domingo, dezembro 10, 2006

Morreu Augusto Pinochet


O general Augusto Pinochet, o ex-ditador que governou o Chile com mão-de-ferro entre 1973 e 1990, morreu aos 91 anos devido a complicações cardíacas, anunciou o Hospital Militar de Santiago.
O breve comunicado do hospital refere que o Estado de saúde de Pinochet piorou subitamente e que o ex-ditador foi levado de imediato para os cuidados i ntensivos, mas morreu às 14:15 (17:15 em Lisboa).
Pinochet entrou no hospital há uma semana na sequência de um ataque car díaco. O general foi submetido a uma angioplastia para desobstruir uma artéria e permitir a circulação de sangue para o coração.
A vida de Augusto Pinochet Ugarte, ou pelo menos a parte importante para a história do Chile, começou a 11 de Setembro de 1973.
Nesse dia, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas aderiu ao golpe militar contra o eleito Presidente Salvador Allende, para se transformar, posteriormente, em ditador.
Ao contrário dos outros países da América Latina, o Chile tinha uma longa tradição democrática de Governos eleitos. O golpe de Estado contra um Presidente que conseguira a maioria do apoio popular nas urnas marcava um ponto de inflexão histórico.
Ponto de inflexão que terá apanhado desprevenido Allende e os seus colaboradores, apesar do “tanquetazo” de 29 de Julho de 1973, a tentativa frustrada de sublevação protagonizada pelo coronel Roberto Souper com o seu regimento blindado n2.
Nessa altura, Pinochet, adjunto do general Carlos Prats, o seu antecessor no cargo de chefe dos três ramos das forças armadas, ajudou ao insucesso do golpe militar.
De trato simples e afável, Pinochet sempre usou de prudência na revelação dos seus pensamentos, foi esta característica que convenceu o general Carlos Prats a recomendá-lo como seu sucessor para a chefia das forças armadas.
Para Prats, Pinochet era um militar apolítico apesar de católico anti-marxista, característica comum à maioria dos altos responsáveis do corpo castrense na América Latina.
Escolhido por Allende, o general Pinochet hesitou muito quando foi colocado ao corrente do golpe que estava a ser preparado para 11 de Setembro. Não tanto por lealdade, mais por prudência.
Quando aceitou liderar os insurrectos fê-lo com empenho e dureza. O golpe tinha de triunfar, corresse o sangue que corresse, Pinochet não admitia pôr em risco a sua impoluta carreira militar de outra forma.
Carreira que quase não chegou a existir.
A Augusto José Ramón Pinochet Ugarte custou-lhe ingressar na vida militar. A primeira vez que tentou inscrever-se na Escola de Infantaria, rejeitaram-no pela tenra idade; a segunda, disseram-lhe que não cumpria os requisitos.
Só à terceira, a força de carácter daquele jovem de 17 anos, nascido em Valparaíso a 25 de Novembro de 1915, o mais velho dos seis filhos de Augusto Pinochet Vera e Avelina Ugarte Martínez, conseguiu convencer os responsáveis da Escola de que poderia dar um bom militar.
Segundo o próprio general, um episódio da infância transformou- o num fervoroso católico. Atropelado por um automóvel, esteve quase a perder a perna esquerda que os médicos chegaram a pensar amputar do joelho para baixo.
A mãe rezou por um milagre e, aceitando o conselho de um médico alemão para expor a perna do filho ao Sol, conseguiu evitar que o seu primogénito se transformasse num inválido.
Tal não aconteceu e Pinochet pôde seguir a sua carreira militar, casar em 1943 (com Lucía Hiriart) e constituir família: tem cinco filhos.
Apesar da fé católica, o general Pinochet não teve complacência com os seus inimigos em 1973.
Não só no dia do golpe, com o bombardeio do palácio presidencial de La Moneda, a morte de Salvador Allende (que se suicidou para não morrer à mão dos golpistas) e as detenções de milhares de pessoas, mas nas semanas, meses, anos posteriores, onde a ditadura usou de todos os meios para depurar a sociedade chilena de qualquer pensamento de esquerda.
Admirador do ditador espanhol Francisco Franco, Pinochet, líder da Junta Militar de Governo e Presidente do Chile a partir de 17 de Dezembro de 1974, usou de mão dura no Governo do país.
Segundo a Comissão de Verdade e Reconciliação, conhecida por Comissão Rettig, a ditadura matou 2.095 pessoas, enquanto 1.102 foram consideradas “detidas desaparecidas” (calcula-se que tenham sido mortas pela polícia ou militares, mas cujos restos mortais continuam em paradeiro incerto). Muitos milhares abandonaram o país como puderam em direcção ao exílio.
A ditadura estendeu mesmo os seus tentáculos para lá das fronteiras chilenas.
A “Operação Condor” envolveu os serviços de segurança dos países do Sul da América (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia) numa cooperação para perseguir e prender os seus opositores políticos. A ideia partiu de Manuel Contreras, o chefe da DINA, a polícia política chilena.
A DINA que conseguiu assassinar o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Allende, Orlando Letelier, junto com a secretária, num atentado em Washington; e o antecessor de Pinochet como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Carlos Prats, em Buenos Aires.
Entregando o manejo da economia aos denominados “Chicago Boys”, tecnocratas ultraliberais formados na Universidade de Chicago e influenciados por Milton Friedman, Pinochet guardava para si o resto.
Ilegalizou os partidos políticos, dissolveu o Congresso, impôs o recolher obrigatório por mais de uma década.
O facto de se vangloriar do poder absoluto de que gozava (“No Chile, não se move uma folha sem que eu saiba”), acabaria mais tarde por se voltar contra ele, ao permitir que fosse acusado (apesar de se desculpar que não sabia) da autoria moral de crimes como os da “Caravana da Morte” - em Outubro de 1973, um grupo de oficiais percorreu os vários campos de detenção executando opositores com o saldo de 75 mortos.
Em 1986, voltou a ter a mesma sorte de infância, ao escapar ileso a um atentado onde morreram cinco dos seus guarda-costas. O lança-granadas do guerrilheiro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez encravou impedindo-o de fazer explodir o carro blindado onde seguia o ditador.
Dois anos depois, ao perder o plebiscito que convocara para continuar a perpetuar-se no poder, Pinochet encontrou-se num beco sem saída e teve de aceitar o regresso da democracia, embora negociando a transição nos seus próprios moldes.
Abdicou de ser Presidente, mantendo-se, no entanto, como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e com aviso em jeito de ameaça: “Vou continuar como comandante em chefe para manter a minha gente protegida. Acabará o Estado de direito se se perseguir algum dos meus homens”.
Dez anos antes já garantira, com uma lei de amnistia, que ninguém seria julgado pelos crimes cometidos depois do golpe militar.
Durante a década de 90, a democracia chilena manteve-se tutelada pelo velho regime. Por duas vezes, o general usou os seus soldados para ameaçar a democracia, colocando em causa as instituições políticas e cerceando o poder civil.
Só em 1998, depois de longas negociações, aceitaria abandonar o cargo em troca de um lugar como senador vitalício. Desta maneira, acreditava, garantia os foros que impediriam a democracia de alguma vez o processar.
Essa crença de ser intocável levou-o a ignorar as advertências para não viajar a Londres para operar-se de uma hérnia discal.
O juiz espanhol Baltasar Garzón emitiu um mandado de captura internacional para a sua detenção e o general Augusto Pinochet teria de passar mais de 500 dias no Reino Unido em prisão domiciliária, até ser libertado por razões de saúde.
Era o fim do ditador. A humilhação de ter de recorrer à doença para fugir aos processos judiciais garantiu a sua retirada da cena política chilena. Ao regressar a Santiago, o Chile deixara de ser o mesmo, livrara-se da trela do general.
A ponto das principais forças da direita aproveitarem a deixa para enterrar o passado e assumir programas políticos sem referências a Pinochet ou ao seu legado.
Também a justiça chilena se sentiu fortalecida (e moralmente comprometida) a agir.
Várias queixas-crime contra Pinochet prosperaram, nomeadamente as da Caravana da Morte e as de enriquecimento ilícito (o antigo ditador tinha os bens congelados por ordem do juiz Sergio Muoz, que investigava as contas secretas que Pinochet tinha no estrangeiro e que ascendiam a 17 milhões de dólares).
Além disso, como forma de contornar a amnistia de 1978, que impedia de processar os militares envolvidos em crimes contra a humanidade, a justiça chilena, tal como tinha feito antes a justiça argentina, estabeleceu que os crimes envolvendo “detidos/desaparecidos” seriam considerados como sequestros permanentes, ainda hoje vigentes e, portanto, permitindo aos tribunais julgá-los.
Para Pinochet, o regresso ao Chile tornar-se-ia penoso, obrigado a uma farsa permanente, a um jogo eterno com a justiça, perdeu qualquer contorno de referência simbólica, para se transformar apenas num homem velho a fugir dos tribunais.
A anos-luz desse Pinochet arrogante de meados da década de 90, assumindo o legado do regime como serviço público a um Chile salvo da ameaça comunista, amarrando a democracia no colete-de-forças castrense, a defesa do ex-ditador só conseguiu encenar repetidamente o episódio da doença frágil, dos micro-acidentes vasculares cerebrais nas vésperas das audiências em tribunal, explorando a imagem do seu corpo conduzido na cadeira de rodas.
Se o ajudou enquanto vivo a livrar-se da prisão, terá garantido, depois de morto, que o pinochetismo seja apenas um depositário de ideias moribundas à espera que morram os poucos saudosistas que ainda têm coragem de as defender em público.
A única coisa a lamentar na morte de Pinochet, é que a Justiça tenha sido demasiado lenta, para julgar todas as atrocidades cometidas durante a sua ditadura.
Com o desaparecimento do ditador chileno a Humanidade ficou um pouco menos intoxicada. Como disse o escritor chileno Luís Sepúlveda, " Devemos sempre alegrar-nos quando morre um hijo de puta. Então no caso de um filho da puta tão importante, dá-nos mais optimismo".

