quarta-feira, janeiro 24, 2007

Eusébio da Silva Ferreira



Eusébio da Silva Ferreira nasceu no dia 25 de Janeiro de 1942,em Mafalala, um bairro pobre de Lourenço Marques, actual Maputo, em Moçambique. Oriundo de uma família muito modesta, a sua infância foi passada a jogar na rua com bolas de trapos.
"Quando Eusébio tinha cerca de 6 anos, entrou para a Escola primária, sem que revelasse especial apetência pelo estudo. Já as bolas de papel, de trapos ou de meias, cruzavam-se à frente dos seus olhos arregalados.”Falta um”, alguém gritou, recorda Eusébio, no belo dia que se sentiu pela primeira seleccionado. E até nada o perturbou por ter sido última escolha. O cenário foi um campo de terra quente, ligeiramente acidentado, de balizas improvisadas com pedras ou talvez caniços.
Amava a bola. Amava o jogo. As proibições, as reprimendas, as sovas de varapau, constrangiam Eusébio. Tinha 11 anos quando o Chico se encostou à sua vida. “O senhor Chico”, lembra em sinal de respeito “era doido por futebol”. Deficiente físico, sem braço direito, adepto do Belenenses, vendia cautelas nas ruas da cidade. Era um entusiasta dos imperdíveis jogos dos miúdos do bairro. O Chico teve uma ideia peregrina, o de formar uma equipa de futebol, a que deu o nome de “os brasileiros”, clube que usava alcunhas dos jogadores do Brasil: Eusébio era o “Pele”."
Mais tarde, recusado pelo “Desportivo”, foi para o Sporting de Lourenço Marques, onde chega ao título de campeão moçambicano com apenas 16 anos, sendo o mais jovem jogador da equipa sénior e um dos melhores marcadores da equipa.
Em 1960 a equipa do Sporting de Lourenço Marques foi numa digressão às Ilhas Maurícias, e na metrópole ouviam-se ecos de um rapaz que fazia maravilhas com a bola.
O assédio do exterior não se fez esperar. O FC Porto foi o primeiro clube a manifestar interesse em trazer Eusébio para a Metrópole. Só que o Benfica já estava avisado do seu valor, e os responsáveis «encarnados», aproveitando uma viagem que entretanto fizeram com a equipa à capital moçambicana, trataram logo do negócio. Na tentativa de provocar um volta-face, o Sporting ainda se intrometeu no processo, e a ordem de ataque chegou a partir, quase em simultâneo, de Alvalade, mas já era tarde.
Eusébio ainda hoje agradece a Jaime Duarte (que contara com a ajuda de Hilário para fazer a aproximação) a atitude que este tomou, não forçando em excesso a sua resistência. É que, por mais anos que viva, nunca esquecerá a sensação que teve quando aquele ex-representante leonino lhe colocou 500 contos em cima de uma mesa; bastava-lhe rabiscar o nome num contrato para elas passarem para as suas mãos. «Nunca tinha visto tanta nota junta. Mas não as aceitei, porque iria arranjar um problema de todo o tamanho se desrespeitasse a palavra da minha mãe.» A verdade é que, apesar de resistir, estava fascinado por ver tanto dinheiro à sua frente. Jaime Duarte compreendeu-o. Num gesto brusco, meteu as notas no bolso, despediu-se e saiu porta fora.
Foi um alívio. Eusébio mantinha assim vivo o comentário que a mãe fizera quando o brigadeiro Rodrigues Carvalho conseguira obter o seu compromisso a troco de 110 contos, também entregues em mão: «Filho, isto é que é dinheiro grosso.» Em todo o caso, o episódio teve o condão de fazer o Benfica aumentar a parada, dando-lhe mais 140 contos e fixando-lhe o ordenado mensal em seis mil escudos. Eusébio teve muitos dias de glória sobre os relvados de todo o mundo, mas no seu álbum de recordações está registada a letras de ouro uma noite vivida no recato de um quarto algarvio, muito antes de entrar na galaria das estrelas. O «forcing» do Sporting fez com que os dirigentes do Benfica levassem Eusébio em segredo para o Algarve, a fim de evitarem mais aproximações. Desesperado por não jogar e assustado com a situação criada à sua volta, sempre que telefonava à mãe pedia-lhe que o fizesse regressar a casa: «Mãe, vou voltar, porque há aqui homens que me querem fazer mal.» E Dona Elisa tentava tranquilizá-lo: «Filho, tem calma, aguenta, que eles no Benfica vão resolver tudo.» Os dias passavam, monótonos, sem ponta de interesse para aquele jovem africano, na clausura da Meia Praia, em Lagos. Fazia umas corridas, treinava sozinho com uma bola, comia e enfiava-se no quarto. Até que um dia Domingos Claudino, que o acompanhava, lhe veio dar a boa nova. Acabara de receber um telefonema de Gastão Silva: «Chama aí o miúdo e diz-lhe que está tudo tratado, já está inscrito pelo Benfica na Federação.» Finalmente recebia a notícia que mais ambicionava. Pulou de contente. «Foi uma satisfação enorme. Eu só queria jogar, e à noite tinha aquela angústia de nunca mais ver resolvido o problema. Estava habituado a marcar golos e tinha medo que quando entrasse em campo oficialmente já não fosse capaz de o fazer.»
A 23 de Maio de 1961, Eusébio estreia-se com a camisola do Benfica num jogo de Reservas contra o Atlético, num jogo que o Benfica ganhou por 4-2, com três golos de Eusébio.
Dia 10 de Junho de 1961.No pé esquerdo colocou a talismã moeda de 25 tostões que trouxera de Moçambique.” Subi os degraus, velozmente. Quando entrei e se me deparou uma multidão que gritava o meu nome, num testemunho de confiança que nunca esqueci, fiquei tonto. Ninguém imagina como estava nervoso, mas os aplausos cada vez mais quentes deram-me ânimo”. Era a estreia de Eusébio na equipa principal do Benfica, num jogo contra o Belenenses, que o Benfica ganhou por 4-0, com um golo de Eusébio.
No defeso da época, mais propriamente no dia 17 de Junho de 1961, o Benfica defrontou o Santos de Pelé, no Parque dos Príncipes, na final do torneio de Paris. No final da primeira parte e com Eusébio no banco o Benfica perdia 4-0.Guttmann anunciou que Eusébio entraria no recomeço. Pensou que estava a ser lançado às feras, ideia confirmada quando aos 48 minutos, o Santos elevou para 5-0. Mas a tranquilidade de um jogo decidido foi abalada entre os 63 e 80 minutos. Eusébio marcou três golos em pouco mais de um quarto de hora e ainda sofreu um penalti que José Augusto desperdiçou, deixando a plateia de boca aberta.
No dia seguinte a fotografia de Eusébio sai na primeira página do jornal francês L’Équipe.
“No dia em que deveria ser conhecida a lista de convocados que se deslocaria ao Luxemburgo, a minha cabeça não sossegava”, diria Eusébio mais tarde.
Sem motivo. Foi convocado. Imaginou-se a olhar para a bandeira das quinas ao som da “portuguesa”. Peyroteo era o treinador. Costa Pereira, Mário Lino, Morato, Hilário, Péricles, Lúcio, Yaúca, José Águas, Coluna, Cavem e Eusébio foi a equipa apresentada.
A estreia foi desastrosa, decorria o dia 8 de Outubro de 1961. Ao intervalo Portugal perdia por 2-0.No final, uma derrota por 4-2. Eusébio teve uma exibição modesta apesar do golo marcado. Ficou a honra de vestir a camisola das quinas. A 1 de Novembro Eusébio estreia-se na Taça dos Campeões Europeus. O Benfica defrontava o Áustria de Viena e consegue fora um empate. Na Luz, o Áustria perde por 5-1 com Eusébio a marcar o quarto golo do jogo.
Era chegada a hora de medir forças com o Real Madrid, esse colosso da Europa, de Di Stefano, Puskas, Gento e Santamaria. Ao Benfica competia fazer a defesa do Titulo de Campeão Europeu. O jogo foi preparado com rigor sob o comando de Bella Guttmann.
Eusébio escreveu uma das mais bonitas páginas sobre futebol naquele 2 de Maio de 1962. Costa Pereira, Mário João, Ângelo, Cavem, Germano, Cruz, José Augusto, José Águas, Coluna e Simões foram os companheiros da gloriosa jornada. Ao intervalo, o Real Madrid vencia por 3-2, com hat-trick de Puskas. No descanso Guttmann só pronunciou uma frase -“o jogo está ganho, não se preocupem”-para estupefacção geral. “ Olhamos uns para os outros, pensando que o homem estava doido mas a verdade é que dito acabou consciente ou inconscientemente por nos galvanizar”, sustenta José Augusto. Logo aos cinco minutos, surgiu o empate, autoria de Coluna. Eusébio, após magistral apontamento, caiu na área, derrubado em falta.Com carinho colocou a bola na marca, “maricon” lhe chamou Santamaria com o intuito de o desconcentrar. Eusébio não entendeu e em surdina questionou Coluna.” Marca o golo e chama-lhe “cabron” ”. Foi o que fez.
Aos 23 minutos, livre directo perto da grande área.” Coluna deu um toque na minha direcção. Atirei fortíssimo e fiz golo”Aquela metade complementar foi inesquecível, resultando na vitória por 5-3, numa reviravolta memorável. Vaidade de bicampeões da Europa. Sua Majestade Eusébio subia ao trono.
Nesse jogo histórico, com o Real Madrid, Eusébio concretizou um dos maiores sonhos da sua vida, ao obter o troféu que mais ambicionava: a camisola do seu ídolo Alfredo Di Stefano. «O Benfica tinha conquistado a mais importante taça da Europa a nível de clubes, mas, para mim, a camisola do Di Stefano era o máximo, dava-me mais gozo possuí-la.» No entanto, teve de esforçar-se bastante para não a perder. Na euforia da vitória, e porque tinha marcado dois golos, os adeptos tiraram-lhe o equipamento. Então foi vê-lo a andar pelo relvado, descalço e quase nu, com a taça na mão direita e a esquerda metida dentro das cuecas para proteger a preciosidade que ali havia escondido. Quando regressou aos balneários, tirou-a do esconderijo e beijou-a com devoção.
Logo nesse ano, a Juventus, de Turim, fez-lhe um tentador convite, oferecendo-lhe 25 mil contos. Quase na mesma altura, o Real Madrid, por influência de Di Stefano, também o pressionou com uma oferta igual. Eusébio ficou eufórico ante a perspectiva de se transferir para o estrangeiro, ainda por cima por uma verba astronómica. O Benfica deve ter falado com o então Presidente do Conselho, Salazar mandou-me chamar e disse-me que eu não podia sair do País, porque era património do Estado! Fui prejudicado nesse momento. Hoje teria uma grande fortuna”. Tinha apenas 22 anos. Como “prémio do título atribuído por Salazar”, foi incorporado no serviço militar. Foi despachado para a tropa. Nos ficheiros consta o recruta 1987/63 da 1ª bateria de instrução do RAAF. Pela selecção militar fez doze jogos e marcou nove golos.
No dia 23 de Outubro de 1963, estreou-se com a camisola da FIFA, num jogo de comemoração do centenário da Federação Inglesa de Futebol. Era a primeira vez na história, que o chamado Resto do Mundo fazia um jogo, seleccionado pelo chileno Fernando Riera. Em campo entraram Yashin (União Soviética), Djalma Santos (Brasil), Pluskal (Checoslováquia), Pophular (Checoslováquia), Schnellinger (RDA), Denis Law (Escócia), Masopust (Checoslováquia), Kapa (França), Di Stefano (Argentina/Espanha), Eusébio (Portugal) e Gento (Espanha).
Jogou com as insígnias da UEFA no final da temporada 1963/64, numa partida entre a selecção da Escandinávia e o Resto da Europa, convocado juntamente com José Augusto. Lançado na segunda metade, ainda atempo de fazer um golo. Venceu por 4-2. Na época seguinte, nova chamada à selecção da UEFA, na companhia de José Augusto e Simões. Quatro golos marcou e o outro ainda falou português, apontado por José Augusto. O Resto da Europa venceu por 7-2 a Selecção da Jugoslávia.
