Diversas .

quinta-feira, outubro 05, 2006

Bob Geldof


Robert Frederick Zenon Geldof, conhecido mundialmente como Bob Geldof, nasceu a 5 de Outubro de 1951, em Country Dublin, Irlanda. Fez os seus estudos no Colégio de Blackrock. No início dos anos setenta, trabalhou como jornalista no New Musical Express e no Melody Maker, ao mesmo tempo que se tornava editor da revista musical canadiana, Geórgia Straight.
Em 1975 forma o grupo rock The Boomtown Rats, banda que liderou até ao seu desaparecimento em 1986. Dos tempos dos The Boomtown Rats, o único grande momento a assinalar, é a edição em 1979 do tema I Don’t Like Mondays. Este tema composto por Bob Geldof,, tornou-se num sucesso estrondoso tendo alcançado o primeiro lugar dos tops em 32 países. Nos anos seguintes os The Boomtown Rats nunca mais conseguiram fazer algo parecido, levando à extinção da banda no inicio de 1986.
Entretanto, Bob Geldof, tinha começado a fazer o seu trabalho humanitário. Em 1984 cria o Fundo Band Aid. Em conjunto com o músico Midge Ure, dos Ultravox, Geldof conseguiu reunir um grande número de celebridades pop na gravação do seu próprio tema Do They Know It’s Christmas?. O disco vendeu mais de 7 milhões de cópias, conseguindo angariar 4 milhões de dólares para ajudar a matar a fome na Etiópia. No total, o Fundo viria a reunir 150 milhões de dólares e acabaria por forçar a então primeira-ministra britânica, Margaret Tatcher a reavaliar a política britânica para a ajuda humanitária em África.
Esta iniciativa culminou com a realização do Live Aid, em 1985, concerto realizado simultaneamente em Londres e em Filadélfia e que foi transmitido televisivamente para todo o mundo. Esta iniciativa gerou uma receita de 40 milhões de dólares, que foi aplicada na ajuda a combater a pobreza na Etiópia.
Neste mesmo ano, Bob Geldof torna-se co-fundador da produtora de televisão Planet 24. Em 1986, como reconhecimento dos seus esforços no plano humanitário, a rainha de Inglaterra Isabel II, arma-o Cavaleiro.
Mais tarde, nesse mesmo ano, Sir Bob Geldof casa-se com a sua companheira de sempre, Paula Yates. O casamento viria a terminar em 1995, quando Bob Geldof, descobriu que a sua mulher mantinha um romance com Michael Hutchence, o líder dos INXS. Depois de uma longa batalha judicial, o tribunal atribui a custódia das três filhas do casal, a Bob Geldof. Nesse mesmo ano, 1997, o vocalista dos INXS é encontrado morto num quarto de hotel em Sydney, Austrália. Paula Yates, viria a morrer em 2000, devido a uma overdose de heroína. A filha que tinha com Michael Hutchence, Tiger Lily de seu nome, foi viver com Bob Geldof, com a argumentação que seria criada com as três meias-irmãs.
Entretanto, Bob Geldof tinha regressado à música, iniciando uma carreira a solo, que diga-se em abono da verdade, sem grande sucesso comercial. Em 1999, Bob Geldof vendeu a Planet 24 por 8 milhões de dólares e funda outra produtora de televisão, a super rentável Tem Alps.

Toda a sua carreira humanitária, teve o ponto alto, com a organização do maior concerto humanitário da história, vinte anos depois a histórica edição do Live Aid.

Em 2 de Julho de 2005, dezenas de concertos gratuitos decorrem entre Paris, Londres, Roma, Tóquio, Filadélfia, Berlim, Joanesburgo, Moscovo, Cornualha e Barrie. O maior concerto humanitário da história, foi baptizado “Live 8” porque decorreu perto da data em que os representantes do G-8 se encontraram na Escócia . O Live 8 inseriu-se na campanha Make Poverty History, que incluiu um desfile com a presença de cerca de 1 milhão pessoas e que contou também, com o apoio de centenas de Organizações Não-Governamentais. Ao contrário do que sucedeu com a iniciativa de 1985 , a causa do "Live 8" não se prendeu com a recolha de fundos para África, mas com a criação de uma consciência mundial contra a pobreza africana. No total, o evento foi seguido por cerca de 3 mil milhões de pessoas, através da televisão, rádio e internet.
Bob Geldof tem inúmeros prémios e distinções, de entre eles destaca-se o titulo Nobel Man Of Peace de 2005 em reconhecimento pelo seu trabalho contra a fome em África. O título é concedido por um comité que inclui todos os vencedores do Prémio Nobel da Paz ainda vivos.
Este ano, Bob Geldof está indicado para o Nobel da Paz.
Parabéns, Sir Bob Geldof.