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A Legalização do Aborto e a Redução do Crime Violento

O feminismo atingiu o seu auge no fim dos anos sessenta. A luta das mulheres pela sua emancipação, tinham mais um nome a juntar ao rol daquelas que paulatinamente vinham assegurando leis que as libertavam do jugo secular do domínio masculino. Essa mulher era uma anónima de Dallas: Norma McCorvey.
Era uma mulher de 22 anos, pobre, sem educação, sem qualificações, alcoólica, toxicodependente e já tinha dado dois filhos para adopção e, em 1970 ficou novamente grávida. Tudo o que ela queria era fazer um aborto.
Porém, no Texas, o aborto era ilegal. A causa desta mulher foi adoptada por pessoas mais poderosas do que ela e essas pessoas fizeram dela a litigante principal numa acção judicial que pretendia legalizar o aborto. O réu era Henry Wade, procurador do distrito de Dallas. O caso acabou por chegar ao Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, tendo por essa altura o nome de Norma McCorvey sido escondido sob o pseudónimo de Jane Roe.
No dia 22 de Janeiro de 1973, o tribunal decidiu a favor de Roe, permitindo que o aborto fosse considerado legal em todo o país. O caso passou à História como o processo Roe Contra Wade.
O Supremo Tribunal deu voz ao que todas as mães, já sabem há muito: quando uma mulher não quer ter um filho, ela normalmente tem uma boa razão para isso.
Parece absurdo pensar que há uma correlação entre a legalização do aborto e a redução do crime violento.
Parecer um absurdo, pode parecer mas está muito longe de o ser!
Nada melhor que ler o livro “Freakonomics” de Steven Levitt, e Stephen Dubner ( (jornalista e co-autor do livro, responsável pela forma não pelo seu conteúdo), para dissipar quaisquer dúvidas e concluir de uma forma inequívoca, que estes dois factores são concominantes.
Num dos capítulos, (O Que é Feito de Todos os Criminosos?), Steven Levitt desenvolve a teoria sobre as causas da vertiginosa queda da criminalidade no Estados Unidos da América. durante os anos 90. Na altura o exército de peritos em criminologia enumerou uma imensidão de hipóteses para a drástica redução da criminalidade:

1.Estratégias policiais inovadoras.
2.Maior rigor no recurso à prisão.
3.Alteraçõesno mercado do crack e de outras drogas
4.Envelhecimento da população
5.Leis de controle de armas mais apertadas
6.Economia forte
7.Aumento de polícias
8. Aumento da aplicação da pena de morte, etc.

Ao longo do capítulo quatro do seu livro, Steven Levitt destrói todas estas hipóteses e chega a uma conclusão “sui generis”: Não foi, apesar de também ter contribuido, o controlo de armas, nem a economia forte, nem as novas estratégias policiais, nem o aumento do número de polícias, nem o envelhecimento da população ou o aumento da aplicação da pena de morte que, no fim de contas, travaram a onda de crime americana. Foi a realidade de que o conjunto de criminosos potenciais se tinha reduzido numericamente de uma forma espectacular.
Como se tinha reduzido drasticamente o número de criminosos?
“No que diz respeito ao crime, acontece que nem todas as crianças nascem iguais. Nem Sequer parecidas. Décadas de estudos mostraram que uma criança nascida num ambiente familiar adverso tem mais probabilidades do que outras crianças de vir a tornar-se um criminoso. E os milhões de mulheres com maiores probabilidades de abortar na sequência da sentença do processo Roe Contra Wade – mães pobres, solteiras e adolescentes para quem os abortos ilegais eram, antes, demasiado caros ou muito difíceis de conseguir - eram em geral, modelos de adversidade. Eram as mesmas mulheres cujos filhos, se tivessem nascido, teriam muito mais probabilidades do que a média de se tornarem criminosos. Contudo devido a Roe contra Wade, estas crianças não tinham nascido. Esta causa poderosa teria um efeito drástico a longo prazo: anos depois, exactamente na altura em que estas crianças atingiriam a idade de se iniciar no crime, a taxa de criminalidade começou a afundar-se.”
A sentença do processo Roe contra Wade desencadeou, uma geração depois, a maior queda de criminalidade registada na história americana.
Espero ver esta teoria confirmada na prática em Portugal, por volta do ano 2030.
Armando S. Sousa.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Galaaz

Corrida de Caixões nas Rias Baixas

Peixe clandestino com direito a cadeira, Luisa Mota atordoava-se com Anxo Pastor na parrilhada Abô Ramiro. Diante das bateias de Arousa, uma sequência de naipes funerários atravessou-lhe os dentes que lhe mordiam os entre-olhos. Vai haver uma corrida de caixões?

- Creio que sim, dixo Anxo, parece que a axência de Xeraz do Lima está entusiasmada.

Coberto por um manto bordeaux, o polvo era um cadáver tenro e disponível a uma transformação sem conflitos extremos. Luisa Mota disse:

-Que de bom! Carai! Nunca comi assim!

- A corrida ten reglas, nom?, questionou Anxo

Mónica de Pontevedra, que ainda não tinha freado o delírio, desorbitou-se num comovente lampejo de lucidez. Disse:

-O caixão que desaparecer em último é o que ganha!

O membro da Xunta, ao balcão, aproximou-se interessado:

-Isso vai trazer muito prestígio à galiza. Será a primeira corrida de caixões do mundo. E calhará optimamente no InterReg III.

Galaaz! Viva Galaaz
Que não sabe o que faz!

Embora lamentando a ausência de inúteis agonias, e carpindo o facto das bateais não darem azo a alabastros e balaústres, Camilo Pessanha concordou em escrever o Programa das Corridas, texto que intitulou: Sumidouro.
As famílias desataram a inscrever os seus mortos. A heráldica foi apontada como a novel indústria de sucesso. Reunidas todas as associações, organizações, deputações e quejandas, assentou-se a criação de uma nova ONG de providência ao evento. Por unanimidade extasiante, tal G-ONG recebeu o título solene de JACOMEO.

Luisa Mota, muito rodada nos 60 canais da tvcabo, colocou com pertinência, a seguinte questão científica:

-E
como se ordena a pole-position?
-De catro a catro - ouviu-se a voz do mar.
-Todos os caixões que chegarem pelo menos até Ponta Couso recebem uma menção honrosa- propôs a galego-holandesa Jacomina.
- O Isaak vai logo perguntar-me pelo prémio - bipolarizou Luisa Mota
- O prémio é fácil, um cesto de pimentos do Padrón, dixo Otilia
- E a taça?, arquejou ansiosa Luisa Mota
- A taça é de albariño, home, dixo Lois Gil Magariños

Estava tudo contente, tudofeliz!. Gente inebriada à chuva do Courel. Luisa Mota perguntou se podia trazer a mãe mais o Rui que gostava muito de bateias e mais o Ricardo de quem queria ter um cadáver. Anxo Pastor, que tinha acabado de ler um poema de Marcos Ana, foi invadido por uma estranha pulsão maníaco-depressiva:

-E a quem se vai entregar a Taça?

Fez-se pó. Era do jeep do Aurelino Costa saído da bruma sebastianista da estrada. Aurelino saltou do jeep com muito vermelho e disse:

-Ó Anxo, deixa lá isso! A Taça não é para se entregar. É para se beber!

Alberto Augusto Miranda.


".....Ora é poeta, ora é ficcionista, ora é pianista, ora é crítico e ensaísta , ora é docente, ora é actor, ora é simplesmente exímio conversador. Sempre indiferente às portas que poderiam ser abertas pelo seu Curso Superior de Literaturas Modernas, pelo seu Curso Superior do Conservatório de Música, pela sua capacidade de trabalho, pela sua inteligência apurada e isenta, pela sua bem assimilada cultura. Alberto Augusto Miranda é livre como o vento, um romântico, não na forma, nem no sentimentalismo, mas nos sentimentos e na liberdade insubmissa, no arrebatamento nos nacos de felicidade que procura, porque eles são a vida......."
Portanto, nada mais há a dizer...
Excepto, Bem vindo.

domingo, dezembro 03, 2006

Sete Textos e um Papagaio

O Jorge Gaspar escreveu neste espaço sete excelentes textos, mas não estava à espera que com a sua chegada a este blogue, arribasse também, uma ave rara para estas latitudes: um papagaio.
Todos os frequentadores deste espaço sabem a quem me estou a referir: a esse ignóbil anónimo, tal e qual um papagaio, que faz sempre a mesma estúpida pergunta, sobre as amigas do Gaspar.
Deve ser deveras triste, ser um frustrado, ainda por cima ao que tudo indica, invejoso e solitário, mas se, eventualmente, a ideia era fazer humor, deverá saber que contar a mesma piada um número infinito de vezes, deixa de ser engraçado para se tornar maçador.
Neste caso, além de estupidamente maçador, esconde-se atrás do anonimato para achincalhar as pessoas, parecendo-me esta atitude, um sintoma de uma qualquer doença neurológica, que Freud explicaria facilmente mas que, certamente, pode ser tratada por um qualquer psiquiatra.
Não é que os comentários, sejam de importância vital para quem escreve mas quem quer comentar com justiça os textos do Jorge Gaspar, sente-se defraudado, porque reconhece sem nenhum favor e unanimemente a qualidade dos textos por ele elaborados.
É pena que este cobarde não tenha a noção do ridículo e que não seja homem suficiente, para assumir a sua identidade. Mete dó, ver pessoas teoricamente civilizadas a menosprezar tanto o civismo.
Haja paciência, que é coisa que falta neste momento!

