terça-feira, novembro 13, 2007

Luís Sepúlveda


Luís Sepúlveda, nascido a 4 de Outubro de 1949 na cidade de Ovalle, província de Limarí, é mundialmente conhecido como escritor, apesar de ser também, jornalista, activista político e realizador de cinema. Membro da Juventude Comunista a partir de 1964, licenciou-se em Santiago do Chile em encenação teatral.
Em 1969 ganha uma bolsa de estudo de cinco anos, na Universidade Lomonosov de Moscovo. No entanto só ficaria cinco meses na capital soviética, pois foi expulso da Universidade por “atentado à moral proletária”, causado, segundo a versão oficial, por Luís Sepúlveda manter contactos com alguns dissidentes soviéticos.
De regresso ao Chile é expulso da Juventude Comunista, adere ao Partido Socialista Chileno e torna-se membro da guarda pessoal do presidente Salvador Allende. No golpe militar do dia 11 de Setembro de 1973, que levou ao poder o ditador general Augusto Pinochet, Luís Sepúlveda encontrava-se no Palácio de La Moneda a fazer guarda ao Presidente Allende.
Depois do golpe de Estado, foi preso por dois anos e meio, mas a pressão da secção alemã da Amnistia Internacional conseguiu que Luís Sepúlveda deixasse a prisão de Temuco e fosse colocado em prisão domiciliária. Conseguiu escapar da prisão domiciliária e durante um ano viveu no Chile clandestinamente. Com a ajuda de um amigo formou um grupo de teatro que se converteu no primeiro foco de resistência cultural, à propaganda fascista do General Pinochet.
A polícia secreta conseguiu descobrir o paradeiro de Luís Sepúlveda levando-o novamente à prisão. Desta vez foi condenado a prisão perpétua, por traição e subversão. No entanto a pena foi imediatamente reduzida para 28 anos de prisão.
Mais uma vez a secção alemã da Amnistia Internacional o ajudou e a sentença de prisão foi convertida em 8 anos de exílio. Em 1977 a ditadura chilena autoriza a partida de Luís Sepúlveda para a Suécia, para ensinar literatura espanhola.
Na viagem para a Suécia, durante uma paragem técnica em Buenos Aires, escapou-se do avião e foi para o Uruguai. Depois de uma passagem fugaz pelo Brasil e pelo Paraguai, instalou-se em Quito, capital do Equador. Nesta cidade dirigiu o teatro da Aliança Francesa e fundou uma companhia teatral. Viveu durante sete meses no seio da comunidade dos índios Shuar, participando numa missão de estudo da UNESCO, que tinha como objectivo estudar o impacto da colonização na forma de vida deste povo.
Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, que lutava contra a ditadura de Anastácio Somoza. Depois da vitória da revolução sandinista, trabalhou como repórter.
A partir de 1982 Luís Sepúlveda instalou-se em Hamburgo na Alemanha, por causa da admiração que tinha pela literatura alemã. Nesta cidade trabalhou durante algum tempo como motorista. Entretanto a revista alemã Der Spiegel contratou-o como correspondente de guerra em Angola, de onde narrou a intervenção cubana e a derrota das tropas de elite da África do Sul. Por esta altura começa também a sua ligação activa ao Greenpeace, que duraria até 1987.
Esta actividade na Greenpeace será pano de fundo de muitas das obras de Luís Sepúlveda nomeadamente o seu maior sucesso, "O Velho que Lia Romances de Amor" (1989), que Luís Sepúlveda dedica ao seu amigo Chico Mendes, o grande defensor da floresta amazónica.
Em 1996, muda de país e instala-se em Gijón, Espanha, onde vive actualmente. Nesta cidade fundou o Salão do livro ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livrarias latino-americanas com os seus homólogos europeus.
Luís Sepúlveda já vendeu mais de 15 milhões de exemplares na Europa e é um dos autores hispano-americanos mais traduzidos das últimas décadas.
À sua primeira obra narrativa, “Crónicas de Pedro Nadie” (1969) seguiu-se um longo silêncio resultante do seu empenhamento político durante o breve Governo de Salvador Allende e dos problemas com a ditadura chilena. Em 1986 publicou a colectânea de contos “Los Miedos, las Vidas, las Muertes y Outras Alucinaciones”, e a partir de então, a sua produção literária não parou de crescer.
De entre inúmeros títulos, são de mencionar O Velho Que Lia Romances de Amor 1989), O Mundo do Fim do Mundo (1989), Encontro de Amor Num País em Guerra, (1997), Nome de Toureiro (1994), Diário de um Killer Sentimental (1999), História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar (1996), Patagónia Express (1996), As Rosas de Atacama (2000), O General e o Juiz (2003), Uma História Suja (2004), O Poder dos Sonhos (2006).
Luís Sepúlveda já recebeu vários prémios, entre eles, "Prémio Gabriela Mistral de Poesia" (1976), "Prémio Rómulo Gallegos de Novela"(1978), "Primer Prémio de Novela Corta Juan Chabás" (1990), "Prix France de Culture" (1992) e "Prémio Internazionale Ennio Flaiano"(1993).
 

domingo, novembro 11, 2007

Norman Mailer


O escritor norte-americano Norman Mailer, (nascido em Long Branch, Nova Jersei, a 31 de Janeiro de 1923), morreu, ontem, no Hospital de Mount Sinai, em Nova Iorque, Estados Unidos, de insuficiência renal, informou J. Michael Lennon, o seu executor literário e biógrafo oficial. Contava 84 anos.
Duas vezes vencedor do Prémio Pulitzer, Norman Mailer ganhou cedo o epíteto de "enfant terrible" da literatura norte-americana do pós-guerra.
Com opinião formada sobre quase todos os assuntos, o escritor combinou um formidável talento para a escrita com uma atitude de lutador de rua. Ligado à contracultura, autor de 11 romances e vários ensaios e peças de teatro, o autor de "Os nus e os mortos" foi um dos intelectuais mais famosos dos Estados Unidos.
Com escritores como Gore Vidal, Tom Wolfe e John Updike, fez parte de um clube único de novelistas e ensaístas que desafiaram e, muitas vezes, ultrajaram os leitores, com as suas reflexões sobre a vida, história e moralidade norte-americanas.
Co-fundador da revista alternativa nova-iorquina "Village Voice", Norman Mailer é também um dos pais do "novo jornalismo", que ajudou a divulgar a partir dos anos 60, com artigos em dezenas de jornais e revistas.
"O fantasma de Hitler" é a sua obra mais recente lançada em Portugal, onde estão também editados "Os nus e os mortos", "O canto do carrasco" (Prémio Pulitzer em 1979), "Os duros não dançam", "O exército da noite" (Prémio Pulitzer em 1968) e "Um sonho americano".
Elogiado e criticado ao mesmo tempo e com a mesma veemência, a primeira obra significativa de Norman Mailer foi o já referido "Os nus e os mortos", de 1948."Deaths for the Ladies and Other Disasters" é o livro de poesia, lançado em 1962.
Dirigiu, ainda, quatro filmes, entre 1967 e 1987 "Wild 90", "Beyond the Law", "Maidstone" e "Tough Guys Don't Dance".
No final dos anos 40, trabalhou em Hollywood como argumentista e o seu terceiro romance, "O Parque dos Veados", é sobre a corrupção dos valores naquele meio cinematográfico. Em 1973, escreveu "Marilyn", sobre a loura estrela de cinema.
Candidato independente a "mayor" de Nova Iorque em 1969, Norman Mailer foi sempre muito crítico da autoridade institucional do seu país.
Apesar de, quando atingiu a meia idade, ter abandonado muitos dos vícios que ostentava (nos quais não faltavam as drogas e o álcool), para muitos críticos, Norman Mailer permaneceu como a autêntica e ultrajante voz de toda uma geração.
"Norman Mailer revolucionou o grande jornalismo do século XX e, como consequência, o próprio romance de actualidade", declarou o jornalista e escritor Fernando Dacosta.
"De maneira muito habilidosa, Mailer parte de factos concretos, de acontecimentos e figuras reais e depois conta a história disso usando as técnicas da grande ficção". O resultado é a construção de "textos que são, ao mesmo tempo, obras-primas do jornalismo e da literatura".
Para Dacosta, chavões como objectividade empobrecem o jornalismo e Mailer "fica na história como uma figura de charneira" dessa corrente que, nos Estados Unidos, rompeu com preconceitos existentes no jornalismo, como Truman Capote e Ernest Hemingway.
Em Portugal, o escritor José Cardoso Pires, "fascinado pelo 'novo jornalismo', escreveu dentro dessa linha a 'Balada da Praia dos Cães'", disse.
Por seu lado, o também jornalista e escritor Baptista-Bastos considerou Norman Mailer um "grandessíssimo e importantíssimo escritor, que saiu da linha da grande tradição liberal norte-americana, cujos valores não são os mesmos dos actuais, e é quem mais se aproxima de Ernest Hemingway".
Acrescentou que Mailer era igualmente um "homem violentíssimo", que tinha um enorme "peso por ser judeu" e que interveio sempre de forma "extremamente violenta" na sociedade norte-americana.
Baptista-Bastos, recorda, a propósito, o livro "Os exércitos da noite", publicado em Portugal pela D. Quixote antes do 25 de Abril de 1974 e que foi "imediatamente apreendido pela PIDE"."
Apesar de ser acusado pelas feministas de ser um machista do piorio, e era-o porque até batia nas mulheres, Mailer era um escritor fenomenal", frisou.Fonte: JN.

