segunda-feira, maio 19, 2008

uma segunda juventude


ELE OUVIU TOCAR OS SINOS DA MITROPOLIE e então lembrou-se de que era noite de Páscoa. E subitamente a chuva, aquela chuva sob a qual ele andava desde que saíra da estação de comboios e que ameaçava tornar-se torrencial, pareceu-lhe normal. Ele avançava num passo rápido, abrigado debaixo do seu guarda-chuva, com as costas curvadas e os olhos baixos, tentando não se molhar demasiado. Depois, mesmo sem se dar conta, começou a correr, com o guarda-chuva diante do peito, como um escudo. Teve, porém, de parar vinte metros mais à frente, no sinal vermelho. Enquanto esperava, saltitava nervoso, punha-se na ponta dos pés, mudava de lugar, observava consternado as poças que, a alguns passos dele, cobriam uma boa parte da avenida. O sinal vermelho apagou-se e, um segundo mais tarde, a explosão de luz branca, incandescente, agitava-o brutalmente, cegava-o. Como se um ciclone abrasador explodisse, de uma forma incompreensível, no cimo da sua cabeça e a aspirasse. “O relâmpago não caiu muito longe”, disse para si próprio piscando penosamente os olhos a fim de descolar as pálpebras. Ele não compreendia por que razão segurava com tanta força o cabo do guarda-chuva. A chuva redobrava de violência, assaltava-o por todos os lados e, no entanto, ele não sentia nada. Ouviu de novo os sinos da Mitropolie, e depois os de todas as outras igrejas, e, muito próximo, um carrilhão solitário e desolado. “Tive medo!”, pensou. Ele tremia. “É por causa da água”, disse para consigo alguns instantes mais tarde ao aperceber-se de que estava caído no chão, na valeta. “Estou a apanhar frio…”
Então ouviu aquela voz ofegante, uma voz de homem aterrorizado:
- Eu estava lá quando o relâmpago o atingiu. Não sei se ainda está vivo. Eu olhava precisamente para onde ele estava, na borda do passeio, e vi-o pegar fogo da cabeça aos pés, e começou tudo a arder ao mesmo tempo: o guarda-chuva, o chapéu, as roupas. Se não fosse a chuva, ele teria ardido como uma tocha… Não sei se ainda estará vivo – repetiu.
1ª Página do livro, uma segunda juventude, de Mircea Eliade, Bico de Pena, 1ª edição Março de 2008.
Nota: Uma Segunda Juventude, conta-nos a história de Dominic Matei, um respeitado académico, professor de linguística, filósofo e historiador com 70 anos. Apesar do seu sucesso académico, é um homem infeliz e amargurado com a vida, por ter perdido o seu grande amor, Laura, devido á investigação académica. Este desespero leva-o a encetar uma viagem a Bucareste com o intuito de se suicidar.
Contudo, uma dramática e incrível fatalidade, ocorre quando ele é, fulminado por um relâmpago e sobrevive miraculosamente
No hospital, enquanto recupera, os médicos assistem com incredibilidade ao rejuvenescimento físico do professor, acompanhado por um desenvolvimento intelectual inexplicável que chama a atenção de cientistas nazis, obrigando o professor a exilar-se. Em fuga, Matei reencontra Laura, o seu amor perdido, reencarnada como Veronica e luta para terminar a sua tese sobre as origens da linguagem humana. Mas quando a sua pesquisa ameaça a existência de Veronica, Matei é forçado a escolher entre o trabalho de uma vida ou o seu grande amor.

Para Reflectir


Every year 1 million five-day old calves are slaughtered to supply the veal market. Please reconsider your order of veal products.www.animal-lib.org.au
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domingo, maio 18, 2008

Angola É Gerida Por Criminosos (Parte 1 e 3/4)


Ontem, ao ler a revista o “Courrier Internacional”, do mês de Maio, encontrei no seu interior esta publicidade, a anunciar a conferência “Futuro Sustentável”, realizada, como toda a gente sabe, em Lisboa no dia 6 de Maio. Tive que sorrir e rir.
O almoço-conferência, tinha como título, Making a Difference”, e no panfleto, faz-se uma propositada menção para que se, VENHA FAZER A DIFERENÇA, apesar de cobrarem 250 euros por pessoa.
É ponto mais que assente, que quem paga 250 euros para almoçar e ouvir um ex. músico a falar, esteja com alguma predisposição, para fazer a "tal" diferença.
Não sei quanto pagaram a Bob Geldof, para ele fazer a conferência, no entanto, quer o BES quer o Expresso, deviam estar satisfeitos com a intervenção de Geldof.
Cada palavra proferida valeu cada Euro (ou Libras) que lhe pagaram, para além, de ter sido honestíssimo para com os anfitriões:

Asfixia


Se vais ler isto, não te maces.
Ao fim de um par de páginas, não vais querer estar aqui. Por isso, esquece. Sai enquanto ainda estás inteiro.
Salva-te.
Tem de haver qualquer coisa melhor na televisão. Ou, uma vez que tens tanto tempo livre, talvez pudesses tirar um curso à noite. Tornares-te médico. Podias fazer qualquer coisa boa para ti. Oferecer a ti próprio um jantar fora. Pintar o cabelo.
Não estás a ficar mais jovem.
O que acontece aqui, primeiro, vai chatear-te. Depois, vai ficando cada vez pior.
O que vais ter aqui é uma história estúpida sobre um rapazinho estúpido. Uma estúpida história verdadeira sobre ninguém que alguma vez te tenha apetecido conhecer. Imagina este idiotazinho que te deve dar pela cintura, com uma mão-cheia de cabelo louro, penteado com risco ao lado. Imagina o pieguinhas do pequeno merdoso nas fotografias antigas da escola, sem alguns dos dentes de leite e com os primeiros dentes de adulto a nascerem tortos. Imagina-o vestido com uma estúpida camisola às riscas azuis e amarelas, uma camisola que tinha sido prenda de anos e era a sua preferida. Mesmo assim tão novinho, imagina-o a roer as imbecis das unhas dos dedos. Os sapatos preferidos são Keds. A comida preferida, aquela porra das salsichas fritas.
Imagina um rapazinho sebento com cinto de segurança posto, sentado numa carrinha escolar ao lado da mamã depois do jantar. Só que está num carro da polícia parado à frente do motel deles e, por isso a mamã carrega no acelerador e continua a cem ou cento e dez quilómetros hora.
Isto é sobre um estúpido de um fuinhazinho que, podes ter a certeza, era o mais estúpido dos sabujinhos imbecis e choramingas que alguma vez existiu.
Um mariquinhas.
1ª Página do livro, Asfixia, de Chuck Palahniuk, Editorial notícias, 1ª edição Outubro de 2003.
Nota: Chuck Palahniuk emergiu nos anos noventa do século passado, como uma das vozes mais originais da moderna literatura americana. Nascido em Pasco, Washington, a 21 de Fevereiro de 1962, vive actualmente em Portland, Oregon, nos Estados Unidos. De descendência francesa e russa, Chuck Palahniuk teve uma vida mais insólita, que os personagens dos seus livros. Quando era adolescente o seu avô suicidou-se, após matar a mulher. Por sua vez, o seu foi assassinado juntamente com a namorada, pelo ex. marido desta. Estes acontecimentos trágicos serão um leit motiv, para o humor negro de Palahniuk, transversal em toda a sua obra. Licenciado pela Universidade de Oregon, tentou uma carreira jornalística, sem êxito. Como alternativa, foi sucessivamente artista rap, sem êxito, lutador, sem êxito e finalmente mecânico numa empresa de montagem de automóveis, sem êxito. A frustração nascida de um trabalho pouco atraente terá estado na origem do seu primeiro romance, Clube de Combate (1996). Com ele arrebatou vários prémios literários sendo o livro adaptado ao cinema por David Fincher, com Brad pitt, Edward Norton e Helena Bonham Carter nos principais papéis. O livro e o filme, criaram o culto Palahniuk. Seguiram-se, entre outros, títulos como Sobrevivente (1999), Monstros Invisíveis (1999), Asfixia (2001), Lullaby (2002).
Palahniuk denuncia com humor corrosivo a sociedade moderna, centrando a sua ironia, no consumo desenfreado e no excesso de informação. A capacidade de radiografar a sociedade actual, especialmente a americana, com uma prosa nua e crua, sem qualquer tipo de floreados, faz com que a cada edição de um novo livro, a legião de fãs da obra de Palahniuk, não pare de crescer.