quarta-feira, novembro 29, 2006

TLEBS

Portugal é tão profícuo a produzir teses, antíteses, estudos e projectos como a produzir analfabetos. São analfabetos funcionais que sabendo ler e escrever (mal), o seu gosto pela leitura pouco vai além de palavras derivadas de bola golo e baliza, de preferência com menos de três sílabas para não cansar a vista e não forçar os neurónios a um esforço excessivo.
Menos mal que a Nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS) com a sua “abstrusa” nomenclatura vai facilitar a gíria desportiva e evitar que o Gabriel Alves continue a sua teimosa invenção de palavras sobrecarregadas com advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção e frases complexas copulativas assindéticas e nos vais ajudar a entender melhor as transcendentes maquinações táctico-estratégicas do futebol.
Não deixa de ser pertinente a correlação directa entre a produção intelectual e a proliferação de analfabetos, de tal modo, que a continuar assim, os intelectuais, por razões de mercado, (entenda-se), vão virar-se definitivamente para o desporto rei.
Para animar as hostes, agora que no futebol as coisas estão mais calmas, surgiu a famosa gramática que tem a particularidade de ter gerado amplos consensos em seu redor.
Independentemente do mérito do trabalho dos autores da TLEBS, parece que teria sido mais prudente e avisado terem ampliado e promovido o debate, formulando dados e hipóteses em vez de terem antecipado soluções. Estas deveriam ter surgido como efeito de uma prática efectiva e de uma elaboração em trabalho participado com os vários intervenientes no processo educativo, criando assim as melhores condições para a produção de um manual com a qualidade que lhe é exigível, compreendido e aceite por todos.
Em vez disso, atiram da sua cátedra receitas para os “putos” consumirem e os professores que se desenrasquem.
Não me parece que seja a melhor forma de se incutir o gosto pela língua nem pela leitura mas antes um caminho chato e doloroso que me faz recordar a forma como, no meu tempo, iniciávamos tortuosamente a descoberta dos Lusíadas e só muito depois, após inúmeras sessões de psicoterapia, foi possível descobrir o seu verdadeiro valor.
Mas deixemo-nos de fait-divers e voltando ao assunto que interessa de momento (o futebol obviamente), que fique registado que quando o Gabriel Alves se referir ao árbitro da partida está simplesmente a designar um nome, Comum, Humano, Animado, Concreto, Contável, Não Massivo, Singular, Masculino e Género Natural e se algum adepto num excesso de linguagem lhe chamar Camelo saiba que apenas esta a mudar uma das designações atrás referidas, e meus senhores! Se for Gay pode muito bem ser um Epiceno! É melhor saber primeiro se é homem ou mulher, porque epiceno é na verdade um nome muito feio e pode induzir uma falsa ideia de discriminação.
Como eu acredito que os autores da nova TLEBS não têm nada contra os alunos, nem contra os professores nem contra o futebol e muito menos contra o Gabriel Alves terei que concluir, por exclusão de partes, que eles apenas não gostam da língua portuguesa.
Vá-se lá saber porquê!
Jorge Gaspar.

Violência Doméstica (II)

Comentário de uma leitora atenta:

Obrigada por ter "destapado o umbigo da nossa humilhação".
Algumas apanham e calam-se impotentes, outras ouvem e fecham-se numa concha humilhadas, as restantes, ouvem, sabem, vêm, e acham terrivel, mas também não fazem nada...Eles sabem, ouvem, vêm, alguns até acometem também e todos juntos achamos repugnante mas está toda a gente demasiado ocupada, ou tem demasiado bom senso, e fica impavida e serena à espera que alguem faça.
Se sempre que alguem ouvisse, visse, tivesse conhecimento de casos de violência doméstica, de qualquer genero, metesse o "bedelho", e apresentasse queixa na entidade competente mais próxima, poria fim à grande maioria dos casos...Os que os cometem (este crime público) teriam medo de ser ouvidos, vistos, ou falados....Vale a sua intenção e de muito poucos como o Sr.
Mais uma vez obrigada!
XP.

Na realidade a violência doméstica, é em Portugal um crime público o que significa que não é necessário que seja a vítima a apresentar a queixa pessoalmente. Pode ser denunciada por terceiros e não exige queixa das partes envolvidas.
A violência doméstica é punível com pena de prisão de um a cinco anos quando se trata de maus tratos entre cônjuges ou entre quem conviver em condições idênticas às dos cônjuges.
Para apresentar uma queixa, as vítimas devem dirigir-se ao posto mais próximo da GNR, da PSP, da Polícia Judiciária ou aos serviços do Ministério Público do Tribunal da Comarca da área da sua residência.
Por último mas não menos importante, resta-me acrescentar que, não pactuar com essa escumalha é um dever cívico.

terça-feira, novembro 28, 2006

Violência Doméstica


Em média, uma mulher em cada três sofre de violência na sua vida, desde espancamentos a relações sexuais impostas ou outras formas de maus-tratos, segundo um relatório do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, divulgado em Outubro.
Em Portugal, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) assinala o dia com a divulgação de um estudo encarado como uma forma de "denunciar e alertar as autoridades e a sociedade para uma situação preocupante em Portugal", nas palavras de Elisabete Rodriques.
Entre Novembro de 2005 e o mesmo mês deste ano morreram em Portugal 37 mulheres vítimas de violência doméstica, revela o estudo apresentado sexta-feira pela UMAR.
Por sua vez, o Movimento democrático de Mulheres (MDM) associa- se a este Dia Internacional lançando um conjunto de iniciativas dirigidas "a públicos-alvo diferentes", com o intuito comum de aumentar a visibilidade desta temática que "tão gravemente" atinge as mulheres.Entre estas iniciativas, destaca-se a participação na jornada de luta da CGTP-IN, hoje, com palavras de ordem e exigências relativamente às violências sobre as mulheres.
Noutra iniciativa, o MDM enviou esta semana uma Carta Aberta aos órgãos de poder, sobre o combate à violência doméstica, lembrando medidas de "discriminação positiva" de apoio às vítimas, que constam do Plano Nacional Contra a Violência Doméstica (2003/06).
O Dia Internacional para a eliminação da violência doméstica (25 de Novembro), é uma iniciativa da ONU e do Conselho da Europa e serve para debater e da visibilidade às vítimas da violência, quer através de espancamento, violência conjugal, crimes de honra ou casamentos forçados.Na Austrália, no Canadá, em Israel, na África do Sul e nos Estados Unidos, entre 40 a 70 por cento das mulheres assassinadas são-no pelo seu marido ou companheiro.
Em França, cada três dias, uma mulher é morta pelo seu companheiro, segundo o governo francês. No Brasil, uma mulher é espancada em cada 15 segundos, ou seja, 2,1 milhões por ano, segundo a organização não governamental Agenda.
Em África, a violência contra as mulheres passa pelas mutilações genitais, sofridas por 130 milhões de raparigas no mundo, segundo a ONU, mas também por um número recorde de mulheres infectadas pelo vírus da sida por não utilização do preservativo.Na Guiné-Bissau, a violência doméstica, sobretudo contra mulheres e crianças, tem sofrido nos últimos anos um "aumento alarmante".
Francisca Pereira, presidente da Rede Nacional contra a Violência do Género e da Criança, indicou que, em 2005, as autoridades competentes do país registaram "pelo menos 427 casos".No Sudeste Asiático, crimes de honra e discriminações são o dia a dia de muitas mulheres. No Afeganistão, os suicídios por imolação de jovens adolescentes obrigadas a casamentos forçados estão a aumentar, estima a ONG alemã Medica Mondiale.
Os casamentos forçados representam, naquele país, entre 60 a 80 por cento das uniões, segundo a comissão independente de defesa dos direitos humanos afegã.Neste contexto, a ONU congratulou-se quarta-feira de ver que 60 Estados em todo o mundo tinham adoptado leis contra a violência conjugal e familiar.
A UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres, com sede em Nova Iorque, deverá gastar este ano 3,5 milhões de dólares, mais do dobro do ano passado, para lutar contra a violência contra mulheres.Estes fundos serão distribuídos nomeadamente a advogados nos Camarões que elaboram um código de família, a mulheres na Bulgária que trabalham numa lei contra a violência doméstica, a uma associação na Costa do Marfim que insiste na relação entre a violência contra as mulheres e a sida e quer facilitar o acesso à ajuda jurídica e médica.
Na Europa, a luta assume formas diversas. A Espanha distingue-se por ter reagido ao problema com uma legislação "global", que traz respostas em termos de repressão, prevenção, acompanhamento das vítimas e dos autores da violência.Este país, juntamente com a Suécia, converteu o carácter repetido da violência conjugal em "infracção penal", que leva à aplicação de uma pena suplementar. Em França, o código penal pune "as violências habituais" mas unicamente para os menores de 15 anos ou as pessoas particularmente vulneráveis.Público.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Morreu Mário Cesariny de Vasconcelos