terça-feira, outubro 16, 2007

Adriano Correia de Oliveira


Adriano Correia de Oliveira morreu faz hoje 25 anos. Tinha apenas 40 anos, deixava para trás uma luta infindável pela liberdade, e cerca de 90 canções que testemunharam esse empenho no combate político e pela cultura portuguesa.
Herói da música de intervenção e da resistência antifascista foi segundo Manuel Alegre, "o mais corajoso de todos, o primeiro a cantar os versos proibidos, a canção que punha em causa o regime e a guerra colonial". Apesar, da generalidade os seus contemporâneos lhe reconhecerem o génio, o legado artístico de Adriano Correia de Oliveira foi de longe, o mais esquecido de toda uma geração de cantores de intervenção, (José Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Manuel Freire ou Fausto), que através da viola e da voz, tentavam abrir brechas na longa noite fascista, que cobriu Portugal durante 48 anos.
Adriano Maria Correia Gomes de Oliveira nasceu na Rua Formosa, nº 370, na cidade do Porto, em 9 de Abril de 1942 e com alguns meses de vida a sua família muda-se para Avintes, para a Quinta das Porcas.
Criado, no seio de uma família católica e tradicionalista, foi em Avintes que fez a instrução primária. Em Avintes também se iniciou no teatro amador e foi co-fundador da União Académica de Avintes. Depois de feita a instrução primária, Adriano foi estudar para o Porto, no Colégio Almeida Garrett e no Liceu Alexandre Herculano, onde acabaria o curso do liceu, em 1959.
Nesse mesmo ano, Adriano Correia de Oliveira chegou a Coimbra, com apenas 17 anos, para tirar o curso de Direito, que nunca viria a concluir. Adriano Correia de Oliveira ingressou em vários organismos culturais e desportivos da Associação Académica de Coimbra: foi solista no Orfeão de Coimbra, fazia parte de um grupo de teatro e jogava voleibol. No início da década de 60, Adriano torna-se militante do Partido Comunista Português.
Em 1962, participou nas greves académicas e concorreu às eleições da Associação Académica, através da lista do Movimento de Unidade Democrática (MUD).
O primeiro disco sai em 1963, intitulado "Fados de Coimbra", que incluía já o tema emblemático "Trova do Vento que passa", um poema de Manuel Alegre, e que se tornará um hino da resistência antifascista. Quando faltava apenas uma cadeira para terminar o curso de Direito em Coimbra, Adriano ruma a Lisboa. Casa-se em Outubro de 1966 e passa a trabalhar no Gabinete de Imprensa da FIL, tendo sido ainda produtor da revista Orfeu.
Em 1967 gravou o disco "Adriano Correia de Oliveira" que entre outras canções tem Canção com lágrimas. Em 1969 é lançado um dos seus discos mais marcantes: "O Canto e as Armas", um álbum em que a figura central é a obra do poeta Manuel Alegre. Nesse mesmo ano ganhou o Prémio Pozal Domingues.
Seguiram-se os álbuns "Cantaremos" (1970) e "Gente De Aqui e de Agora" (1971), este último com José Niza como principal compositor. Só quatro anos depois Adriano decide lançar um novo disco, pois, recusava-se a enviar os seus textos à comissão da censura.
Em 1975 lança "Que nunca mais", um disco com direcção musical de Fausto e textos de Manuel da Fonseca, e com o qual Adriano foi eleito Artista do Ano pela revista britânica Music Week.
O último disco sai em 1980, intitulado "Cantigas Portuguesas".
Dois anos depois, a 16 de Outubro de 1982, Adriano Correia de Oliveira falecia, nos braços da mãe, vitimado por uma hemorragia no esófago, contava 40 anos de vida, cumprindo os versos de António Gedeão que cantara:
"Tenho pressa de viver,que a vida é água a correr".

sexta-feira, outubro 12, 2007

Al Gore


O ex. Vice-presidente dos Estados Unidos e activista internacional pelo combate ao aquecimento global Al Gore e o Painel Intergovernamental para as Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês) da Organização das Nações Unidas, foram hoje laureados com o Prémio Nobel da Paz de 2007.
O Comité do Nobel da Paz explica que foi atribuído aos vencedores o Nobel da Paz pelo seu “esforço na acumulação e disseminação de um maior conhecimento sobre a influência humana nas mudanças climáticas, e pelo lançamento das bases necessárias para combater essas mudanças”.
Albert Arnold Gore Jr., nasceu a 31 de Março de 1948, em Washington, DC, foi vice-presidente dos Estados Unidos da América durante a presidência de Bill Clinton e candidato presidencial democrata derrotado pelo presidente George W. Bush em 2000.
Apesar de sempre se ter preocupado com o meio ambiente, foi após a sua derrota eleitoral, que Al Gore se transformou num proeminente activista internacional contra os efeitos das mudanças climáticas, em particular graças ao filme "Uma Verdade Inconveninete", vencedor de um Óscar, melhor documentário, este ano.
O IPCC, um painel da ONU que reúne cerca de 3 mil cientistas e especialistas de várias áreas, é tido como a principal autoridade científica sobre aquecimento global e o seu impacto no mundo.
O prémio, constituído por um diploma, uma medalha de ouro e um cheque no valor de 1,08 milhões euros será entregue, juntamente com os outros galardões no dia 10 de Dezembro.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Doris Lessing


A escritora britânica Doris Lessing, hoje distinguida com o Nobel da Literatura a poucos dias de completar 88 anos, é a mais idosa laureada com o Prémio Nobel de Literatura.
Doris Lessing é autora de uma obra rica e variada, com cerca de 50 títulos. Nascida a 22 de Outubro de 1919 em Kermanshah, na Pérsia (actualmente Irão), filha de pais britânicos, Doris Lessing cresceu na Rodésia (Zimbabué), onde a família se instalou numa quinta quando ela tinha cinco anos.
Frequentou uma escola católica que viria a abandonar aos 14 anos para trabalhar como baby-sitter e a sua infância em África viria a marcar algumas das suas obras.
Foi impiedosa nas críticas aos governos racistas na África do Sul e da Rodésia, o que lhe valeu a proibição de entrada nesse países (na África do Sul entre 1956 e 1995).
Tem três filhos de dois casamentos e depois de dois divórcios instalou-se em Londres, em 1949, com um dos filhos. Encontrou emprego como secretária, mas viria a abandonar essa tarefa depois do sucesso dos seus primeiros livros. Em 1950 publicou “A erva canta”. Em 1962 lançou a obra que lhe daria fama internacional, “The Golden Notebook”, e consolidou essa fama com uma série de títulos sobre temática africana como “African stories” (1964).
Comunista na juventude, Doris Lessing, que continuou sempre uma mulher empenhada na defesa dos seus ideais, publicou depois várias obras de ficção científica, a primeira das quais “Shikasta” (1981).
Em 1995, publicou o primeiro volume da sua autobiografia “Under My Skin”. Três anos depois publicaria o segundo volume, com o título “Walking in the Shade”.
Em 2001, ganhou o prémio Princípe das Astúrias de Letras.
Mais recentemente, criticou o regime ditatorial do presidente Robert Mugabe e foi de novo declarada indesejável no Zimbabué.
Actualmente vive nos arredores de Londres, tem-se dedicado à ficção científica e este ano publicou “The Cleft”.
AGÊNCIA LUSA.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Prémio Nobel da Literatura


Se a Real Academia Sueca, que atribui amanhã o Prémio Nobel da Literatura, decidir começar a laurear escritores, coisa que não faz há pelo menos dez anos, em vez de políticos, o senhor que está na fotografia, Philip Roth, será muito provavelmente o próximo escritor a inscrever o seu nome na extensa lista de laureados com o Nobel da Literatura, apesar da lista ter alguns nomes, que nada contribuem para o prestígio da distinção.
É a minha aposta.

LISTA DE PAÍSES COM PENA DE MORTE

A pena de morte vêm de outra Era.
Ainda há 76 países que a aplicam.
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AFEGANISTÃO, ANTÍGUA E BARBUDA, AUTORIDADE PALESTINIANA, BAHAMAS, BAHRAIN, BANGLADESH, BARBADOS, BIELORÚSSIA, BELIZE, BOTSWANA, BURUNDI, CAMARÕES, CAZAQUISTÃO, CHADE, CHINA, COMOROS, R.D. CONGO, COREIA DO NORTE, COREIA DO SUL, CUBA, DOMINICA, EGIPTO, EMIRADOS ÁRABES UNIDOS, ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, ERITREIA, ETIÓPIA, FILIPINAS, GABÃO, GANA, GUATEMALA, GUINÉ, GUINÉ EQUATORIAL, GUIANA, IEMÉN, ÍNDIA, INDONÉSIA, IRÃO, IRAQUE, JAMAICA, JAPÃO, JORDÂNIA, KOWEIT, LAOS, LÍBANO, LESOTO, LIBÉRIA, LÍBIA, MALAWI, MALÁSIA, MONGÓLIA, NIGÉRIA, OMAN, PAQUISTÃO, QATAR, QUIRGIZSTÃO, RUANDA, ST CHRISTOPHER E NEVIS, SAINT LUCIA, SAINT VINCENT E GRENADINES, ARÁBIA SAUDITA, SERRA LEOA, SINGAPURA, SOMÁLIA, SUDÃO, SUAZILÂNDIA, SÍRIA, TAIWAN, TAJIQUISTÃO, TANZÂNIA, TAILÂNDIA, TRINIDAD E TOBAGO, UGANDA, UZBEQUISTÃO, VIETNAME, ZÂMBIA, ZIMBABWÉ.

quinta-feira, outubro 04, 2007

FREE AUNG SAN SUU KYI


Segundo a Amnistia Internacional antes da crise actual, existiam no Myanmar, antiga Birmânia, 1150 prisioneiros de consciência, número exponencialmente aumentado com as detenções das últimas semanas, levadas a cabo pela ditadura birmanesa, na tentativa de parar as manifestações pacíficas, que pedem a democratização do país e o elementar respeito pelos Direitos Humanos.
De todos prisioneiros de consciência birmaneses o mais conhecido é: Aung San Suu Kyi.
Quem disser o seu nome junto de um militar corre o risco de ser imediatamente preso, sem sequer passar pelo tribunal.
A "Dama de Bambu", a líder do principal partido de oposição na Birmânia, a Liga Nacional para a Democracia, é uma espinha atravessada na garganta dos generais que comandam o país.
A "senhora", o "monstro" ou o "fenómeno" -nomes de código utilizados pelo povo- está em prisão domiciliária desde de Maio de 2003. O número 54 da University Road, em Rangun, é a casa mais vigiada do país, quem tentar fotografar a sua vivenda é preso.
Aung San Suu Kyi nasceu em Rangun a 19 de Junho de 1945. O pai de Suu Kyi, o general Aung San, foi o pai-fundador do país. Nascido na aristocracia rural, tornar-se-ia líder estudantil e nacionalista convicto. Sonhava expulsar os Britânicos da sua terra colonizada no século XIX e, para tal, viria a comandar o Exército de Independência da Birmânia, treinado secretamente pelos Japoneses. Entraria na Birmânia à sua frente em princípio de 1942, para vir a mudar de lado em 1945, ajudando os Britânicos a pôr fim à ocupação japonesa. Mas esse serviço ao povo birmanês foi ceifado cedo: um rival político mandou abatê-lo em 1947, apenas 6 meses antes de a Birmânia declarar a independência. Tinha 32 anos. Suu Kyi tinha apenas 2 anos.
Suu Kyi estudou na Índia e na Universidade de Oxford (Reino Unido) a partir de 1960, tendo posteriormente trabalhado nas Nações Unidas e passado a viver no Reino Unido. Quando regressou do Reino Unido, em 1988, fundou o movimento de oposição Liga Nacional para a Democracia, como protesto contra as violações dos direitos humanos e contra a brutal repressão da discordância na Birmânia e para lutar por reformas democráticas. Em Abril de 1989, escapou por pouco a uma tentativa de assassinato por parte de uma unidade militar birmanesa.
Os militares tinham recebido ordens para matar a activista numa das muitas manifestações que encabeçava. Foi salva por uma contra-ordem de um oficial.Em Julho de 1989, o regime militar determinou a prisão domiciliária da activista pró-democracia.
Suu Kyi foi colocada sob a lei marcial, que possibilitava a sua detenção sem acusação formada nem julgamento por um período de três anos. A activista birmanesa entrou em greve de fome para proteger os estudantes que haviam sido levados da sua casa para o Centro de Interrogação do regime. Foi reconhecida como objectora de consciência pela Amnistia Internacional.Apesar da detenção da sua presidente, em Maio de 1990 a Liga Nacional para a Democracia obteve um resultado extraordinário nas eleições gerais, tendo conseguido 82% dos votos. No entanto, a Junta Militar recusou-se a reconhecer os resultados das eleições.
Em Outubro do mesmo ano, Suu Kyi foi galardoada com o Prémio Rafto para os Direitos Humanos e, em Julho de 1991, com o Prémio Sakharov (prémio para os Direitos Humanos do Parlamento Europeu).Em Agosto de 1991, o regime militar decidiu alterar a lei sob a qual Suu Kyi estava detida e aumentar para cinco anos o período de prisão sem acusação formada nem julgamento.
Dois meses depois, a actividade pró-democracia da activista foi reconhecida com o Prémio Nobel da Paz, prémio esse que foi utilizado num fundo de saúde e educação para o povo birmanês criado por Suu Kyi.Em Janeiro de 1994, a Junta Militar voltou a alterar a lei marcial, adicionando-lhe mais uma ano de detenção. Suu Kyi foi posta em liberdade em Julho de 1995. Nunca deixando de parte os seus ideais, Suu Kyi prosseguiu na sua luta. Em Março de 2000, recebeu a condecoração irlandesa Freedom of the City, atrbuída pelo reconhecimento do seu activismo. Foi o seu filho, Kim Aris, que se deslocou a Dublin para receber o prémio. Em Setembro de 2000, Suu Kyi desafiou as autoridades militares birmanesas e anunciou que iria sair da capital do país. Em resposta, os militares montaram um verdadeiro cerco em volta dela e voltaram a colocá-la em prisão domiciliária, juntamente com outros líderes do partido. Em Dezembro de 2000, o reconhecimento pelo seu activismo chegou dos EUA. O então presidente Bill Clinton conferiu-lhe a maior condecoração civil do país - a Medalha Presidencial da Liberdade. Durante a prisão domiciliária, Suu Kyi recebeu a visita de uma delegação da União Europeia, de diplomatas norte-americanos e de representantes das Nações Unidas. Em Maio de 2002, depois de 19 meses em prisão domiciliária, Aung San Suu Kyi foi libertada. Desde Outubro de 2000 que Suu Kyi mantinha conversações secretas com uma delegação da Junta Militar. Suu Kyi continuou a defender a plena democracia e o desmantelamento do poder militar. No entanto os militares têm alegado que o país não se encontra preparado para a democracia. Suu Kyi conta com o apoio do Ocidente e da maioria das nações asiáticas. Foi novamente presa em fim de Maio de 2003 e ainda se encontra em prisão domiciliária. Tem recusado o fim da prisão domiciliária enquanto não forem libertados todos e cada um dos seus apoiantes.
Aung San Suu Kyi transformou-se num símbolo da luta a favor da democracia na Birmânia e um ícone dos direitos humanos.
Libertação imediata para Aung San Suu Kyi e para todos os prisioneiros de consciência.

