domingo, novembro 09, 2008

A Noite de Cristal


Se há dia fatídico para a Alemanha esse dia é o 9 de Novembro; no século passado este dia foi a data de, pelo menos, quatro acontecimentos históricos que marcaram a História do país e modelaram, também, a história europeia.
No dia 9 de Novembro de 1918, o social-democrata Philipp Scheidemann proclamou a República na Alemanha, de uma varanda do Reichstag, na capital Berlim.
A 9 de Novembro de 1923, os nazistas de Munique, comandados por um desconhecido de nome Adolf Hitler, fizeram uma tentativa de golpe, com o objectivo de tomar o poder da Baviera para, em seguida tomar o poder do país. Esta tentativa de golpe passou à História como o “ Putsch da Cervejaria”, pois tudo começou na famosa cervejaria Burgebraukeller, onde o ex.cabo do exército alemão, reuniu um grupo de seguidores e após um tiro no tecto, marcharam até à sede do Ministério de Guerra Bávaro, para derrubar o que consideravam ser o governo traidor da Baviera, de modo a iniciar a marcha sobre Berlim. Os que não foram mortos, nesta tentativa de golpe, acabaram presos, como o desconhecido Adolf.
A 9 de Novembro de 1989, foi o dia que mudou o destino da Alemanha e do Mundo, com a queda do Muro de Berlim, um acontecimento de amplas consequências geográficas, políticas e estratégicas. Menos de um ano depois, a 3 de Outubro de 1990, dá-se a reunificação da Alemanha, que estivera dividida durante 41 anos em duas repúblicas, de um lado a R.F.A e do outro lado a R.D.A.
Com o fim da República Democrática Alemã, dá-se o desmoronamento de todos os regimes comunistas da Europa de Leste, colocando um ponto final na guerra-fria e mudando completamente o mapa político do Mundo.

Mas o acontecimento, que é a razão deste texto deu-se faz hoje setenta anos. Na noite do 9 para 10 de Novembro de 1938, agentes nazistas assassinaram 91 judeus e outros 30 mil foram detidos, para além de incendiarem 267 sinagogas, saquearem e destruírem cerca de 7500 lojas e empresas da comunidade judaica. Os judeus com mais de 18 anos foram humilhados, amedrontados, presos e enviados para campos de concentração.
A Noite de Cristal (Kristallnacht) em referência aos vidros partidos dos estabelecimentos comerciais destruídos, marcou o início do Holocausto, que causou a morte de seis milhões de judeus na Europa até o final da II Guerra Mundial.
A razão apresentada pelos nazistas para o pogrom de 1938 foi o assassinato do diplomata alemão Ernst von Rath, em Paris, pelo jovem estudante polaco e judeu Herschel Grynszpan de 17 anos, dois dias antes.
No entanto, a perseguição nazista à comunidade judaica alemã já havia começado em Abril de 1933, com o apelo feito pelo regime nazista aos cidadãos alemães de boicotarem estabelecimentos judeus. Mais tarde, os judeus foram proibidos de frequentar todos os estabelecimentos públicos, inclusive escolas e hospitais.
No Outono de 1935 a perseguição aos judeus, considerados inimigos dos alemães, atingiu um ponto de não retorno com a chamada, Legislação Racista de Nuremberga. A lei de 15 de Novembro de 1935 proibia os casamentos de judeus com alemães, as relações extraconjugais entre alemães e judeus, que alemães fizessem serviços domésticos para famílias judaicas ou que um judeu hasteasse a bandeira nazista. Ainda em 1938, as crianças judaicas foram expulsas das escolas e foi decretada a expropriação compulsiva de todas as lojas, indústrias e estabelecimentos comerciais dos judeus.
Os ataques que ficaram na História como “ A Noite de Cristal” foram o sinal definitivo de que o regime nazista não conhecia limites em relação à perseguição dos judeus. A destruição, humilhação, prisões e mortes daquele dia foram o prenúncio do Holocausto e o primeiro passo rumo ao que o regime nazista designaria como Solução Final para o extermínio dos judeus.