Mário Cesariny de Vasconcelos, poeta e pintor que morreu domingo em Lisboa, aos 83 anos, foi o principal representante do Surrealismo português, um homem irónico e controverso que dispensava aplausos e homenagens.
Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, de pai beirão, negociante de jóias, e mãe castelhana, professora de francês, resolveu, a partir de certa altura, prescindir do apelido paterno e ultimamente gostava de acrescentar a Cesariny o Rossi dos seus antepassados.
Estudou no Liceu Gil Vicente, frequentou o primeiro ano de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) e mudou depois para a Escola de Artes Decorativas António Arroio, tendo igualmente estudado música com o compositor Fernando Lopes Graça.
Durante o período em que viveu em Paris, em 1947, frequentou a Academia de La Grande Chaumire.
Na capital francesa, conheceu o fundador do movimento surrealista francês André Breton, cuja influência o levou a integrar no mesmo ano, embora à distância, o Grupo Surrealista de Lisboa, formado por António Pedro, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Marcelino Vespeira, João Moniz Pereira e Alexandre O'Neill.
Este grupo surgiu com o objectivo de protestar contra o regime político vigente em Portugal e contra o neo-realismo, mas houve cisões e Cesariny saiu, fundando mais tarde o "anti-grupo" "Os Surrealistas", com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário -Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom, entre outros.
Em 1949, redigiu, com o grupo, o seu manifesto colectivo, "A Afixação Proibida" e promoveu as sessões "O Surrealismo e o seu Público em 1949" e a I Exposição dos Surrealistas.
Quando terminaram as experiências colectivas do que foi quase "um movimento (mais ou menos) organizado" - 1947/1953 e 1958/1963 - Cesariny prosseguiu sozinho, como fariam alguns dos seus outros companheiros que sobreviveram à aventura surrealista, com uma actividade inesgotável e orientada em várias direcções.
Nas suas obras, adoptava uma atitude estética caracterizada pela constante experimentação e praticou uma técnica de escrita e de pintura muito divulgada entre os surrealistas, designada como "cadáver esquisito", que consistia na elaboração de uma obra por três ou quatro pessoas, num processo em cadeia criativa, em que cada um dava seguimento, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas uma parte do que aquele fizera. Primeiro, dedicou-se à pintura de forma ocasional e, a partir de certa altura, de uma forma quase exclusiva, tendo deixando de lado algumas facetas do seu talento: primeiro, deixou de tocar piano (ao que parece, tocava muito bem), depois, foi a vez da escrita - "secou", dizia. Quando lhe perguntaram uma vez se não sentia necessidade de escrever, respondeu: "Nenhuma. Para quê? A quem?".
"A poesia foi um fogo muito grande que ardeu. Depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim. Acabou", declarou, no documentário "Autografia" (nome de um poema seu), realizado por Miguel Gonçalves Mendes em 2004, o único feito sobre a sua vida e obra. "Sou um poeta bastante sofrível, um grande poeta numa época em que o tecto está muito baixo", "sem Anteros, Pessanhas ou Pessoas", e em que "o surrealismo foi transformado em museu", afirmou.
Da sua extensa obra literária, destaca-se o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.
Uma poesia primeiro de intervenção contra as poéticas dominantes, no Portugal da década de 40, através da paródia e do pastiche sarcásticos, uma poesia da tentativa fracassada de reabilitação da realidade quotidiana e depois, sobretudo, uma poesia do amor louco, desejado, vivido ou mal vivido, abandonado ou traído, cantado ou recordado e reinventado de forma elegíaca. Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar". "É o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia. O poeta defendia que se pode morrer de amor - foi, na sua opinião, o que aconteceu a outro surrealista, Ernesto Sampaio, pouco tempo depois da morte da mulher, a actriz Fernanda Alves. Mas considerava que "também se pode morrer de falta de amor".
Da sua obra, fazem parte títulos como "Corpo Visível" (1950), "Manual de Prestidigitação" (1956), "Pena Capital", "Nobilíssima Visão" (1959), "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), "A Cidade Queimada" (com arranjo gráfico e ilustrações de Cruzeiro Seixas, (1965), "Burlescas, Teóricas e Sentimentais" (1972), "Primavera Autónoma das Estradas" (1980), "O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Nacionais & Estrangeiras por M.C.V." (1989) e "Titânia" (1994). Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: "Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Agência LUSA.

domingo, novembro 26, 2006

Escolher a Educação Cívica

O filósofo da actualidade que mais admiro é o espanhol Fernando Savater. Os seus pensamentos e a sua filosofia exercem uma grande influência na minha maneira de estar na vida e de orientação nas discussões das grandes questões da actualidade. Cada livro dele, é uma torrente de pensamentos em direcção à liberdade, à humanidade, à educação cívica, de forma a reinventar a nossa consciência para nos tornar mais actuantes na esfera pública. Neste texto, venho falar de uma pequena parte do livro “A Coragem de Escolher”, especificamente, a parte que fala da educação cívica.
É uma constatação que teremos de fazer alguma coisa, para parar a injustiça, a violência, a intolerância, o fanatismo e a desumanidade que grassam pelo mundo, sem no entanto, destruir as instituições democráticas (que tantos séculos demoraram a conquistar).Neste contexto de descrédito do regime democrático, Fernando Savater elege a educação,(não a instrução básica apesar que sem estes conhecimentos fundamentais é impossível uma verdadeira formação humana plena),dizia, elege a educação cívica, como pilar de preparação para o exercício da cidadania, de forma a ser actuante na sociedade. Segundo Fernando Savater, os maiores perigos para as sociedades democráticas actuais, são a mortal e crescente, influência do populismo e da ignorância.
“ O autêntico problema da democracia não consiste no habitual enfrentamento entre uma maioria silenciosa e uma minoria reivindicativa ou loquaz, mas no predomínio geral da maré da ignorância”, são os cidadãos ignorantes, todos com direito a voto, que sustentam os demagogos e os populistas que prometem “ paraísos gratuitos ou a vingança brutal das suas frustrações à custa de qualquer bode expiatório”.
Por isso, a educação cívica, “tanto pela sua reflexão sobre a prática social e pelos valores que a orientam” tornam o cidadão competente para a “comunicação argumentada”. Fernando Savater, denomina educação cívica, como sendo: a preparação que faculta viver politicamente com os outros na cidade democrática, participando na gestão paritária dos assuntos públicos e com capacidade para distinguir entre o justo e injusto. Esta educação cívica irá facultar ao cidadão, um grande número de capacidades: para expressar exigências sociais inteligíveis à comunidade ou para compreender as formuladas por outros, para argumentar ou calibrar os argumentos alheios (orais ou escritos), maximizar o sentido dos direitos e deveres que pressupõe, e impõe, a vida em sociedade para lá da adesão patológica e retrógrada, da nacionalidade, partido, corporação ou lóbi. A educação cívica levar-nos-á a adquirir o sentido da equidade e responsabilidade, que nos fará respeitar as leis e a praticar os valores partilhados, segundo a máxima aristotélica de que, “ninguém pode chegar a governar sem ter sido antes governado”. Pretende-se com esta educação a optimização dos cidadãos, para o exercício da cidadania, inculcando neles a condição de governantes e governados, isto é, uma educação inter pares, “desfrutando uma condição que confere a todos capacidades de comando e a ninguém privilégios”.Usando a máxima de Albert Camus quando avisou que em “política são os meios que justificam os fins”, a democracia só ganhará uma grande dimensão, se for servida por este tipo de cidadãos. A educação cívica será o veículo de transmissão de meios intelectuais ao cidadão, de forma a que ele exerça o direito de deliberação. Preparar para a deliberação, consiste na formação de caracteres humanos capazes de persuadir e dispostos a ser persuadidos, condição indispensável para erradicar a violência civil, de sentir e apreciar a força das razões e recusar as razões da força. A democracia implica assumir que vivemos no deliberado, não no fatalmente imposto,”daí que nenhuma pertença possa servir de desculpa para privar alguém -seja qual for o sexo, origem, raça ou condição social - da educação cívica que lhe permitirá participar na gestão do comum”, devemos portanto, ser intolerantes, para quem faz sabotagem da cultura democrática e humanista. “Num estado democrático existe o direito à diferença mas não diferenças de direitos”, logo, o direito à diferença de uns, não pode ser convertido em dever para todos os outros. Devemos respeitar a pluralidade, sem esquecer a insubstituível defesa dos princípios fundamentais da democracia.
A educação cívica educa também, para prevenir tanto o fanatismo como o relativismo. “Relativamente ao fanatismo, digamos que de modo algum se trata de uma forma de firmeza nas convicções, mas, muito pelo contrário, de pânico perante o possível contágio com o diferente. O fanático é aquele que não suporta viver com os que pensam e agem de uma maneira diferente, com medo de descobrir que já não acredita nas suas crenças. Nietzsche definiu fanatismo, como sendo a única força de vontade de que são capazes os fracos. Quanto ao relativismo, parte de um pressuposto falsamente tolerante, de que todas as culturas são dignas de igual apreço. É certo que não há culturas superiores a outras, se por isso se entende que não têm nada a aprender com as outras, mas não é verdade que são todas igualmente compatíveis com os valores, princípios democráticos e fundamentalmente, com a declaração dos direitos humanos, que não pode ser abolida ou relativizada porque contrasta com certos costumes de grupos particulares dentro da sociedade. Apenas a educação cívica dá a capacidade aos cidadãos de escolher, excluir ou preferir, aquilo que exalta a humanidade.
Por fim, deve-se dizer em abonamento de Fernando Savater, que ele não é apenas um filósofo, no sentido de apenas transmitir os seus pensamentos, mas um homem inteiramente comprometido com a sua filosofia e com a sociedade civil espanhola. Fernando Savater é fundador e porta-voz da plataforma cívica espanhola “Basta, Ya”, que reivindica o fim das acções terroristas por parte da organização terrorista basca. Este empenho da sua parte, fez com que ele fosse ameaçado de morte pela ETA, e por isso, desde de à vários anos é acompanhado, no seu dia a dia, pela incómoda escolta policial, “amable tutela, mi encantaria verme libre pronto”. Fernando Savater, talvez seja o exemplo a seguir, no exercício da cidadania.

Armando S. Sousa.

sábado, novembro 25, 2006

Quando a NOTÍCIA é notícia.