Voltou a jogar pela selecção da FIFA, em Santiago do Chile, frente à Universidade Católica (4-3 com dois golos da sua autoria). Pela UEFA, em Madrid, com a Espanha (3-0 um golo), na homenagem a Zamora; perante o Hamburgo (7-3 um golo) na então RFA, por ocasião do abandono de Uwe Serbas e ante a selecção da América Latina (4-4, um golo) em Barcelona no 1º Dia Mundial do Futebol.Com carácter oficioso representou a Selecção do Mundo, em Londres, no confronto com o West Ham (4-4) e também em Bruxelas, frente ao Anderlecht (3-8).
O ano de 1965 é um ano inesquecível para Eusébio, a prestigiada revista France Football elege-o como Melhor Futebolista Europeu do Ano.
Chega o ano de 1966, Portugal está pela primeira vez no Campeonato do Mundo de Futebol, que é realizado em Inglaterra. A nossa selecção parte como uma incógnita para o Mundial. No dia 11 de Julho a Rainha Isabel II declara aberto o Mundial de Inglaterra, Portugal estava inserido no grupo do bicampeão Mundial, o Brasil, mais a Hungria e a Bulgária, com sede em Manchester.
O primeiro jogo de Portugal realiza-se no dia 13 de Julho contra a Hungria que é despachada com 3-1, quatro dias depois Portugal despacha a Bulgária com um concludente 3-0 com um golo de Eusébio.
Dia 19 de Julho 1966, o embate esperado entre Portugal de Eusébio e o Brasil de Pelé, Campeão Mundial em título, leva o mesmo Campeonato ao rubro. Sessenta mil espectadores no Goodison Park em Liverpool como testemunham. Simões marcou primeiro e aos 26 minutos, depois de um toque de Torres, Eusébio nas alturas violou as redes.”Foi um golo muito importante para mim, o primeiro de cabeça na selecção”. Rildo ainda reduziu, mas o jogo continuava controlado, ao cair do pano Eusébio enlouqueceu as bancadas. Na sequência de um canto, Eusébio disparou quase à velocidade da luz, numa fantástica explosão da sua habilidade, fulminando as redes. Era a melhor forma de selar uma exibição de grande esplendor. “Ao abandonar o estádio a caminho do autocarro, foi uma loucura. Centenas de pessoas esperavam-nos, cantando e gritando”, disse Eusébio mais tarde. Portugal arrepiava caminho para os quartos de final do Mundial.
Dia 23 de Julho de 1966, Portugal – Coreia Norte, para os Quartos de Final do Campeonato do Mundo de 1966, um jogo que tornar-se-ia arrepiante e inigualável. A equipa asiática entrou de rompante, assinando o primeiro golo ainda no minuto inaugural. No curto espaço de outro fatídico minuto, o 14 º, mais dois golos de rajada acentuaram o temor. Ninguém percebia o que se estava a passar. Eusébio foi o primeiro dos imperturbáveis. Rebelou-se com o seu ímpeto galvanizante. Dois golos marcou antes do intervalo. Otto Glória colérico disse “ coisas que jamais tinha ouvido da boca de um treinador” disse Eusébio. A reprimenda, bem adjectivada, surtiu efeito. A equipa jogou nos limites. Eusébio fez o resto. Desconcertante. Aos 11 minutos apontou o golo da igualdade. Pouco depois, olhos na bola, percorreu todo o flanco esquerdo, aguentando tentativas desesperadas para o suster, até que tombou dentro da área. Foi penalti, convertido de forma autoritária. José Augusto fez o golo da confirmação dos 5-3, na mais bela página do futebol português. Os quatro golos num jogo, ainda por cima, nos quartos de final do Campeonato do Mundo, fizeram de Eusébio uma lenda planetária. Portugal acabaria por ficar em terceiro lugar do Mundial depois de perder a meia – final, de uma maneira escandalosa para a Inglaterra, 2-1, e após a vitória de 2-1 sobre a União Soviética de Yashin.
A esta fabulosa participação de Portugal deve-se juntar, o título de melhor marcador do Mundial para Eusébio com 9 golos marcados, o melhor jogador do Campeonato do Mundo para Eusébio e para Portugal o ataque mais concretizador da competição.
Á chegada a Lisboa, a selecção é recebida em apoteose. Apesar da hora tardia de chegada, três horas da manhã, milhares de pessoas esperavam pela equipa das quinas. No dia seguinte, houve um cortejo em carro aberto desde da Praça Marquês de Pombal até São Bento onde os magriços iriam ser recebidos por Salazar.
Depois do Mundial Eusébio e sua mulher Flora foram gozar férias para Itália, a convite do Inter de Milão, clube com o qual chegou a um acordo de princípio. O Inter pagava-lhe noventa mil contos para assinar contrato, uma fortuna para a época. diz Eusébio “ Naquele tempo dava-me para comprar os Restauradores”. Eusébio chegou a acreditar que lhe abririam as portas, pois além de ter sido o melhor goleador do Mundial e de ter ajudado a selecção a conquistar o 3º lugar já ganhara vários Campeonatos, Taças, a Bota de Ouro, Bolas de Prata, etc. Enganou-se. Salazar manteve-se irredutível, e nem na oitava vez que foi a São Bento conseguiu demovê-lo.Outros convites se seguiriam, mas o Benfica, irredutível, não permitiu a sua saída. Só a meio da década de setenta o libertou.
Em 1969 ganha a sua sétima Bola de Prata, com 40 golos, e em 1972 ganha pela segunda vez a Bota de Ouro.
Em 28 de Março de 1973, Eusébio marca o último golo pela selecção de Portugal, num jogo disputado em Conventry contra a Irlanda do Norte que acabou empatado a uma bola.
No dia 25 de Setembro de 1973 o Estádio da Luz vestiu-se de gala, para a festa de homenagem a Eusébio, promovida pelo Benfica, “ no cumprimento de uma cláusula do Contrato”. Milhares de apoiantes participaram entusiasticamente no tributo ao Rei Eusébio.
Com Fernando Cabrita como responsável técnico, o Benfica empatou 2-2 frente a uma selecção mundial. Nené apontou os golos do Benfica, e Banks, Iribar, Jackie Charlton, Blakembourg, Netzer, Bobby Charlton, Paulo César, Best, Keita, Kaiser, Seeler, Dirceu e Gento, regressaram aos seus países de origem com o certificado de participação numa jornada inolvidável.
No dia 13 de Outubro de 1973, Eusébio despede-se dos jogos da selecção num empate a dois golos na Luz, frente à Bulgária. A 24 de Outubro marca o último golo na Taça dos Campeões Europeus. O último jogo de Eusébio pelo Benfica ocorreu em 18 de Junho de 1975, um jogo particular realizado em Casablanca, Marrocos, contra uma selecção africana, que o Benfica perdeu por 2-1. Eusébio deixava o Benfica ao fim de 715 jogos.
Essencialmente a carreira de Eusébio está ligada ao Benfica, mas após deixar o Benfica ainda representou em 1975 o Bóston Minuteman, 8 jogos 2 golos, em 1975/1976 o Monterrey, do México, 10 jogos 1 golo, e foi vice-campeão mexicano, 1976 Toronto Metro-Stars, 25 jogos 18 golos e sagrou-se campeão da NASL, regresso a Portugal para representar o Beira – Mar, 12 jogos 3 golos, 1977 o Las Vegas Quicksilvers, 17 jogos 2 golos, e finalmente em 1978 novo regresso a Portugal para representar o União de Tomar da segunda divisão.
Em Fevereiro de 1979, o maior embaixador do futebol português anunciou o adeus definitivo aos estádios de futebol.
As Bodas de Ouro natalícias propiciaram em 1992 o Ano de Eusébio. A verdadeira festa de homenagem do Benfica e dos benfiquistas a Eusébio. No dia 25 de Janeiro de 1992, data do seu Quinquagésimo aniversário, foi inaugurada a sua estátua, hoje verdadeiro ex.libris do parque desportivo do Benfica, e seguramente a estátua mais fotografada de Portugal. É uma obra do escultor norte-americano Duker Bower, e foi oferecida por Vítor Baptista, um açoriano radicado nos Estados Unidos, e grande benfiquista.
A FIFA deu a Eusébio – no dia 12 de Janeiro de 1998 em Paris – o título de grandeza que lhe faltava, ao consagrá-lo como um dos dez melhores jogadores de futebol de todos os tempos.
Mário Soares, na qualidade de Presidente da República, já lhe havia atribuído a Ordem do Infante, a 1 de Dezembro de 1992, e o próprio organismo dirigido por João Havelange, no Congresso de Chicago, a 15 de Junho de 1994, distinguira-o com a Ordem de Mérito da FIFA.
Mas nem a homenagem do chefe do Estado nem a distinção do Congresso da FIFA ao antigo futebolista do Benfica corresponderam à importância da actual escolha do ex-atleta para figurar no International Football Hall of Fame.
O maior pilar da mística benfiquista e da selecção portuguesa será para sempre um ponto de referência obrigatório dos tratados do futebol mundial.
Com a simplicidade que o caracteriza, Eusébio disse ter ficado orgulhoso, mas ao mesmo tempo sinceramente surpreendido. “Nunca na minha vida pensei, mesmo depois de atingir o patamar que atingi, vir a ser considerado um dos dez melhores de sempre. Isto não é para qualquer pessoa, e dali já ninguém me tira”. O júri, composto por cem elementos, votou no antigo jogador português e enalteceu o contributo e a forma marcante como ele ajudou a escrever tantas páginas brilhantes do mais popular desporto do nosso tempo.
Numa votação pela Internet no ano 2000, para considerar quem foi o Melhor jogador do Século, Eusébio ficou em 3º lugar, atrás de Maradona e Pelé.
Eusébio é uma das figuras do século, o único dos nossos a integrar a galeria restrita onde só cabem Di Stefano, Puskas, Pelé, Cruyff, Beckenbauer, Platini e Maradona. Por todas as razões continua a ser duas décadas volvidas sobre o abandono dos relvados, o cidadão português mais conhecido no mundo. É o maior do País no estrangeiro, o rosto mais conhecido, um rei que soube merecer o trono que um pouco por toda a parte lhe ergueram.
O Benfica e o futebol português devem-lhe uma década como nunca tinha tido, e se não for incómodo reconhecer, nunca mais voltou a ter. Por mais gerações de ouro que seja capaz de fabricar. Foi o maior de todos. Pelos dados objectivos mas também pela magia de um futebol feito de instinto e génio. Foi único. Eusébio da Silva Ferreira, “king” para os amigos, alcunha da responsabilidade do jugoslavo Filipovic, foi e é o mais célebre jogador português de todos os tempos.
Palmarés:
Campeonato Nacional: 11 títulos (60/61, 62/63, 63/64, 64/65, 66/67, 67/68, 68/69, 70/71, 71/72, 72/73 e 74/75).
Taça de Portugal: 5 vitórias (61/62, 63/64, 68/69, 69/70e 71/72).
Taça de Honra da AFL: 5 vitórias.
Taça dos Campeões Europeus: 1 vitória (61/62).
Selecção Nacional: 64 jogos/41 golos, entre 8 de Outubro de 1961 e 13 de Outubro de 1973, com 33 vitórias, 12 empates e 19 derrotas.
Competições europeias: 75 jogos/57 golos.
Vice-Campeão Nacional do México: 75/76.
Campeão na NASL (Estados Unidos): 1976.
Melhor marcador do Campeonato do Mundo de 1966: 9 golos.
Bola de Ouro (melhor jogador europeu): 1965.
Bola de Prata (2.º melhor jogador europeu): 1962 e 1966.
Bota de Ouro (melhor marcador europeu): 2 vezes em 67/68 (42 golos) e 72/73 (40 Golos).
Bola de Prata (melhor marcador nacional): 7 vezes em, 1964, 1965, 1966, 1967, 1968, 1970 e 1973.
Selecção UEFA/FIFA: 9 jogos 10 golos.
Campeonato Nacional: 313 jogos 320 golos (317 pelo Benfica 3 pelo Beira- Mar).
Taça de Portugal: 60 jogos 97 golos.
Taça de Honra: 10 jogos 8 golos.
Recordista absoluto de golos marcados em Portugal: 733
Envergou a camisola do Benfica 715 vezes.
Está na FIFA Hall of Champions depois de 1998.
Condecorações:
Medalha de Prata da Ordem do Infante D. Henrique (1966).
Grande Colar do Mérito Desportivo (1981).
Ordem do Infante (1992).
Medalha de Ouro da Cidade de Lisboa (1992).
Ordem de Mérito da FIFA (1994).
Fontes: “Obrigado, Eusébio” de João Malheiro, “A Bola”, “Expresso” e “Record”.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Desgraça Clandestina


