sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson em Fotos


Foto Reuters/Allen Fredrickson. Concerto dos Jackson Five em Mill Run Playhouse em Junho de 1974.

Foto Reuters/Allen Fredrickson. Em 1969, o primeiro grande sucesso dos Jacson 5, " I want you back". O grupo assina contrato com a Motown. Em 1970 começará uma carreira paralela a solo.

Foto Reuters/Susumu Takahashi. Michael Jackson e Mickey na Disneyland de Tóquio em 1987, ano em que saíu o disco Bad, que vendeu mais de 20 milhões de exemplares. cinco anos depois de Thriller, o disco mais vendido de sempre.

Foto Reuters. 17 de Janeiro 1993, com o presidente Bill Clinton, Chelsea, a filha do presidente e Diana Ross.

Foto Reuters/Tobias Schwarz. Novembro de 2002 em Berlim. Michael Jackson desesperado quando ia deixando cair o seu filho da janela de uma clínica.

Foto Reuters/Lucas Jackson. Michael Jackson cumprimenta os seus fãs à chegado do Tribunal de Santa Bárbara, a 25 de Maio 2005.

Foto Reuters/Lucas Jackson. Santa Bárbara, 27 de Maio 2005.

Michael Jackson cumprimenta os fãs à saída do tribunal em Junho de 2005, depois das acusações de pedofilia não terem convencido o júri.

Foto Reuters/Kieran Doherty. Dia 16 de Novembro de 2006 durante os "World Music Awards". Fazia nove anos que Michael Jackson não pisava um palco. Abandonou o palco debaixo de um coro de assobios pour ter apenas cantado We Are The World.

Foto Reuters/Stefan Wermuth. Em Março último, durante uma conferência de imprensa para anunciar o seu regresso aos palcos durante o Verão para uma série de concertos em Londres.

Michael Jackson (1958-2009)


Michael Jackson, considerado o Rei da Música Pop, morreu ao princípio da noite de ontem após sofrer uma paragem cardíaca e ser levado à pressa para um hospital em Los Angeles.O cantor de 50 anos não respirava quando os paramédicos chegaram à sua casa e deu entrada no hospital em estado de coma.
Depois de ter praticamente desaparecido em 2005 por causa do julgamento em que era acusado de ter abusado sexualmente de uma adolescente, apesar de ter sido absolvido, o cantor cinquentenário tinha anunciado em Março o seu regresso aos palcos, num concerto em Londres, no Verão.
No fim de Maio, os organizadores anunciaram que os concertos de Julho tinham sido adiados alguns dias, assegurando, no entanto, que isso "nada tem que ver com a saúde" do cantor.
Dotado de uma voz inconfundível, Jackson tinha sido bailarino e já aos dez anos o seu talento era reconhecido, tendo mais tarde conquistado o estatuto de estrela mundial.
No entanto, desde os anos 1980 que o enigmático Michael Jackson mostrava sinais físicos e comportamentais estranhos, pelo que, além de ser um fenómeno musical, o cantor passa a ser também um fenómeno humano.
Michael Jackson nasceu a 29 de Agosto de 1958 numa família negra de origem pobre, em Gary, no estado do Indiana, no norte dos Estados Unidos.
O seu pai era mineiro e a mãe trabalhava numa revista. O casal tinha nove filhos.
Em 1979, o produtor Quincy Jones supervisiona o seu primeiro disco a solo, "Off the Wall", em que participa Stevie Wonder e Paul McCartney, um disco que continuava a ter sucesso mesmo depois de 15 anos.
Michael Jackson bateu o recorde mundial de vendas com o seu álbum "Thriller", em 1982, com mais de 100 milhões de exemplares vendidos, seguindo-se outros dois sucessos musicais: "Bad" (1987) e "Dangerous" (1991).
É nesta altura que o físico do cantor começa também a transforma-se, com a sua pele a ficar cada vez mais clara e o seu nariz cada vez mais fino.
No entanto, Jackson nega qualquer cirurgia, explicando a brancura da sua pele com a sua doença, vitiligo.
Michael Jackson transforma um rancho californiano em residência e parque de atracções a que deu o nome de "Neverland", em homenagem ao seu ídolo, Peter Pan, a criança que não se torna adulta.
Em 1993, esta imagem excêntrica passa para segundo plano quando vem a público uma denúncia de um jovem de 13 anos que afirma ter sido vítima de abuso sexual por Jackson.
O cantor foi considerado inocente e recebeu uma indemnização de cerca de 23,3 milhões de dólares, uma quantia pouco significativa em relação à sua fortuna estimada em cerca de 600 milhões de dólares.
Em 1994, Michael Jackson casa com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie Presley, o que foi uma surpresa.
No ano seguinte é editado "HIStory", um disco anunciado como o regresso da estrela da pop mas que se revelou um fracasso.
Jackson e Lisa Presley divorciam-se e, em 1996, o cantor volta a casar com Debbie Rowe, enfermeira australiana com a qual teve dois filhos, Prince Michael Jr e Paris Michael Katherine, divorciando-se novamente em 1999.
Em 2002, nasce o seu terceiro filho, Prince Michael II.
O álbum "Invincible", que sai em Outubro de 2001, revela-se também um sucesso.
Em 2003, num documentário britânico, o cantor afirma que gostava de dormir com rapazes jovens, com "toda a inocência", um escândalo que mancha a sua imagem, mesmo com a sua absolvição em Junho de 2005 pela acusação de abuso sexual de menores.
Entretanto, a fortuna da estrela musical emagrece em 2006, altura em Michael Jackson oferece à Sony a oportunidade de comprar metade do seu catálogo musical para pagar uma dívida de cerca de 170 milhões de dólares.
Depois desta desgraça financeira, Jackson tinha conseguido recentemente a anulação da venda dos seus objectos pessoais que devia ser organizada pela leiloeira Julien's, na Califórnia.
Michael Jackson tinha anunciado que estava a trabalhar num novo álbum que não chegou a materializar-se. (Lusa)

Farrah Fawcett (1947-2009)


A actriz norte-americana Farrah Fawcett, de 62 anos, morreu ontem vítima de cancro num hospital em Santa Mónica, Califórnia, informou o canal de notícias CNN.
A actriz padecia há mais de dois anos de um cancro e relatou a sua doença no documentário televisivo "Farrah´s story".
Natural do Texas, Farrah Fawcett formou-se em Microbiologia, mas sempre sonhou com a representação.
Depois de se mudar para Los Angeles, chamou a atenção da indústria audiovisual pela figura loira, atlética e escultural.

Começou por fazer vários anúncios publicitários e alguns filmes até entrar na série televisiva norte-americana "Anjos de Charlie", produzida por Aaron Spelling, que a tornou, em finais dos anos 1970, a "namorada" dos Estados Unidos.
Entrou em vários filmes que comercialmente não tiveram sucesso, como a comédia "Sunburn", representou teatro em Nova Iorque, tendo sido aclamada em 1983 pela participação em "Extremities", peça de William Mastrosimone.
Foi na televisão que a actriz teve mais sucesso, nos filmes "Murder in Texas", "Poor little rich girl" e "The burning bed", que lhe valeu uma nomeação para um Emmy.
Este mês, Farrah Fawcett tencionava casar com o companheiro de há mais de vinte anos, o actor Ryan O´Neal.(Lusa).

quinta-feira, junho 25, 2009

Reciclagem


Advertising Agency: Grey Beijing, China
Executive Creative Director: Chee Guan Yue
Creative Director: Dan Fang
Art Directors: Dan Fang, Shi Yuan He, Chee Guan Yue
Copywriters: Dong Hai Liu, Jeffery Kwek, Chee Guan Yue
Photographer: Edward Loh
Photo Retouching: Edward Loh