quinta-feira, novembro 06, 2008

Michael Crichton


O escritor, argumentista e realizador Michael Crichton, um mestre do thriller norte-americano, autor de, entre outros livros, o Parque Jurássico, O Mundo Perdido, Congo, Presas ou Next, mas também da série televisiva ER-Serviço de Urgência, morreu ontem em Los Angeles, aos 66 anos anunciou a família num comunicado emitido pela estação norte-americana de televisão CNN.
A morte de Michael Crichton foi inesperada, adiantou a família, apesar do escritor, travar há já algum tempo uma batalha contra um cancro.
Segundo a família, Michael Crichton, é descrito como “um pai e marido dedicado e um amigo muito generoso”, ficará lembrado pelo modo como mostrava “as maravilhas do mundo através de um olhar diferente”. “E fez isso com um sentido de humor que todos os que tiveram o privilégio de o conhecer pessoalmente nunca esquecerão”.
Embora nunca tenha exercido medicina, a experiência no hospital serviu-lhe de matéria-prima para escrever a série televisiva ER-Serviço de Urgência, que deu a conhecer George Clooney. A série foi capa da revista Newsweek e vencedora de oito prémios Emmy, em 1995.
A trilogia "Parque Jurássico" – com realização de Steven Spielberg os dois primeiros filmes e de Joe Johnson o terceiro – é a obra cinematográfica inspirada num livro do autor mais conhecida, no entanto, Crichton teve 13 dos seus livros adaptados ao cinema.
John Michael Crichton nasceu em Chicago em 1942 ( 23 de Outubro), era filho de um jornalista que o incentivou a escrever. Michael Crichton passou os primeiros anos de sua infância em Chicago até que a família se mudou para Nova Iorque onde, apenas com 14 anos, publicou o seu primeiro artigo no "The New York Times". Os seus primeiros livros apareceram assinados com pseudónimo: Jeffery Hudson.
Estudou Antropologia em Harvard 1965 e mais tarde formou-se em Medicina na Harvard Medical School e nos primeiros anos da década de 70 partiu para a Califórnia, aí começando a dirigir filmes baseados nos seus livros.
Aos 29 anos teve o seu primeiro livro, The Andromeda Strain, adaptado ao cinema em 1971. No ano seguinte, já como realizador fez o tele-filme Pursuit e em 1973 dirigiria Westworld. Em 1978 escreveu e dirigiu o filme Coma, baseado no livro do mesmo nome, do escritor Robin Cook, especialista em escrever livros de suspense na área da medicina.
Da sua carreira como realizador é de salientar ainda os filmes The Great Train Robbery, Looker (1981),Runaway (1984) e Physical Evidence (1989).
Michael Crichton já vendeu mais de 100 milhões de livros em todo o mundo, encontrando-se traduzido em 35 línguas. Na sua basta obra (Sol Nascente, O Mundo Perdido, O Homem Terminal, Congo, A Esfera, Resgate no Tempo, Revelação, Estado de Pânico, Presas e Next) popularizou temas de ciência e tecnologia, tais como a clonagem,a nanotecnologia ou a inteligência artificial. Desaparece um grande contador de histórias.

quinta-feira, outubro 30, 2008

A Guerra Dos Mundos


Era uma noite normal de Outono, naquele dia 30 de Outubro de 1938, até que a emissora de rádio CBS interrompeu a sua programação habitual para noticiar uma suposta invasão de marcianos.
Dramatizando o livro de ficção científica A Guerra dos Mundos, do escritor inglês H.G. Wells, o programa relatava a chegada de marcianos a bordo de naves extraterrestres à cidade de Grover’s Mill, no Estado de Nova Jersey. Os méritos da genial adaptação, produção e direcção da peça eram do então jovem e quase desconhecido actor e realizador de cinema Orson Welles.
O programa transmitido com reportagens em directo, entrevistas com testemunhas que estariam a viver os acontecimentos, opiniões de peritos e autoridades, efeitos sonoros, sons ambientes, gritos, a emoção dos supostos repórteres e comentaristas, dava a impressão de ser um acontecimento real, aumentando assim o carácter dramático do teatro radiofónico.
O medo e o pânico, tomou conta das cidades de Nova Jersey, Nova Iorque e Newark, com fugas em massa e reacções desesperadas dos moradores.
A CBS calculou que o programa foi ouvido em directo por cerca de seis milhões de pessoas, metade das quais, sintonizou o programa quando este já tinha começado, perdendo a introdução que informava tratar-se de um teatro radiofónico. Mais de um milhão de pessoas acreditou ser um facto real.
O jornal Daily News resumiu na manchete do dia seguinte a reacção ao programa: “Guerra falsa no rádio espalha terror pelos Estados Unidos”.
A Guerra dos Mundos não só tornou Orson Welles mundialmente famoso como é, segundo cientistas da área da comunicação social, o programa que mais marcou a história dos media no século XX.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Hu Jia


O Prémio Sakharov 2008 para a liberdade de pensamento foi hoje atribuído ao dissidente chinês Hu Jia, apesar das pressões exercidas pela China sobre os eurodeputados no sentido de fazerem outra escolha, anunciou hoje o grupo político dos Verdes no Parlamento Europeu.
Hu Jia conhecido internacionalmente pelas campanhas em defesa do ambiente, da liberdade religiosa ou dos direitos dos portadores de HIV, foi detido pelas autoridades chinesas em 27 de Dezembro de 2007, junto com a sua mulher Zeng Jinyan, sendo condenado
no passado dia 3 de Abril por “incitação à subversão do poder estatal e do sistema socialista” a três anos e meio de prisão, e mais um ano de privação dos seus direitos políticos.
E o que fez este perigoso subversivo?
Escreveu dois artigos na Internet onde num deles, critica o conceito “Um país, dois sistemas”, dizendo que a China não precisa de dois sistemas, basta a democracia. No outro artigo, escrito em conjunto com Teng Biao, professor de direito, advertiam os estrangeiros que vão visitar Pequim durante os Jogos Olímpicos que: “Deveis saber que este entusiasmo, estes sorrisos, esta harmonia e prosperidade existem à custa da injustiça, de lágrimas, de prisões, tortura e sangue”.
Pura e simplesmente, o exercício da sua liberdade de expressão.
O Prémio Sakahrov é atribuído pelo Parlamento Europeu, a personalidades que se distinguiram na defesa dos direitos humanos. A entrega do prémio decorrerá numa cerimónia solene do Parlamento Europeu, em Estrasburgo a 17 de Dezembro.
O Prémio Sakahrov celebra este ano o vigésimo aniversário e já distinguiu grandes personalidades da defesa dos Direitos Humanos, como são o antigo presidente da África do Sul Nelson Mandela, a militante birmanesa Aung San Suu Kyi e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan.