Amnistia Internacional


Sign petition against death penalty.
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Creative Director: Piotr Malkiewicz
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sábado, maio 17, 2008

Sábado


Algumas horas antes do nascer do dia, Henry Perowne, neurocirurgião, acorda e começa imediatamente a mexer-se: senta-se, afasta a roupa e depois põe-se de pé. Não é claro para ele em que momento ficou consciente, nem isso lhe parece relevante. Aquilo nunca lhe acontecera, mas não se sente alarmado nem sequer levemente surpreendido, pois o movimento é fácil, agradável para os seus membros, e sente uma força rara nas costas e nas pernas, Está de pé ao lado da cama, nu – dorme sempre nu -, consciente da sua altura, da respiração paciente da sua mulher e do ar frio do quarto na sua pele. Também essa sensação lhe dá prazer. Na mesa de cabeceira, o relógio mostra que são três e quarenta. Não faz a menor ideia do que está a fazer fora da cama: não precisa de ir à casa de banho, não foi perturbado por nenhum sonho nem por qualquer acontecimento do dia anterior, nem sequer pelo estado do mundo. É como se, ali de pá, na escuridão, se tivesse materializado do nada, inteiramente formado, sem qualquer limitação. Não se sente cansado, apesar da hora e do muito que tem trabalhado ultimamente, nem há qualquer caso recente que lhe perturbe a consciência. Na verdade, está bem desperto, com a cabeça vazia e inusitadamente alegre. Sem que isso corresponda a qualquer decisão ou motivação, começa a dirigir-se para a mais próxima das três janelas do quarto, e a facilidade e leveza com que caminha leva-o mais uma vez a suspeitar que está a dormir ou a ter um ataque de sonambulismo. Se for verdade, ficará desapontado. Os sonhos não lhe interessam; a possibilidade de tudo aquilo ser real é muito mais rica. Além disso, tem a certeza de que está absolutamente consciente e sabe que o sono já ficou para trás: reconhecer a diferença entre estar a dormir e acordado, reconhecer as fronteiras, é a essência da sanidade.
1ª Página do livro, Sábado, de Ian McEwan, Gradiva, 1ªedição Maio 2005.
O livro Sábado é a obra joyceana de Ian McEwan. A acção do livro decorre num único dia, Sábado, 15 de Fevereiro de 2003. Henry Perowne é um homem realizado — um neurocirurgião de sucesso, marido dedicado de Rosalind, uma advogada que trabalha num jornal, e pai orgulhoso de dois filhos já crescidos, uma promissora poetisa e um talentoso músico de blues. Ao contrário do que é habitual, acorda antes do nascer do dia, é atraído para a janela do seu quarto e dominado por uma sensação crescente de mal-estar. O que o perturba ao olhar para o céu é o estado do mundo — a guerra iminente com o Iraque, um pessimismo que não pára de crescer nele desde o 11 de Setembro, e o medo de que a sua feliz vida familiar e a sua cidade, com a abertura e diversidade que a caracterizam, estejam ameaçadas. Mais tarde, Perowne dirige-se para o seu jogo semanal de squash atravessando as ruas de Londres onde centenas de milhares de pessoas se manifestam contra a guerra. Um pequeno acidente de automóvel fá-lo entrar em confronto com Baxter, um jovem nervoso, agressivo, a raiar a violência. A experiência profissional de Perowne sugere-lhe que há qualquer coisa de profundamente errado naquele indivíduo. Quase ao fim de um dia repleto de incidentes, mas em que Perowne celebrou todos os prazeres da vida — música, comida, amor, a excitação do desporto e a satisfação de um trabalho bem feito — a sua família reúne-se para jantar. Mas, com o súbito aparecimento de Baxter, os receios iniciais de Perowne parecem prestes a materializar-se. Fonte:Gradiva
Ian McEwan nasceu a 21 de Junho de 1948 em Aldershot, Inglaterra mas passou grande parte da sua infância na Ásia, devido à profissão de militar exercida pelo pai. Estudou na Universidade de Sussex onde se licenciou em Literatura Inglesa. Posteriormente tirou um curso de escrita criativa com os escritores Malcolm Bradbury e Angie Wilson.
Começou a escrever contos no início da década de 1970 para publicações de índole literária, como a American Review e a Transatlantic Review. Em 1976, McEwan viu o seu talento reconhecido com a atribuição do prémio Somerset Maugham pelos oitos contos que compuseram a sua primeira obra: Primeiro Amor, Últimos Ritos. O autor ainda publicou mais um livro de contos, Entre os lençóis (1978), antes de iniciar a sua carreira como romancista.
As suas obras distinguem-se pelas sugestões sinistras ou macabras e pelos elementos de violência e sexualidade bizarra, como acontece nos contos de Primeiro Amor, Últimos Ritos (1975).
Da sua obra como romancista fazem parte os romances O Jardim de Cimento (1978), A Criança no Tempo (1987), O Inocente (1990), O Sonhador (1994), O Fardo do Amor (1997), Amesterdão (1998), Expiação (2001) e Sábado (2005) e Na Praia de Chesil (2007).
Em 1998, foi-lhe atribuído o Booker Prize pela obra Amesterdão, cuja acção se desenrola a partir da morte súbita de Molly Lane, fotógrafa profissional quadragenária. A sua escrita retrata os homens comuns, sem emoção, piedade ou julgamento.
Em 2001, foi lançado Expiação, um romance que fala do solitário ofício de imaginação da escrita e que foi distinguido pelo The National Book Critics Circle com o prémio de melhor livro de ficção de 2002.
Em 2005 editou Sábado e dois anos depois, foi novamente finalista do Booker Prize, a sua quinta vez, com o romance "Na Praia de Chesil", acabando por perder o galardão para a escritora irlandesa Anne Enright.