SPUTNIK


A 4 de Outubro de 1957, a União Soviética lançou, a partir do Centro Espacial de Baikour, na República do Cazaquistão, o primeiro satélite artificial do mundo, o Sputnik I. Media 58 centímetros de diâmetro, pesava 83,6 quilos e completou a órbita da Terra em 96 minutos e 12 segundos.
A 3 de Novembro do mesmo ano, o Sputnik II foi por sua vez lançado no espaço com êxito. A bordo seguia a cadela Laika, que se tornou a primeira criatura viva a sair da atmosfera da Terra, mas o satélite nunca foi recuperado, e Laika foi assim sacrificada em nome da pesquisa biológica do espaço.

quarta-feira, outubro 03, 2007

FREE BURMA

O movimento internacional de Bloggers de apoio à campanha Free Burma, a realizar amanhã, (International Bloggers Day for Burma on the 4th of October) está a recolher adesões a esta campanha e a solicitar que os Blogues de todo o Mundo insiram textos, onde se apele à liberdade e ao respeito pelos direitos humanos na antiga Birmânia, actual Myanmar.
Inscrevi-me nesta iniciativa, número 3341, e amanhã farei um post sobre a senhora Aung San Suu Kyi.
Quebro o jejum de meses para me associar a esta campanha.

terça-feira, outubro 02, 2007

Guerrilheiro Heróico


Fotografia Alberto Diaz "Korda"
A imagem do guerrilheiro argentino, Ernesto "Che" Guevara, com olhar distante, de cabelos longos debaixo de uma boina com uma estrela, já virou ícone popular omnipresente do século 20.A fotografia despertou a imaginação dos estudantes parisienses que se revoltaram nas ruas em Maio de 1968 e virou símbolo da revolta idealista de toda uma geração.
O autor desta fotografia, o cubano Alberto Diaz, mais conhecido como Korda, chamou-a de "Guerrilheiro Heróico". A fotografia mundialmente famosa foi obtida em 1960, durante a cerimónia fúnebre pelos guerrilheiros cubanos que perderam a vida na Revolução.
A foto de Korda não foi publicada pelo jornal onde trabalhava, no dia seguinte. Sete anos mais tarde, quando o editor italiano Giangiacomo Feltrinelli apareceu procurando uma foto para a capa de uma edição do “Diário Boliviano” de Che, Korda deu-lhe duas cópias da foto de graça.
Che Guevara foi capturado seis meses depois na selva boliviana, após o fracasso da sua tentativa de fazer uma revolta de camponeses na Bolívia. Ao ouvir a notícia de sua morte, Feltrinelli cortou a foto e publicou pósteres grandes, que em pouco tempo, venderam 1 milhão de cópias. Che Guevara foi transformado em mártir, celebridade pop e ícone radical.
Korda disse: nunca recebi um centavo de Feltrinelli.

sábado, setembro 01, 2007

Massacre de Beslan


Fotografia EPA
1 de Setembro de 2004.
Era o primeiro dia de aulas.
Um dia de festa para centenas de crianças.
Pais, filhos e professores confraternizavam, num ambiente alegre.
Tiros inesperados.Explosões súbitas.
Um comando tchetcheno sequestrou 1.200 pessoas na escola número 1 de Beslan, Ossétia do Norte, a maior parte das quais crianças que assistiam à cerimónia de início do ano escolar.
Cianças aterrorizadas, aos gritos e choros, agarradas aos adultos que nada poderiam fazer, sem água, sem comida, sobre um calor sufocante, vigiadas por terroristas armados e mascarados.
Os que resistiram foram abatidos imediatamente.
O assalto das tropas russas, a 3 de Setembro, é a resposta aos terroristas, deixando um rasto de sangue e de morte, de 331 civis, 186 dos quais crianças, além de 31 terroristas e mais de 700 feridos.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Black Power


Fotografia de John Dominis
A insatisfação que existia entre os negros americanos atingiu o rubro com o assassinato do Reverendo Martin Luther King, em Abril de 1968, dando força ao Black Power e aos Black Panthers, que defendiam a luta armada. Crescia a resistência ao serviço militar e à Guerra do Vietnam. No mundo inteiro eram feitas manifestações nas universidades e nas ruas. O sociólogo Harry Edwards incitou os atletas negros a boicotarem os Jogos Olímpicos do México em 1968, como protesto contra as desigualdades nos direitos civis nos Estados Unidos da América. O boicote não foi avante. Edwards, porém, conseguiu influenciar muitas pessoas, incluindo Tommie Smith e John Carlos, colegas de atletismo da Universidade de San José, na Califórnia. Ambos subiram ao pódio, em primeiro e terceiro lugar, respectivamente, na prova dos 200 metros. Descalços subiram ao pódio, usando crachás de apoio ao Projecto Olímpico pelos Direitos Humanos, projectado por Harry Edwards. Ouviram o hino nacional com os punhos fechados e as mãos cobertas por luvas, a saudação típica dos Black Panthers. "Esta é uma vitória dos povos negros de todos os lugares da Terra", disse Tommie Smith. Tommie Smith e John Carlos foram expulsos dos Jogos, mas o seu gesto teve muitíssimo impacto. O medalha de prata, o velocista australiano Peter Norman, também pôs ao peito um crachá do Movimento.

quinta-feira, julho 05, 2007

Raising the Flag on Iwo Jima


Fotografia de Joe Rosenthal
Joe Rosenthal ficou mundialmente conhecido pela fotografia dos marines americanos a colocarem a bandeira americana em Iwo Jima (Japão). Rosenthal, ganhou o Prémio Pulitzer com esta lendária foto, tirada no dia 23 de Fevereiro de 1945, quando trabalhava como correspondente de guerra da Associated Press.
A fotografia a preto e branco, mostra seis soldados esforçando-se para içar um mastro com a bandeira americana no Monte Suribachi, durante a batalha pela estratégica ilha de Iwo Jima, na qual morreram quase 20 mil japoneses e mais de seis mil norte-americanos.
Rosenthal, teve que lutar durante toda a vida contra aqueles que diziam que a fotografia tinha sido foi forjada. Joe Rosenthal sempre afirmou que o momento foi espontâneo.
No entanto, numa uma entrevista de 1995, explicou que aquela fora a segunda vez que os marines erguiam a bandeira no monte porque os comandantes das forças americanas quiseram colocar uma bandeira maior que a içada originalmente.
A partir de hoje vai ser aberta, neste blogue, a secção "Fotografia Com História", baseada nas "Fotografias do Século XX", da extinta revista "Life".

segunda-feira, abril 30, 2007

Até Já!

O meu sincero obrigado a todos pelo carinho que me dedicaram, nestes dois anos e meio de blogosfera.
Até já...

quarta-feira, abril 11, 2007

Lev Tolstoi


Lev Nikolaievitch Tolstoi, conde de Tolstoi, nasceu no seio de uma família nobre, em Yasnaya Polyana, província de Tula, em 28 de Agosto de 1828.
Perdeu os pais ainda muito novo tendo sido criado por parentes. Em 1844, Lev Tolstoi iniciou os seus estudos em Direito e Literatura Oriental na Universidade de Kazan, no entanto abandonou a faculdade antes de se licenciar. Insatisfeito com a educação, regressou aos seus estudos em Yasnaya Polyana, passando grande parte do tempo em Moscovo e em São Petesburgo.
Em 1851, o sentimento de vazio existencial levou-o a juntar-se ao irmão, soldado no Cáucaso. É nesta época que inicia a sua carreira literária, ao publicar a primeira parte da trilogia autobiográfica Infância (1852), que foi concluída com Adolescência (1854) e Juventude (1857).
Em 1857, visitou a França, a Suíça e a Alemanha. Depois das viagens, instalou-se em Yasnaja Polyana e fundou uma escola para filhos de camponeses. Para Tolstoi, o segredo para mudar o mundo residia na educação.
Durante as suas viagens pela Europa, analisou a teoria e a prática educacional, tendo publicado artigos e manuais sobre o tema.
Em 1862, casou com Sonya Andreyevna Behrs, que se tornou a sua secretária devota. A sua leitura abrangia a ficção e a filosofia. Entre os seus autores preferidos encontravam-se Platão, Rousseau, Dickens e Sterne. Nos anos 50 lia e admirava Goethe, Stendhal, Thackeray e George Eliot.
A obra Guerra e Paz (1863-69) reflectia o ponto de vista de Lev Tolstoi, de que tudo estava predestinado. A sua outra obra-prima surgiu em 1873-77, Anna Karenina.
Em 1880, escreveu obras filosóficas como A Confession e What I Believe, que foi banida em 1884. Começou por ver-se mais como um sábio e um líder moral do que como artista.
A partir de 1880, Tolstoi atravessou uma profunda crise espiritual e assumiu diversas posições de cariz moral, incluindo a resistência passiva ao mal, a rejeição da autoridade (religiosa ou civil) e a propriedade privada, e um regresso ao cristianismo místico. Foi excomungado pela igreja ortodoxa, tendo as suas obras posteriores sido proibidas. A Morte de Ivan Ilitch (1886), A Sonata a Kreutzer (1890), Ressurreição (1889-99) e Hadji Mourat (1890-1904) fazem parte deste período.
O desejo que o autor tinha de renunciar aos seus bens e de viver como um camponês perturbou a sua vida familiar, tendo acabado por fugir de casa e morrer com pneumonia numa estação de caminhos-de-ferro em Astapovo, em 7 de Novembro de 1910.