Chamo-me M. e tenho 16 anos. Estou grávida e não quero estar. O desespero apossou-se de mim e não sei o que fazer. Já pensei em matar-me mas eu quero viver. Falar com os meus pais é impensável. O meu pai é um alcoólico incorrigível, nunca trabalhou ou teve uma ocupação digna desse nome. É inútil qualquer esforço de memória que faça para recordar um momento de sobriedade em que ele se tenha revelado algo mais que o animal que me sovava a mim e aos meus irmãos até as lágrimas dissolverem a dor. Em inúmeras ocasiões era mesmo a fraqueza por não termos que comer que tornava tudo mais fácil de suportar. Ficávamos prostrados, num estado de letargia provocado pela fome. Nestas alturas que a pancada era menos dolorosa, porque facilmente perdíamos os sentidos ou tombávamos. Ninguém conseguia gritar, o que lhe retirava o ânimo.
A minha mãe tem uma atitude perante a vida que me lembra os meus amigos quando estão pedrados. Os olhos sempre fixos num ponto imaginário, completamente alheada da realidade, ou quando muito presa ao seu mundo. Existe não existindo, como se a vida dela se desenrolasse num plano diferente do nosso e nós somos apenas objectos translúcidos, sem substância, como que parte de um estranho sonho.
Fiz-me adulta muito nova, nas ruas. Sobre sexo aprendi com os outros. O que ninguém me ensinou ou me descreveu foi o significado do tesão, do desejo que não consigo controlar. Tudo seria mais fácil se fossemos como os bichos que têm as épocas de cio para procriar. Não o faço com qualquer um, mas com quem gosto perco deliberadamente o controlo. As carícias, os beijos, a queca, e é como se aqueles momentos fossem uma compensação para o sofrimento de que ninguém nos protege.
Não sou a única com uma vida miserável. Os casos aqui, no meu bairro, são mais que muitos. E tudo já mudou bastante. As assistentes sociais têm feito um bom trabalho, mas são poucas e não conseguem abranger todos os problemas.
Para pílulas não há dinheiro, roubam-se preservativos e esperamos estar sempre prevenidos. Só que o Verão é uma coisa terrível. E à noite é fácil soçobrar. Os corpos parecem que emanam um perfume inebriante que acicata a vontade. Tudo direito, preservativo colocado e o filho da mãe rebentou. Não vai acontecer nada, pensei eu. Se me tivessem falado da pílula do dia seguinte, eu podia ter feito alguma coisa. Quando não me veio o período, e como muitas amigas estavam ou estiveram grávidas, decidi fazer um teste.
Positivo.
Tudo se desmoronou. Não tenho a mínima hipótese de criar um filho. E para a adopção, nem pensar.
Por tudo isto, quando ouvi falar dos desmanchos, resolvi descobrir onde os faziam e arranjei o dinheiro com o menino que me pôs neste estado. Chego ao prédio que me indicaram e, sem ficar muito espantada, parece que vai cair a qualquer momento. Penso em ir embora, mas não o faço. Nem sei muito bem porquê. Entro e levam-me para um quarto. Sento-me numa cadeira cheia de ferrugem e ponho as pernas na posição. Sem anestesia, sinto tudo e a dor é alucinante.
Sei que passou pouco tempo, não tirei os olhos do relógio, mas aqueles momentos decorreram com uma lentidão própria que se gera quando alguém deseja ardentemente uma coisa que é como se cada segundo se transformasse numa amostra de eternidade.
Já está, diz-me com uma frieza desumana, assim como as suas recomendações. Saio e caminho em direcção a casa e sinto uma tontura. Deve ser normal, penso. A seguir, outra e outra, começo a ver o mundo como que através de uma bruma e percebo que algo está errado. Começo a sentir o sangue a escorrer-me pelas pernas abaixo em golfadas que não são normais. Não me consigo manter de pé e caio. Sinto no chão gelado algo a envolver-me num abraço tépido.
Alguém se aproxima e diz que me estou a esvair em sangue e pergunta-me qualquer coisa que não consigo compreender. Esforço-me por falar mas não consigo articular nenhum som. Será isto morrer? Tenho tanto medo. Chamam o 112 e continuam a tentar falar comigo. Não sei quanto tempo passou, mas oiço a sirene da ambulância…
Filipe Pinto.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Aborto


Se há palavras que têm sobre mim um efeito nauseante uma é “Aborto”. A carga negativa desta palavra é incompreensivelmente enorme. Será certamente o resultado de anos de condicionamento induzido pela propaganda estigmatizante que recaía sobre este assunto.
Um pouco cansado dos insuportáveis estribilhos utilizados por cada uma das partes envolvidas neste debate, uma espécie de fundamentalismo militante de uma qualquer causa que não o é, há um conjunto de reflexões que surgem de uma análise não simplista, muito menos maniqueísta, e que transcendem o acto.
Sem ser condescendente e muito menos parecer correligionário de qualquer um dos pontos de vista, até porque podemos ser contra o aborto e votar sim, é uma abordagem minimalista do problema tentar argumentar em prol de uma ou da outra posição com base nos argumentos extremos, por um lado, de que a mulher é a dona do seu corpo e, portanto, a decisão cabe-lhe exclusivamente, como se o aborto fosse colocar um piercing, e, por outro lado, alimentar o autismo vigente face ao problema real existente, transmitindo a ideia de que há opções para além do aborto sem concretizar.
É preciso perceber que caso vença o não, as interrupções voluntárias da gravidez (que notável amaciamento) não vão acabar e que, se ganhar o sim, para além do estigma não desaparecer, a designação de “voluntária” não pode passar a confundir-se com banalidade e com inconsequência e muito menos com uma espécie de impulsionador de uma nova revolução sexual semelhante à produzida pela pílula.
Mais importante que isso, qualquer que seja o resultado, não deve imbuir as pessoas de um sentimento de vitória política. Seja de que maneira for, é uma derrota.
Claramente.
O porquê das pessoas abortarem já foi amplamente discutido. O porquê do porquê é que não, ou seja, os grandes problemas sociais que atiram as pessoas para um ponto sem retorno. Individualizam-se os casos e esquece-se a responsabilidade colectiva. Será que alguém acredita que qualquer mulher que vai abortar o faz porque acordou com essa vontade? Para além dos seus motivos pessoais, não seremos nós, enquanto integrantes de uma sociedade que esmaga as pessoas, também responsáveis?
Recentemente fomos inundados por notícias de casos de abusos sexuais, crianças vítimas de maus-tratos e mortas. Num mundo tão profundamente injusto que facilmente se conclui que a protecção exigível está longe de ser perfeita e, também, está longe de oferecer opções credíveis.
Num país onde a sexualidade em muitos sectores está ainda imbuída de uma aura pecaminosa, responsável por complexos de culpa que provocam um grande sofrimento, não podemos esperar uma abordagem à reprodução com a seriedade que esta exige. Esta atitude cria enormes dificuldades no diálogo entre pais e filhos, que é incipiente, na maioria das vezes no sentido da castração, da negação do desejo, um dos mais fortes impulsos do Homem, em resultado de uma visa redutora do ser humano, apelidando-o de ser espiritual reduzindo-o ao mesmo tempo a um procriador social.
A sensação que dá é que a resistência à introdução a educação sexual nas escolas é feita pelos mesmos que não preparam os filhos, que não deixam os outros faze-lo, e muito provavelmente vão votar não.
Posto isto, mantém-se o problema do aborto “em vão de escada”. E vai manter-se caso vença o não. A mim, incomoda-me esta carnificina. E, mesmo quem não concorda, permitir que morram pessoas desta maneira incorre em alguma incoerência. Assegurar, no mínimo, a higiene necessária e a capacidade técnica de quem os faz, é também um sinal de humanitarismo e solidariedade. É que, independentemente da nossa opinião, as pessoas vão abortar.
Filipe Pinto.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

terça-feira, janeiro 09, 2007

A inveja é coisa feia e não há remédio.


(Carregar na imagem para ser mais nítida)
Theodore Gericault.
Retrato de Mulher Sofrendo de Inveja Obsessiva.
Cerca de 1822.
Musee des Beaux-Arts, Lyon, France.
"Aqueles que são invejados entristecem-se com o rancor que sentem à sua volta; se são orgulhosos, por receio de algum prejuízo; se generosos, por compaixão dos que invejam. Mas depressa se alegram: se me invejam, isso quer dizer que tenho um valor, dos méritos, das graças; quer dizer que sentem e reconhecem a minha grandeza, o meu triunfo.
A inveja é a sombra obrigatória do génio e da glória, e os invejosos não passam, de forma odiosa, de admiradores rebeldes e testemunhas involuntárias. Não custa muito perdoar-lhes, quando existe o direito de me comprazer e desprezá-los.
Posso mesmo estar-lhes, com frequência, gratos pelo facto de o veneno da inveja ser, para os indolentes, um vinho generoso que confere novo vigor para novas obras e novas conquistas.
A melhor vingança contra aqueles que me pretendem rebaixar consiste em ensaiar um voo para um cume mais elevado. E talvez não subisse tanto sem o impulso de quem me queria por terra. O indivíduo verdadeiramente sagaz faz mais: serve-se da própria difamação para retocar melhor o seu retrato e suprimir as sombras que lhe afectam a luz.
O invejoso torna-se, sem querer, o colaborador da sua perfeição".
Giovanni Papini, in "Relatório Sobre os Homens".

quinta-feira, janeiro 04, 2007

BASTA YA!