Amnistia Internacional

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Creative Director / Art Director / Copywriter: Pancho González
Illustrator / Photographer: Josefina Pro

quarta-feira, maio 14, 2008

O Triunfo dos Porcos


O Sr. Jones, da Quinta Manor, tinha trancado os galinheiros, mas estava demasiado bêbado para se lembrar de fechar os postigos. Como o círculo de luz da lanterna dançando de um lado para o outro, atravessou o pátio aos tombos, livrou-se das botas na porta das traseiras, serviu-se de um último copo de cerveja do barril da copa e subiu para o quarto, onde a Srª Jones já ressonava.
Assim que a luz do quarto se apagou, houve agitação e alvoroço em todas as divisões da quinta. Constara, durante o dia, que o velho Major, o premiado porco “Middle White”, tivera um estranho sonho na noite anterior e desejava transmiti-lo aos outros animais. Ficara acordado reunirem-se todos no celeiro grande, logo que estivessem livres do Sr. Jones. O velho Major (como sempre lhe chamavam, embora o nome com que fora exibido fosse Beleza de Willingdon) era tão respeitado na quinta que todos estavam dispostos a perder uma hora de sono para ouvirem o que ele tinha a dizer.
1ª Página do livro, O Triunfo dos Porcos, de George Orwell, Publicações Europa-América, 2ª edição.
Nota. Publicado pela primeira vez em 1945, O Triunfo dos Porcos, é um livro sempre actual. O mandamento, Todos os animais são iguais mas alguns são mais iguais que outros, não podia ser mais actual.

Frank Sinatra


Há 10 anos, o mundo perdia A Voz. A lenda de olhos azuis, partia cansado desta vida. Como uma vez disse, "Só se vive uma vez. E da maneira que eu vivo, uma vez basta."
Francis Albert Sinatra, nasceu em 12 de Dezembro de 1915 no estado de Nova Jérsia, Estados Unidos. Frank era filho único e nunca estudou música. Autodidacta, abandonou o último ano do liceu para começar a cantar.
O mito Sinatra começou em 1939 com a gravação de “All or Nothing All” e terminou cinco décadas e mais de 1450 canções depois. Com uma veia artística fora do comum, o cantor foi também actor com méritos firmados sendo protagonista em cerca de 50 filmes até meados da década de 60.
Juntamente com Dean Martin, Sammy Davis Jr, Peter Lawford, Joey Bishop, mais a mascote Shirley MacLaine, Frank Sinatra formou o célebre “Rat Pack”, grupo de artistas que fez muito sucesso nos palcos e no cinema nesta época.
O seu talento para o show business foi duplamente reconhecido: ele tem duas estrelas no Hall of Fame em Hollywood, uma pelo seu desempenho musical e outra pela seu desempenho como actor.
Na vida pessoal foi um homem misterioso, sendo amiúde conectado à máfia nova-iorquina. Teve diversos casamentos, primeiro com Nancy Barbato, e depois com as actrizes Ava Gardner e Mia Farrow, e finalmente com Bárbara Marx com quem viveu até ao fim dos seus dias.
A sua voz aveludada conquistou milhares de admiradores de diversas gerações, fazendo com que mesmo quem não conhece Frank Sinatra, provavelmente conhece as músicas dele, como por exemplo, “Strangers in the night”, “ New York, New York”, ou”My Way”.
Frank Sinatra terminou a sua carreira de cantor em 1995, quando contava oitenta anos de idade. Morreu em Los Angeles, a 14 de Maio de 1998, de ataque cardíaco. Frank Sinatra deixou uma obra incomparável e é frequentemente considerado o melhor cantor popular de todos os tempos.

terça-feira, maio 13, 2008

Comentário aos Comentários


Muitos comentadores, devem pensar que a única razão de eu ter um blog, são os comentários. Por isso, não perdem a oportunidade de gastar o seu precioso tempo, a escrever não-importa-o-quê, na caixa de comentários.
Sou incapaz de conceber um blog sem comentários e no dia em que um texto meu, tiver menos de vinte comentários, este blog acaba. É melhor esquecerem a piada dos vinte comentários.
Ler os comentários é um exercício intelectual incomparável e são resmas deles, contando-se às dúzias, os exemplos de excelentes comentários, que serviriam para ilustrar o post, por isso vou citar, apenas, alguns:
-LOL...
-Bom post!
-Continua o excelente trabalho!
-Comunistas!!!
-Parabéns, excelente blogue!
-Blogue de merda!!!!
-Fascista!!!...
-Gostei de te ler...!
-Não escreves um C....!
Depois há os comentários mais elaborados, culturalmente mais relevantes e mais ridículos , com um total desconhecimento de quem sou:
-Se fosse com o teu FC Porto, não falavas assim!
-Um beijo com sabor a pêssego acabado de colher...
-Se fosse com o Paulo Portas, não escrevias isto...
-Portista reles!...
-Pois, pois...Um poster com o pinto da costa é que era bão!
Este último comentário, foi a gota que fez transbordar o tanque e que me deu a motivação para, finalmente, escrever este post.
Que dizer de um comentário destes?
Uma das coisas que têm em comum estes comentários, é que acabam sempre ou com reticências ou com um ponto de exclamação e são assinados por uma cáfila que prolifera na blogosfera de nome Anonymous.
Contudo, estes dromedários, são conscientes no ponto, de considerar ultrajante para eles, assinar aquilo que escrevem. Têm razão e deviam ter vergonha. Quanto às reticências, pode-se compreender a sua utilização, pois como normalmente não dizem nada no seu comentário, eventualmente quererão dizer, que vão continuar a nada dizer, num-outro-blog-qualquer. Agora, o ponto de exclamação faz-me espécie: será que ficam admirados com a qualidade do seu comentário ou será que ficam espantados com a parvoíce do que escrevem?
Meus amigos, se não são capazes de no mínimo estruturar uma ideia, por favor, não poluam a caixa de comentários.
Um dia destes, escrevi um comentário, num blog em que sou visita frequente, e como ele têm muito a ver com aquilo que eu vos quero transmitir, fica mais ou menos aqui, o que lá escrevi.
Antes de fazer, qualquer comentário, a maioria das pessoas, deveria conhecer o principal ensinamento de Wittgenstein, que é, se não sabe falar de uma coisa, cale-se, que é como quem diz, se não sabe escrever, não se dê ao trabalho de o fazer.
Hoje é frequente dizer-se, e por isso a qualidade da crítica e dos comentários é cada vez pior, que todas as opiniões são respeitáveis. Sobre isso li há um ou dois anos atrás, o livro “Os Dez Mandamentos do Século XXI”, do filósofo espanhol Fernando Savater, no qual ele escrevia, as palavras são minhas, que é um absoluto disparate, dizer-se que todas as opiniões são respeitáveis. São as pessoas e não as crenças, que são respeitáveis, porque senão, a humanidade não teria podido dar um único passo em frente. Isto como é óbvio, deve-se aplicar, neste caso, aos comentários.
Mas a falta de qualidade da crítica e dos comentários pode também ser devido ao facto, como escreveu Pino Aprile de “o homem moderno viver para estupidificar”. Este jornalista italiano, depois de ter feito uma entrevista a Konrad Lorenz, teve a ideia de escrever um livro, a que chamou, “O Elogio do Imbecil”.
Conclui Pino Aprile no seu livro, que os inteligentes construíram o mundo, mas quem desfruta dele são os imbecis.
Pelos muitos comentários que li ao longo destes quase quatro anos de blogger, estou inclinado a dar razão a Pino Aprile.