Óscares passam a ter dez nomeados para Melhor Filme


O número de filmes candidatos ao Óscar de Melhor Filme vai passar, já na próxima edição da cerimónia, de cinco para dez, anunciou a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.
Na 82ª cerimónia dos Óscares, em 7 de Março de 2010, haverá então o dobro do número de filmes nomeados para Melhor Filme, confirmou o presidente da Academia, Sid Ganis, citado pela "Variety"."
Após mais de seis décadas, a Academia volta, em parte, às suas origens, quando a competição era maior para a principal recompensa do ano", disse Sid Ganis numa conferência de imprensa, citado pela AFP. Nas décadas de 1930 e 40, a existência de dez nomeados para Melhor Filme era frequente. Em 1934 e 35 houve mesmo 12 candidatos a Melhor Filme. No ano em que se premiavam os filmes feitos em 1944, a categoria passou a acolher apenas cinco títulos.
"O resultado final, seguramente, será o mesmo", afiançou o responsável: no final, haverá apenas um premiado como Melhor Filme do ano. "Mas os finalistas desta corrida serão dez filmes de 2009 e não cinco". Dave Karger, da "Entertainment Weekly", assinala já que esta maior amplitude da selecção final poderá ajudar filmes tidos como "mais comerciais" a entrar nas listas do prémio maior dos Óscares, dando os exemplos passados de "O Cavaleiro das Trevas" ou "WALL.E" e antevendo que na próxima edição haja espaço para filmes como "Star Trek" ou "Up - Altamente".
Os filmes, actores e outros profissionais nomeados para os Óscares de 2010 serão conhecidos a 2 de Fevereiro. A entrega dos prémios máximos do cinema norte-americano, no Kodak Theater em Hollywood (Los Angeles), foi adiada para Março devido aos Jogos Olímpicos de Inverno, que este ano decorrem entre 12 e 18 de Fevereiro e são transmitidos na televisão americana na NBC, sendo que a estação que detém os direitos televisivos dos Óscares é a ABC. (Público).

quarta-feira, junho 24, 2009

Prémio Príncipe das Astúrias para Ismail Kadaré


O escritor albanês Ismail Kadaré foi distinguido com o Prémio Príncipe das Astúrias das Letras 2009. O trabalho do autor de "O Palácio dos Sonhos" foi destacado pelo júri que atribui o galardão "pela beleza e o profundo compromisso da sua criação literária".
Para justificar a sua escolha - o escritor fazia parte de uma lista de candidatos onde se encontravam o italiano Antonio Tabucchi ou o britânico Ian McEwan -, o júri defendeu que o autor, que considerou "uma das maiores figuras da literatura albanesa", enquanto escritor, ensaísta e poeta "atravessou fronteiras para se erguer numa voz universal contra o totalitarismo".
Nascido em 1936, em Gjirokaster, Kadaré sobreviveu a uma infância marcada pela II Guerra Mundial e à ocupação do seu país pela Itália fascista, a Alemanha nazi e a União Soviética. Em 1963, publica o seu primeiro romance, "O General do Exército Morto". Mais tarde seguem-se outros trabalhos, como "O Palácio dos Sonhos" (1992), "A Pirâmide" (1994), "Abril Despedaçado" (2002), "A Filha de Agamémnon e o Sucessor" (2008) e "Três Cantos Fúnebres pelo Kosovo" (2002), todos estes publicados em Portugal pela editora Dom Quixote.
Por várias vezes candidato ao Prémio Nobel da Literatura, Kadaré, considerado uma dos grandes escritores e intelectuais europeus do século XX e uma das principais vozes albanesas contra a presença sérvia no Kosovo, viu a sua obra traduzida em mais de 40 línguas.
O prémio atribuído a Kadaré, que tem o valor de 50 mil euros e incluiu ainda uma escultura criada por Joan Miró, será entregue em Outubro numa cerimónia em Oviedo.(Ípsilon).

terça-feira, junho 23, 2009

Boris Vian Morreu há 50 anos


Boris Vian tinha 25 anos quando confidenciou a Simone de Beauvoir que o seu coração não duraria mais do que uma dezena de anos, se não parasse de tocar trompete, diziam-lhe os médicos.
Continuou a tocar com a inquietação de sempre, escreveu ficção e poesia, traduziu, passou por um sem-fim de actividades artísticas e morreu na escuridão de uma sala de cinema, a visionar uma má adaptação de uma novela sua, faz hoje exactamente 50 anos.
Os médicos enganaram-se por pouco: a trompete de Bisonte Encantado ("Bison Ravi" foi o seu primeiro pseudónimo literário) calou-se de vez na manhã de 23 de Junho de 1959, quando ele tinha 39 anos.

Morreu desencantado com a escrita, que abandonara seis anos antes, sem qualquer sucesso importante em vida. Na década de 60 começou a ser reabilitado, passou a escritor de culto e agora, visto com a distância do tempo que passou, é apontado como um marco das letras francesas do Século XX.
Em França, 2009 é um "ano Boris Vian" e não têm parado as homenagens, as reedições, as exposições, as novas gravações dos seus poemas.
Paradoxalmente, a primeira obra que Vian viu publicada foi um livro técnico, a sua tese de curso. Engenheiro de formação, exerceu essa actividade com rigor, mas sem grande entusiasmo – tinha família e bocas para sustentar, dizia.
As noites eram para o jazz: sentia que era a sua razão de existir, mesmo que fosse para viver rápido e morrer jovem. Toca na orquestra de Claude Abadie, que no pós-guerra ganhou notoriedade em França e na Bélgica, mas também em clubes parisienses, sobretudo da efervescente Saint-Germain-des-Prés, como o lendário Tabou.
Henri Salvador, um dos maiores músicos de jazz francês, assegurava: "Boris só vivia para o jazz, só ouvia jazz, exprimia-se pelo jazz."
Carole, a filha, foi mesmo baptizada por Duke Ellington, um dos muitos "gigantes" da música com que se cruzava nas noites, "mais belas que os dias".
Mas Boris Vian não era só a música, a pulsão da escrita foi-se desenvolvendo, lenta e certeira. Primeiro, os poemas "para a gaveta", depois os pequenos contos, publicados na imprensa, resguardados nos pseudónimos como o anagrama Bison Ravi.
A "coabitação" entre a escrita e a música era inevitável, como está bem simbolizado no símbolo da exposição patente no Museu das Letras de Paris, "L´'écume des années Vian": uma trompete, repleta de palavras manuscritas.
É difícil perceber, confrontados com o actual culto da obra, que ainda antes de "A Espuma dos Dias" e o "Outono em Pequim" tenha escrito um "romance negro", procurando seguir todos os cânones vindos dos EUA, forjando um autor, Vernon Sullivan, e apresentando-se como alegado tradutor.
Vernon Sullivan é Vian. Nesse "Irei Cuspir-vos nos Túmulos", como em "Os Mortos têm Todos a Mesma Pele", "Morte aos Feios" e Elas não Dão por Ela".
Escritos entre 1947 e 1948, venderam bem mas só lhe trouxeram dissabores: condenação por atentado aos bons costumes, severa multa e prisão, com pena suspensa.
Leitor compulsivo do novo romance policial americano, traduziu autores interessantes como Richard Wright, James Cain, Omar Bradley, Nels Algren e A.E. Van Vogt.
Em seis anos apenas, entre 1947 e 1953, escreve o essencial da sua obra de ficção, até desistir de vez e dar por terminada a sua rápida carreira de ficcionista.
Meia-dúzia de anos que chegou para "A Espuma dos Dias", o "Outono em Pequim" e "O Arranca-Corações". Mas também para "As Formigas", compilação de histórias curtas. Dessa época é, também, a compilação "O Lobisomem", mas de publicação já póstuma, e "A Erva Vermelha".
A criatividade é extrema, tanto nos ambientes como na própria linguagem, devendo muito ao existencialismo, mas sobretudo ao surrealismo e ao absurdo, ou não fosse admirador confesso de Alfred Jarry e da Patafísica, a "ciência das soluções imaginárias".
No "Outono em Pequim" adere ao "título arbitrário" dos surrealistas, já que não se passa no Outono, nem na China, mas no Verão e no deserto da inventada Exopotâmia. No "Arranca-Corações" todas as crianças têm nomes invulgares, como Citroen, e há meses como Novreiro, Marulho e Dezarço.
Quanto aos seus poemas, só apareceram em livro depois da morte, mas muitos ganharam nova vida nas vozes de cantores de sucesso, como Yves Montand, Mouloudji e Serge Reggiani.
"Je Voudrais pas Crever" e "Le deserteur" estão na primeira linha, sobretudo este, tornado um clássico pacifista, adoptado pelos manifestantes no Maio de 68 e cantado, entre outros, por José Mario Branco. A lista de intérpretes não pára de crescer e até Carla Bruni já anunciou que vai gravar Vian. (Lusa).

quinta-feira, junho 04, 2009

Rebelde Desconhecido


Fotografia: Jeff Widener/AP Photo
Quando as luzes se acenderam às 4h30 da madrugada, para o ataque final das tropas aos manifestantes da Praça de Tiananmen, um homem franzino, com sacos de plástico nas mãos, colocou-se na Avenida da Paz Eterna, em frente de uma coluna de tanques.
O jovem recusou-se a sair da frente do alinhamento dos veículos militares e o condutor do tanque, também se recusou a avançar. Acaba por subir e falar com o condutor. O mito urbano diz que ele gritou: "Não matem mais o meu povo". O seu destino é desconhecido, depois de ter sido levado para o meio da multidão.
Logo a seguir, o sangue correria na Praça de Tiananmen, mas a imagem demonstrou a mais de mil milhões de chineses que a esperança estava viva.
Em 1999, a revista Time colocou o “Rebelde Desconhecido” entre os 20 mais “influentes líderes e revolucionários do século”.