terça-feira, abril 10, 2007

UNESCO


A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) foi fundada a 4 de Novembro de 1946 com o objectivo de contribuir para a paz e segurança no mundo mediante a educação, a ciência, a cultura e as comunicações. Dedica-se, entre outras tarefas, a orientar os povos numa gestão mais eficaz do seu próprio desenvolvimento através dos recursos naturais e dos valores culturais, com a finalidade de obter o maior proveito possível da modernização, sem que por isso se percam a identidade e diversidade culturais.
Na educação, este organismo atribui prioridade ao êxito da educação elementar adaptada às necessidades actuais. Colabora, entre outros, com a formação de docentes e administradores educacionais e dá alento à construção de escolas e à dotação de equipamento necessário para o seu funcionamento.
As actividades culturais procuram a salvaguarda do património cultural mediante o estímulo da criação e a criatividade e a preservação das entidades culturais e tradições orais, assim como a promoção dos livros e a leitura.
Em matéria de informação, a UNESCO promove a livre circulação de ideias por meios audiovisuais, fomenta a liberdade de imprensa e a independência, o pluralismo e a diversidade dos meios de informação, através do Programa Internacional para a Promoção da Comunicação. Tem a sua sede em Paris, França.

Jogos Olímpicos


Os Jogos Olímpicos, são uma prova desportiva que decorre de quatro em quatro anos em diferentes cidades do mundo e que consiste em 28 desportos olímpicos divididos por diversas modalidades.
Os Jogos Olímpicos têm as suas raízes na Grécia Antiga. Pelos registos que se conhecem, os primeiros Jogos Olímpicos da Antiguidade terão tido lugar em 776 a.C., e, a partir daí, constituíram o palco da celebração da nobre competição e do valor educativo do desporto até ao ano de 393, data em que o Imperador Teodósio decidiu aboli-los por serem “demasiado pagãos”.
Só em 1896 é que os Jogos Olímpicos regressaram à história do desporto, devido ao esforço de Pierre de Coubertin, juntamente com Dimitrios Vikelas e outras personalidades da época. O ano de 1896 marca, assim, o início dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, e a sua primeira edição foi realizada no seu país de origem, a Grécia. No séc. XX, os Jogos Olímpicos passaram a ser realizados em várias cidades do mundo, levando o espírito olímpico a todos os continentes.
Os Jogos Olímpicos da Antiguidade eram dedicados aos deuses do Olimpo e tinham lugar nas antigas planícies de Olímpia, onde se encontravam as estátuas de Zeus e Hera. Todos os gregos livres podiam participar nos Jogos, independentemente do seu estatuto social. Os participantes nos Jogos vinham de todo o mundo grego em busca do prémio final: uma coroa de ramos de oliveira e um regresso em glória às suas cidades-estado. Para além da glória, os participantes procuravam também os valores olímpicos: a competição nobre e o esforço para encontrar o equilíbrio entre corpo, determinação e mente.
Os Jogos eram sempre realizados na altura mais quente do ano. Inicialmente, tinham a duração de apenas um dia. A partir de 684 a.C, passaram a ser realizados durante três dias e, no século V a.C., já duravam cinco dias. Os Jogos Olímpicos da Antiguidade mantiveram-se durante 12 séculos, até serem abolidos, em 393 pelo Imperador Teodósio, que decidiu banir todos os cultos pagãos.
No dia 6 de Abril de 1896, Atenas, a capital grega, acolheu uma tripla comemoração: a primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, o 75.º aniversário da Declaração da Independência Grega e a Páscoa, fazendo deste evento uma coincidência desportiva, nacional e religiosa, o que contribuiu ainda mais para o seu sucesso. Os Jogos realizaram-se num renovado Estádio Panathinaikon.Na primeira edição dos Jogos Olímpicos da Era Moderna participaram 241 atletas, provenientes de 14 países, que competiram em 9 modalidades diferentes: Atletismo, Natação, Ciclismo, Esgrima, Ginástica, Tiro, Ténis, Luta Livre e Halterofilismo. Foi neste ano que Spyros Louis, um grego sem treino especial, venceu a medalha de ouro na prova da Maratona, tornando-se assim uma figura lendária no mundo do desporto. Fonte Biblioteca Universal.

segunda-feira, março 26, 2007

O Maior dos "Portugueses"

António de Oliveira Salazar foi o nome escolhido pela maioria dos telespectadores da RTP1 que votaram na eleição do "Maior Português de Sempre", no âmbito do programa "Os Grandes Portugueses". Salazar ganhou a eleição de "Os Grandes Portugueses" com 41% dos votos.
Mau, muito mau, é o desempenho de um povo, de um país e de uma democracia quando elegem um ditador, como o seu maior representante.

quinta-feira, março 08, 2007

Piadas Feministas (II)

As mulheres hoje em dia estão há procura de razões para se apaixonarem pelo sexo oposto, segundo a minha mulher, cada vez mais, há menos razões para que tal aconteça, excepto, um pequeno rol de particularidades:

-Amamos os homens porque eles não conseguem fingir um orgasmo, mesmo que queiram.
-Porque jamais nos vão entender e mesmo assim continuam a tentar
-Porque conseguem ver a nossa beleza, mesmo quando nós mesmas já não conseguimos acreditar nisso.
-Porque entendem de politica, equações, matemática, economia, mas desconhecem o coração feminino.
-Porque são amantes que só descansam quando nós temos ou fingimos ter um orgasmo.
-Porque conseguiram elevar o futebol a algo próximo de uma religião.
-Porque jamais têm medo do escuro.
-Porque insistem em consertar coisas para além das suas habilidades, e dedicam-se a isso como se fossem adolescentes, e desesperam quando não conseguem.
-Porque são como as romãs, a maior parte do fruto é difícil de digerir, mas as sementes são deliciosas.
-Porque jamais comentam o que os vizinhos possam pensar.
-Porque nunca sabemos o que pensam mas quando abrem a boca dizem exactamente o que imaginávamos.
-Porque jamais sonharam em se torturar com saltos agulha de 7 cm.
-Porque adoram explorar o nosso corpo e conquistar a nossa alma.
-Porque uma miúda de 18 anos pode deixa-los em silencio e uma de 30 anos consegue doma-los sem muito esforço.
-Porque fazem o possível e o impossível para esconder as suas fragilidades.
-Porque o seu maior medo é não ser homem o que jamais passa pela cabeça de uma mulher (não ser mulher).
-Porque terminam sempre a comida que põem no prato sem sentir culpa por isso.
-Porque acham graça a temas completamente desinteressantes como futebol ou marcas de carros.
-Porque são dotados de ombros onde podemos descansar sem muito esforço.
.Porque estão em paz com os seus corpos excepto, com a calvície ou obesidade.
-Porque jamais mentem sobre a idade que têm.
-Porque apesar de tudo o que tentam demonstrar não conseguem viver sem uma mulher.
-Porque quando lhes dizemos que os "amamos" pedem-nos sempre para explicar como.

quarta-feira, janeiro 31, 2007

O estado a que o Estado chegou

Estão reabertas as hostilidades contra os Funcionários Públicos.
Aproveitando o momento em que a sociedade portuguesa se encontra dividida na questão da despenalização do aborto e faz do referendo um acontecimento nacional, o governo, com a sua esperteza saloia, continua a sua “politica de terra queimada” num ódio mal disfarçado contra tudo que é público e aproveita o facto de estarem todos a olhar para o lado, para desferir mais uns ataques ao Sector Público e aos Trabalhadores do Estado.
Desta vez o mensageiro da (des)graça foi o Secretário de Estado da Administração Pública, João Figueiredo, que nos anuncia o alargamento dos despedimentos por motivos funcionais; a progressão por mérito sujeita a quotas e condicionada por disponibilidades orçamentais e ainda a eliminação de suplementos aos salários de um número significativo de funcionários públicos.
O regime actual limita o despedimento na função pública a situações extremas, tais como agressão ou injúria, grave insubordinação ou suborno, mas a partir de agora vai ser possível despedir por motivos de violação dos deveres funcionais e para quem não sabe o que são deveres funcionais, o Secretário de Estado esclarece: “Deveres funcionais são os que os funcionários públicos devem cumprir no exercício das suas funções" da mesma forma que estar vivo é o contrário de estar morto (ou talvez não). Esta definição aparentemente inócua mesmo que venha a ser objectivada em documento disciplinar vai permitir, pela sua redonda indefinição, total discricionariedade de quem tenha o poder de decisão, ficando o trabalhador numa situação de plena vulnerabilidade e subserviência sujeito a assédio dos que de alguma maneira controlam o poder. Mas, como uma desgraça nunca vem só, o governo acena com a progressão nas carreiras sujeita a mérito e a disponibilidade orçamental, isto é, primeiro há que haver mérito, mas pergunta-se: quem avalia o mérito? Com que critérios? Que instrumentos de controlo para que não haja abusos nem favores? Que competência tem quem avalia? Depois, mesmo que tudo seja feito de forma correcta e isenta, ainda fica nas mãos do “poder”, decidir se há ou não disponibilidade orçamental, podendo ficar a progressão adiada “sine die”.
Os Serviços Públicos estão a tornar-se naquilo que os partidos políticos do poder já se tornaram há muito: “grupos de amigos”, onde se trocam favores, se gerem influências e se trata da vidinha de cada um, por isso não se mexe na forma das nomeações dos lugares políticos, nem nas questões do recrutamento e selecção dos funcionários, apenas se retiram poderes e se fragilizam as relações laborais, os vínculos tornam-se precários, as funções são desvalorizadas, o despedimento é a espada de dâmocles que paira sobre a cabeça de quem não lamber as botas dos senhores.
Perspectiva-se um serviço mais corrupto, menos justo, menos solidário, menos competente, menos exigente, apenas mais subserviente, submisso, menos serviço público e mais serviço privado (de uns quantos que migram do aparelho dos partidos para o aparelho do Estado) num processo que se poderia designar de POLVO com as devidas conotações politicas, sociais e económicas que este nome suscita.
O Governo já demonstrou que não quer modernizar a administração pública, nem criar mecanismos de recrutamento e de formação que permitam a qualificação dos recursos humanos, está apenas interessado em desmantelar e entregar à iniciativa privada o que der lucro e o resto que sirva de moeda de troca para satisfazer clientelas pois é sempre preciso manter algum Estado, atendendo ao estado a que o Estado chegou.
Jorge Gaspar.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Opinião do Artista Quando Jovem


