quinta-feira, junho 30, 2005

Dorothea Lange


Migrant Mother, 1936, Dorothea Lange

Dorothea Margaretta Nutzhorn, nasceu em 26 de Maio de 1895, na cidade de Hoboken, New Jersey, nos EUA, foi vítima da paralisia infantil, o que a deixou com uma deficiência numa perna para o resto da vida. Mais de uma vez, Dorothea Lange afirmou que isto a deixou mais sensível em relação ao sofrimento alheio, aspecto fundamental no seu trabalho. Encorajada pelo fotógrafo Arnold Genthe, que lhe deu a primeira máquina fotográfica, Dorothea começou como autodidacta e mais tarde estudou fotografia na Columbia University. Profissionalmente, começou como freelancer, montando o seu próprio estúdio em 1919, em Berkeley, na Califórnia. Depois de mais de uma década fazendo retratos de estúdio, Dorothea Lange entra ao serviço da Farm Security Administration, (FSA), onde juntamente com seu futuro marido, Paul Taylor, percorreu durante os anos Trinta, vinte e dois estados do Sul e Oeste dos Estados Unidos, recolhendo imagens que documentam o impacto da Grande Depressão na vida dos camponeses. Lange é a autora da fotografiado post, conhecida como a "Mãe Migrante".
Trata-se da mais famosa fotografia saída da FSA e de uma das mais reproduzidas da história da fotografia. A fotografia retrata uma mulher e os seus filhos. A mãe, com um bebé adormecido ao colo, contempla o vazio; as crianças, com o cabelo desgrenhado e as roupas sujas, escondem o rosto por detrás dos seus ombros. A família vivia num acampamento de colhedores de ervilhas no Vale do Nipomo, na Califórnia, alimentando-se dos pássaros que caçavam e dos vegetais que colhiam nos campos. A mulher tinha acabado de vender os pneus do seu carro para comprar comida.
Até hoje as suas fotografias são consideradas um fiel retrato dos EUA durante o período da Grande Depressão. O seu trabalho rendeu-lhe uma bolsa Guggenheim em 1941, mas a Segunda Guerra Mundial trouxe uma ruptura e um redireccionamento na sua carreira. Trabalhando para a War Relocation Agency e para o Office of War Information, entre 1942 e 1945 passou a documentar a comunidade japonesa forçada a viver em campos de concentração na Califórnia. Uma fase não menos importante de sua obra, mas convenientemente esquecida pelos seus compatriotas. Problemas de saúde mantiveram Dorothea afastada das câmaras a seguir à guerra, e só voltou à actividade no meio dos anos cinquenta, quando entrou para a equipa da prestigiada revista Life. Até sua morte em 11 de Outubro de 1965, viajou pelo mundo na companhia do marido, fotografando principalmente a América do Sul, a Ásia e o Oriente Médio.

terça-feira, junho 28, 2005

Henri Cartier-Bresson


Rue Moufetarde, Paris, 1954

Henri Cartier-Bresson nasceu a 22 de Agosto de 1908, em Chanteloup, França, no seio de uma família abastada da indústria têxtil. Contrariando a pressão dos pais que ansiavam por ver o filho à frente dos negócios da família, Bresson optou por seguir o rumo do seu espírito aventureiro e artístico. Durante a juventude frequentou aulas particulares de pintura com o mestre cubista Andre Lhote. Esta experiência foi essencial para desenvolver em Bresson os conceitos visuais que serviram mais tarde de referência para a sua carreira como fotógrafo.
Cartier-Bresson foi crescendo no seio de uma elite cultural que o expôs às correntes intelectuais do seu tempo. Através dos seus mestres conheceu artistas, escritores, poetas e pintores como Salvador Dali, Jean Cocteau e Max Ernest.Estudou pintura e filosofia na Universidade de Cambridge, onde sofreu a influencia da Escola Surrealista. Sentiu-se desde sempre marcado não só pela pintura Surrealista, mas também pelos conceitos de André Breton que admirava pelo modo de «expressão espontâneo, pela intuição e, sobretudo, pela atitude de revolta».
Influenciado por estas correntes culturais que surgiram após a I Guerra Mundial, Bresson «aprendeu» a desdenhar o espírito pequeno -burguês e os preconceitos tradicionais de moral. Henri Cartier-Bresson começa a sua carreira como fotógrafo em 1931, aos vinte e dois anos, após ter participado numa expedição etnográfica ao México, onde começa a trabalhar como fotógrafo independente. Em 1932 faz a sua primeira exposição individual, na galeria de Julien Levy. Em 1935 familiarizou-se com a fotografia cinematográfica, trabalhando como assistente de câmara, tendo realizado filmes documentários em Espanha.
Quando a II Guerra Mundial começou, Cartier-Bresson alistou-se no exército. Contudo, pouco tempo depois, foi capturado pelos alemães. Durante os dois anos e meio que esteve preso, tentou fugir três vezes mas só há terceira alcançou a liberdade e regressou a França. De regresso a Paris colaborou com a Resistência Francesa até ao fim da Guerra, só voltando à fotografia em 1945, altura em que produz muitos livros ilustrados com as suas fotografias, contando entre eles “O momento decisivo”, “China em mudança” e “ O mundo de Cartier-Bresson”.
Em 1946 partiu para os EUA e percorreu a América do Norte enquanto exibia as suas obras no Museu de Arte Moderna, em Nova Iorque. Mas a pouco e pouco a América tornou-se pequena e Bresson voltou a vagabundar pela Ásia. Índia, Birmânia, China e Indonésia foram algumas das paragens que, ao longo de duas décadas, couberam na sua máquina. Este fotógrafo trabalhou para quase todos os grandes jornais e revistas internacionais. Juntamente com Robert Capa, David “Chim” Seymour e George Rodger, fundou a famosa agência “Magnum”. Em 1970, casa-se com a fotógrafa Martine Franck.
Em 1973 o fotojornalista pôs de lado a Leica e abraçou o gosto pela pintura que tantos anos tinha ficado adormecido. Morreu em Paris, aos 95 anos no dia 3 de Agosto de 2004.

quinta-feira, junho 23, 2005

Pierre de Courbertin


O Barão de Coubertin, de seu nome Pierre Frédy nasceu em Paris em 1 de Janeiro de 1863. Pierre de Coubertin, cujo o pai era artista e a mãe musica, foi criado e educado num meio aristocrata. Esteve sempre muito ligado às grandes questões de educação. Para ele a educação era a chave do futuro da sociedade. Aos 24 anos Coubertin decidiu o rumo da sua vida: recuperar o nobre espirito francês de educação, reformando-o. Pierre de Coubertin era um desportista muito activo, praticava boxe, esgrima, hipismo e remo. Ele acreditava que o desporto era a ponte para a força moral e defendia arduamente a sua ideia. E foram estas as razões que o levaram, aos 31 anos de idade, a querer reviver os Jogos Olímpicos. Anunciou a sua ideia durante o encontro do sindicato francês das sociedades de desporto atlético, do qual ele era secretário geral. No entanto, ninguém aclamou ou sequer acreditou na sua ideia, que foi recebida com muito pouco entusiasmo.Em 23 de Junho de 1894, o barão Pierre de Coubertin, promoveu um congresso em Paris, na Universidade de Sorbonne, do qual resultou a fundação do Comité Olímpico Internacional (COI) e a revitalização dos Jogos Olímpicos da Era Moderna, cuja primeira edição teve lugar em Atenas, em 1896, com a participação de 14 países, representados por 245 atletas em 13 modalidades. No Congresso de Paris o grego Demetrius Vikelas tornou-se o primeiro presidente do COI. Dois anos depois, Pierre de Coubertin torna-se presidente do Comité Olímpico Internacional, cargo que manteve até1925. Devido à primeira guerra mundial, Coubertin pediu que a sede do COI passasse a ser sediada em Lausanne, Suíça, pois este era um país neutro. Em 1922, o quartel olímpico mudou-se Lausanne, onde permanece até hoje.Pierre Coubertin retirou-se do COI e do movimento olímpico em 1925 para se dedicar ao seu trabalho pedagógico. Aos 69 anos de idade, em 1931, Coubertin publicou as suas memórias olímpicas, no qual ele enfatiza a natureza intelectual e filosófica empreendida, assim como a sua vontade de fazer do COI mais do que uma simples associação desportiva. Pierrre Coubertin morre repentinamente de ataque cardíaco, a 2 de setembro de 1937, num parque em Genebra.