Massacre da Praça de Tiananmen


A 3 de Junho de 1989 atinge-se o auge de uma série de manifestações pró-democráticas, lideradas por estudantes chineses.
A 15 de Abril, a seguir à morte do secretário-geral do partido comunista e do reformista democrático Hu Yaobang os estudantes desencadearam manifestações pacíficas em Xangai, Pequim e noutras cidades. Hu tornou-se um herói entre os chineses liberais quando recusou fazer parar os distúrbios em Janeiro de 1987.
As manifestações pró-democráticas continuaram com as pessoas a pedirem a mudança do líder supremo da China, Deng Xiaoping e também a cúpula de todos os funcionários do Partido.
Nos primeiros dias do mês de Maio, havia sinais claros de uma cisão dentro da cúpula do Partido Comunistas Chinês. Enquanto o chefe do partido, Zhao Ziyang, mostrava compreensão para as reivindicações estudantis, o primeiro-ministro, Li Peng, e Deng Xiaoping defendiam a linha dura.
A 13 de Maio, os estudantes reunidos na praça da Paz Celestial iniciaram uma greve de fome, para chamar a atenção a Mikhail Gorbachov, que visitaria a China dois depois.
Li Peng recusa as exigências dos estudantes e a visita de Gorbachov realiza-se normalmente, mas o protocolo tem de ser alterado e é cancelada a visita à praça de Tiananmen.
No dia 20 de Maio Li Peng decretou a lei marcial, e a 23 de Maio Zhao Ziyang foi deposto, selando a vitória da linha-dura do governo chinês.
A cisão começava também a atingir os manifestantes. Os mais radicais negavam-se a seguir a sugestão feita pela Aliança Universitária de Pequim, de encerrar a manifestação. No dia 29, os estudantes de belas-artes fazem uma réplica da Estátua da Liberdade com 10 metros de altura, usando papel e esferovite, a que chamaram a “A Deusa da Democracia”. A imagem correu o mundo e tornou-se icónica desta luta.
Durante as sete semanas que duraram as históricas manifestações dos estudantes universitários de Pequim, irradiou da praça da Paz Celestial para o mundo um sopro de entusiasmo e esperança. Eles pediam democracia e fim da corrupção, a justeza das suas reivindicações fez em poucos dias multiplicarem-se os manifestantes, que passaram de 20 mil para quase 2 milhões, envolvendo praticamente todos os sectores da sociedade.
Mas o fim seria trágico.
Depois da tentativa frustrada do Exército controlar Pequim pacificamente, porque os soldados recuaram frente aos apelos dos manifestantes. A cúpula do Partido Comunista e do Exército de libertação, obrigaram os soldados a intervir activamente.
Às 4h30 do dia 4 de Junho, as luzes acendem-se e tropas e tanques desencadeiam o ataque final. O solo da Praça da Paz Celestial fica juncado de cadáveres. O balanço final nunca foi conhecido. Segundo a Amnistia Internacional, foram mortos nessa noite mil manifestantes, segundo dados mais recentes, mas também não definitivos, os mortos dessa noite foram 727 – 14 soldados e 713 manifestantes. Foram feridos, nessa noite dez mil pessoas e presos milhares de estudantes e trabalhadores.
A repressão continuou em todo o país, até hoje, com prisões e execuções sumárias, controle da imprensa e não respeito pelos Direitos humanos.

China Descontente com EUA


As autoridades chinesas expressaram hoje “profundo descontentamento” sobre o apelo lançado na véspera pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, que instou à publicação dos nomes de todas as pessoas mortas, desaparecidas ou detidas na repressão das manifestações pró-democracia de 1989, na Praça de Tiananmen, há exactamente 20 anos.
“Este acto dos Estados Unidos ignora os factos e comporta acusações sem fundamento contra o Governo chinês”, avançou ainda o porta-voz do Ministério chinês dos Negócios Estrangeiros, Qin Gang, considerando ainda que as declarações da chefe da diplomacia norte-americana constituem uma “interferência chocante nos assuntos internos da China”.
Num comunicado emitido ontem, Clinton urgira o regime de Pequim a fornecer um balanço sobre a repressão de há duas décadas e a “examinar abertamente as páginas sombrias do seu passado”. Era feito apelo à libertação de todos quantos se encontram ainda presos em ligação às manifestações de Tiananmen, ao fim da perseguição daqueles que nelas participaram e ainda à abertura de um diálogo com as famílias das vítimas.
Centenas, se não mesmo milhares, de manifestantes, estudantes e cidadãos solidários com os protestos foram mortos na noite de 3 para 4 de Junho de 1989, depois de os carros blindados terem invadido as ruas de Pequim com o propósito de pôr termo a uma vaga de manifestações pacíficas na capital – que se arrastavam há sete semanas – e que as autoridades chinesas qualificaram como uma “rebelião contra-revolucionária”.
O regime chinês nunca divulgou qualquer balanço oficial sobre o número de mortos no esmagamento dos protestos de Tiananmen, posição uma vez mais reiterada hoje, com o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros a recusar responder a quaisquer perguntas relacionadas com este facto. “Em relação ao incidente político que teve lugar no final dos de 1980, o partido e o Governo já anunciaram as suas conclusões”, afirmou Qin Gang em conferência de imprensa aludindo à terminologia oficial sobre Tiananmen.(Público)

Segurança Máxima em Pequim


Numa crítica invulgarmente dura, os Estados Unidos exigiram ontem a Pequim que publique os nomes dos que morreram ou desapareceram na sequência das manifestações em Tiananmen, há exactamente 20 anos. "Uma China que fez enormes progressos económicos e está a emergir para ocupar o seu lugar de direito na liderança mundial deve examinar abertamente os acontecimentos mais escuros do passado e dar uma satisfação pública dos que morreram, foram detidos ou desapareceram tanto para aprender, como para sarar", declarou a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, citada pela Reuters. "Este aniversário dá uma oportunidade às autoridades chinesas de libertar da prisão todos os que ainda cumprem penas relacionadas com os acontecimentos de 4 de Junho de 1989.
"As forças de segurança chinesas colocaram a Praça de Tiananmen sob pesadíssima vigilância para evitar que seja assinalado o aniversário do massacre, que resultou na morte de milhares de manifestantes pró-democracia. Centenas de agentes da polícia vigiam o local.
O controlo de vozes críticas ao regime também tem sido apertado. Nos últimos dias, vários dissidentes foram levados para fora da capital; outros obrigados a ficar em casa, relata a agência AFP. Por exemplo, Qi Zhiyong, que perdeu a perna esquerda na repressão, foi levado à força para fora de Pequim depois de ter recusado sair por sua iniciativa. A vigilância não se faz só na rua. A rede social Twitter e outros serviços e sites da Internet, como o Hotmail, foram bloqueados. (Público)