terça-feira, outubro 21, 2008

O Mito da Justiça Social


Desigualdade em Portugal entre pobres e ricos aumentou nos últimos anos Portugal está entre os países onde existem as maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos entre cidadãos pobres e ricos. Os dados são avançados hoje num relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) intitulado “Crescimento e Desigualdades”.
O fosso entre ricos e pobres é cada vez maior em quase todos os países membros da OCDE e Portugal está entre os piores ao lado dos Estados Unidos e apenas atrás da Turquia e México com as desigualdades a traduzirem-se num aumento da pobreza infantil.
As excepções, segundo o relatório da OCDE “Crescimento e Desigualdades”, chegam da Espanha, França e Irlanda, com os autores do estudo a colocarem a Dinamarca e a Suécia à frente dos países mais justos, com um coeficiente de 0,32.
No sentido oposto, ou seja, no topo da tabela dos mais injustos é colocado o México (0,47), seguido da Turquia (0,42) e de Portugal e dos Estados Unidos (ambos com 0,23).
Pode ler-se no relatório que “em três quartos dos 30 países da OCDE, as desigualdades de rendimentos e o número de pobres aumentaram durante as duas últimas décadas”, mas alguns países registaram melhores resultados do que outros.
Desde o ano 2000, por exemplo, o fosso entre ricos e pobres aumentou no Canadá, Alemanha, Noruega, Estados Unidos, Itália e Finlândia, mas diminuiu no México, Grécia, Austrália e Reino Unido, com a OCDE a definir como situação de pobreza quando os rendimentos são inferiores a 50 por cento da média de cada país.
Outros dos graves problemas levantados pelo relatório da OCDE refere-se à pobreza das crianças que aumentou nos últimos 20 anos e “situa-se hoje acima da média geral”.
Países como a Alemanha, República Checa, Canadá e Nova Zelândia viram a pobreza das crianças aumentar”, mas, em contrapartida, a faixa etária entre os 55 e os 75 anos “viu os seus rendimentos aumentar mais nos últimos 20 anos”.
Perante os dados apresentados neste relatório a OCDE avança com o pedido de implementação de medidas preventivas, nomeadamente a promoção do acesso a um trabalho remunerado, até porque a organização assinala ser nos países com maiores taxas de emprego que o número de pobres é menor. (Lusa).
A imoralidade não ficará por aqui. No nosso país, os políticos, os gestores, os altos quadros da administração pública e outros tantos empregados de topo, ganham ao nível de países mais desenvolvidos do mundo, o que seria muito bom para o país, não fosse o caso de os salários médios dos trabalhadores portugueses continuarem, ano após ano, a não passarem de salários de miséria. Com este fosso entre os salários dos mais ricos e os salários dos mais pobres, onde não há vislumbre de parar de aumentar, a situação de injustiça social tende a agravar-se e não a ser esbatida.

Unforgettable Colors




Unforgettable colors.
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Creative Director: Gerson Lattuada
Art Director: Gustavo Panichi
Copywriter: Tiago Canto
Published: October 2008

sexta-feira, outubro 17, 2008

Uma Carta Para Garcia





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Vale a pena gastar vinte minutos a ler esta carta.

Uma Carta Para Garcia (I)





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Uma Carta Para Garcia (II)





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Uma Carta Para Garcia (III)




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Líderes Empenhados

Líderes europeus empenhados na procura da solução para a crise financeira.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Le Clézio


O Prémio Nobel da Literatura deste ano foi atribuído ao escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio, anunciou esta manhã o Comité da Academia Sueca.
O Comité Nobel considerou o escritor merecedor do prémio pela sua narrativa de «aventura poética» e de «êxtase sensual», «explorador de uma humanidade para além (...) da civilização reinante».
Jean-Marie Gustave Le Clézio, escreveu o seu primeiro livro aos sete anos durante uma travessia marítima rumo à Nigéria.
A sua literatura confunde-se com as viagens, que não cessou de empreender. Ganhou a admiração de filósofos como Michel Foucault e Gilles Deleuze, que apreciaram a sua escrita inovadora e revoltada.
Filho de um cirurgião britânico e de uma francesa da Bretanha, nasceu em Nice, sul da França, em 13 de Abril de 1940.
Formado em Letras, trabalhou na Universidade de Bristol e de Londres, em Inglaterra, dedicando uma tese ao poeta Henri Michaux, também ele um viajante. Com 23 anos ganha o Prémio Renaudot, um importante galardão francês, por um ensaio que ainda hoje é considerado magistral, "Le procès-verbal".
Depois de ensinar nos Estados Unidos, em 1967 cumpre o serviço militar na Tailândia, como cooperante, donde é expulso por denunciar a prostituição infantil. Termina o seu serviço militar no México.
Durante quatro anos, de 1970 a 1974, partilha a vida com índios do Panamá, uma experiência que terá grande influência na sua escrita. Depois, ensina em Albuquerque, nos Estados Unidos.
A sua obra, que compreende contos, romances, ensaios, novelas, traduções de mitologia ameríndia, numerosos prefácios e artigos, é considerada como crítica do Ocidente materialista e uma atenção constante aos mais fracos e aos excluídos.
Numa sondagem, realizada em 1994 pela revista francesa Lire, foi considerado como o "maior escritor vivo da língua francesa".
Casado e pai de duas filhas, Le Clézio vive em Albuquerque, mas desloca-se frequentemente entre Nice e uma casa que possui na Bretanha.
"O Processo de Adão Pollo", "O caçador de tesouros", "Deserto" (considerado a sua obra-prima), "Estrela errante", "Diego e Frida", "Índio branco", são os livros de Le Clézio traduzidos em Portugal, cuja obra ultrapassa os 50 títulos.
Em reacção à atribuição do Prémio Nobel o escritor francês, declarou estar "muito emocionado e muito sensibilizado", numa entrevista à rádio sueca.
"É uma grande honra para mim", disse ainda o laureado, precisando que agradecia "com toda a sinceridade à Academia Nobel".
Le Clézio afirmou ainda que estará em Estocolmo no dia 25 de Outubro para receber o prémio Stig Dagerman, um prémio literário sueco que lhe foi atribuído em Junho. (com Lusa).