«9 Horas, 30 de Dezembro de 2006» - Uma furgoneta Renault Traffic cor grenat explode junto ao estacionamento do terminal 4 do aeroporto de Barajas-Madrid deixando em estado de choque a sociedade espanhola e em destroços o processo de paz que o governo de Zapatero iniciara nove meses antes.
A Organização “Euskadi Ta Askatasuna” (Pátria Basca e Liberdade) conhecida pelas siglas ETA elegeram a luta armada como forma privilegiada de conseguirem a independência de Euskadi e reivindicam os territórios do País Basco e Navarra em Espanha e da Baixa Navarra, Lapurdi e Suberoa em França.
Aquela organização fundada em 1959 cometeu o seu primeiro atentado mortal em 1968 contra o guarda civil José António Pardines. Desde aquele dia registaram-se 851 assassinatos, 77 sequestros, milhares de cartas exigindo o imposto revolucionário, explosões de carros bomba e ameaças contra juízes, policias, jornalistas e políticos.
Um dos actos mais dramáticos praticados pela organização e que provocou a maior mobilização popular contra a ETA, foi o sequestro do jovem Vereador do Partido Popular em Ermua, Miguel Angel Blanco Garrido (1997), assassinado ao cumprir-se o prazo de 48 horas que tinha sido dado para que o Governo aceitasse reagrupar os presos etarras, distribuídos pelas diversas regiões de Espanha.
É verdade que o povo espanhol está horrorizado com o banho de sangue e destruição que a ETA vem provocando nos últimos quarenta anos e também é verdade que a maioria da população basca, mesmo os nacionalistas que defendem a independência do país, são contra a violência.
Mas não podemos cair numa visão maniqueísta de que se trata de um qualquer grupelho de radicais terroristas que é preciso eliminar a qualquer custo sem procurar entender antes o que está por detrás deste conflito e procurar perceber como é possível um grupo armado (que conta já com centenas de mortes e cerca de 700 activistas presos) resistir durante 40 anos contra uma poderosa organização militar e policial altamente treinada contra o terrorismo.
Presume-se que o povo basco tenha ocupado a Península Ibérica por volta de 2000 A.C. e tenha resistido a constantes invasões sofridas ao longo dos séculos. Apesar da dominação romana, os bascos mantiveram a sua língua, costumes e tradições, num processo de constante resistência. A língua Basca é a língua mais antiga falada hoje na Europa apesar de só no século XVI se ter constituído como língua escrita.
Entre os séculos XV e XVI a região foi submetida à Espanha, finalizando o processo de formação do Estado Monárquico, que havia sido iniciado com o casamento dos reis católicos Fernando e Isabel.
Durante a Guerra Civil Espanhola (1936-39) a maioria da população basca apoiou os republicanos, aliados naquele momento aos socialistas e anarquistas, provocando violentas represálias por parte dos fascistas, sendo que o episódio mais conhecido foi o bombardeio da cidade basca de Guernica no dia 26 de Abril de 1937, quando a aviação da Alemanha nazista lançou bombas incendiárias, matando mais de 1000 pessoas.
A ditadura fascista do general Franco reprimiu com grande violência todos os movimentos nacionalistas. No País Basco foi proibida a língua bem como toda e qualquer manifestação política ou cultural. O Estatuto de Autonomia aprovado pelas Cortes de 1936 foi suprimido e a repressão sobre os bascos contribuiu decisivamente para o germinar, nos anos 50, de uma contestação nova e qualitativamente diferente da resposta dada até então pelo Partido Nacionalista Vasco (PNV) e do auto denominado “Governo Basco no Exílio”.
Essa resposta chamar-se-á «Euskadi Ta Askatasuna», ETA.
Com o afastamento em relação ao nacionalismo tradicional e com o aprofundar de uma “teoria de libertação nacional” a organização passou à luta armada, a partir da segunda metade da década de 60, sendo a sua acção mais espectacular o atentado que matou o Primeiro Ministro, Almirante Luís Carrero Blanco, provável sucessor de Franco, em 1973.
Em 1975 terminou a ditadura franquista e iniciou-se o processo de democratização. No País Basco surgiram alguns partidos “nacionalistas”, com projectos diferenciados, dividindo os bascos quanto à luta pela autonomia. Com a colaboração da nova Constituição, o Estado Espanhol propôs um Estatuto de Autonomia, aprovado em 1978. A ETA rejeitou o Estatuto, manteve a actividade militar e ao mesmo tempo passou a actuar politicamente com a fundação do Herri Batasuna (Unidade Popular).
Durante o Governo do Partido Popular de (1996-2004) de José Maria Aznar, teve lugar uma intensa persecução policial e judicial contra a ETA e foi ilegalizado o Partido Político Batasuna mas os seus candidatos haveriam de concorrer nas eleições autonómicas de 2005 através do “Partido Comunista de Las Tierras Vascas” que conseguiria obter 150.188 votos e ocupar 9 dos 75 lugares do parlamento basco.
O Jornalista Rui Pereira no seu livro Euskadi - a Guerra desconhecida dos Bascos, refere-se do seguinte modo ao independentismo radical: “Além de estável, essa base numérica é composta por centena e meia de milhares de pessoas que, mais que altamente politizadas, estão geracionalmente habituadas a sofrer por razões politicas e, como tal, preparadas para resistir, defender-se e atacar, imunes à fadiga da rotina, ou a qualquer quebra anímica. O poder efectivo dos seus agrupamentos, quer se exprimam pela violência da Kalea Borroka, ou pela participação na política eleitoral convencional, está nas ruas e não nas urnas. E, neste particular, não há outra força que lhe equivalha no tecido político e social basco”.
É neste quadro, consciente de que a resolução do conflito passa por uma nova abordagem do problema, que José Luís Rodriguez Zapatero, Primeiro-ministro espanhol, inicia negociações com a ETA depois de esta ter proclamado um cessar-fogo permanente a partir de 24 de Março de 2006.
O optimismo de Zapatero foi expresso no dia anterior ao atentado quando declarou “Estamos melhor que há um ano e dentro de um ano estaremos melhor. Se está melhor quando há um cessar-fogo permanente em vez de bombas”.
Estavam melhor mas não havia razões para tanto optimismo, pois se a ETA havia cumprido com o seu compromisso de não cometer atentados nunca renunciou a manter a sua actividade e foi dando a conhecer, em 5 comunicados tornados públicos, o seu descontentamento face ao desenvolvimento das negociações.
Em 18 de Agosto, a ETA falava abertamente de uma evidente situação de crise do processo de paz no País Basco, que atribuía à atitude do PNV e do PSOE.
Sublinhavam que o Governo Socialista se valia da repressão para debilitar a esquerda abertzale (nacionalista) por meio de contínuos ataques a partir do aparelho do Estado.
Na sua última aparição pública antes do atentado, o líder do ilegalizado Batasuna, Arnaldo Otegi assegurou que o processo de paz estava na mesma situação de crise e que não havia nenhuma mudança relevante. Otega insistiu nessa tese afirmando que não havia nenhum acontecimento que permitisse dizer que as coisas tinham mudado e que o processo estaria em marcha.
Entre as medidas que reivindicavam como base do processo negocial contavam-se a modificação do esquema estatutário, legalização do partido político Batasuna e a adopção de medidas de aproximação dos presos que deveriam ser transferidos para as prisões bascas.
Entretanto continuavam os actos de violência de rua (Kale borroka), um comando de etarras apoderou-se, em Outubro, de 300 revólveres e 50 pistolas e uma quantidade indeterminada de munições numa empresa francesa em Vauvert e, já em Dezembro tinham sido detidos presumíveis membros da organização e encontrados esconderijos com detonadores e bidões de munições de caça.
O processo é definitivamente interrompido a 30 de Dezembro com o atentado no aeroporto de Barajas. Uma hora antes foram efectuados 3 telefonemas, para as autoridades, para a evacuação do local, mesmo assim houve 19 feridos um morto já confirmado e um desaparecido.
Tudo volta ao ponto de partida, sem que se vislumbre qualquer solução politica para o conflito que opõe nacionalistas a integristas, mas importa recordar que a grande maioria dos nacionalistas que defendem a independência do País Basco são moderados e condenam qualquer recurso à violência e estes representam a esmagadora maioria dos cidadãos bascos.
Na opinião do jornalista, Rui Pereira
"não há nenhum problema basco", nem catalão, nem andaluz, nem galego. O que existe, na realidade, é "um problema espanhol", que parte de uma "entidade questionada e questionável". A longo prazo, afirma, a questão basca não pode ser resolvida sem uma alteração à Constituição espanhola, para que esta passe a reconhecer a auto-determinação dos povos. "Isto é um processo a anos de distância".
Mas é um processo irreversível.
Jorge Gaspar.

terça-feira, janeiro 02, 2007

A Derrota Moral do Ocidente.


A execução do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein na manhã de Sábado, 30 de Dezembro, é uma demonstração inequívoca que cinco mil anos de civilização não fazem a Justiça melhor.
Na melhor tradição do Código de Hamurábi, de “olho por olho, dente por dente”, a “democracia” iraquiana enforcou Saddam Hussein, para regozijo de Israel, do Irão e do Presidente americano George W. Bush: “o julgamento de Saddam Hussein marca o empenho do povo iraquiano em substituir o domínio de um tirano pelo domínio da lei. Trata-se de um grande desempenho da jovem democracia iraquiana. As vítimas daquele regime receberam hoje a justiça que achavam que nunca chegaria”, disse o Presidente americano.
Depois do chorrilho de mentiras por parte dos americanos para a invasão do Iraque, parece que o objectivo principal da invasão está finalmente cumprido: Saddam foi enforcado.
Felizmente que o mundo é plural e nem todos tem a mesma opinião. Críticas contra a execução de Saddam vieram do mundo inteiro, com a Europa à cabeça a repudiar esta execução e o Vaticano a alertar que não se deve punir um crime com outro.
As vozes contra esta execução estão longe de sentir qualquer simpatia pelo ex. ditador, mas pura e simplesmente, repudiam este crime, que é a pena de morte.
O enforcamento de Saddam Hussein, será recordado historicamente, como um acto ignóbil das novas autoridades iraquianas e de toda a Administração Norte-americana, especialmente do Presidente George W. Bush.
Esta execução medieval, vem demonstrar que o Estado de Direito, como o conhecemos e queremos exportar, está muito longe de existir no Iraque, além de que, a Democracia que o Ocidente quer impor como um imperativo moral a muitos dos países do Mundo, sofreu o seu maior revés.
Por último, a execução da sentença de Saddam Hussein, com o alto patrocínio dos Estados Unidos e do Reino Unido é, também, uma derrota, para todos aqueles que advogam a "superioridade moral do Ocidente" e mais uma benesse para todos aqueles que fazem do extremismo e terrorismo a sua causa de vida.
Dizem que Ghandi comentou um dia, sobre o Código de Hamurábi: “Olho por olho, deixa o mundo cego”. Além de concordar, acho que, é difícil encontrar uma crítica mais devastadora a esta forma de fazer justiça.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Não Viveu em 2006 Se...