quarta-feira, junho 03, 2009

Prémio Camões para Arménio Vieira


O júri do Prémio Camões decidiu atribuir o galardão deste ano ao poeta cabo-verdiano Arménio Vieira.
Arménio Vieira disse que, a título pessoal, já esperava "ganhar" mas sublinhou que era ainda cedo para um autor de Cabo Verde ser distinguido. "A título pessoal, eu esperava o prémio. Mas por causa de ser Cabo Verde, admiti que fosse ainda um bocado cedo. É pequeno em relação à imensidão do Brasil, que tem centenas de escritores óptimos. E Portugal também. Seria muito difícil Cabo Verde apanhar o prémio", disse, visivelmente emocionado.
"É uma honra pessoal. Eu sou o autor dos livros que ganharam o prémio, porque é atribuído à obra e não à pessoa. Acho que é uma honra para Cabo Verde. É histórico, Cabo Verde nunca tinha ganho. Desta vez lembraram-se do nosso pequeno país", acrescentou Arménio Vieira.
O galardoado manifestou a esperança de que, a partir de agora, a sua obra venha a ser estudada em Cabo Verde e no estrangeiro. "Espero bem que sim, será mais estudada. Mas ainda não se estuda. Às vezes as pessoas compram livros mas não os lêem", referiu.
Arménio Vieira, o primeiro cabo-verdiano a receber o Prémio Camões, nasceu na cidade da Praia, na Ilha de Santiago, Cabo Verde, em 24 de Janeiro de 1941.
Arménio Vieira é autor de quatro livros, dois de poemas e dois romances, respectivamente, “Poemas” e “Mitografias, “O Eleito do Sol” e “No Inferno”.
Além de escritor, é jornalista, com colaborações em publicações como o “Boletim de Cabo Verde”, a revista “Vértice”, de Coimbra, “Raízes”, “Ponto & Vírgula”, “Fragmentos” e “Sopinha de Alfabeto”.
Antes, Arménio Vieira foi por diversas vezes galardoado com prémios literários, o primeiro dos quais em 1976, quando conquistou os Jogos Florais. Nos anos noventa, obteve também um dos prémios da Associações dos Escritores de Cabo Verde, AEC.
Contudo, pelo seu valor pecuniário (100 000 euros) e pela sua projecção internacional, o Prémio Camões é, sem dúvida, a mais importante distinção literária deste escritor cabo-verdiano.
Arménio Vieira é o quarto escritor africano distinguido com o Prémio Camões, depois do moçambicano José Craveirinha (1991) e dos angolanos Pepetela (1997) e José Luandino Vieira (2006), tendo este, no entanto, recusado a distinção. É também o regresso da poesia à galeria dos premiados, depois de Eugénio de Andrade (2001), Sophia de Mello Breyner (1999), o já citado Craveirinha, o brasileiro João Cabral de Melo Neto (1990) e Miguel Torga (a inaugurar o Camões, em 1989). Além de poetas e romancistas, foram igualmente premiados dois ensaístas: Eduardo Lourenço (1996) e o brasileiro António Cândido (1998).
O Prémio Camões, instituído pelos governos do Brasil e Portugal em 1988, é atribuído aos autores que tenham contribuído para o enriquecimento do património literário e cultural da língua portuguesa. E é considerado o mais importante prémio literário destinado a galardoar um autor de língua portuguesa pelo conjunto da sua obra. (Público)

sexta-feira, maio 29, 2009

Saramago Censurado em Itália


A editora italiana Einaudi recusou-se a publicar a tradução italiana de "O Caderno", do Nobel português José Saramago, mas o escritor disse ontem que o livro será publicado por outra editora. O livro critica o primeiro-ministro e proprietário da Einaudi, Silvio Berlusconi, comparando-o a um líder mafioso.
Segundo a edição electrónica da revista italiana “L'Espresso”, a mais recente obra de José Saramago, já publicada em Portugal e Espanha, contém "algumas críticas muito duras" acerca de Silvio Berlusconi, definindo-o como "delinquente, corrupto, um líder mafioso".
José Saramago desdramatizou a recusa da Einaudi, revelando compreender a sua decisão, uma vez que a editora, a única em Itália que tem publicado as suas obras, é propriedade do primeiro-ministro italiano. O Prémio Nobel da Literatura adiantou que, ainda este ano, a tradução italiana de "O Caderno", que reúne textos divulgados no seu blogue entre Setembro de 2008 e Março de 2009, será publicada sob a chancela da Bolatti Boringhieri, uma editora importante mas pouco conhecida.
"Uma vez que estou publicado em Itália pela Einaudi, que é propriedade de Berlusconi, fi-lo ganhar algum dinheiro", afirma o escritor em "O Caderno", citado pela revista L'Espresso. "Na terra da Mafia e da Camorra [em Itália], que importância pode ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente?", questiona Saramago, comparando o chefe do Governo italiano a "um líder mafioso".
Confrontado com a recusa da Einaudi, o escritor respondeu: "Simplesmente acontece que a editora é propriedade de Silvio Berlusconi, compreendo, entendo muito bem que a editora não queira editar livros que atacam o proprietário, atacam ou criticam". "Isto não é nada dramático, é assim", frisou, acrescentando "ter a informação de que a Einaudi sofreu por se ter atrevido a publicar livros contra Silvio Berlusconi".
Questionado sobre se a decisão da editora italiana não seria pouco democrática, Saramago declarou: "Não abusemos da Democracia". José Saramago adiantou que, "ainda este ano", a Bolatti Boringhieri, uma editora importante mas que "não anda nas bocas do mundo", irá publicar a tradução italiana de "O Caderno".
O escritor desconhece se a Einaudi continuará a publicar os seus livros. "Não faço apostas em relação ao futuro", sublinhou.A revista “L'Espresso” noticiou ainda que a Einaudi pediu a Saramago que eliminasse em "O Caderno" as referências a Berlusconi mas que o autor se recusou.
A Einaudi tem editados 20 títulos do autor português. Em Portugal, a obra "O Caderno" foi publicada em Abril pela editora Caminho. A Lusa procurou obter uma reacção da editora mas não conseguiu até ao momento.(Lusa/Público)

quinta-feira, maio 28, 2009

Relatório da Amnistia Internacional


O relatório da Amnistia Internacional sobre Direitos Humanos volta a apontar o dedo a Portugal. A Amnistia refere a brutalidade das forças de segurança e violência doméstica.
O caso está encerrado e o tribunal deu como provadas as agressões a Leonor Cipriano, condenada pela morte da filha, mas absolveu os inspectores da Polícia Judiciária acusados da autoria das agressões. O processo aparece destacado no relatório da Amnistia Internacional (AI) sobre Direitos Humanos relativo a 2008.
O caso de Leonor Cipriano serve para ilustrar a convicção de que em Portugal persistem os casos de maus-tratos e tortura por parte das forças de segurança. A AI entende que, quando chegam a tribunal, esses processos "avançam lentamente".
A violência doméstica é outro dos problemas destacados no relatório. 48 mulheres assassinadas, vítimas de violência doméstica, e mais de 16 000 queixas na Associação Portuguesa de Apoio à Vítima põem Portugal também na lista dos países em que a violência contra mulheres é preocupante.

A AI refere ainda o controverso cartaz do Partido Nacional Renovador, apontado como um sinal de racismo e xenofobia, e levanta mais uma vez a questão da passagem de voos da CIA por território português.
A organização entende que é preciso apurar responsabilidades e quer saber mais sobre os passageiros que seguiam a bordo.
Em termos globais, o relatório sublinha que dois terços da população mundial vivem abaixo do limiar da pobreza.
As soluções que os líderes mundiais procuram para resolver a crise económica devem incluir um novo pacto sobre Direitos Humanos, diz a Amnistia Internacional.

quarta-feira, maio 27, 2009

Prémio Man Booker International


A escritora de contos canadiana Alice Munro, de 77 anos ( nasceu a 10 de Julho de 1931), venceu o Prémio Man Booker International.
A escritora foi escolhida de entre uma lista que incluía alguns vultos da literatura mundial, nomeadamente o escritor peruano Mario Vargas Llosa e o italiano Antonio Tabucchi.
Alice Munro já recebeu ao longo da sua longa carreira uma série de prémios literários, entre os quais o National Book Critics Circle e o Commonwealth Writers, apesar de o Nobel da Literatura, para o qual permanece uma eterna candidata, ainda lhe continuar a fugir.
A autora de contos não esconde a sua vontade de produzir um romance grandioso: "Estou sempre a tentar. Entre cada livro que edito, digo sempre, 'bom, vamos lá ao que interessa'", indicou a escritora ao jornal britânico "The Guardian", em 2003.
O prémio, no valor de 60 mil libras, é bianual e vai na sua terceira edição; nas edições anteriores foram vencedores Ismail Kadaré (2005) e Chinua Achebe (2007).
Segundo o site oficial de The Man Booker Prize, Alice Munro revelou estar “completamente surpreendida e muito satisfeita”.A estreia literária de Alice Munro aconteceu em 1968 com a obra "Dance of the Happy Shades".
Actualmente vive em Clinton, Ontario, perto do Lago Huron, e já publicou até ao momento onze colecções de contos e uma "novela", "Lives of Girls and Women", que é considerada antes uma série de pequenos contos co-relacionados.
A sua mais recente colecção de contos, "Too Much Happiness", será publicada em Outubro. (Com jornal Público).

terça-feira, maio 26, 2009

Capa da Revista "The New Yorker"


O designer português Jorge Colombo é o autor da capa da prestigiada revista norte-americana "New Yorker", desta semana.
Jorge Colombo, que vive nos Estados Unidos há 25 anos, pintou a ilustração com os dedos recorrendo a uma aplicação do telemóvel iPhone. Nesta aplicação, o visor transforma-se numa tela e o pincel é o dedo do utilizador. O resultado é uma tela digital que se assemelha a uma pintura impressionista.
O autor esteve uma hora em frente ao Museu de Cera de Madame Tussaud, em Nova Iorque, a desenhar pessoas junto de uma banca de venda de comida.