L'Autre Monde de Le Clézio


Um texto soberbo de Daniel Rondeau, no jornal francês L'Express.
Long poème en prose, Révolutions parle de l'espèce humaine, de la douceur et de la douleur d'exister. Comme le point d'orgue d'une œuvre qui ne cesse, depuis quarante ans, d'explorer les territoires encore vierges qui s'étendent entre la réalité et nous
Révolutions est un roman remarquable où les sentiments passent l'ordinaire - l'enthousiasme et le courage ne sont pas exclus - où les époques se chevauchent, où les hommes se parlent et se répondent. Certains ont disparu dans le puits du temps. D'autres vivent loin de leur pays natal. Mais ils ne sont pas des isolés. Tous attendent, quelque chose ou quelqu'un. Ce peut être un instant de bonheur ou de liberté supérieure, une leçon de sagesse antique, un amour impossible. Ou tout simplement la mort. Il y a de la grandeur et de la fragilité dans leur veille.
L'auteur remue des ombres, les déplace avec sa plume d'un profil à l'autre. Le mouvement de ces ombres qui bougent est celui du livre tout entier. Les vivants et les morts, les continents et les îles, les mers et les océans, les jours d'hier et ceux d'aujourd'hui, les guerres et les révolutions en armes s'enchaînent à la révolution universelle des astres, de la lumière et de la nuit. Un autre monde apparaît. L'auteur se tient dans une position légèrement oblique par rapport à sa création. Nous reconnaissons aussitôt Jean-Marie G. Le Clézio.
«Votre livre, Le Procès-Verbal, m'a entraîné dans un autre monde,le vrai, probablement» Général de Gaulle
Débuts solaires.
La France des années 1960 avait vu apparaître un écrivain de 23 ans nommé Le Clézio, qui portait avec discrétion et noblesse ses orgueils intérieurs. C'était la saison des prix littéraires. Le visage du débutant, net et poétique, avec des yeux d'une pâleur pure, sa longue silhouette solaire focalisèrent cette année-là la lumière de l'automne. Il n'y avait pas que les photographes pour s'intéresser à ce jeune homme. Le général de Gaulle lui écrivit pour le remercier de l'envoi de son livre: «Votre livre, Le Procès-Verbal, m'a entraîné dans un autre monde, le vrai très probablement...» Beaucoup d'autres n'auraient pas survécu à pareil accueil. Le Clézio avait pour lui une liberté d'étoile, qui le protégea des caresses qui font mourir. Et sa fraîcheur ne fut pas perdue. Il continua ce pour quoi il était fait: écrire, écrire comme on cherche un trésor. Le romancier a raconté le désert, l'éblouissement du minéral, les nuits saisies dans leur beauté de glace, les errances d'hommes changés en pierre (il lui arrive d'être ennuyeux), puis s'est éloigné de cet univers de silice en se souvenant de ses aïeux, restés vivants dans ses pensées, malgré la puissance du temps.
Mirage de l'espace, plainte du temps. Chacun de ses livres, désormais, semblait ajouter un nouveau chapitre à une méditation jamais discontinuée sur l'enfance, sur le destin, souvent absurde, et sur les chimères capables d'enflammer l'esprit des hommes les plus sages. Avec ce nouveau roman, Le Clézio s'abandonne une fois encore au mirage de l'espace et à la plainte du temps. Mais son Révolutions n'est pas répétition. Lisons ce long poème en prose plutôt comme une œuvre d'une ampleur nouvelle, fécondée par la force de vieux songes, habitée par des apparitions plutôt que par des personnages, et qui parle de l'espèce humaine, de la douceur et de la douleur d'exister. D'une certaine façon, on peut affirmer que Révolutions est le point d'orgue d'un cycle, commencé avec une autorité surprenante, il y a quarante ans exactement, par un auteur fidèle aux voix et surtout aux silences de son enfance, dans un palais décrépi du vieux Nice, et qui n'a cessé de déchiffrer un palimpseste de territoires encore vierges, qui s'étendent entre la réalité et nous.
«Il pensait: je vais voyager. je vais continuer, nager vers l'horizon,si loin que je ne pourrai plusrevenir en arrière»
C'est l'histoire, très classiquement construite, de plusieurs existences, ressuscitées par la quête du narrateur, Jean, qui cherche les chaînons manquants, les éléments décisifs qui font défaut à ces destins et reconstitue le puzzle. Pendant ce temps, sa vie continue et fait écho à ce passé murmuré qui chante à ses oreilles. Ce Jean en question ressemble aux héros habituels de Le Clézio. «Il pensait: je vais voyager. Je vais continuer, nager vers l'horizon, si loin que je ne pourrai plus revenir en arrière. Un instant il avait pensé cela, non pas mourir, mais partir. Mais quelque chose l'en avait empêché. Le soleil était devenu immobile, il s'était durci. Sous le corps de Jean, la mer était devenue profonde, froide, effrayante.» Ce qui est nouveau, c'est la façon qu'a l'auteur de rendre ce Jean à son temps - la guerre d'Algérie, le décompte des morts, les sursitaires, le départ des pieds-noirs, le Londres prolétarien des années Blow up, les rues sombres, les façades de brique, la pluie, l'indifférence des passants, les émeutes de Mexico en 1968, la tristesse de la ville, son collier de volcans - et de l'envoyer en lune de miel à l'île Maurice. Il y a du Bildungsroman dans ce Révolutions, qui est aussi l'éducation sentimentale et politique d'un jeune homme né près de la Méditerranée, à une époque où les peuples antiques qui habitaient ces deux rives commencent d'entrer dans leur agonie. L'éternité aussi est fragile.
Le récit s'appuie sur des noms magiques, calices toponymiques où macèrent les songes, les regrets, les désirs d'aventure et de solitude à la Robinson. Citons-en quelques-uns: la Kataviva, Ipah (Malaisie), Odessa, sur la mer Noire, Chichester, Trieste, Ekaterinbourg, Palma de Majorque, Rozilis, Ebène, etc. A Gethsémani, un ange passe. D'autres noms, plus inattendus chez Le Clézio, appellent l'Histoire et la font vivre au présent. Châlons, Les Islettes, la forêt d'Argonne. Les soldats de l'an II sont la Révolution en marche. Ils traversent la France à pied pour sauver la République. Sous les ailes du moulin de Valmy, le «voisinage du sang» et le «bourdonnement d'abeilles des boulets» bercent étrangement les cœurs et métamorphosent ces fils de rien venus de leurs provinces lointaines défendre la patrie et la liberté.
L'ivresse des batailles n'interdit pas la réflexion. La mère du sans-culotte dit à son fils qu'il y a un autre pays, au sein de la Nation, qui n'appartient qu'à Dieu, et les massacres de Septembre, les campagnes devenues déserts troublent la belle ardeur des volontaires. La liberté n'est pas trahie seulement sur le sol de la patrie. Sous les tropiques aussi, des hommes de 1789 oublient leurs devoirs sacrés et laissent les esclaves dans les chaînes. Il y a quelque chose d'irréparable dans cette tragédie, et dans le soulèvement de ceux qui veulent rejoindre «les libres», narrée comme si elle était vécue et soufferte personnellement par l'auteur, même s'il cherche à s'en dégager. L'odeur du sang se mêle à celle des fleurs et à celle de la terre après la pluie. Tout se passe toujours ailleurs et finit là où tout a commencé. Des hommes écoutent la vie se précipiter au fond d'eux-mêmes, des souvenirs grondent, s'apaisent, des visages aimés s'effacent. Tout cela, ce qu'on appelle l'Histoire, a-t-il un sens? Non, répond Jean, qui s'abandonne à la rêverie. Tout est vent, seulement vent. Mais quand même: le livre ne se ferme pas sans qu'un nouveau visage apparaisse. C'est un enfant.