Aung San Suu Kyi


A líder da oposição birmanesa, Aung San Suu Kyi, foi distinguida com o Prémio Internacional Catalunha, que distingue personalidades que contribuíram para o desenvolvimento de valores culturais, artísticos, científicos e humanos.
Partilha o prémio com Suu Kyi a médica birmanesa Cynthia Maung, que dirige um hospital na fronteira tailandesa, de onde saem as equipas médicas que atendem pacientes no interior de Birmânia.
Eram também candidatos ao galardão, este ano na sua vigésima edição e com uma dotação de 100 mil euros, os escritores José Saramago, Haruki Murakami e Tahar Ben Jelloun e o arquitecto Óscar Niemeyer.
Suu Kyi dirige a oposicionista Liga Nacional para a Democracia, partido que, em 1990, ganhou as eleições por maioria absoluta. O governo militar birmanês nunca reconheceu esta vitória e mantém uma apertada vigilância sobre Suu Kyi, que nunca aceitou o exílio proposto pelos militares em troca do seu silêncio.
O presidente do Governo catalão, José Montilla, entregará o galardão, uma escultura (“A chave e a letra”) de António Tàpies, numa cerimónia a realizar em Novembro.Lusa.

segunda-feira, maio 12, 2008

Os Filhos da Meia-Noite


Nasci na cidade de Bombaim…um certo dia. Não, não pode ser assim. A data exacta. Nasci na maternidade do Dr. Narlikar no dia 15 de Agosto de 1947. Horas? A hora também é importante. Pois seja: foi de noite. Não, procuremos ser mais…Foi exactamente ao bater da meia-noite. Os ponteiros do relógio uniram as palmas das mãos para me cumprimentarem respeitosamente e me darem as boas-vindas. Há que dizer tudo: fui dado à luz no exacto momento em que a Índia se tornava independente. Continha-se a respiração. Do lado de fora da janela misturava-se o estralejar do fogo-de-artifício com a algazarra da multidão. Poucos segundos depois, o meu pai fracturou o dedo grande do pé; acidente insignificante em comparação com aquilo que me acontecia a mim naquele momento da noite; graças à tirania oculta dos relógios delicadamente acolhedores, eu passava a estar misteriosamente ligado à história e o meu destino indissoluvelmente unido ao meu país. Durante as três décadas seguintes, ser-me-ia impossível escapar. A minha chegada tinha sido profetizada pelos adivinhos, celebraram-na os jornais, os políticos ratificaram a minha autenticidade. Não me foi consentido qualquer voto na matéria. Eu, Saleem Sinai, mas tarde chamado também Muco-na-Penca, Cara-Manchada, Careca, Sorve-Ranho, Buda e até Pedaço-de-Lua, fiquei definitivamente comprometido com o destino…as mais das vezes perigosamente amarrado a esse compromisso. E nessas alturas não tinha quaisquer possibilidades de me assoar.
Entretanto, o tempo (uma vez que não sei o que fazer de mim) está agora a chegar ao seu termo. Completarei em breve trinta e um anos. Se calhar. Se este meu corpo velho e escangalhado o permitir. Mas não me restam grandes esperanças de me salvar, não tenho pela frente sequer mil noites e uma noite. Tenho de ser rápido, mais rápido do que Xerazade, e é se quero deixar claro o sentido… Sim, o sentido. Não há nada que eu receie mais do que o absurdo.
E tenho tantas, tantas histórias para contar, são tantas vidas acontecimentos milagres lugares rumores que se entrelaçam, é tal a mistura de improvável e de mundano! Fui um devorador de vidas e para me conhecerem, só a mim, vão ter de engolir outras tantas. Em mim se cruzam e entrechocam multidões desaparecidas. Guiado apenas pela recordação dum enorme lençol branco, com um buraco vagamente circular de sete polegadas de diâmetro aberto no meio, amarrado ao sonho desse pano furado e mutilado que é o meu talismã, o meu abre-te, Sésamo, vou ter de reconstituir a história da minha vida a partir do momento em que ela efectivamente começou, aí uns trinta e dois anos antes de uma coisa tão óbvia e tão presente como foi o meu nascimento badalado pelos relógios e marcado pelo crime.
(O dito lençol, diga-se de passagem, está também manchado por três gotas de um vermelho velho e desmaiado. Como diz o Alcorão: Proclama em nome do Senhor teu Criador que fez o homem de um coágulo de sangue.)
1ª Página do livro, Os Filhos da Meia-Noite, de Salman Rushdie, Editores Reunidos, 1994.
Nota: O romance “Os Filhos da Meia-Noite”, é o favorito a converter-se no melhor Prémio Booker da história deste galardão literário, que completa agora 40 anos e é o mais prestigioso do Reino Unido.
A lista de finalistas foi escolhida por um júri presidido pela biógrafa, romancista e crítica literária Victoria Glendinnir e composto pela escritora e apresentadora Mariella Frostrup e o catedrático John Mullan. O vencedor será anunciado a 10 de Julho, no marco do Festival de Literatura de Londres.
Os leitores têm até à meia-noite de 08 de Julho para votar,
na página web do prémio
, no melhor romance premiado com o Booker, concedido pela primeira vez em 22 de Abril de 1969.
Além do romance de Rushdie, premiado en 1981, figuram na lista de finalistas, agora divulgada, “The Ghost Road” (1995), de Pat Barker, “Óscar e Lucinda” (1988), de Peter Carey, “Desgraça” (1999), de JM Coetzee, “ O Conservador” (1974), de Nadine Gordimer, e “The Siege of Krishnapur” (1973), de JG Farrell.
Já quando se celebrou o vigésimo quinto aniversário do galardão, em 1993, o livro de Rushdie fora eleito o melhor “Booker Prize”. Hoje, 15 anos depois, as apostas na firma William Hill voltam a apontá-lo como favorito, seguido pelas obras Pat Barker, Peter Carey, JM Coetzee, Nadine Gordimer e JG Farrell.(Lusa).