segunda-feira, maio 25, 2009

Irvine Welsh


Irvine Welsh, o romancista e argumentista escocês, autor do best-seller Trainspotting, levado ao cinema por Danny Boyle em 1996 e que contava com o desempenho de Ewan McGregor no principal papel, vai realizar uma comédia sobre futebol intitulada The Magnificent Eleven, que marca a sua estreia a solo na realização de longas-metragens.
Como informa o site da revista Variety, o argumento do filme é da autoria do próprio Irvine Welsh, e do pai e filho Pete e John Adams.
Segundo Welsh, The Magnificent Eleven é uma modernização cómica do clássico do western de 1960 Os Sete Magníficos de John Sturges, que contava no elenco com os nomes de Eli Wallach, Steve McQueen e Charles Bronson. Os Magníficos Onze serão uma equipa dum clube de futebol amador de Edimburgo, cidade onde decorrerá a rodagem, no segundo semestre do ano. Irvine Welsh fez a curta-metragem, Nuts, em 2007. Já este ano, Irvine Welsh e Helen Grace assinaram a realização da comédia Good Arrows.

quinta-feira, maio 07, 2009

Suttree


Caro amigo, nas horas poeirentas e intemporais da cidade, agora que as ruas jazem negras e exalam nuvens de vapor na esteira dos camiões-cisterna e agora que os bêbedos e os sem-abrigo desaguaram nas vielas e nos terrenos baldios, abrigados junto aos muros, e os gatos vagueiam nas soturnas cercanias, esguios e de espáduas altaneiras, agora nestas galerias empedradas ou de tijolos enegrecidos de fuligem onde as sombras dos fios eléctricos formam uma harpa espectral nas portas das caves, ninguém caminhará senão tu.
Velhos muros de pedra que resistiram, indemnes, às intempéries, com ossos fossilizados ocultos nas suas estrias, escaravelhos calcários alojados nas pregas desta planura, outrora leito de um mar interior. Árvores magras e escuras que se avistam através da estacaria metálica, mais, além, onde os mortos habitam uma pequena metrópole só sua. Uma curiosa arquitectura de mármore, estelas e obeliscos e cruzes e pequenas lápides gastas pela chuva em cuja face os nomes se esbatem com o passar dos anos. A terra repleta de amostras da arte do fabricante de ataúdes, ossos reduzidos a pó e seda apodrecida, as vestes dos mortos manchados de carne putrefacta. Lá adiante, à luz azul dos candeeiros, os carris do eléctrico perdem-se nas trevas, curvos como esporões de galo ao lusco-fusco de ouropel. O aço exala o calor do dia, podes senti-lo através das solas dos sapatos. Deixa para trás as paredes de chapa ondulada destes armazéns e percorre as ruelas arenosas onde carros esventrados repousam, sorumbáticos, sobre pedestais de tijolos de cimento. Atravessa maciços labirínticos de sumagre e erva-tintureira e madressilva ressequida que dão para os taludes barrentos do caminho-de-ferro, cobertos de sulcos e entalhes. Trepadeiras cinzentas enroscadas para a esquerda neste hemisfério setentrional, torcidas pela mesma força que molda a concha do burrié. Ervas daninhas que brotaram da cinza, entre tijolos. Uma escavadora a vapor de pá erguida, recortada sobre o céu nocturno num abandono solitário. Atravessa aqui. Sobre carris bifurcados e eclises onde as automotoras roncam como leões na escuridão do parque ferroviário. Penetra numa cidade mais sombria, deixa para trás candeeiros de lâmpadas partidas à pedrada, choupanas fumegantes de paredes oblíquas e cães de porcelana e pneus pintados onde crescem flores sujas. Percorre pavimentos lacerados pela devastação, o lento cataclismo do abandono, os fios eléctricos que pendem, barrigudos e envoltos em cordéis de papagaios-de-papel, de poste em poste, por entre as constelações, adornados com toscas gravatas feitas de garrafas atadas aos pares pelos gargalos ou brinquedos de petizes. O acampamento dos danados. Terrenos, quiçá, onde leprosos de lábios gotejantes deambulam sem sineta.
Primeira página do livro “Suttree” de Cormac McCarthy, traduzido por Paulo Faria e editado pela Relógio D’Água Editores, Fevereiro de 2009.
Quarto romance publicado por McCarthy (originalmente em 1979), é o seu livro mais extenso e aquele que mais tempo de escrita lhe consumiu: pelo menos vinte anos (período durante o qual escreveu também e publicou outros três romances). Será igualmente o mais "autobiográfico", tomando por cenário a provinciana "metrópole" de Knoxville (onde McCarthy cresceu e passou parte da sua vida de adulto) e arredores. Não há em "Suttree" uma progressão dramática que lisonjeie a atenção do leitor, mas antes uma sucessão (não linear cronologicamente, nem evidente do ponto de vista da enunciação) de episódios, de quadros, da vida do protagonista entre 1950 e 1955. Cornelius Suttree é alguém que abandonou tudo - o privilegiado estauto social familiar, a mulher e o filho pequeno (que depois morre) -para viver solitariamente ao sabor da corrente (literal e metaforicamente). Não sabemos por que o fez, que idade terá, o que procura (se é que procura algo); sabemos que se abriga numa miserável casa flutuante no rio, que se dedica preguiçosa e altivamente à pesca à linha para arranjar os poucos tostões de que necessita para sobreviver, sabemos que esteve preso (e é quando encontra outra entranhável personagem deste livro, Harrogate, um adolescente fornicador de melancias), sabemos que vagueia melancolicamente sem destino nem premeditação, que confraterniza com pobres e marginais, humilhados e ofendidos, rameiras e travestis (mas não com banqueiros e corretores), com os quais é alheiamente generoso e bom. São anos "na companhia de larápios, desvalidos, celerados, párias, poltrões, tratantes, rústicos, sandeus, homicidas, tavolageiros, alcouceiras, marafonas, rascoeiras, salteadores, beberrões, bebedanas, borrachos e arquiborrachos, labrostes, lúbricos, vagabundos, bargantes e tantos outros debochados, vá lá saber-se qual deles mais perverso" (continuo sem saber se a por vezes estonteante riqueza lexical de McCarthy tem origem no seu gosto afiado pela descrição minuciosa e exacta, seja da fauna ou da flora, seja de ofícios ou artefactos, ou se é o inverso).( Ípsilon).

quarta-feira, maio 06, 2009

Prémio de Carreia para Cormac McCarthy


O escritor Cormac McCarthy é o segundo norte-americano a ser galardoado com o prémio de carreira PEN/Saul Bellow ,depois de em 2007 Philip Roth ter ganho este prémio bienal.
O júri composto por Claudia Roth Pierpont, Philip Roth, e Benjamin Taylor, distinguiu "um notável autor norte-americano de ficção vivo cuja obra possui qualidades de excelência, ambição e êxito ao longo de uma carreira uniforme que o colocam no mais alto lugar da literatura norte-americana", atribuindo-lhe o prémio PEN/Saul Bellow no valor de 25.000 dólares.
Cormac McCarthy junta este prémio ao Pulitzer de 2007 pelo romance apocalíptico “A Estrada” e ao National Book Award por “Belos Cavalos”.
O seu livro “Estes País Não é Para Velhos” foi adaptado ao cinema pelos irmãos Coen, tendo ganho o Óscar de Melhor Filme do ano 2007.
Cormac McCarthy nasceu em Rhode Island, a 20 de Julho de 1933. Na juventude foi viver para Knoxville, no Tennessee que virá a ser o pano de fundo dos seus primeiros romances. Estudou Artes na Universidade do Tennessee e por incompatibilidades com a família, alistou-se na Força Aérea dos Estados Unidos onde serviu quatro anos. Em 1976 mudou-se para El Paso, Texas e actualmente vive em Santa Fé, Novo México, com a mulher e o filho.
Em 40 anos de carreira literária, editou nove romances, estando editados em Portugal, os seguintes livros: O Guarda do Pomar, Filho de Deus, Belos Cavalos, Meridiano de Sangue, Este País Não é Para Velhos, A Estrada e Suttree.
O escritor é considerado um dos grandes nomes do romance contemporâneo norte-americano, ao lado de nomes, como Don DeLillo, Philip Roth e Thomas Pynchon.