“Quanto ao poder laico, e livre, da política, é clara uma transferência do poder político para o poder religioso. É sintomático que as grandes discussões a que, desde há tempos, o País assiste tenham subjacente uma jaez militar ou religiosa. Progressivamente é essa a duplicidade institucional que ordena, solidifica. Do último ponto de vista dois exemplos recentes adensam a preocupação já expressa: por um lado a competição política, provinciana, que já se vislumbra e decerto crescerá, à volta da visita do Papa a Portugal. Pelo rumo que o facto leva vamos assistir naquele que devia ser um acontecimento pastoral e moral de extrema importância, a um jogo turvo de influências, para que saiba quem convidou, quem esteve mais minutos com Sua Santidade, quem mais o acompanhou, quem ganhou os seus louros. O segundo tem que ver com o tom ‘Cro-Magnon’ com que a questão do aborto tem sido tratada entre nós. (…) a AD não tem a menor autonomia de discurso, já se não pede de voto, nem de vontade, em relação à Igreja, e limita-se a repetir o que esta diz,a presenciar o que esta proclama. Os socialistas dividem-se entre a sua história e a história que a Igreja quer que eles façam.Só por referência lembre-se, por exemplo, que em França foi uma liberal, assumida como tal, da maioria giscardiana, a senhora Simone Weil quem, contra os mais conservadores e os mais ortodoxos, impôs a lei do aborto. Lá, os socialistas não tiveram dúvidas. Giscard, líder da maioria, não interferiu. Quer isto dizer, uma vez mais, que somos subdesenvolvidos; e que, no caso, andamos atrasados, à direita e à esquerda. A menos que se rejeite a Europa moral e apenas se queira a Europa económica…”.
“Não tem nada a ver com a Europa um país em que o discurso da social-democracia sobre as questões morais se limita a dizer que o aborto é a restauração da pena de morte. É próprio dos mais conservadores dentro dos conservadores, e sul-americano concerteza. Não tem nada a ver com a Europa que a livre iniciativa seja um palmarés deixado vazio, preterido pelas fáceis e dóceis concessões às corporações fácticas. É próprio dos Estados sobretudo confessionais e não de sociedades civis dinâmicas. Não tem nada a ver com a Europa que se regrida a ponto de substituir o acto livre e consciente, por isso pleno e sublime de escolher uma religião, pela imposição de um princípio de obrigatoriedade, por isso sem elevação, nas escolas, de uma confissão. É próprio do passado.”
“Nesta coluna não deixei de fazer notar divergências a uma série de atitudes e propostas que não se coadunavam com princípios modernos de relacionamento entre a sociedade, o Estado e as instituições. Assim se fez quando o Governo anunciou a concessão de um canal de Televisão à Igreja; assim se fez quando surgiu na maioria um discurso primitivo e desinteressante a propósito das questões éticas ou morais, como o aborto, mais afeito a ‘slogans’ que à percepção de um problema que não é fechado; assim se fez, recentemente, a propósito da reintrodução da obrigatoriedade das aulas da religião e moral nas escolas, por considerar-se a escolha religiosa um acto só sublime quando livre.”