quinta-feira, setembro 18, 2008

García Lorca


A família de Federico García Lorca autorizou a abertura da vala comum onde os restos mortais do poeta permanecem desde que foi fuzilado na Guerra Civil da Espanha, há 72 anos.
Os descendentes de Lorca vinham resistindo a autorizar a exumação, mas cederam ante a pressão nos tribunais dos parentes de outros sepultados na mesma vala, mas temem que a exumação se transforme num “espectáculo”.
Desde a criação da Lei da Memória Histórica, em reconhecimento dos mortos na Guerra Civil Espanhola, os descendentes dos fuzilados Galadí Meljar e de Dióscono Galindo, mantiveram uma disputa com a família Lorca durante três anos, para exumar os restos mortais dos seus ascendentes, para lhe fazerem um funeral digno e conhecer os verdadeiros detalhes dos assassinatos.
A mudança de opinião da família Lorca surgiu depois de no dia 12 de Setembro último, os descendentes de Francisco Galadí Meljar e Dióscoro Galindo, fuzilados com Lorca e enterrados na mesma vala que o poeta entrarem com uma acção judicial em Madrid. Foi o último recurso para tentar abrir a vala e recuperar os restos mortais de seus parentes, pois não lograram convencer a família Lorca até então.
O Juiz Baltasar Garzón respondeu que estudaria a possibilidade de ordenar a exumação mesmo que os Lorca se opusessem. A família do famoso poeta e dramaturgo diz temer que a exumação “vire um espectáculo, o que é muito difícil de evitar. Queremos que se faça com muito respeito e de maneira privada”, explicou Laura García Lorca. A exumação também poderá ajudar a esclarecer detalhes sobre a biografia do poeta. Os dados mais divulgados indicam que Garcia Lorca foi assassinado no dia 19 de Agosto de 1936. Tinha 38 anos quando foi preso na cidade de Granada, acusado pelo regime militar de ser subversivo e homossexual. A prisão teria acontecido três dias antes da execução e o poeta ainda teria sido espancado e humilhado em público antes do fuzilamento. Com ele, foram fuzilados o professor Dióscoro Galindo, republicano e acusado de negar a existência de Deus porque ensinava educação laica a famílias pobres e os sindicalistas Francisco Galadí Meljar e Joaquim Arcollas Cabezas, este último não deixou descendentes.
Foram todos enterrados numa vala comum debaixo de uma oliveira, num lugarejo conhecido como o Barranco de Víznar, onde hoje há um pequeno parque em homenagem as vítimas da Guerra Civil.
Falta apenas definir a data da exumação e o futuro dos restos mortais de Lorca, estando a família a estudar várias possibilidades: levá-lo para Nova Iorque para o jazigo do pai dele, para Madrid, onde estão enterradas a mãe e as irmãs, espalhar as cinzas por lugares onde ele morou ou sepultá-lo no mesmo local onde está a vala comum.
Federico Garcia Lorca nasceu em Granada em 1898, sendo considerado um dos mais importantes escritores modernos da língua espanhola. Entre as suas mais famosas peças inclui-se a triologia Bodas de Sangue (1933), Yerma (1934) e La Casa de Bernarda Alba (1936). A sua obra Romancero Gitano (1928) mostra a influência das canções andaluzas da região de Granada que o autor combina magistralmente com imagens fortes e surpreendentes.
Da sua obra poética destacam-se, Aire Nocturno, Canción, Canción Menor, Mar, Romance Sonâmbulo e Sueños.
A sua infância e as suas viagens através de Castela inspiraram-lhe um conhecimento do povo espanhol. Dedicou-se à música, à pintura, ao teatro, à poesia. Com a peça Mariana Pineda alcançou a celebridade e com uma compilação de canções ciganas.
Consagrou-se no teatro, enquanto director do grupo ambulante da Barraca e como autor, com peças para teatro de marionetes — O pequeno retábulo de D. Cristóbal, fantasias poéticas — O amor de Perlimplin e de Belisa no seu jardim e uma trilogia dramática — Bodas de sangue.
Apesar de não ser um activista político, nunca deixou de manifestar aversão aos fascistas, que considerava forças opressivas contrárias à criatividade e à liberdade. (Com BBC).