Escritos pela Inspiração


Segundo o jornal inglês The Guardian, numa votação levada a cabo pela empresa One Poll, o livro “Por Favor Não Matem a Cotovia” da norte-americana Harper Lee foi considerado o livro mais inspirado de todos os tempos, tendo a Bíblia ficado em segundo lugar.
O clássico dos anos 60, escrito por Harper Lee já vendeu mais de 30 milhões de cópias em todo o mundo. A história passa-se nos anos da Grande Depressão, onde Atticus Finch, um advogado de uma pequena cidade, Maycomb, situada no sul dos Estados Unidos, recebe a dura tarefa de defender um homem negro injustamente acusado de violar uma jovem branca. Através do olhar de uma criança, Harper Lee descreve-nos o dia-a-dia de uma comunidade conservadora onde o preconceito e o racismo caracterizam as relações humanas, revelando-nos, ao mesmo tempo, o processo de crescimento, aprendizagem e descoberta do mundo típicos da infância. Com esta obra a autora foi galardoada com o Prémio Pulitzer.
O livro foi passado a filme pelo realizador norte-americano Robert Mulligan, pelo qual foi nomeado para o Óscar de melhor realizador em 1962, perdendo para David Lean. Apesar de ter perdido, o actor Gregory Peck, dirigido por si, no papel de Atticus Finch, ganhou o Óscar de Melhor Actor.
Da Bíblia quase tudo foi dito, traduzido em 2454 línguas, é considerado pelos cristãos o seu livro sagrado e acreditam que os homens que a escreveram foram inspirados por Deus. Estima-se que tenha vendido mais de 2 mil e 500 milhões de cópias.
O terceiro lugar foi para o “best-seller”, "Uma Criança Chamada “Coisa”", de Dave Pelzer.
Uma história real vivida pelo autor, que num testemunho impressionante relata os primeiros anos da sua terrível infância. A transformação de uma progenitora carinhosa, através do álcool, num monstro frio e cruel que altera totalmente a vida de uma criança e toda a família.Um best-seller não só nos Estados Unidos como nos principais países europeus.
Em quarto lugar aparece o livro de auto-ajuda do canadiano John Gray, “Os Homens São de Marte e as Mulheres são de Vénus”. John Gray, especialista em aconselhamento de familiar, explica as diferenças entre os sexos usando uma metáfora para ilustrar os conflitos que ocorrem frequentemente entre homens e mulheres. O top cinco é fechado com o famoso “Diário de Anne Frank”, que comoveu o mundo, como um documento pungente do Holocausto. De 12 de Junho de 1942, dia do seu 13.º aniversário, a 4 de Agosto de 1944, quando a família Frank foi mandada para o campo de concentração de Auschwitz, Anne escreveu diariamente no seu diário. O livro foi lançado em 1947 e está traduzido em 58 idiomas e vendeu mais de 30 milhões cópias.
Em sexto lugar aparece a sátira política de George Orwell, “1984”, seguido da autobiografia de Nelson Mandela, “ Longo Caminha para a Liberdade”. A autobiografia daquele que foi um dos maiores exemplos da história da Humanidade, escrita secretamente, durante os 27 anos que este encarcerado nas prisões sul-africanas, durante o regime do apartheid.. Uma personalidade incomparável, um grande defensor da igualdade e da luta pelos direitos humanos e cívicos.
Em oitavo lugar aparece o livro de Alex Garland, “A Praia” e em nono, o livro de Audrey Niffenegger’s, “ A Mulher do Viajante no Tempo”.
A lista é fechada com o clássico dos anos 50 de JD Salinger, que revolucionou a literatura norte americana: “Uma Agulha no Palheiro”. O livro conta as aventuras de Holden Caulfield, um rapaz de 16 anos, que ao ter de deixar o colégio interno que frequenta, mas receoso de enfrentar a fúria dos pais, decide passar uns dias em Nova Iorque até começarem as férias de Natal e poder voltar para casa.
Confuso, inseguro, incapaz de reconhecer a sua própria sensibilidade e fragilidade, Holden percorre nesses dias um intrincado labirinto de emoções e experiências, encontrando as mais diversas pessoas, como taxistas, freiras e prostitutas, e envolvendo-se em situações para as quais não está preparado.
Nesta lista, apenas não li os livros de Alex Garland e Audrey Niffenegger, e apesar de razões diferentes terem inspirado os autores, qualquer um destes livros “agarra-nos” até à última página, notando-se implicitamente uma grande dose de inspiração.

segunda-feira, maio 04, 2009

Vasco Granja 1925-2009


Vasco Granja, divulgador de banda desenhada e do cinema de animação em Portugal, morreu esta madrugada em Cascais. Tinha 83 anos.
Autodidacta e com múltiplos interesses culturais ao longo da sua vida, Vasco Granja nasceu em Campo de Ourique (Lisboa) a 10 de Julho de 1925.
Começou a trabalhar, ainda muito novo, nos antigos Grandes Armazéns do Chiado, e depois ao balcão da Tabacaria Travassos, na baixa lisboeta, que consideraria, anos mais tarde, a sua universidade. O seu interesse pelo cinema surge na adolescência e aos 16 anos chegaria a ser admitido como segundo assistente de fotografia no filme “A Noiva do Brasil”, de Santos Neves.
No início da década de 50 envolve-se no movimento cineclubista, tendo desempenhado funções directivas no Cine-Clube Imagem.
Granja foi preso pela primeira vez pela polícia política do Estado Novo em Novembro de 1954, quando militava clandestinamente no PCP. Esteve preso sem julgamento seis meses e quando foi libertado voltou às suas actividades cineclubísticas e à divulgação cultural na imprensa.
Datam de 1958 os seus primeiros artigos sobre o cinema de animação, nomeadamente na sequência da descoberta dos filmes experimentais do canadiano Norman McLaren.
No início da década de 60 arranja trabalho na Livraria Bertrand, onde se manteve até à reforma.É preso de novo em 1963, julgado e condenado a 18 meses de prisão. Quando foi libertado, em 1965, Vasco Granja retoma a sua actividade cultural, com artigos nos media sobre cinema e literatura.O seu nome é habitualmente associado à divulgação da banda desenhada em Portugal.
O termo “banda desenhada” é, aliás, utilizado pela primeira vez por Granja num artigo publicado pelo Diário Popular em 19 de Novembro de 1966.
Integra a equipa fundadora da revista francesa de crítica e ensaio de banda desenhada Phénix, nos anos 60 e participa regularmente no Salone Internazionale dei Comics, em Lucca (Itália), o mais importante encontro do género nos anos 70.
Em Portugal, a sua actividade de divulgação da banda desenhada intensifica-se a partir do aparecimento da edição portuguesa da revista Tintin, em Junho de 1968, onde escrevia e traduzia artigo, além de ter a responsabilidade da secção de cartas aos leitores.
Em 1974 e 1975 integra o júri do Salão Internacional de BD de Angoulême. Depois de 25 de Abril de 1974, Vasco Granja mantém um programa regular sobre cinema de animação na RTP, que teve mais de 1000 emissões e divulgou sistematicamente as grandes escolas internacionais do género. Estava reformado desde 1990.(Público).
Vasco Granja marcou profundamente a minha geração; foi ele que me inculcou, a mim e a muitos milhares de portugueses, o "bichinho" da banda desenhada e dos desenhos animados. É com muita tristeza que leio esta notícia no Público. Fica a recordação e o reconhecimento de todo um basto trabalho realizado em prol da banda desenhada e do cinema de animação em Portugal.
Até sempre.

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domingo, maio 03, 2009

Poeta Laureada


Foram precisos 341 anos para que a uma mulher fosse atribuído pela Coroa britânica o título de Poeta Laureada. A escritora escocesa Carol Ann Duffy, 53 anos, (n. a 23 de Dezembro 1955), professora universitária em Manchester, lésbica assumida, é a primeira Poeta Laureada do século XXI.Durante os próximos dez anos, Carol Ann Duffy encarregar-se-á de escrever poemas para as celebrações do reino. É a primeira mulher e o primeiro poeta a vir da Escócia.
Tal como manda a tradição, a poeta escocesa, conhecida pela sua obra The World's Wife (1999), receberá 600 garrafas de sherry e terá um salário anual de 6400 euros. Carol Ann Duffy já disse que vai doar este salário anual à Poetry Society para ajudar a promover um prémio literário.
O título de Poeta Laureado foi oficialmente instituído pelo rei Carlos II, em 1668, e John Dryden, William Wordsworth, Alfred Tennyson, John Betjeman e Ted Hughes encontram-se entre os que já o receberam. A sugestão do nome de Carol Ann Duffy partiu do Governo britânico e a nomeação foi feita pela rainha Isabel II.