quarta-feira, janeiro 24, 2007

Eusébio da Silva Ferreira



Eusébio da Silva Ferreira nasceu no dia 25 de Janeiro de 1942,em Mafalala, um bairro pobre de Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique. Oriundo de uma família muito modesta, a sua infância foi passada a jogar na rua com bolas de trapos.
"Quando Eusébio tinha cerca de 6 anos, entrou para a Escola primária, sem que revelasse especial apetência pelo estudo. Já as bolas de papel, de trapos ou de meias, cruzavam-se à frente dos seus olhos arregalados.”Falta um”, alguém gritou, recorda Eusébio, no belo dia que se sentiu pela primeira seleccionado. E até nada o perturbou por ter sido última escolha. O cenário foi um campo de terra quente, ligeiramente acidentado, de balizas improvisadas com pedras ou talvez caniços.
Amava a bola. Amava o jogo. As proibições, as reprimendas, as sovas de varapau, constrangiam Eusébio. Tinha 11 anos quando o Chico se encostou à sua vida. “O senhor Chico”, lembra em sinal de respeito “era doido por futebol”. Deficiente físico, sem braço direito, adepto do Belenenses, vendia cautelas nas ruas da cidade. Era um entusiasta dos imperdíveis jogos dos miúdos do bairro. O Chico teve uma ideia peregrina, o de formar uma equipa de futebol, a que deu o nome de “os brasileiros”, clube que usava alcunhas dos jogadores do Brasil: Eusébio era o “Pele”."
Mais tarde, recusado pelo “Desportivo”, foi para o Sporting de Lourenço Marques, onde chega ao título de campeão moçambicano com apenas 16 anos, sendo o mais jovem jogador da equipa sénior e um dos melhores marcadores da equipa.
Em 1960 a equipa do Sporting de Lourenço Marques foi numa digressão às Ilhas Maurícias, e na metrópole ouviam-se ecos de um rapaz que fazia maravilhas com a bola.
O assédio do exterior não se fez esperar. O FC Porto foi o primeiro clube a manifestar interesse em trazer Eusébio para a Metrópole. Só que o Benfica já estava avisado do seu valor, e os responsáveis «encarnados», aproveitando uma viagem que entretanto fizeram com a equipa à capital moçambicana, trataram logo do negócio. Na tentativa de provocar um volta-face, o Sporting ainda se intrometeu no processo, e a ordem de ataque chegou a partir, quase em simultâneo, de Alvalade, mas já era tarde.
Eusébio ainda hoje agradece a Jaime Duarte (que contara com a ajuda de Hilário para fazer a aproximação) a atitude que este tomou, não forçando em excesso a sua resistência. É que, por mais anos que viva, nunca esquecerá a sensação que teve quando aquele ex-representante leonino lhe colocou 500 contos em cima de uma mesa; bastava-lhe rabiscar o nome num contrato para elas passarem para as suas mãos. «Nunca tinha visto tanta nota junta. Mas não as aceitei, porque iria arranjar um problema de todo o tamanho se desrespeitasse a palavra da minha mãe.» A verdade é que, apesar de resistir, estava fascinado por ver tanto dinheiro à sua frente. Jaime Duarte compreendeu-o. Num gesto brusco, meteu as notas no bolso, despediu-se e saiu porta fora.
Foi um alívio. Eusébio mantinha assim vivo o comentário que a mãe fizera quando o brigadeiro Rodrigues Carvalho conseguira obter o seu compromisso a troco de 110 contos, também entregues em mão: «Filho, isto é que é dinheiro grosso.» Em todo o caso, o episódio teve o condão de fazer o Benfica aumentar a parada, dando-lhe mais 140 contos e fixando-lhe o ordenado mensal em seis mil escudos. Eusébio teve muitos dias de glória sobre os relvados de todo o mundo, mas no seu álbum de recordações está registada a letras de ouro uma noite vivida no recato de um quarto algarvio, muito antes de entrar na galaria das estrelas. O «forcing» do Sporting fez com que os dirigentes do Benfica levassem Eusébio em segredo para o Algarve, a fim de evitarem mais aproximações. Desesperado por não jogar e assustado com a situação criada à sua volta, sempre que telefonava à mãe pedia-lhe que o fizesse regressar a casa: «Mãe, vou voltar, porque há aqui homens que me querem fazer mal.» E Dona Elisa tentava tranquilizá-lo: «Filho, tem calma, aguenta, que eles no Benfica vão resolver tudo.» Os dias passavam, monótonos, sem ponta de interesse para aquele jovem africano, na clausura da Meia Praia, em Lagos. Fazia umas corridas, treinava sozinho com uma bola, comia e enfiava-se no quarto. Até que um dia Domingos Claudino, que o acompanhava, lhe veio dar a boa nova. Acabara de receber um telefonema de Gastão Silva: «Chama aí o miúdo e diz-lhe que está tudo tratado, já está inscrito pelo Benfica na Federação.» Finalmente recebia a notícia que mais ambicionava. Pulou de contente. «Foi uma satisfação enorme. Eu só queria jogar, e à noite tinha aquela angústia de nunca mais ver resolvido o problema. Estava habituado a marcar golos e tinha medo que quando entrasse em campo oficialmente já não fosse capaz de o fazer.»
A 23 de Maio de 1961, Eusébio estreia-se com a camisola do Benfica num jogo de Reservas contra o Atlético, num jogo que o Benfica ganhou por 4-2, com três golos de Eusébio.
Dia 10 de Junho de 1961.No pé esquerdo colocou a talismã moeda de 25 tostões que trouxera de Moçambique.” Subi os degraus, velozmente. Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso, mas os aplausos cada vez mais quentes deram-me ânimo”. Era a estreia de Eusébio na equipa principal do Benfica, num jogo contra o Belenenses, que o Benfica ganhou por 4-0, com um golo de Eusébio.
No defeso da época, mais propriamente no dia 17 de Junho de 1961, o Benfica defrontou o Santos de Pelé, no Parque dos Príncipes, na final do torneio de Paris. No final da primeira parte e com Eusébio no banco o Benfica perdia 4-0.Guttmann anunciou que Eusébio entraria no recomeço. Pensou que estava a ser lançado às feras, ideia confirmada quando aos 48 minutos, o Santos elevou para 5-0. Mas a tranquilidade de um jogo decidido foi abalada entre os 63 e 80 minutos. Eusébio marcou três golos em pouco mais de um quarto de hora e ainda sofreu um penalti que José Augusto desperdiçou, deixando a plateia de boca aberta.
No dia seguinte a fotografia de Eusébio sai na primeira página do jornal francês L’Équipe.
“No dia em que deveria ser conhecida a lista de convocados que se deslocaria ao Luxemburgo, a minha cabeça não sossegava”, diria Eusébio mais tarde.
Sem motivo. Foi convocado. Imaginou-se a olhar para a bandeira das quinas ao som da “portuguesa”. Peyroteo era o treinador. Costa Pereira, Mário Lino, Morato, Hilário, Péricles, Lúcio, Yaúca, José Águas, Coluna, Cavem e Eusébio foi a equipa apresentada.
A estreia foi desastrosa, decorria o dia 8 de Outubro de 1961. Ao intervalo Portugal perdia por 2-0.No final, uma derrota por 4-2. Eusébio teve uma exibição modesta apesar do golo marcado. Ficou a honra de vestir a camisola das quinas. A 1 de Novembro Eusébio estreia-se na Taça dos Campeões Europeus. O Benfica defrontava o Áustria de Viena e consegue fora um empate. Na Luz, o Áustria perde por 5-1 com Eusébio a marcar o quarto golo do jogo.
Era chegada a hora de medir forças com o Real Madrid, esse colosso da Europa, de Di Stefano, Puskas, Gento e Santamaria. Ao Benfica competia fazer a defesa do Titulo de Campeão Europeu. O jogo foi preparado com rigor sob o comando de Bella Guttmann.
Eusébio escreveu uma das mais bonitas páginas sobre futebol naquele 2 de Maio de 1962. Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavem, Germano, Cruz, José Augusto, José Águas, Coluna e Simões foram os companheiros da gloriosa jornada. Ao intervalo, o Real Madrid vencia por 3-2, com hat-trick de Puskas. No descanso Guttmann só pronunciou uma frase -“o jogo está ganho, não se preocupem”-para estupefacção geral. “ Olhamos uns para os outros, pensando que o homem estava doido mas a verdade é que dito acabou consciente ou inconscientemente por nos galvanizar”, sustenta José Augusto. Logo aos cinco minutos, surgiu o empate, autoria de Coluna. Eusébio, após magistral apontamento, caiu na área, derrubado em falta.Com carinho colocou a bola na marca, “maricon” lhe chamou Santamaria com o intuito de o desconcentrar. Eusébio não entendeu e em surdina questionou Coluna.” Marca o golo e chama-lhe “cabron” ”. Foi o que fez.
Aos 23 minutos, livre directo perto da grande área.” Coluna deu um toque na minha direcção. Atirei fortíssimo e fiz golo”Aquela metade complementar foi inesquecível, resultando na vitória por 5-3, numa reviravolta memorável. Vaidade de bicampeões da Europa. Sua Majestade Eusébio subia ao trono.
Nesse jogo histórico, com o Real Madrid, Eusébio concretizou um dos maiores sonhos da sua vida, ao obter o troféu que mais ambicionava: a camisola do seu ídolo Alfredo Di Stefano. «O Benfica tinha conquistado a mais importante taça da Europa a nível de clubes, mas, para mim, a camisola do Di Stefano era o máximo, dava-me mais gozo possuí-la.» No entanto, teve de esforçar-se bastante para não a perder. Na euforia da vitória, e porque tinha marcado dois golos, os adeptos tiraram-lhe o equipamento. Então foi vê-lo a andar pelo relvado, descalço e quase nu, com a taça na mão direita e a esquerda metida dentro das cuecas para proteger a preciosidade que ali havia escondido. Quando regressou aos balneários, tirou-a do esconderijo e beijou-a com devoção.
Logo nesse ano, a Juventus, de Turim, fez-lhe um tentador convite, oferecendo-lhe 25 mil contos. Quase na mesma altura, o Real Madrid, por influência de Di Stefano, também o pressionou com uma oferta igual. Eusébio ficou eufórico ante a perspectiva de se transferir para o estrangeiro, ainda por cima por uma verba astronómica. O Benfica deve ter falado com o então Presidente do Conselho, Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”. Tinha apenas 22 anos. Como “prémio do título atribuído por Salazar”, foi incorporado no serviço militar. Foi despachado para a tropa. Nos ficheiros consta o recruta 1987/63 da 1ª bateria de instrução do RAAF. Pela selecção militar fez doze jogos e marcou nove golos.
No dia 23 de Outubro de 1963, estreou-se com a camisola da FIFA, num jogo de comemoração do centenário da Federação Inglesa de Futebol. Era a primeira vez na história, que o chamado Resto do Mundo fazia um jogo, seleccionado pelo chileno Fernando Riera. Em campo entraram Yashin (União Soviética), Djalma Santos (Brasil), Pluskal (Checoslováquia), Pophular (Checoslováquia), Schnellinger (RDA), Denis Law (Escócia), Masopust (Checoslováquia), Kapa (França), Di Stefano (Argentina/Espanha), Eusébio (Portugal) e Gento (Espanha).
Jogou com as insígnias da UEFA no final da temporada 1963/64, numa partida entre a selecção da Escandinávia e o Resto da Europa, convocado juntamente com José Augusto. Lançado na segunda metade, ainda atempo de fazer um golo. Venceu por 4-2. Na época seguinte, nova chamada à selecção da UEFA, na companhia de José Augusto e Simões. Quatro golos marcou e o outro ainda falou português, apontado por José Augusto. O Resto da Europa venceu por 7-2 a Selecção da Jugoslávia.
Voltou a jogar pela selecção da FIFA, em Santiago do Chile, frente à Universidade Católica (4-3 com dois golos da sua autoria). Pela UEFA, em Madrid, com a Espanha (3-0 um golo), na homenagem a Zamora; perante o Hamburgo (7-3 um golo) na então RFA, por ocasião do abandono de Uwe Serbas e ante a selecção da América Latina (4-4, um golo) em Barcelona no 1º Dia Mundial do Futebol.Com carácter oficioso representou a Selecção do Mundo, em Londres, no confronto com o West Ham (4-4) e também em Bruxelas, frente ao Anderlecht (3-8).
O ano de 1965 é um ano inesquecível para Eusébio, a prestigiada revista France Football elege-o como Melhor Futebolista Europeu do Ano.
Chega o ano de 1966, Portugal está pela primeira vez no Campeonato do Mundo de Futebol, que é realizado em Inglaterra. A nossa selecção parte como uma incógnita para o Mundial. No dia 11 de Julho a Rainha Isabel II declara aberto o Mundial de Inglaterra, Portugal estava inserido no grupo do bicampeão Mundial, o Brasil, mais a Hungria e a Bulgária, com sede em Manchester.
O primeiro jogo de Portugal realiza-se no dia 13 de Julho contra a Hungria que é despachada com 3-1, quatro dias depois Portugal despacha a Bulgária com um concludente 3-0 com um golo de Eusébio.
Dia 19 de Julho 1966, o embate esperado entre Portugal de Eusébio e o Brasil de Pelé, Campeão Mundial em título, leva o mesmo Campeonato ao rubro. Sessenta mil espectadores no Goodison Park em Liverpool como testemunham. Simões marcou primeiro e aos 26 minutos, depois de um toque de Torres, Eusébio nas alturas violou as redes.”Foi um golo muito importante para mim, o primeiro de cabeça na selecção”. Rildo ainda reduziu, mas o jogo continuava controlado, ao cair do pano Eusébio enlouqueceu as bancadas. Na sequência de um canto, Eusébio disparou quase à velocidade da luz, numa fantástica explosão da sua habilidade, fulminando as redes. Era a melhor forma de selar uma exibição de grande esplendor. “Ao abandonar o estádio a caminho do autocarro, foi uma loucura. Centenas de pessoas esperavam-nos, cantando e gritando”, disse Eusébio mais tarde. Portugal arrepiava caminho para os quartos de final do Mundial.
Dia 23 de Julho de 1966, Portugal – Coreia Norte, para os Quartos de Final do Campeonato do Mundo de 1966, um jogo que tornar-se-ia arrepiante e inigualável. A equipa asiática entrou de rompante, assinando o primeiro golo ainda no minuto inaugural. No curto espaço de outro fatídico minuto, o 14 º, mais dois golos de rajada acentuaram o temor. Ninguém percebia o que se estava a passar. Eusébio foi o primeiro dos imperturbáveis. Rebelou-se com o seu ímpeto galvanizante. Dois golos marcou antes do intervalo. Otto Glória colérico disse “ coisas que jamais tinha ouvido da boca de um treinador” disse Eusébio. A reprimenda, bem adjectivada, surtiu efeito. A equipa jogou nos limites. Eusébio fez o resto. Desconcertante. Aos 11 minutos apontou o golo da igualdade. Pouco depois, olhos na bola, percorreu todo o flanco esquerdo, aguentando tentativas desesperadas para o suster, até que tombou dentro da área. Foi penalti, convertido de forma autoritária. José Augusto fez o golo da confirmação dos 5-3, na mais bela página do futebol português. Os quatro golos num jogo, ainda por cima, nos quartos de final do Campeonato do Mundo, fizeram de Eusébio uma lenda planetária. Portugal acabaria por ficar em terceiro lugar do Mundial depois de perder a meia – final, de uma maneira escandalosa para a Inglaterra, 2-1, e após a vitória de 2-1 sobre a União Soviética de Yashin.
A esta fabulosa participação de Portugal deve-se juntar, o título de melhor marcador do Mundial para Eusébio com 9 golos marcados, o melhor jogador do Campeonato do Mundo para Eusébio e para Portugal o ataque mais concretizador da competição.
Á chegada a Lisboa, a selecção é recebida em apoteose. Apesar da hora tardia de chegada, três horas da manhã, milhares de pessoas esperavam pela equipa das quinas. No dia seguinte, houve um cortejo em carro aberto desde da Praça Marquês de Pombal até São Bento onde os magriços iriam ser recebidos por Salazar.
Depois do Mundial Eusébio e sua mulher Flora foram gozar férias para Itália, a convite do Inter de Milão, clube com o qual chegou a um acordo de princípio. O Inter pagava-lhe noventa mil contos para assinar contrato, uma fortuna para a época. diz Eusébio “ Naquele tempo dava-me para comprar os Restauradores”. Eusébio chegou a acreditar que lhe abririam as portas, pois além de ter sido o melhor goleador do Mundial e de ter ajudado a selecção a conquistar o 3º lugar já ganhara vários Campeonatos, Taças, a Bota de Ouro, Bolas de Prata, etc. Enganou-se. Salazar manteve-se irredutível, e nem na oitava vez que foi a São Bento conseguiu demovê-lo.Outros convites se seguiriam, mas o Benfica, irredutível, não permitiu a sua saída. Só a meio da década de setenta o libertou.
Em 1969 ganha a sua sétima Bola de Prata, com 40 golos, e em 1972 ganha pela segunda vez a Bota de Ouro.
Em 28 de Março de 1973, Eusébio marca o último golo pela selecção de Portugal, num jogo disputado em Conventry contra a Irlanda do Norte que acabou empatado a uma bola.
No dia 25 de Setembro de 1973 o Estádio da Luz vestiu-se de gala, para a festa de homenagem a Eusébio, promovida pelo Benfica, “ no cumprimento de uma cláusula do Contrato”. Milhares de apoiantes participaram entusiasticamente no tributo ao Rei Eusébio.
Com Fernando Cabrita como responsável técnico, o Benfica empatou 2-2 frente a uma selecção mundial. Nené apontou os golos do Benfica, e Banks, Iribar, Jackie Charlton, Blakembourg, Netzer, Bobby Charlton, Paulo César, Best, Keita, Kaiser, Seeler, Dirceu e Gento, regressaram aos seus países de origem com o certificado de participação numa jornada inolvidável.
No dia 13 de Outubro de 1973, Eusébio despede-se dos jogos da selecção num empate a dois golos na Luz, frente à Bulgária. A 24 de Outubro marca o último golo na Taça dos Campeões Europeus. O último jogo de Eusébio pelo Benfica ocorreu em 18 de Junho de 1975, um jogo particular realizado em Casablanca, Marrocos, contra uma selecção africana, que o Benfica perdeu por 2-1. Eusébio deixava o Benfica ao fim de 715 jogos.
Essencialmente a carreira de Eusébio está ligada ao Benfica, mas após deixar o Benfica ainda representou em 1975 o Bóston Minuteman, 8 jogos 2 golos, em 1975/1976 o Monterrey, do México, 10 jogos 1 golo, e foi vice-campeão mexicano, 1976 Toronto Metro-Stars, 25 jogos 18 golos e sagrou-se campeão da NASL, regresso a Portugal para representar o Beira – Mar, 12 jogos 3 golos, 1977 o Las Vegas Quicksilvers, 17 jogos 2 golos, e finalmente em 1978 novo regresso a Portugal para representar o União de Tomar da segunda divisão.
Em Fevereiro de 1979, o maior embaixador do futebol português anunciou o adeus definitivo aos estádios de futebol.
As Bodas de Ouro natalícias propiciaram em 1992 o Ano de Eusébio. A verdadeira festa de homenagem do Benfica e dos benfiquistas a Eusébio. No dia 25 de Janeiro de 1992, data do seu Quinquagésimo aniversário, foi inaugurada a sua estátua, hoje verdadeiro ex.libris do parque desportivo do Benfica, e seguramente a estátua mais fotografada de Portugal. É uma obra do escultor norte-americano Duker Bower, e foi oferecida por Vítor Baptista, um açoriano radicado nos Estados Unidos, e grande benfiquista.
A FIFA deu a Eusébio – no dia 12 de Janeiro de 1998 em Paris – o título de grandeza que lhe faltava, ao consagrá-lo como um dos dez melhores jogadores de futebol de todos os tempos.
Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, já lhe havia atribuído a Ordem do Infante, a 1 de Dezembro de 1992, e o próprio organismo dirigido por João Havelange, no Congresso de Chicago, a 15 de Junho de 1994, distinguira-o com a Ordem de Mérito da FIFA.
Mas nem a homenagem do chefe do Estado nem a distinção do Congresso da FIFA ao antigo futebolista do Benfica corresponderam à importância da actual escolha do ex-atleta para figurar no International Football Hall of Fame.
O maior pilar da mística benfiquista e da selecção portuguesa será para sempre um ponto de referência obrigatório dos tratados do futebol mundial.
Com a simplicidade que o caracteriza, Eusébio disse ter ficado orgulhoso, mas ao mesmo tempo sinceramente surpreendido. “Nunca na minha vida pensei, mesmo depois de atingir o patamar que atingi, vir a ser considerado um dos dez melhores de sempre. Isto não é para qualquer pessoa, e dali já ninguém me tira”. O júri, composto por cem elementos, votou no antigo jogador português e enalteceu o contributo e a forma marcante como ele ajudou a escrever tantas páginas brilhantes do mais popular desporto do nosso tempo.
Numa votação pela Internet no ano 2000, para considerar quem foi o Melhor jogador do Século, Eusébio ficou em 3º lugar, atrás de Maradona e Pelé.
Eusébio é uma das figuras do século, o único dos nossos a integrar a galeria restrita onde só cabem Di Stefano, Puskas, Pelé, Cruyff, Beckenbauer, Platini e Maradona. Por todas as razões continua a ser duas décadas volvidas sobre o abandono dos relvados, o cidadão português mais conhecido no mundo. É o maior do País no estrangeiro, o rosto mais conhecido, um rei que soube merecer o trono que um pouco por toda a parte lhe ergueram.
O Benfica e o futebol português devem-lhe uma década como nunca tinha tido, e se não for incómodo reconhecer, nunca mais voltou a ter. Por mais gerações de ouro que seja capaz de fabricar. Foi o maior de todos. Pelos dados objectivos mas também pela magia de um futebol feito de instinto e génio. Foi único. Eusébio da Silva Ferreira, “king” para os amigos, alcunha da responsabilidade do jugoslavo Filipovic, foi e é o mais célebre jogador português de todos os tempos.
Palmarés:
Campeonato Nacional: 11 títulos (60/61, 62/63, 63/64, 64/65, 66/67, 67/68, 68/69, 70/71, 71/72, 72/73 e 74/75).
Taça de Portugal: 5 vitórias (61/62, 63/64, 68/69, 69/70e 71/72).
Taça de Honra da AFL: 5 vitórias.
Taça dos Campeões Europeus: 1 vitória (61/62).
Selecção Nacional: 64 jogos/41 golos, entre 8 de Outubro de 1961 e 13 de Outubro de 1973, com 33 vitórias, 12 empates e 19 derrotas.
Competições europeias: 75 jogos/57 golos.
Vice-Campeão Nacional do México: 75/76.
Campeão na NASL (Estados Unidos): 1976.
Melhor marcador do Campeonato do Mundo de 1966: 9 golos.
Bola de Ouro (melhor jogador europeu): 1965.
Bola de Prata (2.º melhor jogador europeu): 1962 e 1966.
Bota de Ouro (melhor marcador europeu): 2 vezes em 67/68 (42 golos) e 72/73 (40 Golos).
Bola de Prata (melhor marcador nacional): 7 vezes em, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973.
Selecção UEFA/FIFA: 9 jogos 10 golos.
Campeonato Nacional: 313 jogos 320 golos (317 pelo Benfica 3 pelo Beira- Mar).
Taça de Portugal: 60 jogos 97 golos.
Taça de Honra: 10 jogos 8 golos.
Recordista absoluto de golos marcados em Portugal: 733
Envergou a camisola do Benfica 715 vezes.
Está na FIFA Hall of Champions depois de 1998.
Condecorações:
Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique (1966).
Grande Colar do Mérito Desportivo (1981).
Ordem do Infante (1992).
Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1992).
Ordem de Mérito da FIFA (1994).
Fontes: “Obrigado, Eusébio” de João Malheiro, “A Bola”, “Expresso” e “Record”.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Desgraça Clandestina