… Não sabe o que é o “YouTube”.
… Não sabe que o genocídio no Darfur continua, e o “Ocidente” assobia para o lado.
…Não ouviu falar das “Caricaturas de Maomé” e não viu as tristes manifestações contra a Dinamarca.
…Não ouviu George Bush, 50 000 mortos depois, a aceitar que a Guerra no Iraque, está perdida.
…Pensa que Guantánamo é uma estância turística em Cuba.
... Não sabe que o "Polvo" no Brasil tem nome de "Lula".
…Não ouviu falar do programa nuclear iraniano.
…Pensa que não tem nada a ver com o aquecimento global.
…Não ouviu falar do “Referendo ao Aborto”, pelo menos 1420 vezes.
... Não ficou farto do eterno julgamento do “Processo Casa Pia”.
… Viu a floresta portuguesa sem incêndios.
... Não chamou os políticos de incompetentes, pelo menos uma vez por dia.
... Não ouviu as palavras “invasão fiscal”, “fraude fiscal” e “corrupção fiscal”, pelo menos, dia sim, dia não.
…Não ouviu falar, pelo menos 982 vezes, do processo “Apito Dourado”.
…Não ouviu 365 vezes o Primeiro-ministro de Portugal dizer que a economia está a crescer.
…Ouviu a oposição ao Governo socialista, com alguma ideia para o País.
…Não ouviu a vazia expressão “choque tecnológico”, falhado, pelo menos 362 vezes.
…Não sabe que o Rui Rio comemora o “dia do trabalhador” no dia 26 de Dezembro.
…Não sabe que acabou o “Independente” e o “Sol” brilha.
... For judeu. Nesse caso viveu em 5766.
... Não chamou, pelo menos uma vez, gatuno ao árbitro, num jogo de futebol.
... Não participou num evento qualquer, para bater um recorde qualquer, para poder inscrever o nome no “Guiness Book of Records”.
... Não recebeu, pelo menos, 361 e-mails, a dizer “não quebre esta corrente”.
…Não recebeu independentemente do sexo, pelo menos, 720 e-mails, com oferta de produtos para aumentar o tamanho do seu pénis.
… Não sabe quem é a “Floribella”, ou se pensa que “Morangos com Açúcar” é o nome de uma sobremesa.
…Pensa que D’ZRT, são as inicias dos nomes de quatro palhaços.
…Não sabe quem escreveu o livro “Eu, Carolina”, ò i, ò ai.
...
...Segundo a Maria Paulino, não visitou A Fábrica.
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Desejo a todos um Ano 2007 repleto de saúde, amor, alegria e muita Paz.
Que seja o Ano de todas as vossas realizações pessoais.
Façam o favor de ser felizes.
Um abraço a todos.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

James Brown


O lendário cantor norte-americano James Brown, conhecido como o “pai da Soul”, morreu hoje, aos 73 anos, num hospital de Atlanta, Estados Unidos, anunciou o seu agente. Brown, pioneiro da música soul faleceu à 01:45 locais (06:45, hora de Lisboa) no Hospital Emory Crawford Long, onde tinha dado entrada domingo na sequência de uma forte pneumonia. Célebre pela sua voz imponente e pelos movimentos frenéticos, tendo protagonizado temas como “I Got You (I Feel Good)” ou “Please Please Please” que fizeram do lendário cantor “o pai da Soul”. O sentido inovador de ritmo converteu Brown num dos músicos norte-americanos mais influentes dos anos 50, que reconhecidamente inspiraram Mick Jagger, Michael Jackson e David Bowie, entre outros. Nascido em Barnwell, Carolina do Sul, foi deixado ao cuidado de familiares e amigos aos quatro anos de idade, crescendo, pobre, nas ruas de Augusta, Geórgia. Em 1949, quando frequentava o oitavo ano, surgiram os primeiros problemas com a justiça, cumprindo mesmo três anos e meio de prisão num reformatório, devido a assaltos a carros. Foi aí que conheceu Bobby Bird, líder do grupo Gospel Starlights, que viria a integrar. Pouco depois a banda muda o seu nome para Famous Flames, dedicando-se ao R &B (Rhythm and Blues). Em Janeiro de 1956,a editora King Records, de Cincinnati, assinou contrato com o grupo e quatro meses depois “Please, Please, Please” estava no top-10 de R&B. O grande sucesso seguinte foi “Try Me”, em 1958. Em 1962, James Brown grava um álbum ao vivo no Apollo de Nova Iorque, considerado sucesso colossal. Dois anos depois inicia uma carreira a solo e conhece os seus primeiros grandes sucessos como tal: o álbum “Out of Sight” contém músicas como “Papa‘s Got a Brand New Bag” e “I Got You (I Feel Good). “Say it Out Loud_I‘m Black and I‘m Proud”, foi outro dos seus grandes sucessos, em 1968. “Lembro-me perfeitamente de nos apelidarmos “de cor” e depois dessa canção, começamos a chamar-nos de “negros”, disse em 1993. Outro ponto alto da sua carreira aconteceu em 1970, com o tema “Sex Machin e”, que provavelmente o apelidou de “o pai do Soul”. A sua carreira é depois relançada em 1986, com o filme “Rocky IV” e a inclusão do tema “Living in América”. Desde 1986, James Brown misturou estadas na prisão, curas de desintoxicação e discos de qualidades diversas, numa vida marcada por excessos em todos os sentidos. Em 1992, Brown ganhou um Grammy de carreira e outros dois em 1965 e 1987, com os temas “Papa‘s Got a Brand New Bag” e Living in América”, respectivamente. “Mr. Dinamite”, como era também conhecido, gravou mais de 50 álbuns e nunca revelou a sua verdadeira idade, situando a sua data de nascimento entre 1928 e 1933. Lusa.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Boas Festas.

A TODOS UM FELIZ NATAL!

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Teste de Cultura Geral

1.Quantos anos durou a “Guerra dos Cem Anos”?
a) 101 anos.
b)106 anos.
c)116 anos.
d)100 anos.

2.Em que país se fabricam os famosos chapéus “Panamá”?
a) Venezuela.
b)Panamá.
c)Equador.
d)Nicarágua.

3.De que animais se obtém as cordas de tripa de gato?
a) gato e cabra.
b) gato e cavalo.
c) ovelha e cabra.
d)ovelha e cavalo.

4.Em que mês celebram os russos a Revolução de Outubro?
a) Outubro
b)Maio
c)Novembro
d)Junho

5.De que são feitos os pincéis de pêlo de camelo?
a)Camelo
b) Esquilo
c)Cavalo
d) Cabra

6.Que animal deu origem ao nome das Ilhas Canárias?
a) Cão
b) Gaivota
c)Canário
d)Cabra

7.Qual era o primeiro nome do rei inglês Jorge VI?
a) Jorge
b)Alberto
c)William
d) Charles

8.De que cor é caixa negra dos aviões?
a) laranja
b)preta
c)vermelha
d)rosa

9.Que clube comemorou 75 anos em 1981 e o Centenário em 1993?
a) F.C. Porto
b)F.C. Porto
c)F.C. Porto
d)F.C. Porto

BOM TESTE.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

AUDITORIA. É ou não, um bicho-de-sete-cabeças...?


Hoje em dia já quase todas as pessoas ouviram falar em auditoria.
Mas afinal o que é a auditoria? Qual o seu objectivo? Qual a sua importância no nosso dia-a-dia?
A palavra auditoria deriva do verbo latino “audire” que significa ouvir, isto porque nos primórdios os auditores tiravam conclusões e credibilizavam a informação que ouviam. Nos dias de hoje, os auditores emitem uma opinião por escrito, sob a forma de relatório ou parecer, após análise de informação.
Actualmente e de uma forma genérica, a auditoria tem como finalidade avaliar os procedimentos a nível interno de uma empresa, bem como, credibilizar a sua informação que é transmitida ao exterior. Deste modo, a auditoria subdivide-se em e auditoria interna e auditoria financeira.
A auditoria financeira, tem como objectivo credibilizar a informação financeira da empresa, expressa por meio do balanço (projecta o património da empresa, ou seja, o conjunto de bens, direitos e obrigações) e da demonstração de resultados (revela os custos, proveitos e resultados num determinado período).
Esta informação financeira vai ser utilizada por diversas entidades (pessoas singulares e colectivas), que no dia-a-dia têm relação com a empresa, nomeadamente, trabalhadores, clientes, fornecedores, entidades bancárias e Estado. A credibilização da informação é importante a todas estas entidades, em diferentes perspectivas, pois transmite confiança, segurança, equilíbrio e bem-estar. Aos colaboradores assegurando que receberão todos os seus direitos, o que contribui para a sua motivação; aos clientes, é uma garantia de capacidade de entrega atempada e qualidade dos seus produtos, enquanto que para os fornecedores, assegura que a empresa cumpre com as suas obrigações. Para o Estado, a informação permite saber se a empresa cumpre os seus compromissos fiscais. Finalmente, a informação credibilizada é muito importante na medida em que auxilia os bancos na tomada de decisões para conceder financiamentos.
A auditoria interna analisa e melhora a eficiência dos processos de gestão, controle e qualidade de uma empresa. Esta permite aumentar a qualidade do serviço prestado em vários domínios, nomeadamente, qualidade e design do produto, optimização das compras e gestão de stocks, politicas de marketing, engenharia e investigação, força de vendas, serviços administrativos, entre outras. Ao contrário da auditoria financeira, “olha com uma atitude critica para dentro da empresa”, tendo como objectivo melhorar os procedimentos internos da empresa e não a credibilização da informação para consulta de entidades externas.
A auditoria não é nada sem a figura do auditor. O auditor é a pessoa que emite a sua opinião, das demonstrações financeiras ou dos procedimentos internos, através de um relatório ou parecer sob a forma escrita, expresso de uma forma positiva, clara, concisa, objectiva, imparcial e independente. O auditor poderá ser interno, quando pertence aos quadros da empresa auditada, ou externo, quando pertence aos quadros de uma empresa externa. A auditoria financeira só pode ser efectuada por auditores externos.
Em suma, a auditoria ajuda a credibilizar a própria empresa pois preocupa-se em apresentar uma imagem verdadeira e apropriada da empresa para todos aqueles que necessitam desta informação, bem como, fazer com que a empresa melhore os procedimentos de forma a aumentar a sua eficiência, rentabilidade e qualidade.
Ainda acha, que a auditoria é um bicho-de-sete-cabeças?
Mário Costa, economista.
Mário Costa, em colaboração com Bebiana Barbosa, Marta Ribeiro, Natália Ferreira, Paulo Bastos.
Artigo elaborado no âmbito do Curso de formação profissional em Auditoria Financeira e Controlo Interno – Acção Financiada pelo F.S.E. e Estado Português – Acção II, promovido pela Associação Empresarial de Penafiel (AEP).
Com a edição deste artigo, inaugura-se aqui n'A Fábrica uma secção a que se chamará, " A Fábrica feita pelos seus leitores".
Se tem algum artigo que queira ver publicado, neste blogue, faça o favor de o enviar por e-mail.