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segunda-feira, setembro 15, 2008

Provincianismo


Se fosse preciso usar de uma só palavra para com ela definir o estado presente da mentalidade portuguesa, a palavra seria “provincianismo”.
Como todas as definições simples esta, que é muito simples, precisa, depois de feita, de uma explicação completa.
Darei essa explicação em dois tempos: direi, primeiro, a que se aplica, isto é, o que deveras se entende por mentalidade de qualquer país, e portanto de Portugal; direi, depois, em que modo se aplica a essa mentalidade.
Por mentalidade de qualquer país entende-se, sem dúvida, a mentalidade das três camadas, organicamente distintas, que constituem a sua vida mental – a camada baixa, a que é uso chamar povo; a camada média, a que não é uso chamar nada, excepto neste caso por engano, burguesia; e a camada alta, que vulgarmente se designa por escol, ou, traduzindo para estrangeiro, para melhor compreensão, por elite.
O que caracteriza a primeira camada mental é, aqui e em toda a parte, a incapacidade de reflectir. O Povo, saiba ou não saiba ler, é incapaz de criticar o que lê ou lhe dizem. As suas ideias não são actos críticos, mas actos de fé ou de descrença, o que não implica, aliás, que sejam sempre erradas.
Por natureza, forma um bloco, onde não há mentalmente indivíduos; e o pensamento é individual.
O que caracteriza a segunda camada que não é a burguesia, é a capacidade de reflectir, porém sem ideias próprias; de criticar, porém, com ideias de outrem. Na classe média mental, o indivíduo, que mentalmente já existe, sabe já escolher – por ideias e não por instinto – entre duas ideias ou doutrinas que lhe apresentem; não sabe, porém, contrapor ambas a uma terceira, que seja própria. Quando, aqui e ali, neste ou naquele, fica uma opinião média entre duas doutrinas, isso não representa um cuidado crítico, mas uma hesitação mental.
O que caracteriza a terceira camada, o escol, é, como é de ver por contraste com as outras duas, a capacidade de criticar com ideias próprias. Importa, porém, notar que essas ideias próprias podem não ser fundamentais. O indivíduo do escol pode, por exemplo, aceitar inteiramente uma doutrina alheia; aceita-a, porém, criticamente, e, quando a defende, defende-a com argumentos seus – os que o levam a aceitá-la – e não, como fará o mental da classe média, com os argumentos originais dos criadores ou expositores dessas doutrinas.
Esta divisão em camadas mentais, embora coincida em parte com a divisão em camadas sociais – económicas ou outras -, não se ajusta exactamente a essa. Muita gente das aristocracias de história e de dinheiro, pertence ao povo. Bastantes operários, sobretudo das cidades, pertencem à classe média mental. Um homem de génio ou de talento, ainda que nascido de camponeses, pertence de nascença ao escol.
Quando, portanto, digo que a palavra “provincianismo” define, sem outra que a condicione, o estado mental presente do povo português, digo que essa palavra “provincianismo”, que mais adiante definirei, define a mentalidade do povo português em todas as três camadas que a compõem. Como, porém, a primeira e a segunda camadas mentais não podem por natureza ser superiores ao escol, basta que eu prove o provincianismo do nosso escol presente, para que fique provado o provincianismo mental da generalidade da nação.
Os homens, desde que entre eles se levantou a ilusão ou realidade chamada civilização, passaram a viver em relação a ela, de uma de três maneiras, que definirei por símbolos, dizendo que vivem ou como os campónios, ou como os provincianos, ou como os citadinos.
Não se esqueça que trato de estados mentais e não geográficos, e que portanto o campónio ou o provinciano pode ter vivido sempre em cidade, e o citadino sempre no que lhe é natural desterro.
Ora a civilização consiste simplesmente na substituição do artificial ao natural no uso e correnteza da vida. Tudo quanto constitui a civilização, por mais natural que nos hoje pareça, são artifícios: o transporte sobre rodas, o discurso disposto em verso escrito, renega a naturalidade original dos pés e da prosa falada.
A artificialidade, porém, é de dois tipos. Há aquela, acumulada através das eras, e que, tendo-a já encontrado quando nascemos, achamos natural; e há aquela que todos os dias se vai acrescentando à primeira. A esta segunda é uso chamar “progresso” e dizer que é “moderno” o que vem dela.
Ora o campónio, o provinciano e o citadino diferenciam-se entre si pelas suas diferentes reacções a esta segunda artificialidade.
O que chamei campónio sente violentamente a artificialidade do progresso; por isso se sente mal nele e com ele, e intimamente o detesta. Até das conveniências e das comodidades do progresso se serve constrangido, a ponto de, por vezes, e em desproveito próprio, se esquivar a servir-se delas. É o homem dos “bons tempos”, entendendo-se por isso os da sua mocidade, se já é idoso, ou os da mocidade dos bisavôs, se é simplesmente párvuo.
No pólo oposto, o citadino não sente a artificialidade do progresso. Para ele é como se fosse natural. Serve-se do que é dele, portanto, sem constrangimento nem apreço. Por isso o não ama nem desama: é-lhe indiferente. Viveu sempre (física ou mentalmente) em grandes cidades; viu nascer, mudar e passar (real ou idealmente) as modas e a novidade das invenções; são pois para ele aspectos correntes, e por isso incolores, de uma coisa continuamente já sabida, como as pessoas com quem convivemos, ainda que de dia para dia sejam realmente diversas, são todavia para nós idealmente sempre as mesmas.
Situado mentalmente entre os dois, o provinciano sente, sim, a artificialidade do progresso, mas por isso mesmo o ama. Para o seu espírito desperto, mas incompletamente desperto, o artificial novo, que é progresso, é atraente como novidade, mas ainda sentido como artificial. E, porque é sentido simultaneamente como artificial é sentido como atraente, e é por artificial que é amado.
O amor às grandes cidades, às novas modas, às “últimas novidades”, é o característico distintivo do provinciano.
Se daqui se concluir que a grande maioria da humanidade civilizada é composta de provincianos, ter-se-á concluído bem, porque assim é.Nas nações deveras civilizadas, o escol escapa, porém, em grande parte, e por sua mesma natureza, ao provincianismo.
A tragédia mental de Portugal presente é que, como veremos, o nosso escol é estruturalmente provinciano.
Não se estabeleça, pois seria erro, analogia, por justaposição, entre duas classificações, que se fizeram, de camadas e tipos mentais.