Chamo-me M. e tenho 16 anos. Estou grávida e não quero estar. O desespero apossou-se de mim e não sei o que fazer. Já pensei em matar-me mas eu quero viver. Falar com os meus pais é impensável. O meu pai é um alcoólico incorrigível, nunca trabalhou ou teve uma ocupação digna desse nome. É inútil qualquer esforço de memória que faça para recordar um momento de sobriedade em que ele se tenha revelado algo mais que o animal que me sovava a mim e aos meus irmãos até as lágrimas dissolverem a dor. Em inúmeras ocasiões era mesmo a fraqueza por não termos que comer que tornava tudo mais fácil de suportar. Ficávamos prostrados, num estado de letargia provocado pela fome. Nestas alturas que a pancada era menos dolorosa, porque facilmente perdíamos os sentidos ou tombávamos. Ninguém conseguia gritar, o que lhe retirava o ânimo.
A minha mãe tem uma atitude perante a vida que me lembra os meus amigos quando estão pedrados. Os olhos sempre fixos num ponto imaginário, completamente alheada da realidade, ou quando muito presa ao seu mundo. Existe não existindo, como se a vida dela se desenrolasse num plano diferente do nosso e nós somos apenas objectos translúcidos, sem substância, como que parte de um estranho sonho.
Fiz-me adulta muito nova, nas ruas. Sobre sexo aprendi com os outros. O que ninguém me ensinou ou me descreveu foi o significado do tesão, do desejo que não consigo controlar. Tudo seria mais fácil se fossemos como os bichos que têm as épocas de cio para procriar. Não o faço com qualquer um, mas com quem gosto perco deliberadamente o controlo. As carícias, os beijos, a queca, e é como se aqueles momentos fossem uma compensação para o sofrimento de que ninguém nos protege.
Não sou a única com uma vida miserável. Os casos aqui, no meu bairro, são mais que muitos. E tudo já mudou bastante. As assistentes sociais têm feito um bom trabalho, mas são poucas e não conseguem abranger todos os problemas.
Para pílulas não há dinheiro, roubam-se preservativos e esperamos estar sempre prevenidos. Só que o Verão é uma coisa terrível. E à noite é fácil soçobrar. Os corpos parecem que emanam um perfume inebriante que acicata a vontade. Tudo direito, preservativo colocado e o filho da mãe rebentou. Não vai acontecer nada, pensei eu. Se me tivessem falado da pílula do dia seguinte, eu podia ter feito alguma coisa. Quando não me veio o período, e como muitas amigas estavam ou estiveram grávidas, decidi fazer um teste.
Positivo.
Tudo se desmoronou. Não tenho a mínima hipótese de criar um filho. E para a adopção, nem pensar.
Por tudo isto, quando ouvi falar dos desmanchos, resolvi descobrir onde os faziam e arranjei o dinheiro com o menino que me pôs neste estado. Chego ao prédio que me indicaram e, sem ficar muito espantada, parece que vai cair a qualquer momento. Penso em ir embora, mas não o faço. Nem sei muito bem porquê. Entro e levam-me para um quarto. Sento-me numa cadeira cheia de ferrugem e ponho as pernas na posição. Sem anestesia, sinto tudo e a dor é alucinante.
Sei que passou pouco tempo, não tirei os olhos do relógio, mas aqueles momentos decorreram com uma lentidão própria que se gera quando alguém deseja ardentemente uma coisa que é como se cada segundo se transformasse numa amostra de eternidade.
Já está, diz-me com uma frieza desumana, assim como as suas recomendações. Saio e caminho em direcção a casa e sinto uma tontura. Deve ser normal, penso. A seguir, outra e outra, começo a ver o mundo como que através de uma bruma e percebo que algo está errado. Começo a sentir o sangue a escorrer-me pelas pernas abaixo em golfadas que não são normais. Não me consigo manter de pé e caio. Sinto no chão gelado algo a envolver-me num abraço tépido.
Alguém se aproxima e diz que me estou a esvair em sangue e pergunta-me qualquer coisa que não consigo compreender. Esforço-me por falar mas não consigo articular nenhum som. Será isto morrer? Tenho tanto medo. Chamam o 112 e continuam a tentar falar comigo. Não sei quanto tempo passou, mas oiço a sirene da ambulância…
Filipe Pinto.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Aborto


Se há palavras que têm sobre mim um efeito nauseante uma é “Aborto”. A carga negativa desta palavra é incompreensivelmente enorme. Será certamente o resultado de anos de condicionamento induzido pela propaganda estigmatizante que recaía sobre este assunto.
Um pouco cansado dos insuportáveis estribilhos utilizados por cada uma das partes envolvidas neste debate, uma espécie de fundamentalismo militante de uma qualquer causa que não o é, há um conjunto de reflexões que surgem de uma análise não simplista, muito menos maniqueísta, e que transcendem o acto.
Sem ser condescendente e muito menos parecer correligionário de qualquer um dos pontos de vista, até porque podemos ser contra o aborto e votar sim, é uma abordagem minimalista do problema tentar argumentar em prol de uma ou da outra posição com base nos argumentos extremos, por um lado, de que a mulher é a dona do seu corpo e, portanto, a decisão cabe-lhe exclusivamente, como se o aborto fosse colocar um piercing, e, por outro lado, alimentar o autismo vigente face ao problema real existente, transmitindo a ideia de que há opções para além do aborto sem concretizar.
É preciso perceber que caso vença o não, as interrupções voluntárias da gravidez (que notável amaciamento) não vão acabar e que, se ganhar o sim, para além do estigma não desaparecer, a designação de “voluntária” não pode passar a confundir-se com banalidade e com inconsequência e muito menos com uma espécie de impulsionador de uma nova revolução sexual semelhante à produzida pela pílula.
Mais importante que isso, qualquer que seja o resultado, não deve imbuir as pessoas de um sentimento de vitória política. Seja de que maneira for, é uma derrota.
Claramente.
O porquê das pessoas abortarem já foi amplamente discutido. O porquê do porquê é que não, ou seja, os grandes problemas sociais que atiram as pessoas para um ponto sem retorno. Individualizam-se os casos e esquece-se a responsabilidade colectiva. Será que alguém acredita que qualquer mulher que vai abortar o faz porque acordou com essa vontade? Para além dos seus motivos pessoais, não seremos nós, enquanto integrantes de uma sociedade que esmaga as pessoas, também responsáveis?
Recentemente fomos inundados por notícias de casos de abusos sexuais, crianças vítimas de maus-tratos e mortas. Num mundo tão profundamente injusto que facilmente se conclui que a protecção exigível está longe de ser perfeita e, também, está longe de oferecer opções credíveis.
Num país onde a sexualidade em muitos sectores está ainda imbuída de uma aura pecaminosa, responsável por complexos de culpa que provocam um grande sofrimento, não podemos esperar uma abordagem à reprodução com a seriedade que esta exige. Esta atitude cria enormes dificuldades no diálogo entre pais e filhos, que é incipiente, na maioria das vezes no sentido da castração, da negação do desejo, um dos mais fortes impulsos do Homem, em resultado de uma visa redutora do ser humano, apelidando-o de ser espiritual reduzindo-o ao mesmo tempo a um procriador social.
A sensação que dá é que a resistência à introdução a educação sexual nas escolas é feita pelos mesmos que não preparam os filhos, que não deixam os outros faze-lo, e muito provavelmente vão votar não.
Posto isto, mantém-se o problema do aborto “em vão de escada”. E vai manter-se caso vença o não. A mim, incomoda-me esta carnificina. E, mesmo quem não concorda, permitir que morram pessoas desta maneira incorre em alguma incoerência. Assegurar, no mínimo, a higiene necessária e a capacidade técnica de quem os faz, é também um sinal de humanitarismo e solidariedade. É que, independentemente da nossa opinião, as pessoas vão abortar.
Filipe Pinto.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

terça-feira, janeiro 09, 2007

A inveja é coisa feia e não há remédio.