terça-feira, dezembro 19, 2006

TU ÉS A "PESSOA DO ANO"


“Sim, tu. Tu controlas a Idade da Informação. Bem vindo ao teu Mundo”, lê-se na capa da revista Time.
Tu, (você) que estás a ler este post és uma das pessoas, para a revista Time, que sucede a Bono Vox, Bill e Melinda Gates como a “Pessoa do Ano”.
“Por trabalhar a troco de nada e ganhar aos profissionais no seu próprio jogo, a figura do ano és tu”, é com uma frase simples, que a revista norte-americana nos presta homenagem.
A justificação para a atribuição de tão ilustre distinção, relaciona-se com o êxito dos utilizadores de blogues e outros espaços na Internet, como o YouTube e o MySpace e ainda o serviço público da Wikipédia, que colocam o cidadão comum no centro da sociedade de informação, simultaneamente como consumidor e como produtor.
É o reconhecimento da revolução, em curso, das fontes informativas!

sábado, dezembro 16, 2006

A Disfunção Pública


( O Grito - Eduard Munch)

A receita já é conhecida – cria-se uma cena dramática, solicitam-se opiniões a sábios, expõem-se os objectivos, define-se o modus operandi e engana-se o povo.
Atinemos nas peripécias com a tão proclamada reforma da Administração Pública com o propósito de privatizar os serviços públicos e de como alguns grupos financeiros estão afiando os dentes à procura de aumentar os seus lucros à custa do Estado e dos utentes.
Cria-se a ideia que o País tem “Estado” a mais e faz-se recair o odioso do mau funcionamento dos Serviços da Administração Pública na existência de um regime laboral específico da Função Pública.
A partir daqui vale tudo! Proliferam e vociferam as vozes contra os trabalhadores: a improdutividade e o mau desempenho, as regalias e mordomias, seu número exagerado, a má qualidade do serviço prestado, os enormes encargos que acarretam, e tudo o mais que sirva para denegrir a imagem destes servidores. De tal modo que um pacato cidadão depois de tanto massacrado com tamanhas enormidades fica revoltado e junta a sua voz a todos que gritam abaixo o Estado! Viva a livre Iniciativa! Viva a concorrência! A economia! O mercado! Viva! Tudo o que é privado é bom! Tudo que é público é mau! Viva! Viva a estupidez! Viva! Viva! Viva!
Criado o cenário é preciso passar à fase seguinte, cortam-se as regalias, despedem-se milhares de trabalhadores, aumenta-se a idade da reforma, aumentam-se os descontos, congela-se a progressão na carreira, diminui-se a remuneração e as pensões, altera-se o estatuto do funcionário e o seu vinculo, encerram-se serviços, prometem-se muitas mais medidas que estarão a ser “paridas” a qualquer momento e tudo isto, segundo o ministro das finanças, para o bem dos trabalhadores (!).
Entretanto são criadas duas empresas públicas para gerir pessoas, finanças e compras do Estado, as denominadas GeRAP e ANCP, mais ágeis e flexíveis a gerir a coisa pública com critérios e métodos empresariais.
Mas o pacato cidadão revoltado agora ficou perplexo e parece-lhe que, com a criação destas empresas públicas, o governo estará a tirar de um lado para por no outro, com a agravante (comprovada) de que a externalização de serviços é mais onerosa para o Estado.
Mas meu caro cidadão pacato revoltado e perplexo acrescente mais um estado ao seu ânimo e fique também estupefacto com tanta esperteza do Governo. Então não é que o próprio diploma que cria as ditas empresas também prevê que os serviços do Estado podem, se bem o entenderem, recorrer a serviços privados (de acordo com a lei do mercado) e como é previsível que aquelas empresas não vão ter capacidade concorrencial (até pela aplicação do principio demonstrado de que tudo o que é público é caro e mau) este será assim apenas um meio expedito de escancarar as portas ao sector privado.
(Se não fossemos bem intencionados até poderíamos pensar que se aquelas empresas não vão afinal prestar qualquer serviço, estarão a ser criadas apenas para colocar uns amigos entretanto desocupados pela extinção de serviços).
As privatizações irão alargar-se e entrar desde logo nas áreas da educação e saúde, aplicando-se o principio do utilizador pagador (quem quer paga) mas, o governo com a sua vertente socialista não se esquecerá dos pobres e na sua vocação reformista já estará a pensar em reconverter alguns antigos asilos, hospícios, reformatórios e outras instituições de caridade para que ninguém fique de fora deste desígnio nacional.
JORGE GASPAR.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Corruptos tenham medo. MUITO MEDO!


Maria José Morgado foi nomeada ontem para dirigir e coordenar todos os processos relativos ao caso "Apito Dourado", tendo como objectivo "uma coordenação eficaz no sentido de imprimir dinâmica e rigor necessários à descoberta daverdade material", segundo a Procuradoria Geral da República.
De acordo com a Procuradoria-Geral da República,Maria José Morgado foi escolhida para dirigir a equipa do Ministério Público para todos os inquéritos já instaurados ou a instaurar conexos com o processo "Apito Dourado", sobre corrupção no futebol.
Ao jornal Público, a procuradora-geral adjunta disse que vai começar a trabalhar desde de já e que,"Precisamos que acreditem em nós, Ministério Público, na polícia e nos tribunais. Por isso, a hora é de trabalhar e não de falar", disse Maria José Morgado.
Eu acredito.
Creio na justiça mas acima de tudo, acredito na capacidade de trabalho da procuradora-geral adjunta, o “Giovanni Falcone Português”, para que este caso não passe à história, como uma página negra da Justiça .
É de louvar a primeira grande decisão do novo Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, ao escolher a incorruptível Maria José Morgado para coordenar os processos referentes ao “Apito Dourado”.
Quis o destino, esse irónico destino, que no curto espaço de uma semana, duas mulheres tenham tomado conta do futebol português e que prometem abalar fortemente os seus alicerces.
Na semana passada o livro da "ex. Primeira-dama portista", Carolina Salgado, que teve o condão de trazer, novamente, para as primeiras páginas da imprensa portuguesa o fenómeno da corrupção desportiva e despertou a letárgica Justiça para o combate ao "polvo". Ontem, a nomeação, de Maria José Morgado, para tutelar as investigações do processo "Apito Dourado".
Com Maria José Morgado à frente das investigações do processo “Apito Dourado” renasce a esperança de um combate, justo e sem tréguas, ao fenómeno da corrupção desportiva.
Os indiciados no processo "Apito Dourado", tem uma razão extra para estarem apreensivos porque todos aqueles que têem um dedo metido no fenómeno da corrupção desportiva, certamente, Maria José Morgado levá-los-á a julgamento.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Se... Rudyard Kipling

Há umas semanas atrás, em plena "crise dos comentários", uma leitora enviou-me uma versão portuguesa do poema "IF" de Rudyard Kipling, em jeito de agradecimento pela minha postura na gestão dessa crise, modéstia à parte.
O poema "Se..." é um dos poemas da minha vida. Há muitas traduções deste poema em português, mas a que mais gosto, especialmente quando declamada por João Villaret é a versão, abaixo postada. Eis o poema, que partilho convosco:

SE...

Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força da alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor.
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores.
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu!... jamais lhe deste!
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio para construir de novo.
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar – Avante!
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Se vivendo entre os reis conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre,
São iguais para ti à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
De cada minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos.
Então, ao ser sublime o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os templos, os espaços,
Mas ainda para além um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho... Então serás um HOMEM!
Joseph Rudyard Kipling nasceu em Bombaim em 30 de Dezembro de 1865 e morreu en Inglaterra a 18 de Janeiro de 1936. Foi educado na Universidade United Services em Westward Ho!, na Inglaterra, que lhe proporcionou o cenário para Stalky and Co. (1899); trabalhou como jornalista na Índia, entre 1882 e 1889, escrevendo, ao longo destes anos, Plain Tales from the Hills, Soldiers Three (1890), Wee Willie Winkie (1890), e outras obras. Regressado a Londres, publicou The Light that Failed (1890) e Barrack-Room Ballads (1892), altura em que foi viver para os EUA, onde ficou até 1896; aí elaborou os dois Livros da Selva e Captains Courageous (1897).
Instalado no Sussex, no sudoeste de Inglaterra, publicou Kim, cuja acção decorre na Índia, Just So Stories, Puck of Pook’s Hill e Rewards and Fairies (1910).
Para a popularidade de Kipling contribuíram os poemas Danny Deever, Gunga Din e If, que expressam uma empatia com a experiência comum, em conjunto com um sentido intenso da «Englishness», por vezes denegrida como um género de imperialismo jingoísta.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura, em 1907, e a sua obra tem sido cada vez mais valorizada devido à complexidade da caracterização e aos subtis pontos de vista morais.

Um Longo Lapso da Razão

“Dizem que Fidel Castro é comunista só porque ele é da oposição. Na realidade Fidel está mais à direita do que o General Fulgêncio Batista”

Editorial da revista The Economist (1958).

Esta citação tem um lugar de destaque no anedotário mundial.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

15.000

Quinze mil é um número como outro qualquer, mas para este blog é especial.É o número de visitas recebidas nos últimos onze meses provenientes do Brasil.
A todos os amigos brasileiros, um abraço e obrigado.
A todos os visitantes portugueses e de outras nacionalidades, envio também os meus agradecimentos com um abraço e peço desculpa pela discriminação positiva.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Lapso Momentâneo da Razão

O título do post foi descaradamente retirado do álbum dos Pink Floyd, “Momentary Lapse Of Reason”, mas está excelentemente adequado ao texto.
É incrível ler afirmações de pessoas inteligentes e bem sucedidas que não são mais que as profecias do bruxo de uma tribo remota.
Alguns destes ilustres profetas devem ter pesadelos quando alguém lhe recorda as tolices por eles defendidas. Outros devem dar voltas no túmulo…eternamente.
Uns e outros, com os seus erros, fizeram bons momentos de humor.
Talvez a sabedoria popular encerre toda a razão quando diz que o futuro a Deus pertence.


“Tudo o que podia ter sido inventado já foi inventado”
Charles Duel
, director do Patent Office Americano (1899).

“Não há razão para que alguém queira um computador em casa”
Ken Olson
, fundador da Digital, na altura, rival da IBM (1977).

“O mundo só terá espaço para cinco computadores”
Thomas Watson
, fundador da IBM (1943).

“Daqui a seis meses a televisão vai ser abandonada. As pessoas vão cansar-se de ficar sentadas a olhar para uma caixa de madeira”
Darryl Zanuck
, presidente da 20th Centuy Fox (1946).

“O telefone é uma inovação maravilhosa, mas é um brinquedo sem valor comercial”
Gardiner Hubbard
, sogro de Graham Bell inventor do telefone (1946).

“Os videoclips não servem para nada e vão fazer com que as crianças deixem de ver desenhos animados”
Bruce Springsteen, O “Boss” da música americana (1980).