terça-feira, junho 21, 2005

Centenário do Nascimento de Sartre


Jean Paul Sartre nasceu em Paris a 21 de Junho de 1905 . Seu pai, oficial da marinha, morre quando Sartre tem um ano de idade. A mãe, Anne-Marie, leva Sartre a viver com o avô materno, nos arredores de Paris. Desde criança que Jean-Paul escreve contos de aventuras cavalheirescas e de heroísmo e se auto-denomina génio. Quando ele tem doze anos, a mãe casa com Joseph Mancy, um homem rico, burguês e autoritário. Sartre possui uma mente excepcional, embora isso não se revele nos resultados escolares. Com 15 anos volta a viver com o avô e torna-se aluno interno do Liceu Henrique IV. Em 1924 entra na École Normale Supérieur. Aqui estudavam os melhores cérebros da época, nomeadamente Simone de Beauvoir que se tornaria sua companheira para a vida. Em 1931 é nomeado professor de filosofia no Havre. Em 1934, o filósofo escreve a “A Náusea” um romance filosófico que transformou Sartre numa das mais promissoras figuras literárias. Em 1939 é chamado a servir numa estação meteorológica, era o início da II Guerra Mundial. Em 1940, após a invasão da França por Hitler, Jean Paul Sartre é feito prisioneiro e encerrado no campo de concentração de Trier, na Alemanha ocidental. Continua o seu diário de guerra, mas, graças a um atestado médico falso, é libertado em Março de 1941. Em 1943, edita O Ser e o Nada, um “hino à consciência e à liberdade” que o coloca no topo da pirâmide existencialista. Entretanto, com Simone Beauvoir, funda a revista Temps Modernes. Adere ao marxismo em 1952. Em 1964, escreve “As Palavras”, uma análise da sua própria infância e é-lhe atribuído o Prémio Nobel da Literatura, que recusa porque “o escritor deve recusar a deixar-se transformar por instituições”.A década de 70 é marcada pelos problemas de saúde, após anos de excessos de álcool e tabaco e por uma ou outra intervenção pública, como a visita a Portugal no “Verão Quente de 75” apesar do seu prestígio estar em queda. Quase cego, vive os derradeiros anos incapaz de escrever. Morreu a 15 de Abril de 1980, aos 74 anos, vítima de um edema pulmonar. O seu funeral transformou-se numa manifestação pública, com um cortejo de mais de 25 mil seguidores.
Mais informação em: geocities.com/sartresite.

sexta-feira, junho 17, 2005

A Dama de Bambu


Quem disser o seu nome junto de um militar corre o risco de ser imediatamente preso, sem sequer passar pelo tribunal. A Dama de bambu, a líder do principal partido de oposiçao na Birmânia, a Liga Nacional para a Democracia, é uma espinha atravessada na garganta dos generais que comandam o país. A "senhora", o "monstro" ou o "fenómeno" -nomes de código utilizados pelo povo_ está em prisão domiciliária desde de Maio de 2003. O número 54 da University Road, em Rangun, é a casa mais vigiada do país, quem tentar fotografar a sua vivenda é preso. Com a aproximação do sexagésimo aniversário de Aung San Suu Kyi no próximo Domingo, a junta militar birmanesa no poder, aumentou nos últimos dias o controle e detenção de opositores políticos e militantes dos direitos humanos.
Aung San Suu Kyi nasceu em Rangun a 19 de Junho de 1945. O pai de Suu Kyi, o general Aung San, foi o pai-fundador do país. Nascido na aristocracia rural, tornar-se-ia líder estudantil e nacionalista convicto. Sonhava expulsar os Britânicos da sua terra colonizada no século XIX e, para tal, viria a comandar o Exército de Independência da Birmânia, treinado secretamente pelos Japoneses. Entraria na Birmânia à sua frente em princípio de 1942, para vir a mudar de lado em 1945, ajudando os Britânicos a pôr fim à ocupação japonesa. Mas esse serviço ao povo birmanês foi ceifado cedo: um rival político mandou abatê-lo em 1947, apenas 6 meses antes de a Birmânia declarar a independência. Tinha 32 anos. Suu Kyi tinha 2.
Suu Kyi estudou na Índia e na Universidade de Oxford (Reino Unido) a partir de 1960, tendo posteriormente trabalhado nas Nações Unidas e passado a viver no Reino Unido. Quando regressou do Reino Unido, em 1988, fundou o movimento de oposição Liga Nacional para a Democracia, como protesto contra as violações dos direitos humanos e contra a brutal repressão da discordância na Birmânia e para lutar por reformas democráticas. Em Abril de 1989, escapou por pouco a uma tentativa de assassinato por parte de uma unidade militar birmanesa. Os militares tinham recebido ordens para matar a activista numa das muitas manifestações que encabeçava. Foi salva por uma contra-ordem de um oficial.
Em Julho de 1989, o regime militar determinou a prisão domiciliária da activista pro-democracia. Suu Kyi foi colocada sob a lei marcial, que possibilitava a sua detenção sem acusação formada nem julgamento por um período de três anos. A activista birmanesa entrou em greve de fome para proteger os estudantes que haviam sido levados da sua casa para o Centro de Interrogação do regime. Foi reconhecida como objectora de consciência pela Amnistia Internacional.
Apesar da detenção da sua presidente, em Maio de 1990 a Liga Nacional para a Democracia obteve um resultado extraordinário nas eleições gerais, tendo conseguido 82% dos votos. No entanto, a Junta Militar recusou-se a reconhecer os resultados das eleições. Em Outubro do mesmo ano, Suu Kyi foi galardoada com o Prémio Rafto para os Direitos Humanos e, em Julho de 1991, com o Prémio Sakharov (prémio para os Direitos Humanos do Parlamento Europeu). Em Agosto de 1991, o regime militar decidiu alterar a lei sob a qual Suu Kyi estava detida e aumentar para cinco anos o período de prisão sem acusação formada nem julgamento. Dois meses depois, a actividade pró-democracia da activista foi reconhecida com o Prémio Nobel da Paz, prémio esse que foi utilizado num fundo de saúde e educação para o povo birmanês criado por Suu Kyi.
Em Janeiro de 1994, a Junta Militar voltou a alterar a lei marcial, adicionando-lhe mais uma ano de detenção. Suu Kyi foi posta em liberdade em Julho de 1995. Nunca deixando de parte os seus ideais, Suu Kyi prosseguiu na sua luta. Em Março de 2000, recebeu a condecoração irlandesa Freedom of the City, atrbuída pelo reconhecimento do seu activismo. Foi o seu filho, Kim Aris, que se deslocou a Dublin para receber o prémio. Em Setembro de 2000, Suu Kyi desafiou as autoridades militares birmanesas e anunciou que iria sair da capital do país. Em resposta, os militares montaram um verdadeiro cerco em volta dela e voltaram a colocá-la em prisão domiciliária, juntamente com outros líderes do partido. Em Dezembro de 2000, o reconhecimento pelo seu activismo chegou dos EUA. O então presidente Bill Clinton conferiu-lhe a maior condecoração civil do país - a Medalha Presidencial da Liberdade. Durante a prisão domiciliária, Suu Kyi recebeu a visita de uma delegação da União Europeia, de diplomatas norte-americanos e de representantes das Nações Unidas. Em Maio de 2002, depois de 19 meses em prisão domiciliária, Aung San Suu Kyi foi libertada. Desde Outubro de 2000 que Suu Kyi mantinha conversações secretas com uma delegação da Junta Militar.
Suu Kyi continuou a defender a plena democracia e o desmantelamento do poder militar. No entanto os militares têm alegado que o país não se encontra preparado para a democracia. Suu Kyi conta com o apoio do Ocidente e da maioria das nações asiáticas. Foi novamente presa em fim de Maio de 2003 e ainda se encontra em prisão domiciliária. Tem recusado o fim da prisão domiciliária enquanto não forem libertados todos e cada um dos seus apoiantes. Aung San Suu Kyi transformou-se num símbolo da luta a favor da democracia na Birmânia, (Myanmar).