A primeira, de sociologia estática, define estados mentais em si mesmos; a segunda, de sociologia dinâmica, define estados de adaptação mental ao ambiente.
Há gente do povo mental que é citadina em suas relações com a civilização.
Há gente do escol, e do melhor escol – homens de génio e de talento - , que é campónio nessas relações.
Pelas características indicadas como as do provinciano, imediatamente se verifica que a mentalidade dele tem uma semelhança perfeita com a da criança.
A reacção do provinciano, às suas artificialidades, que são as novidades sociais, é igual à da criança às suas artificialidades, que são os brinquedos.Ambos as amam espontaneamente, e porque são artificiais.
Ora o que distingue a mentalidade da criança é, na inteligência, o espírito de imitação: na emoção, a vivacidade pobre; na vontade, a impulsividade incoordenada.
São estes, portanto, os característicos que iremos achar no provinciano; fruto, na criança, da falta de desenvolvimento civilizacional, e assim ambos feitos da mesma causa – a falta de desenvolvimento.
A criança é, como o provinciano, um espírito desperto, mas incompletamente desperto.
São estes característicos que distinguirão o provinciano do campónio e do citadino.No campónio, semelhante ao animal, a imitação existe, mas à superfície, e não, como na criança e no provinciano, vinda do fundo da alma; a emoção é pobre, porém não é vivaz, pois é concentrada e não dispersa; a vontade, se de facto é impulsiva, tem contudo a coordenação fechada do instinto, que substitui na prática, salvo em matéria complexa, a coordenação aberta da razão.
No citadino, semelhante ao homem adulto, não há imitação, mas aproveitamento dos exemplos alheios, e a isso se chama, quando prático, experiência, quando teórico, cultura; a emoção, ainda quando não seja vivaz, é contudo rica, porque complexa, e é complexa por ser complexo quem a terá; a vontade, filha da inteligência e não do impulso, é coordenada, tanto que, ainda quando faleça, falece coordenadamente, em propósitos frustres mas idealmente sistematizados.
Comecemos por não deixar de ver que o escol se compõe de duas camadas – os homens de inteligência, que formam a sua maioria, e os homens de génio e de talento, que formam a sua minoria, o escol do escol, por assim dizer.
Aos primeiros exigimos espírito crítico; aos segundos exigimos originalidade, que é, em certo modo, um espírito crítico involuntário.
Façamos pois incidir a análise que nos propusemos fazer, primeiro sobre o pequeno escol, que são os homens de génio e de talento, depois sobre o grande escol.
Temos, é certo, alguns escritores e artistas que são homens de talento; se algum deles o é de génio, não sabemos, nem para o caso importa.
Nesses, evidentemente, não se pode revelar em absoluto o espírito de imitação, pois isso importaria a ausência de originalidade, e esta a ausência de talento.
Esses nossos escritores e artistas são, porém, originais uma só vez, que é a inevitável. Depois disso, não evoluem, não crescem; fixado esse primeiro momento, vivem parasitas de si mesmos, plagiando-se indefinidamente.
A tal ponto isto é assim, que não há, por exemplo, poeta nosso presente – dos célebres, pelo menos – que não fique completamente lido quando incompletamente lido, em que a parte não seja igual ao todo.
E se em um ou outro se nota, em certa altura, o que parece ser uma modificação da sua “maneira”, a análise revelará que a modificação foi regressiva; o poeta, ou perdeu a originalidade e assim ficou diferente pelo processo simples de ficar inferior, ou decidiu começar a imitar outros por impotência de progredir de dentro, ou resolveu, por cansaço, atrelar a carroça do seu estro ao burro de uma doutrina externa, como o catolicismo ou o internacionalismo.
Descrevo abstractamente, mas os casos que descrevo são concretos; não preciso de explicar porque não junto a cada exemplo o nome do indivíduo que mo fornece.
O mesmo provincianismo se nota na esfera da emoção. A pobreza, a monotonia da emoção dos nossos homens de talento literário e artístico, salta ao coração e confrange a inteligência. Emoção viva, sim, como aliás era de esperar, mas sempre a mesma, sempre simples, sempre simples emoção, sem auxílio crítico da inteligência ou da cultura. A ironia emotiva, a subtileza passional, a contradição no sentimento – não as encontrareis em nenhum dos nossos poetas emotivos, e são quase todos emotivos. Escrevem, em matéria do que sentem, como escreveria o Pai Adão, se tivesse dado à humanidade, além do mau exemplo já sabido, o, ainda pior, de escrever.
A demonstração fica completa quando conduzimos a análise à região da vontade. Os nossos escritores e artistas são incapazes de meditar uma obra antes de a fazer, desconhecem o que seja a coordenação, pela vontade intelectual, dos elementos fornecidos pela emoção, não sabem o que é a disposição das matérias, ignoram que um poema, não é mais que uma carne de emoção cobrindo um esqueleto de raciocínio. Nenhuma capacidade de atenção e concentração, nenhuma faculdade de inibição. Escrevem ou artistam ao sabor da chamada “inspiração”, que não é mais que um impulso complexo do subconsciente que cumpre sempre submeter, por uma aplicação centrípeta da vontade, à transmutação alquímica da consciência. Produzem como Deus é servido, e Deus fica mal servido. Não sei de poeta português de hoje que, construtivamente, seja de confiança para além do soneto.
Ora, feitos estes reparos analíticos quanto ao estado mental dos nossos homens de talento, é inútil alongar este breve estudo, tratando com igual pormenor a maioria do escol.
Se o escol é assim, como será o não-escol do escol?
Há, porem, um característico comum a ambos esses elementos da nossa camada mental superior, que aos dois irmana, e, irmanados, os dois define: é a ausência de ideias gerais e, portanto, do espírito crítico e filosófico que provém de as ter.
O nosso escol político não tem ideias excepto sobre política, e as que tem sobre política são servilmente plagiadas do estrangeiro – aceites, não porque sejam boas, mas porque são francesas ou italianas, ou russas, ou o que quer que seja.
O nosso escol literário é ainda pior: nem sobre literatura tem ideias. Seria trágico, à força de deixar de ser cómico, o resultado de uma investigação sobre, por exemplo, as ideias dos nossos poetas célebres.
Já não quero que se submetesse qualquer deles ao enxovalho de lhe perguntar o que é a filosofia de Kant ou a teoria da evolução. Bastaria submetê-lo ao enxovalho maior de lhe perguntar o que é o ritmo.
Fernando Pessoa.
Publicado em 1932 na revista Fama, dirigida por Augusto Ferreira Gomes.