Ainda há mais algumas citações mas chega de anedotas por hoje.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

A Face Negra das Cores


Se pensarmos bem, a dimensão do impacto de uma imagem resulta em grande parte da infinidade de tons que as cores podem adquirir nas suas mais ténues cambiantes. Os contrastes que surgem definem a perfeição das formas e realçam os pormenores, que são a diferença entre o banal e o grandioso, o que nos permite não só apreciar os efeitos da acção da luz do ponto de vista físico sobre os nossos olhos, mas também assimilar o valor metafísico do que é observado e que é responsável quer pelo deslumbramento quer pelo desencanto.
Cada uma das cores da palete divina possui, como diz o poeta, uma face negra, se estão associadas a acontecimentos perturbadores, sobretudo se a tragédia humana for marcante. É o acontecimento em si que pode introduzir esta carga negativa. Cada imagem deste tipo tem uma força sedutoramente incómoda e, por isso mesmo, são decalcadas até ao mais ínfimo pormenor para a nossa memória.
Na designada primeira guerra em directo a cor que dominava os ecrãs na noite era o verde, que tantas vezes foi associado à nobreza da alma humana, e se transformou nesse instante na cor da ignomínia. Nestas transmissões, por vezes, vislumbrava-se um rasto de luminoso a aproximar-se das casas, qual cavalo de fogo onde a Morte vinha montada, que nas suas vestes pretas se preparava para mais uma colheita oferecida pela iniquidade da humanidade. O zumbido inicial transformava-se num ruído enlouquecedor à medida que os potenciais alvos se reduziam em número mas aumentava a dor resultante da progressiva definição do local de embate, onde as pessoas, dominadas por um pânico incomensurável, desesperavam pela incerteza do último segundo.
Montanhas de cimento e ferro, corpos esventrados, corpos retalhados em fragmentos sem a possibilidade de identificar que pedaço pertence a quem. O sangue de um vermelho vivo, espalha-se erraticamente, tentando dissolver-se no chão, sem o conseguir. A mancha gerada, de um castanho outonal, como o das folhas que terminam o seu ciclo de vida, não desaparece. A Terra, entidade viva, como que por pudor evidencia deste modo a indignidade que é perder vidas de forma tão ignóbil.
Lavam-se as calçadas e a água, vermelha de sangue, some-se nas sarjetas como um vulgar esgoto, escondendo a nossa auto humilhação. O fumo dissipa-se nos seus tons cinzas e negros para o céu azul, conspurcado na sua magnanimidade pela irresponsabilidade humana. Incompreensivelmente, o Homem continua a poluir o céu e os mares no seu azul eterno, fontes de inspiração de tantas obras de arte, que quase perdem o seu sentido por serem dedicadas por uma humanidade que os declarou seu património e os sujeito ás suas vontades mesquinhas.
Como se não bastasse, demonstra-se uma incoerência mórbida quando se testam as armas que criamos, e que podem significar a nossa aniquilação, nas entranhas do planeta, que se lamenta do alto dos cogumelos cor-de-laranja com as agressões sofridas.
Tudo isto provoca uma náusea que se faz notar na pele, a alma vomita uma dor que não consegue suportar, em resultado de um sentimento de nojo pela nossa própria inconsequência enquanto seres vivos pensantes, a fazer lembrar o induzido pelo escarro amarelo e gelatinosos que percorre a garganta e que alguém cospe no chão.
Filipe Pinto.

domingo, dezembro 10, 2006

Morreu Augusto Pinochet


O general Augusto Pinochet, o ex-ditador que governou o Chile com mão-de-ferro entre 1973 e 1990, morreu aos 91 anos devido a complicações cardíacas, anunciou o Hospital Militar de Santiago.
O breve comunicado do hospital refere que o Estado de saúde de Pinochet piorou subitamente e que o ex-ditador foi levado de imediato para os cuidados i ntensivos, mas morreu às 14:15 (17:15 em Lisboa).
Pinochet entrou no hospital há uma semana na sequência de um ataque car díaco. O general foi submetido a uma angioplastia para desobstruir uma artéria e permitir a circulação de sangue para o coração.
A vida de Augusto Pinochet Ugarte, ou pelo menos a parte importante para a história do Chile, começou a 11 de Setembro de 1973.
Nesse dia, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas aderiu ao golpe militar contra o eleito Presidente Salvador Allende, para se transformar, posteriormente, em ditador.
Ao contrário dos outros países da América Latina, o Chile tinha uma longa tradição democrática de Governos eleitos. O golpe de Estado contra um Presidente que conseguira a maioria do apoio popular nas urnas marcava um ponto de inflexão histórico.
Ponto de inflexão que terá apanhado desprevenido Allende e os seus colaboradores, apesar do “tanquetazo” de 29 de Julho de 1973, a tentativa frustrada de sublevação protagonizada pelo coronel Roberto Souper com o seu regimento blindado n2.
Nessa altura, Pinochet, adjunto do general Carlos Prats, o seu antecessor no cargo de chefe dos três ramos das forças armadas, ajudou ao insucesso do golpe militar.
De trato simples e afável, Pinochet sempre usou de prudência na revelação dos seus pensamentos, foi esta característica que convenceu o general Carlos Prats a recomendá-lo como seu sucessor para a chefia das forças armadas.
Para Prats, Pinochet era um militar apolítico apesar de católico anti-marxista, característica comum à maioria dos altos responsáveis do corpo castrense na América Latina.
Escolhido por Allende, o general Pinochet hesitou muito quando foi colocado ao corrente do golpe que estava a ser preparado para 11 de Setembro. Não tanto por lealdade, mais por prudência.
Quando aceitou liderar os insurrectos fê-lo com empenho e dureza. O golpe tinha de triunfar, corresse o sangue que corresse, Pinochet não admitia pôr em risco a sua impoluta carreira militar de outra forma.
Carreira que quase não chegou a existir.
A Augusto José Ramón Pinochet Ugarte custou-lhe ingressar na vida militar. A primeira vez que tentou inscrever-se na Escola de Infantaria, rejeitaram-no pela tenra idade; a segunda, disseram-lhe que não cumpria os requisitos.
Só à terceira, a força de carácter daquele jovem de 17 anos, nascido em Valparaíso a 25 de Novembro de 1915, o mais velho dos seis filhos de Augusto Pinochet Vera e Avelina Ugarte Martínez, conseguiu convencer os responsáveis da Escola de que poderia dar um bom militar.
Segundo o próprio general, um episódio da infância transformou- o num fervoroso católico. Atropelado por um automóvel, esteve quase a perder a perna esquerda que os médicos chegaram a pensar amputar do joelho para baixo.
A mãe rezou por um milagre e, aceitando o conselho de um médico alemão para expor a perna do filho ao Sol, conseguiu evitar que o seu primogénito se transformasse num inválido.
Tal não aconteceu e Pinochet pôde seguir a sua carreira militar, casar em 1943 (com Lucía Hiriart) e constituir família: tem cinco filhos.
Apesar da fé católica, o general Pinochet não teve complacência com os seus inimigos em 1973.
Não só no dia do golpe, com o bombardeio do palácio presidencial de La Moneda, a morte de Salvador Allende (que se suicidou para não morrer à mão dos golpistas) e as detenções de milhares de pessoas, mas nas semanas, meses, anos posteriores, onde a ditadura usou de todos os meios para depurar a sociedade chilena de qualquer pensamento de esquerda.
Admirador do ditador espanhol Francisco Franco, Pinochet, líder da Junta Militar de Governo e Presidente do Chile a partir de 17 de Dezembro de 1974, usou de mão dura no Governo do país.
Segundo a Comissão de Verdade e Reconciliação, conhecida por Comissão Rettig, a ditadura matou 2.095 pessoas, enquanto 1.102 foram consideradas “detidas desaparecidas” (calcula-se que tenham sido mortas pela polícia ou militares, mas cujos restos mortais continuam em paradeiro incerto). Muitos milhares abandonaram o país como puderam em direcção ao exílio.
A ditadura estendeu mesmo os seus tentáculos para lá das fronteiras chilenas.
A “Operação Condor” envolveu os serviços de segurança dos países do Sul da América (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia) numa cooperação para perseguir e prender os seus opositores políticos. A ideia partiu de Manuel Contreras, o chefe da DINA, a polícia política chilena.
A DINA que conseguiu assassinar o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Allende, Orlando Letelier, junto com a secretária, num atentado em Washington; e o antecessor de Pinochet como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Carlos Prats, em Buenos Aires.
Entregando o manejo da economia aos denominados “Chicago Boys”, tecnocratas ultraliberais formados na Universidade de Chicago e influenciados por Milton Friedman, Pinochet guardava para si o resto.
Ilegalizou os partidos políticos, dissolveu o Congresso, impôs o recolher obrigatório por mais de uma década.
O facto de se vangloriar do poder absoluto de que gozava (“No Chile, não se move uma folha sem que eu saiba”), acabaria mais tarde por se voltar contra ele, ao permitir que fosse acusado (apesar de se desculpar que não sabia) da autoria moral de crimes como os da “Caravana da Morte” - em Outubro de 1973, um grupo de oficiais percorreu os vários campos de detenção executando opositores com o saldo de 75 mortos.
Em 1986, voltou a ter a mesma sorte de infância, ao escapar ileso a um atentado onde morreram cinco dos seus guarda-costas. O lança-granadas do guerrilheiro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez encravou impedindo-o de fazer explodir o carro blindado onde seguia o ditador.
Dois anos depois, ao perder o plebiscito que convocara para continuar a perpetuar-se no poder, Pinochet encontrou-se num beco sem saída e teve de aceitar o regresso da democracia, embora negociando a transição nos seus próprios moldes.
Abdicou de ser Presidente, mantendo-se, no entanto, como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e com aviso em jeito de ameaça: “Vou continuar como comandante em chefe para manter a minha gente protegida. Acabará o Estado de direito se se perseguir algum dos meus homens”.
Dez anos antes já garantira, com uma lei de amnistia, que ninguém seria julgado pelos crimes cometidos depois do golpe militar.
Durante a década de 90, a democracia chilena manteve-se tutelada pelo velho regime. Por duas vezes, o general usou os seus soldados para ameaçar a democracia, colocando em causa as instituições políticas e cerceando o poder civil.
Só em 1998, depois de longas negociações, aceitaria abandonar o cargo em troca de um lugar como senador vitalício. Desta maneira, acreditava, garantia os foros que impediriam a democracia de alguma vez o processar.
Essa crença de ser intocável levou-o a ignorar as advertências para não viajar a Londres para operar-se de uma hérnia discal.
O juiz espanhol Baltasar Garzón emitiu um mandado de captura internacional para a sua detenção e o general Augusto Pinochet teria de passar mais de 500 dias no Reino Unido em prisão domiciliária, até ser libertado por razões de saúde.
Era o fim do ditador. A humilhação de ter de recorrer à doença para fugir aos processos judiciais garantiu a sua retirada da cena política chilena. Ao regressar a Santiago, o Chile deixara de ser o mesmo, livrara-se da trela do general.
A ponto das principais forças da direita aproveitarem a deixa para enterrar o passado e assumir programas políticos sem referências a Pinochet ou ao seu legado.
Também a justiça chilena se sentiu fortalecida (e moralmente comprometida) a agir.
Várias queixas-crime contra Pinochet prosperaram, nomeadamente as da Caravana da Morte e as de enriquecimento ilícito (o antigo ditador tinha os bens congelados por ordem do juiz Sergio Muoz, que investigava as contas secretas que Pinochet tinha no estrangeiro e que ascendiam a 17 milhões de dólares).
Além disso, como forma de contornar a amnistia de 1978, que impedia de processar os militares envolvidos em crimes contra a humanidade, a justiça chilena, tal como tinha feito antes a justiça argentina, estabeleceu que os crimes envolvendo “detidos/desaparecidos” seriam considerados como sequestros permanentes, ainda hoje vigentes e, portanto, permitindo aos tribunais julgá-los.
Para Pinochet, o regresso ao Chile tornar-se-ia penoso, obrigado a uma farsa permanente, a um jogo eterno com a justiça, perdeu qualquer contorno de referência simbólica, para se transformar apenas num homem velho a fugir dos tribunais.
A anos-luz desse Pinochet arrogante de meados da década de 90, assumindo o legado do regime como serviço público a um Chile salvo da ameaça comunista, amarrando a democracia no colete-de-forças castrense, a defesa do ex-ditador só conseguiu encenar repetidamente o episódio da doença frágil, dos micro-acidentes vasculares cerebrais nas vésperas das audiências em tribunal, explorando a imagem do seu corpo conduzido na cadeira de rodas.
Se o ajudou enquanto vivo a livrar-se da prisão, terá garantido, depois de morto, que o pinochetismo seja apenas um depositário de ideias moribundas à espera que morram os poucos saudosistas que ainda têm coragem de as defender em público.
A única coisa a lamentar na morte de Pinochet, é que a Justiça tenha sido demasiado lenta, para julgar todas as atrocidades cometidas durante a sua ditadura.
Com o desaparecimento do ditador chileno a Humanidade ficou um pouco menos intoxicada. Como disse o escritor chileno Luís Sepúlveda, " Devemos sempre alegrar-nos quando morre um hijo de puta. Então no caso de um filho da puta tão importante, dá-nos mais optimismo".