Revejo em muitas notícias publicadas hoje na imprensa o ar de comadre alcoviteira da vizinha do lado, sempre pronta a trazer-nos em primeira mão as graças e as desgraças que assolam o mundo, entre meias palavras, piscadelas de olho e gestos exacerbados que nos acossam a alma e, quando se afasta para levar a boa nova a outras paragens, ficamos sem saber, afinal, o que nos quis dizer.
Uma dessas notícias aparece na primeira página do Correio da Manhã de segunda-feira sob o título “Portugal Campeão da Função Pública”.
No seu interior surgem números avançados pelo Eurostat, dispostos em pequenos rectângulos, onde se destaca a posição de Portugal no ranking europeu a partir da percentagem de Funcionários Públicos por população activa.
Tendo em conta o tratamento que foi dado à notícia, esta era merecedora de uma nota de rodapé, mas por estranhas razões editoriais foi de tal modo relevada que preenche completamente 2 páginas inteiras do jornal e destacada com letras garrafais, na primeira página.
Este tipo de notícias transporta-me ao passado e faz-me recordar longas tardes de verão passadas em Poiares da Régua, na casa da minha avó materna, e da casinha de madeira pintada de amarelo no meio da quinta, onde me libertava dos excessos da gulodice, dos gases e dos frutos depenicados, em total abandono do corpo e do espírito. Os Irmãos Metralha, o Professor Pardal, o Gastão, a Margarida, o Pato Donald, e muitas outras criaturas povoavam a casinha e faziam parte do meu imaginário.
Na casinha estavam folhas de jornal recortadas em pequenos rectângulos e pregados na parede, e não raras vezes, na ausência dos meus heróis, passeava os olhos por aquelas folhas antes de lhe dar o destino final e de calças no fundo das pernas, tomava contacto com o mundo fora da casinha, da quinta e da aldeia. Coisas estranhas que se passavam em lugares distantes e que eram trazidas por uma espécie de detectives, para serem recortadas e pregadas em alguma parede de uma qualquer casinha amarela.
Naquele tempo todas as noticias tinham verdadeira utilidade, mas como os hábitos e costumes já não são o que eram, convém que as noticias cumpram o seu papel que é informar, não como fazia a comadre alcoviteira mas antes com isenção, rigor, sentido cívico, para formar públicos, incentivar o espírito crítico e munir os leitores com instrumentos de análise que lhes permitam discutir com propriedade os assuntos que lhes interessam.
O Jornal poderia, por exemplo, recorrendo-se da mesma fonte (Eurostat), informar que a despesa total do Estado em 2005 foi equivalente à média europeia e foi suplantado mesmo por países como a Bélgica e a Dinamarca e, não consta que aqueles países tenham problemas de défice ou de equilíbrio das contas publicas.
Também poderia ter dito que a maioria dos países recorre a outsourcing e à privatização dos serviços públicos e deste modo a despesa com privados não aparece na rubrica “despesas com pessoal”, pelo que fazer comparações sem qualquer tipo de tratamento é falacioso.
Também poderia fazer comparações com o nível das remunerações dos outros países e poderiam ter dito que o estudo comparativo que o governo encomendou sobre a remuneração entre o privado e o público, demonstrou que este último ganha substancialmente menos e por isso não se sabe onde pára o dito estudo.
Poderia ter dito muito mais, mas o que está a dar é “bater” na Função Pública e o êxito de um jornal mede-se pelo número de jornais vendidos e nesta matéria o Correio da Manhã é o verdadeiro campeão (o diário mais vendido em Portugal).
Contudo, é sempre agradável fazermos uma viagem à nossa infância e trocar umas impressões com Donald Fauntleroy Duck, sobre a Função Pública em Portugal, enquanto a Margarida nos prepara um delicioso hambúrguer com batatas fritas.
Jorge Gaspar.

sexta-feira, novembro 24, 2006

CENSURA


"Que el diccionario detenga las balas"
Joaquín Sabina.

Sou intrinsecamente contra o "lápis azul" da censura, no entanto, não terei pejo em censurar comentários que visem, apenas e particularmente, os autores dos textos.
Respeito e muito a liberdade de expressão, mas há limites para a liberdade de expressão, especialmente quando o exercício dessa liberdade, é feito no sentido de denegrir publicamente, um dos autores dos textos deste blogue.
Fundamentalmente é necessário não confundir liberdade com libertinagem, um detalhe, deveras importante, que faz toda a diferença e que ao não ser respeitado, mete uma parte dos comentadores a tentar atravessar a linha divisória do Rubicão.
Minhas senhoras e meus senhores, este blogue, não é um lavadouro público e muito menos, porque eu não permito, o local para lavar roupa suja.
Se, os visitantes deste blogue, continuarem a abordar os textos com comentários desviados do assunto em questão, porei termo à possibilidade de comentar.
Cumprimentos.
Armando S. Sousa.


quinta-feira, novembro 23, 2006

António Gedeão


Os portugueses sabem “que o sonho comanda a vida". A esmagadora maioria dos portugueses conhecem esse hino à liberdade, que é a canção “Pedra Filosofal”, cantada pela primeira vez por Manuel Freire, em 1969. O que a maioria dos portugueses não sabem é que este fenomenal poema…

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso em
serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

…é um poema, escrito por António Gedeão, alter ego de Rómulo de Carvalho, publicado em 1956. Rómulo de Carvalho professor de física, divulgador científico, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação e poeta, faria amanhã cem anos se fosse vivo.
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906. Aí cresceu, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa,
é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai
intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído
pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras do Porto, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através
da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destrui-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado, a 17 de Dezembro de 1996, com a Grã Cruz da Ordem de Mérito de Santiago da Espada. A 18 de Dezembro de 1996, foi-lhe atribuída, pelo Ministro da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural, na Fundação Calouste Gulbenkian. Durante esta homenagem nacional, o dia 24 de Novembro foi instituido pelo ministro da Ciência, Mariano Gago para Dia Nacional da Cultura Cientifica, por ser o dia do nascimento desta personagem singular do século 20 português. A 19 de Fevereiro de 1997 a morte chega para Rómulo de Carvalho.
Várias Fontes.

quarta-feira, novembro 22, 2006

Democracia! Ma Non Troppo


Cerca de metade dos países em todo o mundo têm regimes que podem ser classificados de democráticos, mas em apenas 28 existe uma democracia plena, numa lista em que Portugal ocupa a 19ª posição, revela hoje a publicação «O Mundo em 2007», do The Economist.
Os autores do relatório, do «Economist Intelligence Unit», afirmam que 54 regimes constituem «democracias imperfeitas», o que – consideram - é melhor que a ausência total de democracia. Entre os 85 restantes Estados, 30 são considerados «regimes híbridos», enquanto 55 são «autoritários».
O grupo das «democracias plenas» está dominado pelos países desenvolvidos, com a «notável excepção» de Itália, mas inclui duas nações latino-americanas (Costa Rica e Uruguai) e uma africana: ilhas Maurícias.
A lista é liderada pelos países escandinavos ou do norte da Europa: Suécia (com 9,88 pontos), Islândia, Holanda, Noruega, Dinamarca e Finlândia, seguidos pelo Luxemburgo, Austrália, Canadá, Suíça e Irlanda, todos eles com pontuações superiores a 9, numa escala de 0 a 10.
Malta vem em 15º lugar, seguido por Espanha e Estados Unidos, enquanto Portugal está na 19ª posição. O Japão e a Bélgica partilham o 20º lugar, enquanto a França vem em 24º, seguida pela Costa Rica, ilhas Maurícias, Eslovénia e Uruguai, empatados no 27º lugar.
Os autores do estudo classificam de surpreendente a «modesta posição» ocupada pelos dois países considerados tradicionalmente bastiões da democracia: os Estados Unidos (8,22 pontos) e Reino Unidos, que está em 23º com 8,08 pontos.
Explicam que nos Estados Unidos houve uma «grande erosão das liberdades civis» no contexto da guerra contra o terrorismo, tendo ocorrido algo semelhante no Reino Unido, onde se regista «uma forte redução da participação política». Quanto a este último aspecto, o Reino Unido ocupa o pior lugar entre os países ocidentais, como se reflecte na sua baixa participação eleitoral, na fraca militância em partidos políticos, na pouca disposição em participar na política e na atitude geral para com a «coisa pública».
No grupo seguinte, o de «democracias imperfeitas», estão a África do Sul (29º), Chile (30º), Itália (34º), Índia (35º) e Botsuana (36º). Outros países latino-americanos e das Caraíbas neste grupo são o Brasil (42º), Panamá (44º), Jamaica (45º), Trinidad e Tobago (48º), México (53º), Argentina (54º), Colômbia (67º), Honduras (69º), El Salvador (70º), Paraguai (71º), Guiana (73º), República Dominicana (74º), Peru (75º), Guatemala (77º) e Bolívia (81º).
Novos membros da União Europeia e países dispostos a fazer parte do bloco também se encontram neste grupo, como a Eslováquia (41º), Polónia (46º), Bulgária (49º), Roménia (50º). Os regimes de Israel (47º), Filipinas (63º), Indonésia (65º) e Benin (71º) também são considerados «democracias imperfeitas».
Entre os países de regimes híbridos encontram-se a Turquia (88º), Nicarágua (89º), Equador (92º), Venezuela (93º), Rússia (102º), Haiti (109º), Iraque (112º) e vários países africanos:
Senegal, Gana, Moçambique, Zâmbia, Libéria, Uganda e Quénia, entre outros.
No grupo de regimes autoritários há apenas um país latino-americano, Cuba (124º), mas muitos islâmicos encaixam-se nesta definição, como o Paquistão (113º), Jordânia (113º), Marrocos e Egipto (115º), Argélia (132º), Irão (139º) e Arábia Saudita (159º). Outros como a China (138º), Guiné Equatorial (156º), Guiné e Guiné-Bissau também se enquadram nos regimes autoritários, segundo The Economist. DD.