"Portugal Também é Meu"


O Grupo Auchan (Jumbo) decidiu proibir, pela segunda vez em dez anos, a venda do romance A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, nos seus hipermercados.
O fundamento desta medida é o carácter pretensamente pornográfico da obra, repudiado pelo seu autor.“Amigo Nelson, lá vamos nós outra vez”, comenta o escritor brasileiro numa mensagem enviada ao seu editor português, Nelson de Matos.
“Não há razão nenhuma para essa censura”, diz Ubaldo Ribeiro. “Imagino que eles também não vendam Henry Miller ou outros autores desse tipo”.
Pedindo ao editor que “não se incomode nem se aborreça”, o escritor declara-se “chateado” com “este acto censório”, que qualifica como “irónico” e quase “suspeito”:
“Parece uma jogada sua de marketing para poder aumentar as vendas do livro, coisa que sucedeu da primeira vez”.
João Ubaldo Ribeiro lembra que a obra foi adoptada em exames de acesso por universidades brasileiras e francesas. Refere-se ao êxito da edição do livro na Alemanha, país onde é leitura recomendada aos diplomatas que são destacados para o Brasil.
O escritor afirma ainda que “está a ficar velho de mais” para se “incomodar com estas coisas”. E assegura, a concluir: “Por nada disto é afectado o meu amor por Portugal. Posso dizer a esses portugueses que, por mais que eles queiram o contrário, Portugal também é meu”.
A primeira proibição de A Casa dos Budas Ditosos foi há dez anos, quando Nelson de Matos era editor das Publicações Dom Quixote. Uma nova edição, lançada agora pelas Edições Nelson de Matos, volta a ter a mesma sorte. “O Grupo Auchan não vende produtos do foro pornográfico.
O referido livro enquadra-se neste conjunto de artigos”, explicou na semana passada ao semanário Expresso a agência de comunicação que representa o grupo. Uma segunda obra do mesmo escritor, Viva o Povo Brasileiro, está também retida para apreciação.
“Tudo isto é lamentável”, disse Nelson de Matos ao PÚBLICO. “Considerar o livro pornográfico é um acto de gaguez de espírito”. O editor lembra que João Ubaldo Ribeiro foi galardoado em 2008 com o Prémio Camões, o mais importante em língua portuguesa, pelo conjunto da sua obra. E que, este ano, o Brasil é o país convidado da Feira do Livro de Lisboa. Por isso, não tem dúvidas em considerar “um acto inamistoso” a proibição de livre circulação da obra por parte do Grupo Auchan:
“Indigno-me contra isso, mesmo que a empresa deixe de adquirir os meus livros.”
As manifestações de apoio e solidariedade continuam a chegar, tanto da parte de figuras públicas como de gente anónima, diz o editor. Muitas das reacções vêm do Brasil, onde o caso teve várias referências nos media.(Público)

quinta-feira, abril 30, 2009

Aravind Adiga


Aravind Adiga é um jovem escritor indiano nascido a 23 de Outubro de 1974 no sul da Índia, na cidade de Chenai, a antiga Madras.
Nascido no seio de uma de uma família da classe média, ainda criança foi viver para Mangalore. Na adolescência foi viver com a família para a Austrália, onde se tornou cidadão australiano, tendo por isso dupla nacionalidade.
A seguir, estudou literatura em Nova Iorque (Universidade de Columbia) e em Inglaterra (Oxford). Começou a escrever para jornais ingleses ("Financial Times" e "The Guardian"), regressando posteriormente à Índia, onde se tornou correspondente permanente da revista "Time" para o Sul da Ásia.
Com seu romance de estreia, O Tigre Branco, publicado em Portugal pela Editorial Presença, ganhou o Booker Prize 2008, repetindo a façanha da sua compatriota Arundhati Roy, que venceu o mesmo Prémio em 1997 com seu primeiro livro, O Deus Das Pequenas Coisas.
Continua hoje a ser jornalista, mas exerce a profissão em regime parcial e livre. Entretanto, publicou em Novembro do ano passado, na Índia o seu segundo livro, "Between the Assassinations", ainda não disponível a nível internacional.

O Tigre Branco


Para o gabinete do Primeiro-Ministro:
Sua Excelência Wen Jiabao
Pequim
Capital da Nação Amante da Liberdade da China
Do gabinete de:
"O Tigre Branco"
Um homem dado à reflexão
E um empresário
Que reside no centro mundial de Tecnologia e Subcontratação Electronics City Phase 1 (mesmo à saída de Hosur Main Road) Bangalore, Índia
Sr. Primeiro-Ministro
Nem eu nem o senhor falamos inglês, mas há coisas que só podem ser ditas em inglês.
A minha antiga patroa, a falecida ex-mulher do Sr. Ashok, Madame Pinky, ensinou-me umas quantas coisas; e, às 11h32 da noite de hoje, o que foi à cerca de dez minutos, quando a senhora da All India Radio anunciou: "O Primeiro-Ministro Jiabao chega a Bangalore na próxima semana", saiu-me logo uma delas.
Na verdade, sempre que homens ilustres como o senhor visitam o nosso país, sai-me sempre o mesmo. Não que eu tenha alguma coisa contra homens ilustres. À minha maneira, senhor, considero-me um seu igual. Mas sempre que vejo o nosso primeiro-ministro e os seus distintos colaboradores chegados serem conduzidos ao aeroporto em automóveis pretos, saírem e porem-se a fazer-lhe namastés diante duma câmara de televisão e a assegurarem-lhe de que a Índia é santa e virtuosa, não me consigo conter de dizer aquilo em inglês.
Bom, então, Vossa Excelência sempre nos vem visitar na próxima semana, não é verdade? Em geral, a All India Radio é de fiar em assuntos deste âmbito.
Era uma piada, senhor.
Ah!
É por isso que me decidi a perguntar-lhe directamente se é mesmo verdade que vem a Bangalore. Porque, a ser assim, tenho algo importante a comunicar-lhe. Sabe, a senhora da rádio disse: " O Senhor Jiabao vem em missão: quer conhecer a verdade a respeito de Bangalore".
Senti o sangue gelar-me nas veias. Se há alguém que saiba a verdade a respeito de Bangalore, essa pessoa seu eu.
A seguir, a senhora locutora acrescentou: " O Senhor Jiabao pretende conhecer alguns empresários indianos e ouvir a história do seu êxito pela sua própria boca".
Aqui, ela explicou um pouco melhor. Ao que consta, senhor, vocês, os chineses, encontram-se muito adiantados em relação a nós em todos os aspectos, à ecepção do facto de não terem empresários. E a nossa nação, apesar de não ter àgua potável, nem electricidade, nem sistemas de esgotos, nem transportes públicos, nem regras de higiene, nem disciplina, nem boas maneiras, nem pontualidade, verdade seja dita que empresários não lhe faltam. São aos milhares. Sobretudo na área da tecnologia. E foram estes mesmos empresários - nós, empresários- que implantaram todas as empresas de subcontratação que agora praticamente governam a América.
Primeira página do livro O Tigre Branco, de Aravind Adiga, EDITORIAL PRESENÇA, 1ª edição, Março 2009
Da contra capa:
Premiado com o Booker Prize de 2008, O Tigre Branco é um romance de estreia auspicioso que, sem cair no cliché do romantismo exótico e superficial, nos revela uma Índia ainda muito pouco explorada pela ficção, a Índia negra, violenta e exuberante das desigualdades socioculturais endémicas. Aravind Adiga oferece-nos um retrato cru e muito pouco glamoroso da desumana realidade de vida das classes mais pobres pela voz espirituosa e mordaz do narrador, Balram Halwai, um jovem que cresce no interior miserável da Índia e se torna um empresário de sucesso em Bangalore. E é através do seu percurso moralmente ambíguo que conhecemos as discrepâncias chocantes entre o luxo extravagante da elite rica dos boulevards e a luta desesperada pela sobrevivência dos que nada têm. Uma comédia negra irreverente que desmistifica a Índia lírica e nostálgica que tantas vezes idealizamos.

segunda-feira, abril 27, 2009

Médico e Paciente


A revista literária norte-americana The New Yorker publica hoje online um longo artigo, intitulado "Doctor and Patient", sobre o escritor português António Lobo Antunes, cuja obra descreve como "obsessivamente local, preocupada com os males herdados da história portuguesa e as debilidades da sua cultura".
"Ele visa - escreve Peter Conrad, o autor do artigo -, tal como Stephen Dedalus (do "Ulisses", de James Joyce) chamando a si os inimigos da Irlanda, ser uma consciência nacional, lembrando aos seus recentemente europeizados, untuosamente prósperos compatriotas, o legado de culpa do seu vergonhoso passado deixado pela ditadura de António de Oliveira Salazar, que dirigiu o país entre 1932 e 1968, e pela brutalidade do seu regime colonial em África".
Em confronto com Lobo Antunes, o articulista coloca José Saramago, que, ao contrário daquele, situa quase sempre as suas narrativas "em países não identificados ou imaginários" e as faz "facilmente partir em direcção à universalidade".
Os dois escritores - refere - "tal como partidos políticos ou equipas desportivas rivais, têm adeptos barulhentos, e os que gritam por Lobo Antunes afirmam que ganhou o Nobel o homem errado. O próprio Lobo Antunes, aparentemente, concorda: quando o Times lhe telefonou a pedir um comentário sobre a vitória de Saramago, ele resmungou que o telefone estava avariado e, abruptamente, desligou-o".
Analisando os romances de Lobo Antunes, os dois primeiros dos quais publicados em 1979, Conrad destaca a forte presença neles da experiência do autor na guerra colonial e como psicanalista.
Na opinião do crítico, alguns dos primeiros livros de Lobo Antunes "parecem dilacerantemente confessionais para se lhes chamar ficção" - como em "Conhecimento do inferno" - mas os seguintes "vão para além desta auto-purgação".(Lusa).