quarta-feira, junho 15, 2005

Almada Negreiros Morreu há 35 Anos


Almada Negreiros, Auto-retrato
José Sobral de Almada Negreiros (1893-1970) nasceu em São Tomé e Príncipe.Em 1905 já redigia e ilustrava jornais manuscritos (“A República” e “O Mundo”). A sua actividade artística inicia-se, para o público, com a participação na I Exposição do Grupo de Humoristas Portugueses, em 1911. Com esta exposição nasce a chamada Arte Moderna Portuguesa; e, coincidindo com a primeira aparição colectiva dos cubistas, em Paris, traz, como também lá acontecera, o selo do humorismo para génese das novas correntes artísticas. Publica seu primeiro desenho em “A Sátira” e faz sua primeira exposição individual de 90 desenhos, em 1913. Escreve, em 1915, o “Manifesto Anti-Dantas e por extenso”, uma reacção contra uma geração tradicionalista, uma sociedade burguesa, um país limitado; e, é publicado o primeiro número da revista “Orpheu”.
No ano de 1925 pinta dois painéis para “A Brasileira”, um café do Chiado, em Lisboa. De 1927 a 1932 mora em Madrid. Em 1938, conclui os vitrais da Igreja de Nossa Sra. de Fátima. Pinta o famoso retrato de Fernando Pessoa (“Lendo Orpheu”), para o restaurante “Irmãos Unidos”, em 1954.
Em 1951, o SNI lhe confere o “Prémio Nacional das Artes”. Em 1966 é eleito membro honorário da Academia Nacional de Belas Artes. No ano seguinte recebe o Grande Oficialato da Ordem de Santiago Espada.
Estreitamente enlaçada na sua actividade de artista plástico, tem Almada Negreiros uma obra de poeta, dramaturgo, romancista, investigador e mitógrafo, das mais originais da nosa literatura e das mais significativas e perturbantes da cultura comtemporânea. A camaradagem com Fernando Pessoa viria a ser extremamente fecunda para o surgimento do futurismo em Portugal e para os destinos do modernismo português.Juntos participaram da aventura do Orpheu (1915), juntos permanecem no Portugal Futurista (1917), juntos se reencontram ainda, à beira da morte de Pessoa, no terceiro e último número da revista Sudoeste (1935), fundada e dirigida por Almada Negreiros e cujos dois primeiros números tinham contido exclusivamente trabalhos da sua autoria. Deixou contos espalhados por revistas de vanguarda de curta duração: O Moinho (1912 – teatro)Manifesto Anti-Dantas e por extenso (1915)A Engomadeira (1917 – novela)A Cena do Ódio (poema publicado na revista Portugal Futurista em 1917)A Invenção do Dia Claro (1921)Os Outros (1923 – teatro),S. O. S. (1929 – teatro)Nome de Guerra (romance, 1938)Antes de Começar (teatro)Deseja-se Mulher (1959 – teatro), Poesia.
Em 15 de Junho de 1970, o pintor e escritor morre em Lisboa, no mesmo quarto em que morrera o poeta Fernando Pessoa.
Se quiser saber mais pode visitar,vidaslusofonas.pt/almada_negreiros.

9,77


9,77 segundos é o tempo que o homem mais rápido do mundo demora a fazer 100 metros.
Para termos bem a noção da velocidade, este tempo significa que a velocidade de ponta do ser humano passou a ser de 36,85 km/h.
O Jamaicano Asafa Powell correu 100 metros em 9,77s no Super Grande Prémio de Atenas em atletismo retirando um centésimo ao anterior recorde que estava na posse do americano Tim Montgomery.