segunda-feira, novembro 20, 2006

Sonhos Destruídos


Um beco sem saída.
Daqueles em que ninguém se quer encontrar. Perante as vicissitudes que a vida nos coloca, por vezes somos confrontados com situações que parecem irreais e distantes, que nem sabemos como devemos ou mesmo se podemos reagir, porque parece não existir nada que possa abrir o caminho bloqueado por uma força desumana e intransponível.
Por inépcia ou incúria, um segundo é quanto basta para tudo se alterar. Nada é definitivo. Quantas vezes num filme, num livro, numa história que alguém conta ou a que se assiste com um distanciamento seguro, se conclui que seria impossível encontrar-se nesta ou naquela posição? Como quase sempre acontece, todos achamos que é inverosímil que um lapso de tempo insignificante possa condicionar toda uma existência e, por isso mesmo, vive-se deliberadamente na inconsciência consciente, porque não obriga à reflexão sobre os nossos actos, numa condição de permanente ilusão, que permite esquecer a responsabilidade, e atribuindo-se ás possíveis consequências, que podem revelar-se esmagadoras e irresolúveis, a mesma importância que ao obituário de um jornal.
Consideramos invariavelmente estar a salvo da ignomínia e do infortúnio. Quando o inesperado acontece, quase sempre reagimos a despropósito. Normalmente, esperamos que tudo se resolva e desapareça após uma noite de sono. Todo o nosso pensamento se centra no desejo de regresso à nossa normalidade, numa regressão no enredo com que a vida nos presenteou. A pergunta que incessantemente se insinua é: Porquê eu?
Um dia acordamos e logo a seguir dirigimo-nos para o emprego, uma vida patética sem grandes oscilações emocionais. À noite em busca de uma qualquer descarga de adrenalina que nos faça sentir vivos, nem que seja por cinco minutos, decidimos agarrar o único instrumento à nossa disposição naquele instante, que por acaso é um carro. Um desafio com um amigo. Perdidos na noite, embriagados por uma sensação tão poderosa, ignoramos qualquer aviso de que uma tragédia pode estar iminente. No meio de uma gargalhada eufórica, desviamos o olhar por um segundo em busca de partilhar uma emoção. Sem pensar, tudo são reflexos e comportamentos irracionais. Nada mais existe. Nesse preciso instante, uma família pára o seu carro. Sem lugar para estacionar, fica em segundo fila. Finalmente a casa nova que todos ambicionavam, os sonhos são tão grandiosos que ninguém pensa no perigo potencial. Mesmo assim, mandam as duas filhas para a relva brincar.
Um estranho sortilégio ganha forma. Começam a tirar as malas do carro. Um segundo, nem dá para se aperceberem do fim. Apenas sentem o esmagamento, a dor não tem tempo de chegar ao cérebro. Os olhos, como que por reflexo, viram-se na direcção das filhas.
As meninas brincavam distraidamente. Inicialmente, o ruído do carro a alta velocidade. A aproximação fê-las desviar o olhar em simultâneo, mesmo antes do embate. O que se seguiu foi apenas um segundo, mas aos olhos delas a cena prolongou-se. Cada ínfimo momento, cada pormenor do acontecimento foi visto individualmente, como se desenrolado em câmara lenta, com a cena a repetir-se vezes sem conta no seu cérebro. Cada ferida, cada pedaço de sangue, cada movimento desamparado, o último sopro.
No futuro e durante muitos anos, estas imagens inundarão os seus pesadelos. Estão irremediavelmente impregnadas nas suas células. As suas vidas serão terrivelmente condicionadas por um sofrimento impossível de se esquecer porque assistir a algo semelhante é como que se de repente toda a maldade da alma humana lhes fosse dada a conhecer em simultâneo.
Filipe Pinto.

sexta-feira, novembro 17, 2006

A Festa e o Cigano

Diz um ditado espanhol “cada cual opina de la fiesta de acuerdo a como le vaya en ella” e para os senhores congressistas a festa até nem correu nada mal.
Sócrates garantiu, prometeu, jurou, afirmou e refutou e o povo eleito aplaudiu.
Aplaudiu quando garantiu que está a governar à esquerda, quando prometeu que vai modernizar o país, quando jurou que vai servir Portugal e os Portugueses, quando afirmou combater as desigualdades, quando refutou as críticas de que não há debate interno e…aplaudiu muitas mais vezes; quando falou contra os sindicatos e os manifestantes, contra a esquerda e contra a direita, a favor das reformas, do rigor e da modernidade e… continuariam a aplaudir mesmo que tivesse dito: Boas! Boas! Boas! São mesmo as congressistas de Ermesinde!
O Congresso não foi propriamente um fórum de reflexão e de debate, mas também não foi para isso que foi realizado e ninguém pode negar que foi uma bonita cerimónia de entronização.
Mesmo assim, (no melhor pano cai a nódoa), há sempre alguém a querer estragar a festa, com suficiente descaramento para proferir frases pindéricas do tipo:
“Para a história do socialismo fica a criação do Serviço Nacional de Saúde por António Arnaut e não as taxas moderadoras dos internamentos”
“Os sacrifícios das finanças públicas só valem a pena se servirem para resolverem o principal défice do país, o social”.
“A Reforma da Administração Pública tem de ser feita com e não contra os Funcionários Públicos”,
Manuel Alegre.
“Não faz sentido cortar só por cortar, até porque a classe média e os Trabalhadores em geral esperam mais serviço do Estado e não menos”, José Leitão.
“Temos que fazer uma pergunta: será que estamos a fazer no Governo o que prometemos? Temos que ser implacáveis nesta resposta”, Helena Roseta.
Aqueles Senhores ainda não perceberam que o José Sócrates é o fundador do Socialismo Moderno que ninguém sabe o que é, mas como diria Fernando Pessoa, se soubessem o que é, que saberiam?
O Filósofo espanhol Ortega e Gasset, no seu livro “A Rebelião das Massas” conta o seguinte episódio:
“Um cigano foi confessar-se; mas o padre precavido, começou por perguntar se sabia os mandamentos da Lei de Deus. A isto o cigano respondeu “olhe vossemecê, Senhor Padre, eu até ia aprendéri, mas ouvi um runrum de que a iam tirári”.
Também anda para aí um runrum que já não regem os mandamentos da esquerda no partido socialista…
… e eu que até me ia filiari!!!
Jorge Gaspar

sexta-feira, novembro 10, 2006

Dois Anos d'A Fábrica


Este senhor é o artista adulado da "Pop Art".
Andy Warhol (1928-1987), foi também a fonte de inspiração do nome deste blog.
Não pretendo ter 15 minutos de fama, apenas tempo para alguns apontamentos, notas e pensamentos.


Foi desta forma que este blog começou, decorrem precisamente, hoje, dois anos. A todos os que passaram por cá, deixo o meu sincero agradecimento, quer seja, pelas vossas palavras, pelas vossas sugestões, pela vossa solidariedade, pela vossa critíca, mas acima de tudo, o meu muito obrigado, pelo vosso encorajamento.
Um abraço a todos.

quarta-feira, novembro 08, 2006

Os Humanistas?!

O Primeiro Ministro, Eng.º José Sócrates, afirmou em conferência de imprensa, no final da XVI Cimeira Ibero-americana, realizada no passado fim-de-semana em Montevideu, que “Em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontra melhor exemplo do que os EUA, a política externa (Norte Americana) valoriza estes pontos”.
Como já estamos habituados a que o Sr. Primeiro Ministro diga o contrário daquilo que pensa, é muito possível que quando diz “não encontro melhor exemplo”, esteja a pensar “não encontro pior exemplo” e se assim for, pensa muito bem.
Destacamos quatro paradigmas da visão humanista daquele País, designadamente: a aplicação da pena de morte, a base naval de Guantánamo, a invasão do Iraque e a liberdade de expressão.

1. Hoje, os EUA fazem parte de um grupo de países resistentes, onde a pena de morte é ainda oficialmente permitida, sendo o segundo País, depois da China, onde mais pessoas são executadas anualmente.
A Amnistia Internacional, revelou que pelo menos 2.148 pessoas foram executadas em 2005 – 94% dos quais nos EUA, Irão, Arábia Saudita e China. 20.000 pessoas estão no corredor da morte.
Apesar dos esforços desenvolvidos por inúmeras organizações não governamentais bem como dos acórdãos e tratados internacionais com vista à abolição da pena de morte, os EUA, não se limitam a mantê-la, como ainda violam sistematicamente a Convenção de Viena, não informando os demais países das detenções e condenações de cidadãos estrangeiros, ao ponto de terem sido condenados (em 1999) pelo Tribunal Internacional de Justiça, por ignorarem os direitos de (Walter e Karl LaGrand), dois irmãos de origem alemã executados.
2. Ainda em matéria humanista, os Estados Unidos na sua caminhada imperial do “quero posso e mando” votaram contra o projecto da criação do Tribunal Penal Internacional, (com competência para julgar crimes de guerra, genocídios e crimes contra a humanidade), de modo a evitar que seus soldados viessem a ser julgados por esse tribunal, ao mesmo tempo que tratam (à sua maneira) os prisioneiros suspeitos de terrorismo, em total desrespeito pelos direitos humanos.
O exemplo disso são as detenções em Guantánamo (Cuba), em que centenas de pessoas estão há 5 anos presas, sem acusação nem julgamento, vendo os seus direitos mais elementares serem-lhes negados, sujeitos a torturas e maus-tratos. Os prisioneiros não têm acesso ao tribunal, aconselhamento jurídico ou a visitas dos seus familiares.
Têm sido reveladas tentativas de suicídio e greves de fome (segundo o Jornal The New York Times, para não morrerem, são amarrados em cadeiras e obrigados a alimentarem-se por um tubo).
Veja-se a propósito, o filme estreado este ano, de Michael Winterbottom, “Caminho para Guantánamo”, e que ganhou o “Urso de Prata” no Festival de Berlim. O filme mostra as condições degradantes em que se encontram os detidos e suscita questões sobre a eventual inocência de muitos deles.
Por sua vez, o Comité da ONU contra a Tortura, recomendou aos Estados Unidos que encerre o centro de detenção na baía de Guantánamo. O Comité concluiu que se deve permitir aos detidos acesso à justiça ou então libertá-los o quanto antes e que não devem ser enviados para países onde praticam a tortura (uma prática corrente).
3. Ainda em nome da luta contra o terrorismo, os EUA invadem países, ao bom modo das cruzadas religiosas da idade média, e sob o desígnio de um deus justiceiro, (na luta do bem contra o mal), matam centenas de milhares de inocentes, destroem as infra-estruturas, saqueiam, tomam conta, mandam matar os seus dirigentes, impõem as suas leis e deixam por onde passam um rastro de sangue, miséria e destruição.
A propósito dos métodos utilizados na guerra “preventiva” contra o Iraque, a rede de televisão italiana, RAI exibiu, em 2004, um documentário intitulado Fallujah onde se comprova o uso de armas químicas por militares americanos, designadamente o uso de fósforo branco, queimando “as carnes até aos ossos”, queima indiscriminadamente, as mulheres e as crianças são as principais vítimas.
Sempre se soube que no Iraque não havia armas de destruição maciça, nem que apoiava o terrorismo e, quanto a ser uma ditadura sanguinária, sempre se pode perguntar quantas ditaduras sanguinárias são amigas e apoiadas pelos americanos. Mas essas não pesam na consciência. O Paquistão, A Arábia Saudita, Israel, algumas ditaduras da América Latina, entre outras, representam o “Bem” nessa cruzada.
4. As garras do “Tio Sam” também se viram contra aqueles que ousam criticar a politica do Sr. Bush, e sobre isso é elucidativo um artigo ontem publicado no jornal espanhol “ El País” subscrito por Javier del Pino “…Natalie Maines, vocalista do grupo country Dixie Chicks, disse há três anos, num espectáculo em Londres que estava envergonhada por o Presidente dos Estados Unidos ser do Texas como ela. Foi o fim da sua carreira. As emissoras de rádio deixaram de emitir a sua música e as várias cadeias de televisão recusaram emitir o anúncio de um documentário que narra este incidente. O documentário “Shut up and sing” (cala-te e canta) mostra o declive imediato do que era até esse momento, o grupo country mais famoso e rentável dos Estados Unidos, As Dixies Chicks…”.
“Tristemente isto diz muito sobre o nível do medo que há nessa sociedade. Põe na lista negra um filme sobre um grupo de artistas que foram postos numa lista negra por exercerem o seu direito à liberdade de expressão”.
Sr. Primeiro Ministro (depois desta pequena espreitadela à “realpolitik” ou à “Ideological Politics”-fica ao critério de quem lê), parece-me que a frase que V Ex.ª proferiu fica muito melhor se sofrer “pequenas” alterações, podendo ficar assim: “Em matéria de visão humanista e respeito pelos direitos humanos, não encontro, no chamado mundo civilizado, pior exemplo do que os EUA, a politica externa (Norte Americana) valoriza estes pontos”.
Mas, lapsus linguae, cada um pode ter.