Manchester United Campeão


Ia escrever um post, sobre a vitória do Manchester United no campeonato inglês e também que o Cristiano Ronaldo, está prestes a ganhar a Bota de Ouro, de melhor goleador europeu.
Mas depois lembrei-me, que o João é capaz de passar por aqui.

domingo, maio 11, 2008

a um deus desconhecido


A UM DEUS DESCONHECIDO

Ele é que nos faz respirar e a força é dádiva Sua.
As altas divindades respeitam os Seus mandamentos.
A Sua sombra é Vida, a Sua sombra é Morte;
Quem é Ele. a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Apesar do Seu poder, tornou-se senhor da vida e do mundo resplandecente.
E governa o mundo, os homens e as bestas.
Quem é ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Da Sua força as montanhas tomaram forma, e também o mar
E o distante rio;
Sãos esses o Seu corpo e os seus dois braços.
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Fez o Céu e fez a Terra e, pela Sua vontade, ocuparam os seus lugares,
Contudo, olham-No e estremecem.
O Sol nascente brilha sob a Sua vontade.
Quem é Ele, a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Olhou sobre as águas que entesouraram o Seu poder e engendraram a imolação.
É o Deus dos Deuses.
Quem é Ele a Quem oferecemos o nosso sacrifício?

Que não nos fira Aquele que fez a Terra,
Que fez o Céu e o Mar reluzente?
Quem é o Deus a quem oferecemos sacrifícios?

Após o armazenamento das colheitas na quinta Wayne, próximo de Pittsford, no Vermont, quando a lenha para o Inverno estava cortada e a primeira fina camada de neve jazia no solo, Joseph Wayne foi ter com o pai, que se encontrava sentado na cadeira de costas altas, junto da lareira. Aqueles dois homens eram semelhantes. Ambos tinham grandes narizes e maças do rosto salientes; ambos os rostos pareciam feitos do mesmo material, mais duro e durável que a carne, uma substância semelhante à pedra, que não se altera com facilidade. A barba de Joseph era negra e sedosa, ainda suficientemente rala para que o esboço sombreado do queixo se visse através dela. A do velho era longa e branca. Cofiava-a aqui e ali, com dedos cautelosos, tornando-lhe as pontas para a proteger. Só passado um bocado deu pela presença do filho a seu lado. Ergueu os olhos velhos, conhecedores e plácidos olhos muito azuis. Os de Joseph eram também da mesma cor, mas orgulhosos e curiosos com a juventude. Agora que se encontrava junto do pai, hesitava comunicar-lhe a sua nova heresia.
Preâmbulo e 1º página do livro, A Um Deus Desconhecido, de John Steinbeck, editora Livros do Brasil.

Poster de Eusébio


Segundo o Swissinfo, este exemplar de um poster de Eusébio, que se diz, ser único, vai ser colocado à venda no próximo dia 1 de Junho, por um valor fixo de um milhão e meio de euros, numa cerimónia que terá lugar num grande hotel em Neuchatel, data esta que coincide com a presença da selecção de portuguesa em terras helvéticas para a fase final do Euro 2008.
O poster encontra-se guardado a sete chaves num cofre de um banco suíço. O valor pedido de um milhão e meio de euros, caso seja atingido, será empregue em obras do foro social.
O poster em questão foi adquirido pela quantia de mil francos suíços num leilão, no mês de Dezembro de 1989, numa festa para a comunidade portuguesa na Suiça, que contou com a presença do Eusébio, o qual autografou o respectivo poster. Desde então tem merecido a atenção de muitos simpatizantes benfiquistas que têm manifestado interesse em adquirir o mesmo, oferecendo montantes cada vez mais exorbitantes.
Ao que tudo indica, a cerimónia de leilão vai contar com a presença de Eusébio e será circunscrita a jornalistas e a altas individualidades convidadas para o efeito.
Não sei se o poster é único ou não, (duvido muito que o seja, excepto o facto, de ser o único que tem uma assinatura do Eusébio) mas muito mal está este mundo se um simples poster ( de qualidade duvidosa) de uma revista, (a revista Motor?), for licitado e arrematado pelo valor pedido.
Haja vergonha.

Repórteres Sem Fronteiras

Reporters Without Borders
Advertising Agency: McCann Erickson, Geneva, Switzerland
Creative Director: Timo Kirez
Art Director / Illustrator: Angelo Sciullo
Copywriters: David von Ritter, Chantal Panozzo

sexta-feira, maio 09, 2008

Se Isto É Um Homem


SE ISTO É UM HOMEM

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelos e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repetias aos vossos filhos.
Ou então que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entreve,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

Fui capturado pela Milícia fascista a 13 de Dezembro de 1943. Tinha vinte e quatro anos, pouco bom senso, nenhuma experiência e uma acentuada inclinação, favorecida pelo regime de segregação ao qual desde há quatro anos fora obrigado pelas leis raciais, para viver num mundo só meu, pouco real, povoado por civilizados fantasmas cartesianos, por sinceras amizades masculinas e por amizades femininas evanescentes, Cultivava um moderado e abstracto sentido de rebelião.
Não fora fácil para mim escolher a via das montanhas e contribuir para pôr de pé a que, na minha opinião e de outros amigos pouco mais experientes do que eu, deveria transformar-se numa brigada de partigiani filiada no grupo “Giustizia e Libertá”. Faltavam-nos os contactos, as armas, o dinheiro e a experiência para os arranjar; faltavam os homens capazes e, pelo contrário, estávamos submersos por um dilúvio de pessoas desqualificadas, de boa e de má-fé, que chegavam até lá acima vindas da planície à procura de uma organização inexistente, de quadros, de armas, ou apenas de protecção, de um esconderijo, de uma fogueira, de um par de sapatos.
Naquele tempo, ainda ninguém me ensinara a doutrina que mais tarde havia de aprender rapidamente no Lager, segundo a qual a primeira tarefa do homem é tentar alcançar os seus objectivos com meios adequados, e quem errar, paga; por isso, não posso deixar de considerar justo o sucessivo desenrolar dos acontecimentos. Três centúrias da Milícia, partidas no meio da noite para surpreender outra brigada, bem mais potente e perigosa do que a nossa, aninhada no vale adjacente, irromperam numa espectral madrugada de neve no nosso refúgio e levaram-me para o vale como suspeito.
Preâmbulo e 1ª página, do livro, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi, Editorial Teorema, sem data de edição.