quinta-feira, setembro 28, 2006

A Padaria Aljubarrota

Se eu escrevesse o que sinto quando ouço o hino da República Portuguesa ou quando vislumbro a bandeira dos lusitanos a flutuar ao vento, provavelmente seria preso. Historicamente é uma falácia que se diga que Portugal é a “pátria lusitana”, sabendo nós que os Lusitanos nunca habitaram a norte do rio Douro (essa secção do território esteve grande parte do tempo sob domínio dos Suevos).
Portugal está recheado de alucinações mitológicas, de lendários devaneios. A impossibilidade que este país tem em se desquitar é um mal histórico. Vejamos: Um dos episódios maiores da história da República Portuguesa relata uma padeira que, farta de fazer roscas (sabe-se lá a quem), decide com uma pá(!!!!!) o resultado final de uma batalha! Que histórias de bravura serão contadas no futuro? Um pescador da Póvoa do Varzim que violentamente afundou a totalidade da armada americana somente com um anzol? Um portuense que, numa noite de S. João dizimou o exército indiano com um alho-porro? Um lisboeta que cilindrou o défice enquanto encomendava um bolo-rei? Uma possível explicação para este delírio colectivo seria o facto de todos os automóveis funcionarem a cannabis e não a derivados do petróleo. Mas nesse cenário teríamos nas ruas gente sorridente, o que não é o caso. O povo português só fica alegre quando ejacula ou quando recebe a devolução do IRS.
Os “Lusíadas” são outra obra de infausto título e embaraçoso conteúdo. A questão do título está relacionada com o facto, já anteriormente por mim descrito, do domínio territorial Suevo no norte do país. O conteúdo é um conjunto de embaraços mais ou menos evidentes. Recomendo a leitura do “achamento” da Ilha dos Amores. De súbito, tudo faz sentido: a incompetência dos portugueses é um facto histórico, pois já naquele tempo a ilha teve que se deslocar para poder ser alcançada pelas naus.
Em tempo idos, se já Internet existisse, provavelmente os “achadores” portugueses teriam “surfado” na onda digital e não nos mares do mundo para expandir território. A página online para conquistas e afins teria, mais ou menos, o seguinte aspecto.

Olá! Sejais vós bem-vindos à página de expansão do Reino Português. Ao preço de cada opção acresce a taxa de 20% (como se faz na Phinlândia).

Seleccione a opção que deseja:

- Chacinar povos selvagens

- Assinar um tratado para o empossar como dono de metade de um mundo que é de todos

- Enviar uma mensagem para o phuturo para um primeiro-ministro que teima em castigar constantemente os que menos têm

- Encomendar uma francesinha

Tudo isto é triste, mas não é fado. Na realidade, a música popular portuguesa é somente uma desculpa para se beber mau vinho.
A pátria não é coisa que se possa impor. Aquilo que o homem hoje separa com fronteiras foi, outrora, um campo livre. Então que filiação é esta? Que sentido faz a palavra pátria se nos incita a marchar contra os canhões? O mundo é um só, a minha casa. As barreiras fronteiriças somente separam aquilo que é de todos. Deixemo-nos de bandeiras tingidas de sangue. Foi-se a padeira, mas a padaria, retrógrada e atrasada, sobrevive. Este país é como um campo estrumado: parece lindo ao longe, mas o odor a esterco aumenta à medida que nos aproximamos. Acabaram-se as férias. Bem-vindos.

Hugo Machado

quarta-feira, setembro 27, 2006

Banksy


Banksy é uma lenda no meio dos artistas rua. Faz grafites um pouco por todo mundo, com um radical sentido de humor, que visa a sociedade, a política e o quotidiano.
É também conhecido por introduzir clandestinamente, em reputados museus, obras suas, como se fosse parte do acervo original, esperando para ver quanto tempo demora, até descobrirem a falsificação. Em alguns casos os trabalhos de Bansky, acabaram por serem comprados pelo museu, que sofreu o ataque de vandalismo.
A verdadeira identidade de Banksy é desconhecida. De acordo com o jornal The Guardian, ( que o entrevistou, no fim do post existe um link para esta entrevista) o seu verdadeiro nome é Robert Banks, está na casa dos 30 anos e é natural da cidade de Bristol. O secretismo à sua volta é tão grande, que Banksy afirma, que nem os seus pais sabem o que ele faz.
A sua arte (como é óbvio, para lá da obra de arte em si) tem como objectivo chocar o observador e choca mesmo!