Jorge Gaspar

terça-feira, novembro 07, 2006

Acabou a Fantochada


A condenação “medieval” de Saddam Hussein à morte por enforcamento, no primeiro de vários processos por atrocidades cometidas durante o seu regime, terminou da pior maneira para haver a possibilidade da Justiça triunfar.
Quero deixar bem claro, que a minha posição em relação à pena de morte, é a mesma que a da Amnistia Internacional: a pena de morte é a punição mais cruel, desumana e degradante e, acima de tudo é, uma violação clara do direito à vida.
Ao ser condenado à morte por este caso, relativo à execução de 148 aldeões, o sequestro de 399 famílias e a destruição das suas casas e terras agrícolas na aldeia de Dujail, em 1982, muitos dos mais terríveis crimes cometidos por Saddam, poderão ficar por desvendar.

Saddam Hussein é suspeito por crimes contra a humanidade e crimes de guerra em vários casos, de entre eles contam-se: a operação de Al-Anfal contra os curdos, em 1988, que fez 180.000 mortos; o gaseamento de cerca de 5.000 curdos em Halabja, no mesmo ano; a repressão dos xiitas, em 1991, com milhares de mortos; a invasão do Kuwait, um ano antes; o massacre de 8000 membros da tribo dos Barzani (um clã curdo), em 1983, e o assassínio de líderes de partidos políticos e de dignitários religiosos xiitas entre 1980 e 1999.
Com uma tão extensa lista de crimes gravíssimos a condenação à morte logo no primeiro julgamento não tem algum sentido e obrigatoriamente impõe a formulação algumas perguntas:

A sentença será executada, ou Saddam Hussein será julgado por todos os outros crimes que é acusado?
Pararão o corrente julgamento, do caso Al-Anfal, para o executar?
Foi esta sentença uma benesse aos republicanos, numa tentativa desesperada de estes vencerem as eleições de hoje nos EUA?
De momento não há respostas a estas perguntas e Saddam Hussein, como todos os humanos, tem apenas uma vida.
Após o anúncio da sentença, devemos reflectir sobre o significado deste julgamento. O julgamento de crimes de guerra normalmente ocorrem no fim de um período de trauma quando a sociedade está pronta a enfrentar os seus fantasmas, após um período de ausência de violência e de retribuição extrajudicial.

O julgamento de Saddam Hussein não cumpriu nenhum destes requisitos.
O Tribunal Especial Iraquiano também não ajudou em coisa alguma, para dar credibilidade ao julgamento, com a mudança sucessiva de Juízes e o assassinato de três advogados de defesa de Saddam Hussein.
O sistema judicial iraquiano ou o que quer que isso seja, sem qualquer tipo de contemplações transpôs o rubicão, espera-se agora pressão da comunidade internacional, especialmente por parte da União Europeia, que é a única região do Mundo, livre desta prática hedionda, para que haja uma moratória na execução da ignóbil sentença, porque sem a força legitimadora das instâncias internacionais, este julgamento, é o que é: uma fantochada.
O julgamento de Saddan Hussein, tem fortes possibilidades de ser recordado historicamente, como um fraco espectáculo que desacreditou as novas autoridades iraquianas e toda a Administração Americana, especialmente o Presidente George W. Bush.

Se havia esperança de se alicerçar um Estado de Direito no Iraque, a violência quotidiana e esta condenação à morte por enforcamento, bem provar que o Iraque tem um muitíssimo longo caminho a percorrer, para alcançar esse tal Estado de Direito. Se conseguir.

sexta-feira, novembro 03, 2006

"Rosa Alaranjado"


“Politica é a arte de mentir a propósito”
Voltaire

Sr. 1º Ministro,
Parece que a palavra de ordem do momento é – Liberalizar, Liberalizar, Liberalizar – mas, enquanto a direita económica se regozija, a direita política anda completamente à deriva.
V. Ex.ª usurpou-lhe o programa, as ideias e os métodos, de tal modo que, os coitados, para se afirmarem como alternativa de poder, apenas reivindicam a alteração da cor do papel em que são dados os despachos ministeriais.
Consideram que o rosa é uma cor velha, esbatida e gasta e que não se coaduna com as novas exigências de modernidade, pelo que propõem em sua substituição um laranja shock, mais em consonância com o choque tecnológico que V. Ex.ª prometeu, com o choque fiscal que V. Ex.ª ofereceu e com choque emocional que V. Ex.ª provocou nos portugueses que acreditaram em si.
Tenho de concordar que a cor laranja fica melhor como pano de fundo ao ataque ao Sector Público, ao desmantelamento das funções sociais do Estado, à privatização dos serviços públicos, bem como à coragem demonstrada na grande ofensiva contra os privilégios dos reformados, pensionistas, idosos, doentes e toda essa gentinha que representa um encargo insuportável e que em nada contribui para o saneamento das contas públicas.
Mas V. Ex.ª esteve muito bem, quando em sessão plenária, na Assembleia da República, a propósito da discussão sobre o “estado da Nação”, dirigindo-se à bancada Social-Democrata disse: “ V. Exas. estão zangados porque gostariam de ter feito o que nós estamos a fazer e não o fizeram”, foi muito bem dito sim senhor! Nem imagina como me ri ao ouvir V. Ex.ª.
Também concordo com V. Ex.ª quando diz que todos estão de acordo que é necessário fazer sacrifícios, desde que sejam os outros a fazer e, como prova disso, os deputados, que apoiam incondicionalmente as medidas restritivas do seu governo, apenas protestaram, quando V. Ex.ª tentou acabar com alguns dos seus privilégios, obrigando-o, num verdadeiro golpe de rins, a um estratégico e sensato recuo
Mas, deixe que lhe diga que os portugueses são uns ingratos, então não é que quando V. Ex.ª vem anunciar, com pompa e circunstância, como o caso merece, um forte investimento na Ciência e na Investigação, assistimos a uma manifestação de investigadores que vêm protestar contra a precariedade do emprego e contra as más condições de trabalho? Não bastavam já os funcionários públicos, os professores, os trabalhadores dos transportes e todos esses desordeiros que andam por aí?
Mas enfim, nem tudo são más notícias, os portugueses sempre se podem animar com o espectáculo das opas, fusões, transacções e isenções, bem como, com os paraísos fiscais e a revista Forbes que nos mostra que num país de pobres, existem uns quantos que têm fortunas dignas de destaque internacional.
Não posso deixar de mencionar que no ano de 1928, numa conjuntura político/económica difícil e complexa, um Senhor, ministro das finanças, de nome Oliveira Salazar, publicou a reforma orçamental e, no período de 1928/29, registou um saldo positivo que lhe granjeou grande prestígio. Também ele exigiu o controlo sobre as despesas de todos os ministérios e impôs forte austeridade e rigoroso controlo das Contas do Estado, conseguindo um superavit nas finanças públicas e… foi o que foi…
Sr. 1º Ministro, os portugueses não têm dúvidas que V. Ex.ª vai controlar o deficit e vai ter sucesso nesse desígnio nacional de cumprimento do Programa de Estabilidade e Crescimento com que o País está comprometido. O que não querem, seguramente, é serem espectadores de mais uma página menos honrosa da História de Portugal, e muito menos que ela seja protagonizada por um partido de esquerda.