O Primeiro-ministro tem razão


José Sócrates, 8 de Maio de 2008, na Assembleia da República, durante a discussão da moção de censura, apresentada pelo Partido Comunista Português, ao seu Governo.

Reciclar


Greenpeace: Recycling

Recycling: You're already doing it.We humans are born to recycle. So why not find out more on how to do all the different kinds of recycling?

Advertising Agency: Ogilvy Asia Pacific
Creative Directors: Andrew Lok, Gary Tranter, Matt Cullen
Art Directors / Copywriters: Andrew Lok, Shannon Tham
Illustrator: Shannon Tham
Published: May 2008

quinta-feira, maio 08, 2008

A Queda


Pelas três horas subiam ao céu negro umas bolas luminosas, submergindo a testa-de.ponte de Kustrin numa luz vermelho-brilhante. Após um momento de sufocante silêncio, começou o estrondo dos canhões, fazendo tremer as planícies do rio Oder muito além de Frankfurt. Como que movidas por uma mão fantasma, as sirenes começaram a entoar, ouvindo-se nalguns sítios até Berlim, os telefones gritavam e os livros caíam das prateleiras. Com vinte exércitos e dois milhões e meio de soldados, mais de quarenta mil lançadores de granadas e peças de campanha, como também centenas de lança-foguetes do tipo Katyusha, com trezentos projécteis por quilómetro, o Exército Vermelho abria a batalha naquele dia 16 de Abril de 1945…
1ª Página do livro, A Queda, Hitler E O Fim do Terceiro Reich, de Joachim Fest, Guerra e Paz Editores, 1ª edição 2007.
Nota: Na realidade não é a primeira página do livro, é apenas meia-página. Mas como repararam o livro não é ficção e tem tudo a ver com a fotografia abaixo publicada.
Esta obra do jornalista e historiador Joachim Fest, serviu de inspiração ao filme homónimo, estreado em 2004.
Joachim Fest ganhou notoriedade em 1973, quando lançou a biografia sobre Hitler, “Hitler. Eine Biografie” (“Hitler. Uma biografia”), considerada ainda hoje a principal obra de referência sobre o ditador.
Um mês antes de morrer (11 de Setembro de 2006) Joachim Fest, não poupou críticas a Gunter Grass, a quem classificou de uma "estridente mentira de vida" e de falso moralista, pela revelação que este fez no seu livro autobiográfico “Descascando a Cebola”, (que seria editado já depois da morte do historiador), de que teria pertencido à força nazista Waffen- SS. "A confissão chega tarde, sobretudo vinda de alguém que durante décadas se apresentou como a instância moral do país" sublinha Joachim Fest. "Grass sempre foi impiedoso quando se tratava de erros da juventude. Eu e muitos camaradas de escola fomos voluntários para a Wehrmacht porque sabíamos que assim evitaríamos acabar nas Waffen-SS", declarou.

Angola é Gerida Por Criminosos


“Angola é gerida por criminosos”, a afirmação é do ex. músico e activista Bob Geldof , proferida, anteontem, numa conferência sobre Desenvolvimento Sustentável, em Lisboa.
Para sustentar a sua afirmação Bob Geldof disse que “as casas mais ricas do Mundo estão na baía de Luanda, são mais caras do que em Chelsea e Park Lane”, estabelecendo como comparação estes dois bairros luxuosos da capital inglesa.
O Grupo Espírito Santo, que co-organizou a conferência com o jornal Expresso, reagiu prontamente, demarcando-se das afirmações do músico. É natural as instituições financeiras serem esquivas. As instituições políticas, também.
Na realidade, as afirmações não são disparatadas*, por isso, impõe-se uma pergunta: Qual foi a parte que não compreenderam das afirmações de Geldof?
*A única actividade de José Eduardo dos Santos, nos últimos 28 anos, foi ser Presidente de Angola (este facto por si só, quase diz tudo), com esta actividade, tornou-se no homem mais rico de Angola e frequentemente apontado, como um dos 20 homens mais ricos do mundo, apesar de ser difícil, quantificar uma fortuna ilegítima. Como é isso possível?
A explicação, para o enriquecimento ilícito do presidente angolano, talvez esteja no facto de Angola ser considerada em 2003 " como um dos cinco países mais corruptos a nível mundial", no relatório da Transparência Internacional; Madagáscar, o Paraguai, a Nigéria e o Bangladesh são os outros quatro países que disputam com o Estado angolano o triste lugar de nação mais corrupta.
Como disse, Lord Acton, na sua carta ao Bispo M.Creighton, “quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, frequentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto, corrompe absolutamente.”

Bandeira Soviética no Reichstag


Fotografia de Yevgeny Khaldei/ITAR/TASS
O fotógrafo Yevgeny Khaldei acompanhou as tropas soviéticas na ocupação de Berlim, transportando uma bandeira vermelha atada à cintura.
Sobre os escombros da capital do Reich, entregou-a aos soldados que a ergueram no cimo do Reichstag, no dia 2 de Maio de 1945.
A bandeira soviética a esvoaçar no topo do destruído Parlamento alemão foi apenas o culminar da longa batalha de duas longas semanas, de 16 de Abril a 2 de Maio, pela capital do III Reich. Estima-se que mais de 300 mil russos tenham perdido a vida nesta batalha, assim como mais de 100 mil civis alemães.
A Segunda Guerra Mundial acabaria na Europa, dias depois, a 8 de Maio de 1945, quando o marechal Wilhelm Keitel assinou a rendição incondicional da Wehrmacht.
Berlim seria definitivamente libertada, 44 anos depois com a queda do Muro de Berlim.