(Carregar na imagem para ser mais nítida)
Theodore Gericault.
Retrato de Mulher Sofrendo de Inveja Obsessiva.
Cerca de 1822.
Musee des Beaux-Arts, Lyon, France.
"Aqueles que são invejados entristecem-se com o rancor que sentem à sua volta; se são orgulhosos, por receio de algum prejuízo; se generosos, por compaixão dos que invejam. Mas depressa se alegram: se me invejam, isso quer dizer que tenho um valor, dos méritos, das graças; quer dizer que sentem e reconhecem a minha grandeza, o meu triunfo.
A inveja é a sombra obrigatória do génio e da glória, e os invejosos não passam, de forma odiosa, de admiradores rebeldes e testemunhas involuntárias. Não custa muito perdoar-lhes, quando existe o direito de me comprazer e desprezá-los.
Posso mesmo estar-lhes, com frequência, gratos pelo facto de o veneno da inveja ser, para os indolentes, um vinho generoso que confere novo vigor para novas obras e novas conquistas.
A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afectam a luz.
O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição".
Giovanni Papini, in "Relatório Sobre os Homens".

quinta-feira, janeiro 04, 2007

BASTA YA!


«9 Horas, 30 de Dezembro de 2006» - Uma furgoneta Renault Traffic cor grenat explode junto ao estacionamento do terminal 4 do aeroporto de Barajas-Madrid deixando em estado de choque a sociedade espanhola e em destroços o processo de paz que o governo de Zapatero iniciara nove meses antes.
A Organização “Euskadi Ta Askatasuna” (Pátria Basca e Liberdade) conhecida pelas siglas ETA elegeram a luta armada como forma privilegiada de conseguirem a independência de Euskadi e reivindicam os territórios do País Basco e Navarra em Espanha e da Baixa Navarra, Lapurdi e Suberoa em França.
Aquela organização fundada em 1959 cometeu o seu primeiro atentado mortal em 1968 contra o guarda civil José António Pardines. Desde aquele dia registaram-se 851 assassinatos, 77 sequestros, milhares de cartas exigindo o imposto revolucionário, explosões de carros bomba e ameaças contra juízes, policias, jornalistas e políticos.
Um dos actos mais dramáticos praticados pela organização e que provocou a maior mobilização popular contra a ETA, foi o sequestro do jovem Vereador do Partido Popular em Ermua, Miguel Angel Blanco Garrido (1997), assassinado ao cumprir-se o prazo de 48 horas que tinha sido dado para que o Governo aceitasse reagrupar os presos etarras, distribuídos pelas diversas regiões de Espanha.
É verdade que o povo espanhol está horrorizado com o banho de sangue e destruição que a ETA vem provocando nos últimos quarenta anos e também é verdade que a maioria da população basca, mesmo os nacionalistas que defendem a independência do país, são contra a violência.
Mas não podemos cair numa visão maniqueísta de que se trata de um qualquer grupelho de radicais terroristas que é preciso eliminar a qualquer custo sem procurar entender antes o que está por detrás deste conflito e procurar perceber como é possível um grupo armado (que conta já com centenas de mortes e cerca de 700 activistas presos) resistir durante 40 anos contra uma poderosa organização militar e policial altamente treinada contra o terrorismo.
Presume-se que o povo basco tenha ocupado a Península Ibérica por volta de 2000 A.C. e tenha resistido a constantes invasões sofridas ao longo dos séculos. Apesar da dominação romana, os bascos mantiveram a sua língua, costumes e tradições, num processo de constante resistência. A língua Basca é a língua mais antiga falada hoje na Europa apesar de só no século XVI se ter constituído como língua escrita.
Entre os séculos XV e XVI a região foi submetida à Espanha, finalizando o processo de formação do Estado Monárquico, que havia sido iniciado com o casamento dos reis católicos Fernando e Isabel.
Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39) a maioria da população basca apoiou os republicanos, aliados naquele momento aos socialistas e anarquistas, provocando violentas represálias por parte dos fascistas, sendo que o episódio mais conhecido foi o bombardeio da cidade basca de Guernica no dia 26 de Abril de 1937, quando a aviação da Alemanha nazista lançou bombas incendiárias, matando mais de 1000 pessoas.
A ditadura fascista do general Franco reprimiu com grande violência todos os movimentos nacionalistas. No País Basco foi proibida a língua bem como toda e qualquer manifestação política ou cultural. O Estatuto de Autonomia aprovado pelas Cortes de 1936 foi suprimido e a repressão sobre os bascos contribuiu decisivamente para o germinar, nos anos 50, de uma contestação nova e qualitativamente diferente da resposta dada até então pelo Partido Nacionalista Vasco (PNV) e do auto denominado “Governo Basco no Exílio”.
Essa resposta chamar-se-á «Euskadi Ta Askatasuna», ETA.
Com o afastamento em relação ao nacionalismo tradicional e com o aprofundar de uma “teoria de libertação nacional” a organização passou à luta armada, a partir da segunda metade da década de 60, sendo a sua acção mais espectacular o atentado que matou o Primeiro Ministro, Almirante Luís Carrero Blanco, provável sucessor de Franco, em 1973.
Em 1975 terminou a ditadura franquista e iniciou-se o processo de democratização. No País Basco surgiram alguns partidos “nacionalistas”, com projectos diferenciados, dividindo os bascos quanto à luta pela autonomia. Com a colaboração da nova Constituição, o Estado Espanhol propôs um Estatuto de Autonomia, aprovado em 1978. A ETA rejeitou o Estatuto, manteve a actividade militar e ao mesmo tempo passou a actuar politicamente com a fundação do Herri Batasuna (Unidade Popular).
Durante o Governo do Partido Popular de (1996-2004) de José Maria Aznar, teve lugar uma intensa persecução policial e judicial contra a ETA e foi ilegalizado o Partido Político Batasuna mas os seus candidatos haveriam de concorrer nas eleições autonómicas de 2005 através do “Partido Comunista de Las Tierras Vascas” que conseguiria obter 150.188 votos e ocupar 9 dos 75 lugares do parlamento basco.
O Jornalista Rui Pereira no seu livro Euskadi - a Guerra desconhecida dos Bascos, refere-se do seguinte modo ao independentismo radical: “Além de estável, essa base numérica é composta por centena e meia de milhares de pessoas que, mais que altamente politizadas, estão geracionalmente habituadas a sofrer por razões politicas e, como tal, preparadas para resistir, defender-se e atacar, imunes à fadiga da rotina, ou a qualquer quebra anímica. O poder efectivo dos seus agrupamentos, quer se exprimam pela violência da Kalea Borroka, ou pela participação na política eleitoral convencional, está nas ruas e não nas urnas. E, neste particular, não há outra força que lhe equivalha no tecido político e social basco”.
É neste quadro, consciente de que a resolução do conflito passa por uma nova abordagem do problema, que José Luís Rodriguez Zapatero, Primeiro-ministro espanhol, inicia negociações com a ETA depois de esta ter proclamado um cessar-fogo permanente a partir de 24 de Março de 2006.
O optimismo de Zapatero foi expresso no dia anterior ao atentado quando declarou “Estamos melhor que há um ano e dentro de um ano estaremos melhor. Se está melhor quando há um cessar-fogo permanente em vez de bombas”.
Estavam melhor mas não havia razões para tanto optimismo, pois se a ETA havia cumprido com o seu compromisso de não cometer atentados nunca renunciou a manter a sua actividade e foi dando a conhecer, em 5 comunicados tornados públicos, o seu descontentamento face ao desenvolvimento das negociações.
Em 18 de Agosto, a ETA falava abertamente de uma evidente situação de crise do processo de paz no País Basco, que atribuía à atitude do PNV e do PSOE.
Sublinhavam que o Governo Socialista se valia da repressão para debilitar a esquerda abertzale (nacionalista) por meio de contínuos ataques a partir do aparelho do Estado.
Na sua última aparição pública antes do atentado, o líder do ilegalizado Batasuna, Arnaldo Otegi assegurou que o processo de paz estava na mesma situação de crise e que não havia nenhuma mudança relevante. Otega insistiu nessa tese afirmando que não havia nenhum acontecimento que permitisse dizer que as coisas tinham mudado e que o processo estaria em marcha.
Entre as medidas que reivindicavam como base do processo negocial contavam-se a modificação do esquema estatutário, legalização do partido político Batasuna e a adopção de medidas de aproximação dos presos que deveriam ser transferidos para as prisões bascas.
Entretanto continuavam os actos de violência de rua (Kale borroka), um comando de etarras apoderou-se, em Outubro, de 300 revólveres e 50 pistolas e uma quantidade indeterminada de munições numa empresa francesa em Vauvert e, já em Dezembro tinham sido detidos presumíveis membros da organização e encontrados esconderijos com detonadores e bidões de munições de caça.
O processo é definitivamente interrompido a 30 de Dezembro com o atentado no aeroporto de Barajas. Uma hora antes foram efectuados 3 telefonemas, para as autoridades, para a evacuação do local, mesmo assim houve 19 feridos um morto já confirmado e um desaparecido.
Tudo volta ao ponto de partida, sem que se vislumbre qualquer solução politica para o conflito que opõe nacionalistas a integristas, mas importa recordar que a grande maioria dos nacionalistas que defendem a independência do País Basco são moderados e condenam qualquer recurso à violência e estes representam a esmagadora maioria dos cidadãos bascos.
Na opinião do jornalista, Rui Pereira
"não há nenhum problema basco", nem catalão, nem andaluz, nem galego. O que existe, na realidade, é "um problema espanhol", que parte de uma "entidade questionada e questionável". A longo prazo, afirma, a questão basca não pode ser resolvida sem uma alteração à Constituição espanhola, para que esta passe a reconhecer a auto-determinação dos povos. "Isto é um processo a anos de distância".
Mas é um processo irreversível.
Jorge Gaspar.