quarta-feira, junho 08, 2005

Jacques-Ives Costeau


"Maravilhado, o pequeno homem percorre rapidamente a praia. Dirige-se sem hesitação para o mar que vê pela primeira vez. De repente pára estupefacto: uma primeira vaga acaba de rebentar a seus pés com um barulho suave. Os seus olhos fixam a distância à procura do que se esconderá no horizonte. A primeira vaga do mar parou a corrida da criança mas transportou-a para longe. O meio onde viveu os seus primeiros meses de vida está diante dele, imenso, simultaneamente carinhoso e ameaçador. Digo a mim próprio que já tinha experimentado esta revelação do infinito e que sem ter conhecimento motiva a minha vida. Lancei-me sem olhar para trás numa vida consagrada a desposar o mar. Os meus companheiros, que partilharam as aventuras tumultuosas dos primeiros mergulhos com escafandro autónomo, as missões do Calypso e os combates para a protecção do mar e da água em geral do nosso frágil planeta, experimentaram o mesmo entusiasmo e dúvidas. Juntos aprendemos que a realidade dos oceanos, do universo e da vida era uma fonte de inesgotáveis maravilhas. Constatámos que os animais marinhos estão sujeitos às mesmas leis que as criaturas que povoam as selvas terrestres, o que vem confirmar a unidade da vida. Para compreendermos os laços que nos ligam a todos os seres vivos e de modo a melhor apreciar o milagre da vida, deixemo-nos tocar pela primeira vaga do mar." (Jacques-Yves Costeau).
.
O Comandante Jacques-Yves Cousteau nasceu a 11 de Junho de 1910, em St. André de Cubzac (Gironde), França. Em 1930, entra para a Escola Naval onde chega a Oficial. Entre 1933 e 1935, é destacado para o extremo Oriente, a bordo dos cruzadores “Primauguet” e “Shangha”. Enquanto seguia a formação para piloto sofre um grave acidente de viação que lhe põe fim à carreira de aviador. Em 1936, em Mourillon, perto de Toulon, experimenta pela primeira vez uma “máscara” submarina: foi a revelação. Com o Eng.º. Emile Gagnan, conclui o escafandro autónomo em 1943, e o mundo submarino revela-se à humanidade.
Após a guerra, o Comandante juntamente com Frédéric Dumas, criou o Grupo de Pesquisa Submarina afim de efectuar experiências de mergulho e trabalho em laboratório. Em 1950 recupera o Calypso, um antigo draga-minas. Modificado aos poucos e dotado de instrumentos de mergulho e pesquisa científica, o Calypso transforma-se em navio oceanográfico e a aventura começa. Durante quatro décadas as equipas de Cousteau exploraram os mares e os grandes rios do mundo inteiro.
Com o Eng.º. Jean Mollard, constrói o SP-350 colocado ao serviço em 1959. Este primeiro “disco voador” mergulhador de dois lugares pode ser usado até 350 mts de profundidade. Em 1965, dois discos mergulhadores são construídos simultaneamente para descer a 500 metros de profundidade tendo sido baptizados como “Pulgas-do-mar”. Cousteau dirige duas experiências de habitação no fundo do mar: “Précontinent 1”, ao largo de Marselha, “Précontinent II”, na região de Nice.
Em conjunto com o Prof. Lucien Malavard e o Eng.º. Bertrand Charrier, Jacques Cousteau, conclui o estudo de um novo sistema complementar de propulsão eólica, chamado Turbovoile e lançam em 1983 um catamaran equipado com este sistema, o “Moulin à Vent”.O sistema é aperfeiçoado no navio experimental Alcyone, que é utilizado hoje em dia em filmes e explorações. O Calypso II, navio ecológico que irá manter o espírito do seu homónimo, foi também equipado com Turbovoile.Após 1944, o Comandante Cousteau realiza mais de 70 filmes para televisão.Realiza também 3 longas-metragens: “O Mundo do Silêncio” (Palma de Ouro no Festival de Cannes), “O Mundo sem Sol” (Óscar e Grande Prémio do Cinema Francês para a Juventude) e “Viagem ao Fim do Mundo”.Jacques Cousteau colaborou com vários autores para escrever mais de 50 livros, editados em uma dúzia de línguas. Sendo os mais recentes: “As Baleias” (1988), “Madagáscar, Ilha dos Espíritos” (1995), “O Mundo dos Golfinhos” (1995), e “Namíbia” (1996).
Cavaleiro da Legião de Honra pelos serviços prestados na resistência francesa, o Comandante Cousteau é promovido a Oficial Comandante pelos seus feitos científicos. Um dos raros membros estrangeiros da Academia de Ciências dos Estados Unidos, o Comandante foi ainda, durante 3 décadas, director do Museu Oceanográfico do Mónaco.
Em 1977, as Nações Unidas concederam-lhe o Prémio Internacional para o Ambiente, juntamente com Sir Peter Scott. Recebeu do Presidente dos Estados Unidos a Medalha da Liberdade em 1985.
Em 1987, o Comandante recebe o Prémio do Conselho Internacional da Academia Nacional das Artes e Ciências de Televisão, em Nova York. Em 1988 faz parte da tabela de honra dos indivíduos que foram distinguidos pela protecção do ambiente e recebe o Prémio da National Geographic.
Em 1989, é eleito para a Academia Francesa. O Instituto Catalão de Estudos Mediterrâneos, em Barcelona, distingue-o com o Prémio Catalão Internacional em 1991 e em 1996 aceita a homenagem do Smithsonian Institution e a Medalha do Bicentenário James Smithson.O presidente Francês François Mitterrand nomeia-o, em 1991, para presidente do “Conselho para os direitos das gerações futuras”. Em 1993, dois anos mais tarde, endereça a sua demissão ao presidente, em protesto contra os testes nucleares no Oceano Pacífico.
Em 1992, o Comandante Cousteau é convidado oficial na Conferência das Nações Unidas para o Ambiente e Desenvolvimento no Rio de Janeiro. No ano seguinte é nomeado para o Comité Consultivo das Nações Unidas e aceita o papel de conselheiro para o desenvolvimento do Banco Mundial.Fundou a Sociedade Cousteau em 1974 e a Equipa Cousteau em 1981, continuando sempre os seus projectos para protecção e melhoria da qualidade de vida das gerações presentes e futuras.O Comandante Jacques-Ives Cousteau faleceu aos 87 anos no dia 25 de Junho de 1997. (Adaptado da Página Oficial da Cousteau Society).

terça-feira, junho 07, 2005

Talvez Sejamos Irmãos


Grande Chefe Sealth (Seattle) 1786-1866

“Talvez Sejamos Irmãos” – Carta resposta do Chefe Índio Sealth à proposta de aquisição das terra onde vivia a sua tribo do Presidente dos Estados Unidos da América, Franklin Pierce em 1854.

Os Índios Duwamish habitavam na zona norte do actual estado de Washington, cuja capital Seattle tem o nome do Chefe Índio que proferiu o discurso, conhecido como a Carta do Chefe Índio, que é considerada como um dos mais belos manifestos ecológicos.
Após a cedência das terras os índios Duwamish migraram para a reserva Port Madison onde está sepultado o Chefe Seattle.
Abaixo, carta do índio Seattle, Grande Chefe da tribo Duwamish:

“O Grande Chefe de Washington comunicou-nos o seu desejo de comprar as nossas terras. O Grande Chefe assegurou-nos também da sua amizade e de quanto nos preza. Isso é muito generoso da sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade.
Porém, vamos considerar a sua oferta, pois sabemos que se o não fizermos, o homem branco virá com armas e tomará as nossas terras. Mas, como pode comprar ou vender o céu e o calor da terra? Tal ideia é estranha para nós. Se não somos os proprietários da pureza do ar ou do resplendor da água, como podes comprá-los a nós?
Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada clareira e cada zumbido de insecto são sagrados nas tradições e na memória do meu povo. A seiva que corre nas árvores transporta consigo as recordações do homem de pele vermelho. O homem branco esquece a sua terra natal, quando, depois de morto vai vagar por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem a beleza desta terra, pois ela é a mãe do homem de pele vermelha. Somos parte destas terras como elas fazem parte de nós.
As flores perfumadas são nossas irmãs; o veado, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, as seivas das pradarias, o calor que emana do corpo de um pónei e o próprio homem, todos pertencem à mesma família. Assim, quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que nos reservará um lugar em que possamos viver confortavelmente e que será para nós como um pai e que nós seremos seus filhos. Vamos considerar a sua oferta de comprar a nossa terra, embora isso não seja fácil, pois esta terra é sagrada para nós. A água cintilante dos rios e dos regatos não é apenas água, é o sangue dos nossos antepassados. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e deverás ensiná-lo aos teus filhos e fazer-lhes saber que cada reflexo na água límpida dos lagos fala do passado e das recordações do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, matam-nos a sede, transportam-nos nas canoas e alimentam os nossos filhos. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar e ensinar aos teus filhos que os rios são nossos e vossos irmãos, e terás de dispensar-lhes a bondade que darias a um irmão.
Nós sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um pedaço de terra vale o mesmo que outro, porque ele é um forasteiro que chega na calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mais sua inimiga, e depois de a conquistar prossegue o seu caminho. Deixa para trás as sepulturas dos seus antepassados e isso não o importa. Apodera-se das terras dos seus filhos e isso não o inquieta. Ele considera a terra, sua mãe, e o céu, seu irmão, como objectos que podem ser comprados, saqueados ou vendidos como ovelhas ou miçangas cintilantes. Na sua voracidade arruinará a terra e deixará atrás de si apenas um deserto.
Não sei. Nossos caminhos diferem dos vossos. As vossas cidades ferem os olhos do homem de pele vermelha. Não há lugares calmos nas cidades do homem branco. Não há sítios onde se possa ouvir as folhas a desabrochar na primavera ou o zunir das asas dos insectos. O barulho que tudo domina ofende os ouvidos do homem de pele vermelha. Para que serve a vida se um homem não pode escutar o grito solitário do noitibó ou a lengalenga nocturna das rãs à volta de um pântano ? Sou um homem de pele vermelha e não compreendo, talvez porque os homens de pele vermelha são selvagens e ignorantes. O índio prefere o suave sussurro do vento roçando a superfície de uma lagoa e o perfume do ar lavado pela chuva do meio-dia ou carregado do aroma dos pinheiros.
O ar é precioso para o homem de pele vermelha, porque todas as criaturas partilham a mesma aragem: os animais, as árvores, o homem todos respiram o mesmo ar. O homem branco parece indiferente ao ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se vendermos as nossas terras, deverás recordar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte o seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu o primeiro sopro de vida ao nosso antepassado recebe também o nosso último suspiro. Se vendermos as nossas terras, deverás conservá-la como um lugar reservado e sagrado, onde o próprio homem branco possa saborear o vento perfumado pelas flores da pradaria. Assim pois, vamos considerar a oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, será com uma condição: O homem branco deverá tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo outros costumes. Eu vi milhares de búfalos a apodrecer na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia de um comboio em movimento. Eu sou um selvagem que não compreende que o cavalo de ferro fumegante possa ser mais importante do que o búfalo que nós, os índios, matamos apenas para o sustento de nossa vida. O que seria do homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais não tarda a acontecer ao homem. Todas as coisas estão relacionadas entre si.
Deverão ensinar aos vossos filhos que o chão debaixo dos seus pés é feito das cinzas dos nossos antepassados. Ensinem aos vossos filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão é sobre eles próprios que cospem. Uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Disto temos certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si. Tudo o que acontece à terra acontece aos filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a teia da vida, ele não passa de um fio da teia. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.
Mas nós vamos considerar a vossa oferta e ir para a reserva que destinais ao meu povo. Viveremos à parte e em paz. Que nos importa o lugar onde passarem os o resto dos nossos dias ? Já não serão muitos. Ainda algumas horas, alguns Invernos e não restará qualquer dos filhos das grandes tribos que viveram outrora nestas terras, ou que vagueiam ainda nas florestas. Nenhum estará cá para chorar as sepulturas de um povo tão poderoso e tão cheio de esperança como o vosso. Mas porque chorar o fim do meu povo ? As tribos são constituídas por homens e nada mais. E os homens vão e vêm como as vagas do mar. Nem o próprio homem branco pode escapar ao destino comum. Apesar de tudo talvez sejamos irmãos, veremos. Mas, nós sabemos uma coisa, que o homem branco talvez venha a descobrir um dia, o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é o Deus dos homens e a Sua misericórdia é a mesma para o homem de pele vermelha e para o homem branco. A terra é preciosa aos olhos de Deus e quem ofende a terra cobre o seu criador de desprezo. O homem branco perecerá também e, quem sabe, antes de outras tribos. Continuem a macular o vosso leito e irão sufocar nos vossos desperdícios.
Mas na vossa perdição brilhareis em chamas ofuscantes acendidas pelo poder de Deus que vos conduziu e que, por desígnios só por Ele conhecidos, vos deu poder sobre estas terras e sobre o homem de pele vermelha. Este destino é para nós um mistério. Não o compreendemos quando os búfalos são massacrados, os cavalos selvagens subjugados, os recantos secretos das florestas ficam impregnados do odor de muitos homens e as colinas desfiguradas pelos fios falantes. Onde está a floresta virgem ? Desapareceu. Onde está a águia ? Morreu. Qual o significado de abandonar os póneis e a caça ? É parar de viver e começar a vegetar. É nestas condições que vamos considerar a oferta da compra das nossas terras. E se aceitarmos será apenas para ficarmos seguros de recebermos a reserva que nos prometeram. Talvez aí possamos acabar os nossos dias e quando o último homem de pele vermelha tiver desaparecido desta terra, e a sua recordação não for mais do que a sombra de uma nuvem deslizando na pradaria, estes lugares e estas florestas abrigarão ainda os espíritos do meu povo. Assim se vendermos as nossas terras amai-as como as temos amado e cuidai delas como nós cuidámos. E com toda a vossa força e o vosso poder conservem-na para os teus filhos e amem-na como Deus nos ama a todos.
Sabemos uma coisa: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele ama esta terra. O próprio homem branco não pode fugir ao mesmo destino. Talvez sejamos irmãos, veremos.