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A Legalização do Aborto e a Redução do Crime Violento

O feminismo atingiu o seu auge no fim dos anos sessenta. A luta das mulheres pela sua emancipação, tinham mais um nome a juntar ao rol daquelas que paulatinamente vinham assegurando leis que as libertavam do jugo secular do domínio masculino. Essa mulher era uma anónima de Dallas: Norma McCorvey.
Era uma mulher de 22 anos, pobre, sem educação, sem qualificações, alcoólica, toxicodependente e já tinha dado dois filhos para adopção e, em 1970 ficou novamente grávida. Tudo o que ela queria era fazer um aborto.
Porém, no Texas, o aborto era ilegal. A causa desta mulher foi adoptada por pessoas mais poderosas do que ela e essas pessoas fizeram dela a litigante principal numa acção judicial que pretendia legalizar o aborto. O réu era Henry Wade, procurador do distrito de Dallas. O caso acabou por chegar ao Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, tendo por essa altura o nome de Norma McCorvey sido escondido sob o pseudónimo de Jane Roe.
No dia 22 de Janeiro de 1973, o tribunal decidiu a favor de Roe, permitindo que o aborto fosse considerado legal em todo o país. O caso passou à História como o processo Roe Contra Wade.
O Supremo Tribunal deu voz ao que todas as mães, já sabem há muito: quando uma mulher não quer ter um filho, ela normalmente tem uma boa razão para isso.
Parece absurdo pensar que há uma correlação entre a legalização do aborto e a redução do crime violento.
Parecer um absurdo, pode parecer mas está muito longe de o ser!
Nada melhor que ler o livro “Freakonomics” de Steven Levitt, e Stephen Dubner ( (jornalista e co-autor do livro, responsável pela forma não pelo seu conteúdo), para dissipar quaisquer dúvidas e concluir de uma forma inequívoca, que estes dois factores são concominantes.
Num dos capítulos, (O Que é Feito de Todos os Criminosos?), Steven Levitt desenvolve a teoria sobre as causas da vertiginosa queda da criminalidade no Estados Unidos da América. durante os anos 90. Na altura o exército de peritos em criminologia enumerou uma imensidão de hipóteses para a drástica redução da criminalidade:

1.Estratégias policiais inovadoras.
2.Maior rigor no recurso à prisão.
3.Alteraçõesno mercado do crack e de outras drogas
4.Envelhecimento da população
5.Leis de controle de armas mais apertadas
6.Economia forte
7.Aumento de polícias
8. Aumento da aplicação da pena de morte, etc.

Ao longo do capítulo quatro do seu livro, Steven Levitt destrói todas estas hipóteses e chega a uma conclusão “sui generis”: Não foi, apesar de também ter contribuido, o controlo de armas, nem a economia forte, nem as novas estratégias policiais, nem o aumento do número de polícias, nem o envelhecimento da população ou o aumento da aplicação da pena de morte que, no fim de contas, travaram a onda de crime americana. Foi a realidade de que o conjunto de criminosos potenciais se tinha reduzido numericamente de uma forma espectacular.
Como se tinha reduzido drasticamente o número de criminosos?
“No que diz respeito ao crime, acontece que nem todas as crianças nascem iguais. Nem Sequer parecidas. Décadas de estudos mostraram que uma criança nascida num ambiente familiar adverso tem mais probabilidades do que outras crianças de vir a tornar-se um criminoso. E os milhões de mulheres com maiores probabilidades de abortar na sequência da sentença do processo Roe Contra Wade – mães pobres, solteiras e adolescentes para quem os abortos ilegais eram, antes, demasiado caros ou muito difíceis de conseguir - eram em geral, modelos de adversidade. Eram as mesmas mulheres cujos filhos, se tivessem nascido, teriam muito mais probabilidades do que a média de se tornarem criminosos. Contudo devido a Roe contra Wade, estas crianças não tinham nascido. Esta causa poderosa teria um efeito drástico a longo prazo: anos depois, exactamente na altura em que estas crianças atingiriam a idade de se iniciar no crime, a taxa de criminalidade começou a afundar-se.”
A sentença do processo Roe contra Wade desencadeou, uma geração depois, a maior queda de criminalidade registada na história americana.
Espero ver esta teoria confirmada na prática em Portugal, por volta do ano 2030.
Armando S. Sousa.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Galaaz

Corrida de Caixões nas Rias Baixas

Peixe clandestino com direito a cadeira, Luisa Mota atordoava-se com Anxo Pastor na parrilhada Abô Ramiro. Diante das bateias de Arousa, uma sequência de naipes funerários atravessou-lhe os dentes que lhe mordiam os entre-olhos. Vai haver uma corrida de caixões?

- Creio que sim, dixo Anxo, parece que a axência de Xeraz do Lima está entusiasmada.

Coberto por um manto bordeaux, o polvo era um cadáver tenro e disponível a uma transformação sem conflitos extremos. Luisa Mota disse:

-Que de bom! Carai! Nunca comi assim!

- A corrida ten reglas, nom?, questionou Anxo

Mónica de Pontevedra, que ainda não tinha freado o delírio, desorbitou-se num comovente lampejo de lucidez. Disse:

-O caixão que desaparecer em último é o que ganha!

O membro da Xunta, ao balcão, aproximou-se interessado:

-Isso vai trazer muito prestígio à galiza. Será a primeira corrida de caixões do mundo. E calhará optimamente no InterReg III.

Galaaz! Viva Galaaz
Que não sabe o que faz!

Embora lamentando a ausência de inúteis agonias, e carpindo o facto das bateais não darem azo a alabastros e balaústres, Camilo Pessanha concordou em escrever o Programa das Corridas, texto que intitulou: Sumidouro.
As famílias desataram a inscrever os seus mortos. A heráldica foi apontada como a novel indústria de sucesso. Reunidas todas as associações, organizações, deputações e quejandas, assentou-se a criação de uma nova ONG de providência ao evento. Por unanimidade extasiante, tal G-ONG recebeu o título solene de JACOMEO.

Luisa Mota, muito rodada nos 60 canais da tvcabo, colocou com pertinência, a seguinte questão científica:

-E
como se ordena a pole-position?
-De catro a catro - ouviu-se a voz do mar.
-Todos os caixões que chegarem pelo menos até Ponta Couso recebem uma menção honrosa- propôs a galego-holandesa Jacomina.
- O Isaak vai logo perguntar-me pelo prémio - bipolarizou Luisa Mota
- O prémio é fácil, um cesto de pimentos do Padrón, dixo Otilia
- E a taça?, arquejou ansiosa Luisa Mota
- A taça é de albariño, home, dixo Lois Gil Magariños

Estava tudo contente, tudofeliz!. Gente inebriada à chuva do Courel. Luisa Mota perguntou se podia trazer a mãe mais o Rui que gostava muito de bateias e mais o Ricardo de quem queria ter um cadáver. Anxo Pastor, que tinha acabado de ler um poema de Marcos Ana, foi invadido por uma estranha pulsão maníaco-depressiva:

-E a quem se vai entregar a Taça?

Fez-se pó. Era do jeep do Aurelino Costa saído da bruma sebastianista da estrada. Aurelino saltou do jeep com muito vermelho e disse:

-Ó Anxo, deixa lá isso! A Taça não é para se entregar. É para se beber!

Alberto Augusto Miranda.


".....Ora é poeta, ora é ficcionista, ora é pianista, ora é crítico e ensaísta , ora é docente, ora é actor, ora é simplesmente exímio conversador. Sempre indiferente às portas que poderiam ser abertas pelo seu Curso Superior de Literaturas Modernas, pelo seu Curso Superior do Conservatório de Música, pela sua capacidade de trabalho, pela sua inteligência apurada e isenta, pela sua bem assimilada cultura. Alberto Augusto Miranda é livre como o vento, um romântico, não na forma, nem no sentimentalismo, mas nos sentimentos e na liberdade insubmissa, no arrebatamento nos nacos de felicidade que procura, porque eles são a vida......."
Portanto, nada mais há a dizer...
Excepto, Bem vindo.

domingo, dezembro 03, 2006

Sete Textos e um Papagaio

O Jorge Gaspar escreveu neste espaço sete excelentes textos, mas não estava à espera que com a sua chegada a este blogue, arribasse também, uma ave rara para estas latitudes: um papagaio.
Todos os frequentadores deste espaço sabem a quem me estou a referir: a esse ignóbil anónimo, tal e qual um papagaio, que faz sempre a mesma estúpida pergunta, sobre as amigas do Gaspar.
Deve ser deveras triste, ser um frustrado, ainda por cima ao que tudo indica, invejoso e solitário, mas se, eventualmente, a ideia era fazer humor, deverá saber que contar a mesma piada um número infinito de vezes, deixa de ser engraçado para se tornar maçador.
Neste caso, além de estupidamente maçador, esconde-se atrás do anonimato para achincalhar as pessoas, parecendo-me esta atitude, um sintoma de uma qualquer doença neurológica, que Freud explicaria facilmente mas que, certamente, pode ser tratada por um qualquer psiquiatra.
Não é que os comentários, sejam de importância vital para quem escreve mas quem quer comentar com justiça os textos do Jorge Gaspar, sente-se defraudado, porque reconhece sem nenhum favor e unanimemente a qualidade dos textos por ele elaborados.
É pena que este cobarde não tenha a noção do ridículo e que não seja homem suficiente, para assumir a sua identidade. Mete dó, ver pessoas teoricamente civilizadas a menosprezar tanto o civismo.
Haja paciência, que é coisa que falta neste momento!