Jorge Gaspar.

quarta-feira, novembro 01, 2006

É Urgente Mudar


Recentemente foi lançado mais um alerta prévio. O anúncio de que no ano 2050 serão necessários os recursos de dois planetas iguais à Terra para suportar a população mundial. Este aviso foi mais uma vez subvalorizado como uma espécie de profecia apocalíptica, parte integrante dos delírios de cientistas loucos e desfasados, com tendências para dramatizações desnecessárias. Convenientemente, são feitas mais algumas tentativas de relativizar a sua importância e, como andam todos absorvidas numa vida já de si complexa e o horizonte é ainda demasiado longínquo em termos da duração média de uma vida humana, é claramente preferível pensar que não é verosímil que se concretize, até para garantir alguma paz de espírito e a eliminação do sentimento de culpa.
É-lhe, por tudo isto, atribuída menor relevância do que a uma previsão astrológica. Só que efectivamente não o é. Ao contrário do pensa a quase totalidade da humanidade, os recursos do planeta são finitos e, por isso mesmo, nos próximos anos as coisas vão ficar complicadas. Estamos a trabalhar para a nossa extinção.
O mais espantoso disto tudo são as preocupações que prevalecem como fundamentais. Embora o dinheiro, o poder absorvam a atenção diárias da quase totalidade da população, as grandes questões da humanidade neste momento, giram em torno de discussões teológicas e de rivalidades internacionais que se revelam mesquinhas em face daquilo que poderá estar em causa. A extinção da espécie e, perante isto, para que interessa o resto. Por um lado, discute-se quem possui a ligação mais directa a um Deus que cada um diz que representa melhor na Terra, isto é, todos acham que são o povo escolhido. Por outro lado, nas relações internacionais discutem-se questões de identidade, de nacionalidade entre povos com o intuito de definir melhor fronteiras e nações, dividindo a Humanidade com base em pressupostos que no futuro serão irrelevantes.
Pensa-se que estas atitudes trazem algum benefício à espécie, quando muito mais importante que isto é o facto de que poderemos estar à beira de um retrocesso civilizacional.
E o que significa isto para cada um individualmente?
É aqui que habitam os fantasmas futuros que dominam o meu pensamento. Em confronto com estes, os do passado não têm qualquer possibilidade de aflorarem com intensidade relevante, até porque, com maior ou menor dificuldade, vamos vivendo. Com os do futuro, já não posso dizer o mesmo. Impotentes perante o desenrolar dos acontecimentos, inevitavelmente e de forma progressiva instalar-se-á o desespero.
Esta espécie de pesadelo em que me deixo envolver, imagens a preto e branco, como numa banda desenhada que olho as minhas filhas a dormir e fecho os olhos imaginando qual o seu futuro, se é que vão ter algum. A luz que nos iluminava desaparecerá sem remissão. Imagens de sofrimento, de gente esfomeada de trajes andrajosos e imundice, as lutas pelo mais pequeno pedaço de comida, o abandono das conquistas civilizacionais em detrimento da simples sobrevivência.
Os comportamento atávicos irão emergir como dominantes e a escuridão abater-se-á sobre a humanidade. A noite deixará de estar iluminada pela obra do Homem porque os recursos se esgotaram. As almas tornar-se-ão negras ao esquecer que a essência do ser humano vai para além da supressão da sensação de fome, o que configura uma regressão a um estado existencial em tudo igual a um vulgar animal que mais não sente que a necessidade de comer para sobreviver. Deixaremos de ser sensitivos para sermos instintivos.
Face a isto, os olhos da inocência têm um efeito notável. Quando uma criança olha para um pai, normalmente, o que se vislumbra são sinais de uma adoração e amor quase sem limites. Para nós, a sensação é tão forte que é como se todas as células do nosso corpo fossem unidas por uma corrente de origem mística e, em conjunto, todo o nosso ser se tornasse um só sentimento. Só que é preciso agir, pois os nossos comportamentos deveriam proteger o futuro e não coloca-lo em causa. A mais importante demonstração de que somos merecedores de tais sentimentos, é assegurar que possam vive num mundo onde a essência da humanidade não se desvanece ao som da nostalgia.
Se assim não for, seremos certamente alvo de julgamentos quando eles crescerem e verificarem que tudo era uma ilusão, o que lhes foi ensinado era irrelevante perante o desastre iminente e as demonstrações de afecto soarão eternamente a falsidade e a egoísmo. Este sentimento que nos une não deve ser apenas expressa em palavras, algo que nos faz sentir bem apenas e só enquanto estivermos presentes, deveria persistir para além do nosso tempo. A sensação que lhe está associada deve levar-nos a um esforço de preservação com motivação acrescida nesta época do desenvolvimento Humano. Pensamos estar a construir o futuro, educação, bens materiais, tudo em prol deles, mas existe sempre com algum egoísmo envolvido. Uns mais que outros, sentimos que realmente conseguimos algo e esquecemos o principal.
Seremos tão inconscientes que as nossa preocupações com aqueles que nos suscitam as emoções mais fortes que são passíveis de serem sentidas estão apenas associadas à nossa mortalidade? Penso que não será necessário passar muito tempo para se iniciar a reversão da adoração, do amor, do reconhecimento, quando os donos do futuro, se aperceberem da cruel realidade. Estamos a destruir aquilo que eles vão necessitar para viver. O ódio vai-se instalar, em resultado do desespero que será sobreviver e para o que não foram, seguramente, preparados pelos mesmos que os traíram e durante anos lhes juraram amor. Seremos considerados indignos de qualquer sentimento de reciprocidade.

Filipe Pinto.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Os Grandes Portugueses


Muita tinta já correu por causa do programa da RTP “Os Grandes Portugueses”. Essencialmente, essa tinta foi gasta, pela não inclusão da biografia de António Oliveira Salazar, no site do concurso.
Ora, quer se não goste, quer se odeie, Salazar foi uma figura incontornável do século vinte português. A democracia não pode ter medo do fantasma do “Senhor Doutor”, porque exceptuando os taxistas, ninguém precisa de um “novo Salazar”.
Segundo o site da RTP, o programa de entretenimento “Os Grandes Portugueses”, é um programa que “de forma bem disposta, combina o Documentário com o Grande Espectáculo” e pretende “motivar os portugueses a nomear a sua figura histórica preferida”.
Sem pretender ferir susceptibilidades, colocar: Herman José, Mariza, Mário Viegas, João César Monteiro, Raul Solnado, Ruy de Carvalho, Catarina Eufémia, Jesus Correia, Eduardo Souto Moura, Joaquim de Almeida, Luís Miguel Cintra, Maria Medeiros, Livramento, António Guterres, Durão Barroso, Luís Figo, José Mourinho, entre muitos outros, como “figuras históricas” com possibilidades de serem eleitos o melhor português, é no mínimo, enxovalhar as verdadeiras figuras na nossa História.
Muitas destas pretensas figuras históricas, não merecerão uma pequena nota de rodapé, quando passarem pelo crivo da História.
Somos um país de muitos e grandes vultos, não precisamos de pretensas”figuras históricas” para confundir ainda mais, o já débil conhecimento da nossa história, por parte da esmagadora maioria dos portugueses.
Mais de oitocentos e cinquenta anos de História, fornecem uma panóplia de nomes para escolher: pela pena, pelo pensamento, pela bravura, pela liderança, pela espada, pela compaixão, pelo génio, ou por outra qualquer via, há muitos portugueses que conquistaram por mérito próprio e com toda a justiça, um lugar no sub inconsciente nacional.
Na realidade, a dificuldade estará em escolher o “melhor entre os melhores” se, se quiser encarar o voto com a dignidade que esta iniciativa merece. Por isso, há que definir critérios, para dignificar esta iniciativa.
O meu critério de votação passa pela escolha da personalidade cuja a acção ou obra, resultou numa projecção de Portugal, de forma ímpar, na História Universal.
Aplicando este critério, as personalidades que mais se salientam, na minha opinião, são três:
1º- D. Afonso Henriques, cuja estratégia, valentia, coragem e liderança, levaram à fundação de Portugal;
2º- João II, pela superior liderança do País durante o seu reinado e pela repercussão que teve as suas decisões para Portugal, principalmente a assinatura do Tratado de Tordesilhas.
3º-Fernão de Magalhães.
A minha escolha recai sobre: FERNÃO DE MAGALHÃES.
E recaiu sobre Fernão de Magalhães, porque a sua viagem mudou irremediavelmente o curso da História e a forma como vemos o Mundo. Esta viagem alterou para sempre as ideias que o mundo ocidental tinha sobre cosmologia e geografia. Demonstrou entre outras coisas, que a terra era redonda, que as Américas não faziam parte da Índia, que os oceanos cobriam a maior parte do Planeta. Fernão de Magalhães acrescentou ao planisfério o Oceano Pacífico, baptizado por ele. A viagem de circum-navegação do planeta é viagem marítima mais importante jamais empreendida, e ainda hoje, “têm uma poderosa ressonância”.
Embora não tenha dado o nome a nenhum continente ou país, o nome de Magalhães foi atribuído a um grupo de ilhas a nordeste das Marianas, o arquipélago de Magalhães, ao estreito de ligação entre o Atlântico e o Pacífico, a sul do continente americano, o estreito de Magalhães, a uma região do Chile meridional, a ocidente da cordilheira dos Andes, o território de Magalhães. Ainda em sua homenagem, o seu nome encontra-se ligado às duas nebulosas mais próximas da nossa galáxia, baptizadas pelo astrónomo Hevelius, as nuvens de Magalhães.
Hoje li na revista SÁBADO, uma "entrada" que desconhecia e que vou partilhar convosco, porque tem a ver com a ilustre personalidade retratada no post:
"Não é por acaso que os astronautas rezam a Fernão de Magalhães cada vez que se preparam para uma viagem ao Espaço. Fazem-no porque o navegador português é o protector dos descobridores".
(Revista SÁBADO, Nº131, 1 a 8 de Novembro de 2006).