segunda-feira, junho 06, 2005

Dia D


Desembarque dos Aliados na Normandia em 6 de Junho de 1944.

sábado, junho 04, 2005

O Massacre da Praça de Tiananmen


A 3 de Junho de 1989 atinge-se o auge de uma série de manifestações pro-democráticas, lideradas por estudantes chineses. A 15 de Abril, a seguir à morte do secretário-geral do partido comunista e do reformista democrático Hu Yaobang os estudantes desencadearam manifestações pacíficas em Xangai, Pequim e noutras cidades. Hu tornou-se um herói entre os chineses liberais quando recusou fazer parar os distúrbios em Janeiro de 1987. As manifestações pro-democráticas continuaram com as pessoas a pedirem a mudança do líder supremo da China, Deng Xiaoping e também a cúpula de todos os funcionários do Partido. A 4 de Maio cerca de 100 000 estudantes e trabalhadores marcharam em Pequim pedindo reformas democráticas. No fim desse mês as manifestações continuaram mesmo durante a visita de Mikhail Gorbachev.
Durante as sete semanas que duraram as históricas manifestações dos estudantes universitários de Pequim, irradiou da praça da Paz Celestial para o mundo um sopro de entusiasmo e esperança. Eles pediam democracia e fim da corrupção, a justeza das suas reivindicações fez em poucos dias multiplicarem-se os manifestantes, que passaram de 20 mil para quase 2 milhões, envolvendo praticamente todos os sectores da sociedade.

Mas o fim seria trágico.
Depois da tentativa frustrada do Exército controlar Pequim pacificamente, porque os soldados recuaram frente aos apelos dos manifestantes. A cúpula do Partido Comunistas e do Exército de libertação, obrigaram os soldados a intervir activamente e a tropa abre fogo sobre os estudantes e o povo da cidade de Pequim. Os mortos são estimados entre duzentos e quatro mil, ferindo dez mil pessoas e prendendo milhares de estudantes e trabalhadores.
A repressão continuou em todo o país, até hoje, com prisões e execuções sumárias, controle da imprensa e não respeito pelos Direitos humanos.

quarta-feira, junho 01, 2005

Por Um Futuro Melhor



O Dia Mundial da Criança comemora-se hoje, numa altura em que em Portugal continuam a aumentar os casos conhecidos de maus-tratos e abusos sexuais de menores. A lista dos maus tratos físicos mais frequentes é longa e vai desde o simples abanar o bebé (que pode ter consequências graves), a queimaduras, feridas, fracturas, traumatismos cranianos, abandonos na via pública, violações, ao não-cumprimento dos programas de vacinação, a falta de tratamento de doenças congénitas e a falta de higiene.
A nível mundial, Portugal é o sexto país com maior percentagem de mortes de crianças por maus-tratos,
segundo a Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens, baseando-se num relatório da UNICEF de 2004.
Várias organizações insistem no cumprimento integral dos direitos das crianças, consignados na Convenção das Nações Unidas a que Portugal aderiu, e na valoração das relações afectivas. Desde o início do ano, a Polícia Judiciária já deteve mais de 30 suspeitos de prática de abusos sexuais a menores, nomeadamente do sexo feminino.
Se tem conhecimento de que uma criança foi ou está a ser maltratada, existem serviços de apoio que deve contactar para denunciar estas situações.
Há duas linhas de informação, aconselhamento e apoio a crianças em risco que colaboram com os Centros Regionais de Segurança Social, os Centros de Saúde, os hospitais e as escolas.

As pessoas que denunciam podem manter o anonimato.
Mesmo que se identifiquem, os seus dados pessoais são sempre mantidos confidenciais.