terça-feira, maio 06, 2008

Desgraça


Para um homem da sua idade, cinquenta e dois anos, tem resolvido bastante bem, segundo ele, o problema do sexo. Nas tardes de quinta-feira vai de carro até Green Point. Pontualmente, às duas da tarde, carrega na campainha da entrada para a Windsor Mansions, diz o nome e entra. À sua espera, á porta do 113, está Soraya. Dirige-se directamente para o quarto, que tem um cheiro agradável e uma iluminação suave, e despe-se. Soraya, da casa de banho, deixa cair o robe e, deslizante, deita-se na cama a seu lado. – Tivestes saudades minhas? - pergunta ela. – Tenho sempre saudades tuas - responde ele. Acaricia-lhe o corpo cor de mel no qual o sol não deixou marca; estende-a e beija-lhe os seios; fazem amor.
Soraya é alta e esguia, de longos cabelos negros e olhos escuros e húmidos. Tecnicamente, ele tem idade suficiente para ser pai dela; mas, também, é possível ser-se pai aos doze anos. Há mais de um ano que ele a visita; considera-a completamente satisfatória. No deserto da semana, a quinta-feira tornou-se um oásis de luxe et volupté.
Na cama Soraya não é exuberante. Na verdade, o seu temperamento é bastante reservado, reservado e dócil. As suas opiniões são, surpreendentemente, moralistas. Fica ofendida com as turistas que mostram os seios (as “tetas” como ela lhes chama) nas praias públicas; acha que os vagabundos deveriam ser presos e mandados varrer as ruas. A ele pouco lhe importa como ela consegue conciliar tais opiniões com a profissão que tem.
Já que ela lhe dá prazer, já que o seu prazer é contínuo, afeiçoou-se-lhe bastante. Acredita que, até certo ponto, esta afeição é recíproca. A afeição pode não ser igual ao amor, mas anda lá perto. Olhando para as suas origens pouco prometedoras, ambos tiveram sorte: ele por tê-la encontrado, ela por tê-lo encontrado a ele.
Os sentimentos dele, está consciente, são complacentes, até excessivamente ternos. Não obstante, não deixa de se agarrar a eles.
1ª Página do livro, Desgraça, de J. M. Coetzee, Publicação Dom Quixote, 1ª edição: Abril de 2000

Ataque Com Napalm


Fotografia de Nick Ut, Associated Press.
Esta fotografia de Nick Ut, Associated Press, tirada em 8 de Junho de 1972, simboliza toda a tragédia que foi a Guerra do Vietname .
O fotógrafo Huynh Cong "Nick" Ut estava a sessenta quilómetros de Saigão quando aviões americanos borbadearam por engano uma aldeia que suspeitavam ser um refúgio vietcong.
Um minuto depois, a pequena Kim Phuc, a rapariga nua no centro da fotografia e outras crianças, correram na sua direcção. Depois de tirar a fotografia, Nick Ut, borrifou com água o corpo de Kim Phuc e levou-a imediatamente ao hospital.
Kim Phuc tinha na altura nove anos e mostra com os seus braços estendidos todo o terror, impotência, dor e sofrimento, infligido pelos bombardeamentos americanos.
Nick Ut ganhou o Prémio Pullitzer, com esta fotografia.

Kim Phuc


Kim Phuc, em 1997 com o seu primeiro filho. Hoje tem 45 anos e vive em Toronto, Canadá, com o seu marido e os seus dois filhos. Kim Phuc passou catorze meses num hospital de Saigão para curar as queimaduras, que sofreu em mais de 90% do corpo. Em 1996, o reverendo John Plummer, que reivindicou a autoria do ataque, pediu-lhe perdão.
Nick Ut e Kim Phuc, encontraram-se em 1989 na cidade de Havana, Cuba, e esta garantiu que o fotógrafo lhe salvou a vida.

segunda-feira, maio 05, 2008

A Última Estação


O ano mudou mais uma vez, trazendo-nos até ao fim da primeira década do novo século. Escrevo os números no meu diário.1910. Será possível?
Lióvuchka está agora a dormir e não vai acordar até ao nascer do dia. Há pouco tempo, o som cavo dos seus roncos fez-me atravessar o corredor até chegar ao quarto. Os roncos dele ressoam pela casa como uma porta que range, e os criados riem-se disso. “Lá está o velhote a serrar lenha”, é o que eles costumam dizer, mesmo à minha frente. Já não me respeitam, mas continuo a sorrir-lhes.
A forma como Lióvuchka ressona já não me incomoda, uma vez que dormimos agora em quarto separados. Quando dormíamos na mesma cama, ele tinha dentes, o que atenuava o ruído.
Seitei-me na cama pequena e estreita e puxei-lhe o cobertor, com motivos de chaves estampadas, até ao queixo. Ele sobressaltou-se e fez uma careta monstruosa, mas não acordou. Quase nada acorda Lev Tolstói. Tudo aquilo que ele faz, fá-lo por completo, quer seja a dormir, trabalhar, dançar, andar a cavalo ou a comer. Estão sempre a escrever sobre ele na imprensa. Até mesmo em Paris, os matutinos adoram todos os mexericos acerca dele, acerca de nós – verdadeiros ou falsos, isso não importa. “O que é que o conde Tolstói gosta de comer ao pequeno-almoço, condessa?”, perguntam eles, a fazerem fila no alpendre da frente para obterem entrevistas nos meses de Verão, quando o tempo em Tula faz desta localidade um destino muito agradável. “É ele quem corta o próprio cabelo? O que está ele agora a ler? Já lhe comprou um presente para comemorar o dia do santo dele?”
As perguntas não me incomodam. Forneço-lhes apenas o suficiente para os enviar de volta felizes. Lióvuchka parece não se importar. De qualquer forma, já não lê os artigos, mesmo quando os deixo na mesa ao lado do pequeno-almoço.”Não têm qualquer interesse”, diz ele. “Não sei por que é que alguém se dá ao trabalho de publicar esse lixo”.
No entanto, olha de relance para as fotografias. Há sempre um fotógrafo por aqui a tirar fotografias a tudo e a implorar por um retrato. Tcherkov é quem mais problemas causa. Pensa que é um artista com a câmara fotográfica, mas é tão absurdo com ela como é com tudo o resto.
1ª Página do livro, A Última Estação, de Jay Parini, Editorial Presença, 1ª edição, Dezembro de 2007.
Nota: Romance histórico baseado nos diários daqueles que integravam o círculo mais próximo de Lev Tolstói, o livro retrata o último ano de vida do famoso escritor.
Lev Nikolaievitch Tolstói, conde de Tolstói, nasceu no seio de uma família nobre, em Yasnaya Polyana, província de Tula, em 28 de Agosto de 1828.
Perdeu os pais ainda muito novo tendo sido criado por parentes. Em 1844, Lev Tolstói iniciou os seus estudos em Direito e Literatura Oriental na Universidade de Kazan, no entanto abandonou a faculdade antes de se licenciar.
Insatisfeito com a educação, regressou aos seus estudos em Yasnaya Polyana, passando grande parte do tempo em Moscovo e em São Petesburgo.Em 1851, o sentimento de vazio existencial levou-o a juntar-se ao irmão, soldado no Cáucaso.
É nesta época que inicia a sua carreira literária, ao publicar a primeira parte da trilogia autobiográfica Infância (1852), que foi concluída com Adolescência (1854) e Juventude (1857).
Em 1857, visitou a França, a Suíça e a Alemanha. Depois das viagens, instalou-se em Yasnaja Polyana e fundou uma escola para filhos de camponeses. Para Tolstói, o segredo para mudar o mundo residia na educação.
Durante as suas viagens pela Europa, analisou a teoria e a prática educacional, tendo publicado artigos e manuais sobre o tema.
Em 1862, casou com Sonya Andreyevna Behrs, que se tornou a sua secretária devota. A sua leitura abrangia a ficção e a filosofia. Entre os seus autores preferidos encontravam-se Platão, Rousseau, Dickens e Sterne. Nos anos 50 lia e admirava Goethe, Stendhal, Thackeray e George Eliot.
A obra Guerra e Paz (1863-69) reflectia o ponto de vista de Lev Tolstói, de que tudo estava predestinado. A sua outra obra-prima surgiu em 1873-77, Anna Karenina.Em 1880, escreveu obras filosóficas como A Confession e What I Believe, que foi banida em 1884.
Começou por ver-se mais como um sábio e um líder moral do que como artista.A partir de 1880, Tolstói atravessou uma profunda crise espiritual e assumiu diversas posições de cariz moral, incluindo a resistência passiva ao mal, a rejeição da autoridade (religiosa ou civil) e a propriedade privada, e um regresso ao cristianismo místico.
Foi excomungado pela igreja ortodoxa, tendo as suas obras posteriores sido proibidas. A Morte de Ivan Ilitch (1886), A Sonata a Kreutzer (1890), Ressurreição (1889-99) e Hadji Mourat (1890-1904) fazem parte deste período.
O desejo que o autor tinha de renunciar aos seus bens e de viver como um camponês perturbou a sua vida familiar, tendo acabado por fugir de casa e morrer com pneumonia numa estação de caminhos-de-ferro em Astapovo, em 7 de Novembro de 1910.