Há muitas organizações que consideram o trabalho de Banksy puro vandalismo, mas o artista adquiriu projecção internacional quando fez a ilustração da capa do disco Think Tank, da famosa banda britânica, Blur, editado em 2003.
Uma das intervenções mais conhecidas de Banksy, foi um plano coordenado para infiltrar obras suas, nos quatro mais importantes museus de Nova Iorque no mesmo dia.
E conseguiu, no dia 13 de Março de 2005!
Primeiro colocou um dos seus trabalhos, um quadro de uma lata de sopa, ao estilo de Andy Warhol, no MoMa, onde permaneceu três dias sem ser notado. Seguiu-se o Museu Brooklyn. Neste museu, o quadro colocado, mostrava um almirante da era colonial, com uma lata de spray na mão e frases anti-guerra. Os outros dois museus "vandalizados" foram o Metropolitan Museum of Art e o Museu Americano de História Natural. No Metropolitan Museum, Banksy colocou uma tela de uma mulher usando uma máscara de gás e no Museu Americano de História Natural, Banksy colocou, por trás de um vidro, um besouro com asas de caça-bombardeiro e mísseis presos ao corpo.
Uma das suas obras mais polémicas é uma montagem com a célebre foto de Nick Ut, que simboliza toda a tragédia que foi a Guerra do Vietname. A fotografia retrata a pequena Kim Phuc, e outras crianças, a correrem momentos depois da sua aldeia ter sido bombardeada pelos americanos com bombas de Napalm. Na montagem de Bansky, primeira fotografia do post, Kim Phuc aparece ao lado do Mickey e de Ronald McDonald, numa implícita crítica ao capitalismo.
Numa outra pintura, que causou muita polémica em Inglaterra, Banksy mostra a rainha Vitória, símbolo do puritanismo e do Império Britânico, a fazer sexo oral com uma outra mulher.
A sua primeira e única exposição em Londres, em 2005, trouxe versões de pinturas tradicionais com detalhes da vida contemporânea. Nela, os visitantes eram obrigados a dividir o pequeno espaço da galeria com centenas de ratos, que circulavam livremente.

No ano passado, fez uma série de grafites no muro que separa Israel da Cisjordânia. São paisagens idílicas, que contrastam com a dura vida dos palestinianos. Com estas imagens, para além de protestar contra a construção do Muro por parte de Israel, foi intenção de Bransky transformar o horrendo em belo.
Também no ano passado, o artista deixou o Museu Britânico numa situação desagradável ao infiltrar na colecção do museu uma imitação de pintura rupestre, que mostrava um homem pré-histórico a empurrar um carrinho de supermercado. De acordo com Banksy, a obra passou despercebida durante três dias. A direcção do museu reagiu com bom humor. Comprou a obra.
No princípio deste mês, o artista britânico conseguiu substituir 500 CDs de Paris Hilton por versões adulteradas em lojas espalhadas pela Grã-Bretanha. Banksy trocou as músicas de Paris Hilton por versões suas, que receberam nomes como “Por que sou famosa?”, “O que fiz?” e “Para que sirvo?”.

O artista plástico também substituiu as fotos dos CD’s por imagens em que Paris Hilton aparece em topless com frases provocantes e na contra capa substituiu a fotografia da socialite, por uma fotografia em que esta aparece com uma cabeça de cadela.
Na semana passada, Banksy conseguiu colocar uma réplica em tamanho natural de um prisioneiro da base americana na Baía de Guantánamo na Disneyland, sem que os responsáveis pelo parque percebessem. A figura, vestida com o uniforme laranja que caracteriza os presos de Guantánamo, foi colocada no fim de semana dentro da área ocupada pela atracção Rocky Mountain Railroad. A réplica permaneceu no local por 90 minutos até que esta parte do parque para a figura ser removida. Um porta-voz de Banksy disse que a ideia era chamar atenção para a situação dos suspeitos de terrorismo presos no ignóbil centro de detenção americano em Cuba.

Banksy, um "vândalo" muito dotado.
Link:
http://arts.guardian.co.uk/features/story/0,,999712,00.html