Linha de Emergência da Criança Maltratadadas 10h00 às 20h00,de 2ª a 6ª feira
Lisboa, Santarém e Setúbal: Tlf: 2134333.33
Algarve: Tlf: 289801000
Alentejo: Tlf:266744188
Coimbra: Tlf:239702233
Porto: Tlf: 223321010

Linha S.O.S. Criança das 09h30 às 18h30, de 2ª a 6ª Feira, Tlf:217931617


A denúncia pode também ser feita nos Centros Regionais de Segurança Social ou nos centros municipais da Comissão de Protecção de Menores, nos concelhos onde estes existam. Os centros da Comissão de Protecção de Menores são instituições oficiais e envolvem entidades que vão do Ministério Público aos serviços locais de educação, passando por autarquias e forças de segurança. Quando recebem as denúncias, contactam directamente a família da criança em risco.
Os maus tratos a crianças são considerados um crime público e, como tal, a denúncia pode também ser directamente apresentada no Tribunal de Menores.
A queixa é analisada por um delegado do Ministério Público, que instaura um inquérito para confirmar a veracidade da denúncia. No caso de existirem marcas visíveis de maus tratos físicos, a queixa pode ainda ser apresentada nos centros de saúde da zona de residência da criança ou nas urgências hospitalares.

Declaração dos Direitos da Criança


Declaração dos Direitos da Criança

Adoptada pela Assembleia das Nações Unidas de 20 de Novembro de 1959

PREÂMBULO
Considerando
que os povos da Nações Unidas, na Carta, reafirmaram sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor do ser humano, e resolveram promover o progresso social e melhores condições de vida dentro de uma liberdade mais ampla,
Considerando que as Nações Unidas, na Declaracão Universal dos Direitos Humanos, proclamaram que todo homem tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades nela estabelecidos, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição,
Considerando que a criança, em decorrência de sua imaturidade física e mental, precisa de proteção e cuidados especiais, inclusive proteção legal apropriada, antes e depois do nascimento,
Considerando que a necessidade de tal proteção foi enunciada na Declaração dos Direitos da Criança em Genebra, de 1924, e reconhecida na Declaração Universal dos Direitos Humanos e nos estatutos das agências especializadas e organizações internacionais interessadas no bem-estar da criança,

Considerando que a humanidade deve à criança o melhor de seus esforços,

A ASSEMBLEIA GERAL

PROCLAMA esta Declaração dos Direitos da Criança, visando que a criança tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e as liberdades aqui enunciados e apela a que os pais, os homens e as melhores em sua qualidade de indivíduos, e as organizações voluntárias, as autoridades locais e os Governos nacionais reconheçam este direitos e se empenhem pela sua observância mediante medidas legislativas e de outra natureza, progressivamente instituídas, de conformidade com os seguintes princípios:
PRINCÍPIO 1º
A criança gozará todos os direitos enunciados nesta Declaração. Todas as crianças, absolutamente sem qualquer exceção, serão credoras destes direitos, sem distinção ou discriminação por motivo de de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento ou qualquer outra condição, quer sua ou de sua família.
PRINCÍPIO 2º
A criança gozará proteção social e ser-lhe-ão proporcionadas oportunidade e facilidades, por lei e por outros meios, a fim de lhe facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, de forma sadia e normal e em condições de liberdade e dignidade. Na instituição das leis visando este objetivo levar-se-ão em conta sobretudo, os melhores interesses da criança.
PRINCÍPIO 3º
Desde o nascimento, toda criança terá direito a um nome e a uma nacionalidade.
PRINCÍPIO 4º
A criança gozará os benefícios da previdência social. Terá direito a crescer e criar-se com saúde; para isto, tanto à criança como à mãe, serão proporcionados cuidados e proteção especiais, inclusive adequados cuidados pré e pós-natais. A criança terá direito a alimentação, recreação e assistência médica adequadas.
PRINCÍPIO 5º
À criança incapacitada física, mental ou socialmente serão proporcionados o tratamento, a educação e os cuidados especiais exigidos pela sua condição peculiar.
PRINCÍPIO 6º
Para o desenvolvimento completo e harmonioso de sua personalidade, a criança precisa de amor e compreensão. Criar-se-à, sempre que possível, aos cuidados e sob a responsabilidade dos pais e, em qualquer hipótese, num ambiente de afeto e de segurança moral e material, salvo circunstâncias excepcionais, a criança da tenra idade não será apartada da mãe. À sociedade e às autoridades públicas caberá a obrigação de propiciar cuidados especiais às crianças sem família e aquelas que carecem de meios adequados de subsistência. É desejável a prestação de ajuda oficial e de outra natureza em prol da manutenção dos filhos de famílias numerosas.
PRINCÍPIO 7º
A criança terá direito a receber educação, que será gratuita e compulsória pelo menos no grau primário.
Ser-lhe-á propiciada uma educação capaz de promover a sua cultura geral e capacitá-la a, em condições de iguais oportunidades, desenvolver as suas aptidões, sua capacidade de emitir juízo e seu senso de responsabilidade moral e social, e a tornar-se um membro útil da sociedade.
Os melhores interesses da criança serão a diretriz a nortear os responsáveis pela sua educação e orientação; esta responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos pais.
A criança terá ampla oportunidade para brincar e divertir-se, visando os propósitos mesmos da sua educação; a sociedade e as autoridades públicas empenhar-se-ão em promover o gozo deste direito.
PRINCÍPIO 8º
A criança figurará, em quaisquer circunstâncias, entre os primeiros a receber proteção e socorro.
PRINCÍPIO 9º
A criança gozará proteção contra quaisquer formas de negligência, crueldade e exploração. Não será jamais objeto de tráfico, sob qualquer forma.
Não será permitido à criança empregar-se antes da idade mínima conveniente; de nenhuma forma será levada a ou ser-lhe-á permitido empenhar-se em qualquer ocupação ou emprego que lhe prejudique a saúde ou a educação ou que interfira em seu desenvolvimento físico, mental ou moral.
PRINCÍPIO 10º
A criança gozará proteção contra atos que possam suscitar discriminação racial, religiosa ou de qualquer outra natureza. Criar-se-á num ambiente de compreensão, de tolerância, de amizade entre os povos, de paz e de fraternidade universal e em plena consciência que seu esforço e aptidão devem ser postos a serviço de seus semelhantes.

terça-feira, maio 31, 2005

Não Tenho Memória Curta


O Presidente da República, Jorge Sampaio, fez hoje um apelo ao "espírito patriótico" das associações sindicais e patronais para que convirjam na busca de uma solução para a "grave situação" das contas públicas.
Em carta enviada ao Conselho Permanente de Concertação Social - que terça-feira se reúne com o Governo - Jorge Sampaio defende que a busca de uma solução para combater o défice "deve motivar" também "o conjunto dos agentes económicos e sociais" representados naquele órgão.
"Faço um apelo ao espírito patriótico e ao sentido de responsabilidade das associações sindicais e patronais e, por seu intermédio, aos trabalhadores e aos empresários portugueses", escreve Jorge Sampaio, salientando que as "condições de resposta à crise orçamental e às suas causas mais profundas" serão "tanto melhores quanto mais forte for a capacidade de concertação entre o Governo e os associações representativas dos interesses económicos e sociais".


Há um ano atrás, a oposição socialista atacava todos os dias Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite por causa do discurso da tanga.

Há um ano atrás, a oposição socialista atacava todos os dias Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite pela "obsessão pelo déficit".

Há um atrás, no tempo de Durão Barroso e Manuela Ferreira Leite, o Presidente da República dizia que "há vida para além do Déficit".

Eu estava de acordo com as posições da Oposição e do Presidente da República...

Grazie Trap


Giovanni Trapattoni confirmou hoje que vai abandonar o comando técnico do Benfica, deixando a Luz depois de uma época marcada pela conquista do 31º título nacional de futebol do Benfica.

Arriverdeci!

segunda-feira, maio 30, 2005

E Agora?


Os franceses rejeitaram Domingo o Tratado Constitucional europeu submetido a referendo, tendo o «não» obtido 54,87% dos votos, contra os 45,13% conseguidos pelo «sim».
Era o resultado mais temido para os defensores da Constituição Europeia, que precisa da ratificação de todos os Estados-membros para ser aprovada.
O «não» de cerca de 55% dos franceses no referendo deste domingo abre assim as portas a uma crise na União Europeia.
Segundo os mais pessimistas, esta vitória folgada do «não» poderá precipitar a União Europeia a 25 numa das maiores crises de sempre.