Sebastian Vettel


O alemão Sebastian Vettel, piloto da equipa Toro Rosso, com 21 anos e 73 dias, tornou-se ontem no mais jovem piloto, a vencer um Grande Prémio de Fórmula 1, ao vencer o GP de Itália de Fórmula 1.
Vettel que na véspera se tinha tornado o mais jovem piloto a conquistar uma pole position, fez uma corrida de sonho, marcada pela muita chuva que caiu no circuito de Monza. Os recordes anteriores estavam na posse do espanhol Fernando Alonso.
O corredor da Toro Rosso superou o finlandês Heikki Kovalainen (McLaren-Mercedes), segundo classificado, e o polaco Robert Kubica (BMW-Sauber), que assegurou o último lugar do pódio.
O espanhol Fernando Alonso (Renault) terminou a prova italiana na quarta posição, à frente do alemão Nick Heidfeld (BMW-Sauber), do brasileiro Filipe Massa (Ferrari) e do inglês Lewis Hamilton (McLaren-Mercedes), quinto, sexto e sétimo classificados, respectivamente.

BLINDNESS

O último poster de promoção do filme Ensaio Sobre a Cegueira.
Título: Ensaio Sobre a Cegueira
Origem: Canadá, Brasil e Japão (Miramax Films)
Data de estreia (Portugal): 13 Novembro 2008
Realização: Fernando Meirelles
Argumento: Don McKellar, adaptado do romance Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago.
Fotografia: César Charlone, ABC
Música: Marco António Guimarães
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Danny Glover e Gael Garcia Bernal.
Duração: 118 minutos.
Link.

Drogas na estrada



If you drive on drugs, you're out of your mind.
Advertising Agency: Grey Melbourne, Australia
Executive Creative Director: Ant Shannon
Creative Director: Nigel Dawson
Art Directors: Connor Beaver, Holly Whittaker
Photographer: Rod Shaffer
Copywriter: Ben Keenan