A Casa dos Budas Ditosos


(clicar na imagem para aumentar)
A edição deste fim-de-semana do Expresso, saída no dia que em se comemorou a passagem do trigésimo quinto aniversário da Revolução dos Cravos, noticia que a cadeia de hipermercados Auchan censurou a obra “A Casa dos Budas Ditosos”, de João Ubaldo Ribeiro, segundo os "analfabetos" da agência de comunicação que representa a Auchan, por "não se vender nas suas insígnias Jumbo e Pão de Açucar produtos do foro pornográfico".
Uma cena lamentável, esperando-se que esta atitude ignóbil faça disparar as vendas, para que tudo não seja muito mau.

A Ninfa Inconstante


Esta é a história de Estela e esta é a história de Havana antes da revolução. O romance póstumo de Guillermo Cabrera Infante chegou este fim-de-semana às livrarias.
O passado é um fantasma que não é preciso convocar com médiuns ou invocar com abra-essa-obra. É na realidade da recordação um revenant irreal. Não é preciso pôr as mãos em cima da mesa, de palmas para baixo, ou responder aos três toques rituais ou perguntar «Quem vem lá?». O espírito do passado está sempre a vir. Um copo de água e uma flor amarela chegam. Não é necessário repetir frases encantatórias ou cast a spell: todos os mortos estão aqui, vivos, exibidos por trás de uma janela de vidro preto, de uma câmara escura, de uma obra de artifício. Os entes passados estão vivos porque para nós não morreram. Estamos vivos porque eles não morrem. Nós somos os mortos vivos.
É no passado que vemos o tempo como se fosse o espaço. Tudo está longe, na distância em que o passado é uma imensa pradaria vertiginosa, como se caíssemos de uma grande altura e o tempo da queda, à distância, nos tornasse imóveis, como acontece com os acrobatas do ar, que vão caindo a uma enorme velocidade e contudo para eles nunca se cai. É deste modo que caímos na recordação. Nada parece ter-se movido, nada mudou porque estamos a cair a uma velocidade constante e só aqueles que nos vêem de fora – vós, leitores – dão conta de quanto descemos e a que velocidade O passado é essa terra imóvel da qual nos aproximamos com um movimento uniformemente acelerado, mas o trajecto – tempo no espaço – impede-nos de nos afastarmos para ter uma visão que não seja afectada pela queda – espaço no tempo – voluntária ou involuntária. O tempo, ainda que parado, provoca vertigens, que é uma sensação que só o espaço pode provocar.
O passado só se torna visível através de um presente fictício – e no entanto toda a ficção perecerá. Do passado só ficará então a memória pessoal, intransferível.
Não me interessa a impostura literária mas a verdade que se diz com palavras que necessariamente se seguem umas às outras embora exprimam ideias simultâneas. Sei que uma frase é sempre uma questão moral. Existe uma memória ética? Ou é estética, quer dizer, selectiva?
A memória é outro labirinto no qual se entra e do qual às vezes não se sai. Mas são fantásticos, inúmeros, os corredores da memória, fora da qual há um único tempo real, aquele que se recorda – isto é, eu próprio agora quando a máquina de escrever é a verdadeira máquina do tempo.
Escrever, aquilo que faço agora, não é senão uma das formas que a memória adopta. O que escrevo é o que recordo – o que recordo é o que escrevo.Entre estas duas acções estão as omissões – que são os interstícios, o que fica. Quer dizer, o meu buraco: o espaço do tempo recordado.É tão fácil recordar, tão difícil esquecer… Não é isso que a canção diz? Ou diz…? Não me lembro, esqueci-me. Recordar é gravar nesta ou naquela língua. Mas esquecer não tem equivalência…
O amor é um dédalo delicado que esconde o seu centro, um monstro obscuro.
Teseu, o teu nome é desejo. Ah, Ariadne, não te abandonei em Naxos mas no Trotcha. Agora descendo ao mundo inferior da recordação para te trazer de entre os mortos. Tive de passar a vau as águas do Letes, rio do esquecimento, labirinto lábil, para te encontrar outra vez. Caronte, que já não trabalha na ponte sobre o rio Almendares mas que limpava por uma peseta o vidro que o salitre do Malecón tinha toldado, deixou-me ver-te. Foi através de outro pára-brisas, desta vez de um táxi, que voltei a ver-te.
Pareceria que ela morreu – e é verdade. É a morte uma extensão infinita da noite? A morte faz da vida um couto privado. Parece estranho que tendo esta miniatura (no sentido de pequena pintura preciosa) ao lado, me entregue a uma reflexão sobre o bolero. Acontece que escrevo o ensaio agora. Na altura só ouvia a música.Ela morreu. Suicidou-se? Não, morreu da morte menos natural: morte natural. Seja como for, matou-a o tempo. Mas o certo, o terrível, o definitivo é que Estelita, Estela, Stella Morris está morta. Agora sou eu quem reconstrói a sua memória. Era uma pessoa, mas acabou por se tornar esse destino terrível, uma personagem. Convém dizer que ela era toda uma personagem.
Morreu, longe dos trópicos, de Cuba. Mas na verdade não era dos trópicos, ou de Havana, ou dessa Rampa onde a conheci – e dizer que a conheci é, evidentemente, um absurdo: nunca a conheci. Nem sequer a conheço agora. Mas escrevo sobre ela para que outros, que não a conheceram, a recordem. Quanto a mim, ela foi sempre inolvidável. Mas agora que está morta é mais fácil recordá-la. E pensar que não existe agora mais do que quando a imagino ou a recordo. É a mesma coisa. Poderia escrever mentiras, bem sei, mas a verdade é uma invenção suficiente.
Digo que não a conheci e devo dizer que a encontrei; na rua, uma tarde, quando era uma desorientada dos subúrbios no centro de Havana, perdida.Mas para mim foi um encontro. Há um bolero tocado por Peruchín que se chama “Añorado encuentro” (1) e foi isso que foi. É curioso como as canções ditam as recordações. Néstor Almendros disse-me, quando veio visitar-me e eu estava a ouvir no meu gira-discos “Down at the Levy” cantada por Al Jolson, que sempre que ouvisse essa canção se lembraria da sala do apartamento, do sol que batia nos móveis e da gente e do mar ao longe e eu sentado no sofá, em camisa, a ouvir o velho Al, Al morto, Al Down at the Levy, waiting, for the Robert E. Lee, que era um barco de pás a navegar Mississipi abaixo.
Voltei a percorrer La Rampa esta noite. Não foi um sonho, foi uma coisa mais recorrente: a recordação. Lembrei-me de quando vim à rua O (Zero, O, Oh) com Branly. La Rampa era jovem e eu também.Mas o cruzamento com O já bulia.
Para mim, Havana era então uma ilha encantada em que era simultaneamente explorador e guia. Durante algum tempo também julguei ser um Frank Buck do amor, que penetrava na selva para a trazer viva e vivermos os dois para o contar – ainda que fosse eu o único que podia erguer uma ponte entre o relaxe e o relato. Havana, que dúvida pode haver, era o centro do meu universo. Na realidade, era o meu universo: uma nébula clara. Recordá-la era uma viagem pela galáxia. No céu havia dois sóis.
Esta história não podia ter acontecido cinco anos antes. Nessa altura a rua 23 acabava em L, e La Rampa ainda não tinha sido construída. Ao fundo, paralelos ao Malecón, havia os carris do eléctrico e, às vezes, via-se vir um eléctrico cujas carreiras terminavam pouco antes do infinito. É claro que já lá estava o Hotel Nacional empoleirado num parapeito, mas onde hoje está o Hotel Hilton havia uma ribanceira com um fundo plano de argila que de vez em quando frequentei para jogar à bola. Desapareceu o campo de jogos onde não ganhei uma única batalha, para ser construído esse campo de Vénus, não de Marte, onde me portei melhor – aparentemente.(Público)

Ficha do livro
A Ninfa Inconstante
Autor: Guillermo Cabrera Infante
Tradutor: Salvato Telles de Menezes
Editor: Quetzal
238 págs., 17 euros