30 de Maio de 1961


Final da Taça dos Clubes Campeões Europeus de 1960/61

SL Benfica 3-2 CF Barcelona

Estádio Wankdorf, Berna

Com o Real Madrid CF eliminado pelo CF Barcelona (como era conhecido durante o tempo do General Franco) ficou o caminho aberto para um segundo clube poder erguer a Taça dos Clubes Campeões Europeus, na sua sexta temporada de existência.
O Benfica também era estreante neste nível da competição.
Nessa noite, os golos do Barcelona foram marcados por dois exilados húngaros - Sándor Kocsis e Zoltán Czibor - mas foi outro húngaro, o treinador do benfica, Béla Guttmann, quem acabou por sair vitorioso. Os golos de Kocsis, aos 20 minutos, e de Czibor, aos 75 minutos, abriram e fecharam a contagem, mas os golos de José Águas (aos 30 minutos), Mário Coluna (aos 55) e de Antonio Ramallets, guarda-redes do Barça, na própria baliza, aos 32 minutos, valeram a primeira vitória do Benfica numa Taça dos Campeões Europeus.

domingo, maio 29, 2005

Taça de Portugal (I)


O Benfica e o Vitória de Setúbal discutem hoje a conquista da Taça de Portugal, título na posse dos encarnados, num jogo com raízes históricas. O emblema da águia conquistou 24 vezes o troféu, duas delas frente aos sadinos, enquanto a formação do Sado festejou duas vezes, uma delas perante o Benfica.
Hoje o Benfica procura a sua 10ª "dobradinha" e Giovanni Trapattoni pode entrar para a história do Benfica, como o oitavo treinador a conseguir juntar a Taça de Portugal ao Campeonato.
Eis a listas das "dobradinhas" do Benfica:

Época Final resultado Treinador
1942/43 Benfica-Setúbal 5-1 Janos Biri
1954/55 Benfica-Sporting 2-1 Otto Glória
1956/57 Benfica-Covilhã 3-1 Otto Glória
1963/64 Benfica- FC Porto 6-2 Lajos Czeisler
1968/69 Benfica-Académica 2-1 Otto Glória
1971/72 Benfica-Sporting 3-2 Jimmy Hagan
1980/81 Benfica-FC Porto 3-1 Lajos Batoti
1982/83 Benfica-FC Porto 1-0 Eriksson
1986/87 Benfica-Sporting 2-1 John Mortimore

Referendo


Cerca de 42 milhões de eleitores decidem hoje em referendo a ratificação ou não da França ao Tratado Constitucional europeu, culminando várias semanas de discussões intensas acompanhadas com expectativa pelos restantes países europeus.
Nos boletins, terá de ser colocada uma cruz no sim ou no não à pergunta «Aprova o projecto de lei que autoriza a ratificação do tratado que estabelece uma Constituição para a Europa?».
Nos três inquéritos realizados entre quinta e sexta-feira, o «não» era maioritário, variando entre 51 e 56%.
Apesar de nove países já terem ratificado definitivamente o documento (Lituânia, Hungria, Eslovénia, Itália, Grécia, Eslováquia, Espanha, Áustria e Alemanha), esta será a segunda vez que os eleitores são consultados, depois dos espanhóis, que aprovaram o texto.
Contudo, o referendo em França poderá também tornar-se na primeira rejeição da Constituição Europeia, caso se confirme a tendência indicada pelas sondagens divulgadas durante a última semana.

sábado, maio 28, 2005

A conquista do Monte Evereste


A fracassada tentativa suíça de alcançar o topo do Evereste, em 1952 deu aos britânicos o tempo necessário para organizarem uma expedição melhor preparada. O treino incluiu uma experiência no Cho Oyu -a sexta mais alta montanha do mundo, com 8.201 metros de altitude – em 1952, liderada por Eric Shipton. Mesmo não tendo chegado ao cume do Cho Oyu, a expedição obteve um grande avanço na utilização correcta do oxigénio e das roupas. Embora Eric Shipton já tivesse liderado diversas expedições e contasse com o apoio popular, alguns membros do Clube Alpino achavam não ser a pessoa mais indicada para comandar um empreendimento de tal magnitude, a 10ª Expedição Britânica ao Evereste, sobre a qual recaíam tantas esperanças e muita pressão política. Afinal, esta poderia ser a grande oportunidade de alguém ser o primeiro a escalar a mais alta montanha do planeta. Um acordo diplomático entre os envolvidos dividiu o poder, permitindo a Eric Shipton ficar mais concentrado na escalada, deixando o comando com John Hunt, um oficial do exército, que daria ao evento um padrão militar. Estranhamente, a maioria dos membros do Clube Alpino nunca se haviam encontrado com John Hunt e ele próprio já tinha sido preterido na expedição de 1935 por problemas de saúde. Ficou decidido que a expedição utilizaria todos os recursos ao seu alcance para atingir o objectivo, inclusive o uso de oxigénio, enquanto os alpinistas estivessem dormindo em altitudes mais elevadas. Para o Império Britânico, chegar ao topo do mundo era uma questão de honra. Para cobrir o evento, o diário Times enviou o jornalista James Morris, como membro da expedição, juntamente com o operador de câmara Tom Stobart. Munidos dos mais modernos equipamentos de alpinismo disponíveis na época, a primeira parte da expedição partiu de Kathmandu, naquela primavera, em grande estilo.
Composta por 350 carregadores sherpas, causava espanto aos nativos aquela fileira de homens trilhando uma estrada para o Evereste. Como a prata era a única forma de pagamento aceita pelos sherpas em 1953, uma grande quantidade de moedas foi cunhada especificamente para este fim. A caravana passou por Nanche Bazar e, após um pequeno período de descanso em Tengpoche, chegou em Gorak Shep, ao pé do Kala Patar, onde foi montado o Acampamento-base. A seguir estabeleceram um novo acampamento na geleira Khumbu, a meio caminho da Cascata de Gelo. Ao todo, foram criados nove acampamentos de altitude. Eram treze montanhistas escolhidos a dedo, entre os quais o veterano Tenzing Norgay, um alpinista sherpa altamente qualificado, e Edmund Hillary – que ganhara a confiança de Eric Shipton no ano anterior. A equipa ficou duas semanas fazendo pequenas escaladas no vale Khumbu como parte do programa de aclimatização antes de cruzar a Cascata de Gelo.
Enquanto forjavam uma rota através destes obstáculos monstruosos, Edmund Hillary e Tenzing Norgay começaram-se a identificar, a ponto de passarem a andar sempre juntos, tendo o veterano Tenzing demonstrado poder acompanhar o jovem, ambicioso e competitivo Hillary. Então, depois de treze dias de esforços contínuos na encosta do Evereste, eles chegaram ao Colo Sul escalando pelo flanco do Lhotse, a rota aberta pelos suíços no ano anterior, onde estabeleceram o acampamento VIII. Foi a partir dali que os ingleses, não esquecer que era uma expedição britânica, Harles Evans e Tom Bourdillon fizeram a primeira tentativa de alcançar o cume, embora ainda estivessem longe demais para um retorno seguro, caso obtivessem sucesso. No entanto, as ordens emitidas por John Hunt não deixavam dúvidas: era para continuarem a qualquer custo. Afinal, era para isto que um militar estava no comando. Mas, com as péssimas condições climatéricas e problemas com o oxigénio, foram obrigados a ficar no Cume Sul, menos de 100 metros abaixo do topo. Mesmo assim, e caso ainda tivessem oxigénio, calcularam ser necessário mais três horas de escalada.
O segundo assalto foi melhor planeado. Montou-se o acampamento IX, a 8.500 metros, bem mais acima do anterior, e Edmund Hillary e Tenzing Norgay passaram a noite descansando, bebendo grandes quantidades de chá de limão quente e tentando comer alguma coisa.
No dia 29 de Maio de 1953, às 6h30min da manhã, eles saíram de suas barracas, quase cobertas de neve, respirando oxigénio suplementar, e iniciaram a jornada que os colocaria na história. Era a sétima tentativa de Tenzing Norgay e a segunda de Edmund Hillary.
Às nove chegaram ao Cume Sul, ao pé da dramática crista estreita que levava ao cume principal, a partir de onde encontraram melhores condições climáticas. Uma hora mais tarde estavam diante de uma barreira com 13 metros, um escalão de rocha lisa e quase sem pontos de apoio, agora conhecido como Passo de Hillary. - Era uma barreira cuja superação ia muito além de nossas frágeis forças – reconheceu o neozelandês, mais tarde. Tenzing ficou abaixo e foi largando a corda, nervoso, enquanto Hillary, enfiando-se em uma estreita greta entre o paredão de rocha lisa e uma rebarba de neve em sua beirada, começou a agonizante subida. A lenta e penosa escalada foi sendo vencida, na base de muito esforço físico e exposição ao perigo. Edmund Hillary conseguiu finalmente alcançar o alto da rocha e arrastar-se para fora da fenda, até uma larga saliência. Por alguns momentos ele ficou ali, parado, deitado, recuperando o fôlego. Enquanto o oxigénio artificial corria por sua veias, ele sentiu, pela primeira vez, que sua gigantesca determinação o levaria ao topo.