Execução do Guerrilheiro Vietcong


Fotografia Eddie Adams/Associated Press
Esta fotografia tirada por Eddie Adams no dia 1 de Fevereiro de 1968, no início da Ofensiva do Tet, tornou-se um dos ícones dos protestos contra a Guerra do Vietname.
O comandante da polícia de Saigão, o general Nguyen Ngoc Loan, executa com um único tiro um prisioneiro acusado de ser capitão vietcong. No exacto momento em que Loan executa o prisioneiro, o fotógrafo Eddie Adams, da Associated Press, fixou o acontecimento, ganhando o Prémio Pulitzer, com a fotografia.
Adams nunca aceitou o dinheiro do prémio que ganhou com esta fotografia. Quando o general Loan morreu de cancro em 1998, Eddie Adams afirmou: “ O tipo era um herói! A América devia estar a chorá-lo. Detesto vê-lo a partir desta forma, sem as pessoas saberem nada a seu respeito”. Mas, nada mais, disse.

sábado, maio 03, 2008

As velas ardem até ao fim


De manhã o general demorou-se muito na cave do lagar. Foi para a vinha de madrugada, com o vinhateiro, porque dois barris do seu vinho tinham começado a fermentar. Já passava das onze quando acabou o engarrafamento e voltou para casa. Debaixo das colunas do pórtico, cheio de bolor devido às pedras húmidas, esperava o guarda-caça que entregou uma carta ao seu senhor que chegava.
- Que queres? – disse ele, parando com um ar aborrecido. Puxou para trás o seu chapéu de palha, cuja aba larga lhe ensombrava inteiramente o rosto encarnado. Há alguns anos que não abria nem lia cartas. Um feitor abria e seleccionava a correspondência no escritório do caseiro.
-Trouxe-a um mensageiro – disse o guarda-caça que aguardava hirto.
O general reconheceu a letra, pegou na carta e meteu-a no bolso. Entrou no vestíbulo fresco e em silêncio entregou o chapéu e a bengala ao guarda-caça. Procurou os óculos no bolso interior, aproximou-se da janela e, na penumbra, à luz que vinha das frestas das persianas semicerradas, começou a ler a carta.
-espera – disse por cima dos ombros ao guarda-caça que se apresentava a partir com o chapéu e a bengala.
Enfiou a carta no bolso.
-Diz ao Kálmán que prepare o coche para seis. O landau, porque vai chover. Que ponha a libré de gala. Tu também – disse com uma ênfase inesperada, como se alguma coisa o tivesse enfurecido.
- Quero tudo a brilhar. Comecem imediatamente a limpar o coche e a ferramenta. Vestes a libré, percebes? E sentas-te na boleia, junto ao Kálmán.
-Percebo, Excelência – respondeu o guarda-caça, olhando fixamente o patrão. – Para as seis.
- Vão partir às seis e meia – disse o general e movia os lábios silenciosamente como se fizesse cálculos. – Apresentas-te na Águia Branca. Diz apenas que fui que te mandei e que o coche veio para levar o senhor capitão. Repete.
1ª Página do livro, As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Márai, Dom Quixote, 7ª edição Fevereiro de 2005.
Nota: Gosto muito desta passagem do livro, que passo a transcrever:
É a maior tragédia, com que o destino pode castigar o homem.O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. Temos de nos conformar com aquilo que somos e de ter consciência, quando nos conformamos, de que em troca dessa sabedoria, não recebemos elogios da vida, não nos põem no peito nenhuma condecoração por sabermos e aceitarmos que somos vaidosos ou egoístas, carecas e barrigudos - não, temos de saber que por nada disso recebemos recompensas nem louvores.Temos de suportar, o segredo é isso. Temos de suportar o nosso carácter, o nosso temperamento, já que os defeitos, egoísmo e avidez, não os mudam nem a experiência, nem a compreensão.Temos de suportar que os nossos desejos não tenham plena repercussão no mundo. Temos de suportar que as pessoas que amamos, não nos amem, ou que não nos amem como gostaríamos.Temos de suportar a traição e a infidelidade, e o que é o mais difícil entre todas as tarefas humanas, temos de suportar a superioridade moral ou intelectual de uma outra pessoa.

Santa Nostalgia

Maddie, Morreu Há Um Ano

Faz hoje um ano que angélica Maddie morreu. Uma morte triste, solitária e nebulosa, para tão curta existência.