Com as batidas do coração voltando ao normal – normal para aquelas circunstâncias! - Ele firmou-se na plataforma e fez sinal para Tenzing subir. Edmund Hillary puxou firme a corda e o sherpa foi subindo, contorcendo-se greta acima, até finalmente chegar à saliência onde o neozelandês estava.
- Exausto, desabando como um peixe gigantesco que acabou de ser içado do mar após uma luta terrível, chegou Tenzing – contou Hillary. O cume, a apenas uma pequena distância, os observava, impassível, sentindo que em breve seria derrotado por aqueles dois minúsculos seres que ousavam pisar onde ninguém jamais conseguira colocar os pés. Edmund Hillary e Tenzing Norgay deram a volta por trás de outra saliência de rocha e viram que a crista adiante descia, podiam ver o Tibete. Eram os primeiros humanos a verem o Tibete daquele local. Eles desviaram a atenção do planalto tibetano e correram os olhos para cima, onde havia um cone redondo de neve.
Após algumas estocadas da piqueta, depois de uns poucos passos cautelosos, Tenzing Norgay e Edmund Hillary estavam no cume do monte Evereste; haviam acabado de conquistar o Terceiro Pólo. Eram 11h30min do dia 29 de Maio de 1953, pelo calendário gregoriano.
Hillary olhou para Tenzing e, apesar dos óculos de protecção e da máscara de oxigénio estarem cobertos de gelo, escondendo-lhe a face, pôde notar um grande sorriso de puro prazer com o qual o sherpa admirava o mundo ao redor. “Estamos no lugar certo e na hora certa”, pensou Hillary. Eles sacudiram as mãos para se livrarem do gelo das suas luvas e então Tenzing abraçou o neozelandês longamente, até ficarem quase sem respiração. Estavam no topo do mundo, no ponto mais elevado da Morada dos Deuses, na ponta do mais alto obelisco dos terráqueos. Muito longe, milhares de metros abaixo, as cores do alto planalto tibetano, como uma miragem naquele mundo branco coberto de gelo e neve. Enquanto Tenzing Norgay preparava uma pequena oferenda para a deusa Chomolungma, Edmundo Hillary olhou em direcção à Crista Norte e lembrou-se de Mallory e Irvine. Instintivamente tentou descobrir um sinal, um objecto, qualquer evidência da passagem dos dois pioneiros. Após alguns biscoitos e um pequeno gole de chá, iniciaram uma terrível descida. O oxigénio estava no fim, era preciso pressa. Chegaram ao acampamento no Colo Sul ao cair da noite. Quando Hillary avistou George Lowe, vindo ao seu encontro com uma garrafa térmica de sopa quente e um novo cilindro de oxigénio, disse, aos berros:
- Bem, George, liquidamos este bastardo! - Embora não tenham sido exactamente estas as palavras publicadas na imprensa na época.
James Morris, o correspondente do Times, desceu ao Acampamento – base e enviou um sherpa até Nanche Bazar com uma mensagem em código. Enviada por rádio para o embaixador britânico em Kathmandu e retransmitida para Londres, a notícia foi publicada na primeira página do jornal na manhã de 2 de Junho, dia da coroação da rainha Isabel II.

Nota: Todos os post's abaixo publicados e este, foram retirados de vários locais na Internet, principalmente em portais brasileiros.

Sir Edmund Hillary


O apicultor neozelandês Edmund Hillary era apenas um praticante de alpinismo, mas viu-se catapultado repentinamente para a glória quando, se tornou o primeiro homem a chegar ao topo do Evereste, ao lado do sherpa nepalês Tenzing Norgay.
Hillary continuou sendo um homem simples, quase chateado com sua fama mundial, como prova o facto de que as únicas imagens da façanha são as fotos que mostram o seu companheiro de aventura no cume da maior montanha do mundo, de 8.848 metros. “Senti satisfação, mas não de forma exaltada, quando cheguei ao topo do mundo”, disse ele. Hillary declarou diversas vezes que a sua acção em favor dos povos e da conservação dos Himalaias lhe pareciam mais importantes do que a recordação das suas façanhas pessoais.
Segundo filho de Gertrude e Percy Hillary, Edmund nasceu no dia 20 de Julho de 1919 em Auckland. Ele define-se como um “jovem pobre do campo”, que começou a praticar o montanhismo aos 12 anos, nos picos e glaciares da Nova Zelândia. Durante a Segunda Guerra Mundial esteve na Força aérea, e em 1946 começou a dedicar-se à criação de abelhas com o seu irmão. Porém, outros caminhos o aguardavam. Seu tipo físico – 1,90 metro e capacidade pulmonar de 7 litros, contra 5 litros dos seres humanos comuns -permitiu que se alistasse em 1951 na primeira expedição neozelandesa aos Himalaias. Depois, foi seleccionado como integrante de uma equipe de reconhecimento do Evereste, liderada pelo coronel britânico John Hunt. No dia 29 de Maio de 1953, pela manhã, a expedição estava no acampamento IX, a 8500 metros de altitude. Hillary e Tenzing Norgay iniciaram então a conquista do último trecho, equipados com tubos de oxigénio. Às 11h30 alcançaram o topo do mundo e entraram para a história.
Fama não deslumbrou Hillary
Outro integrante da expedição, George Lowe, relatou o retorno de Hillary ao campo IX. “Ed tirou a máscara e saudou-nos com um sorriso expressivo. Sentou-se no gelo e disse, com a simplicidade que o caracteriza: Pronto, liquidamos o bastardo”.
A fama chegou de modo imediato. A rainha da Inglaterra, concedeu-lhe um título de “Sir”, no ano da sua coroação. No entanto, Hillary manteve a sua humildade. “Não fizemos mais do que subir uma montanha”. “A vista não tinha nada de grandiosa. Tudo era chato e monótono”, são algumas de suas frases.
Hillary voltou para a Nova Zelândia e casou-se com Louise Rose, com quem teve três filhos: Peter, Sarah e Belinda. Participou em diversas expedições, incluindo o Pólo Sul, mas consagrou-se sobretudo a ajudar o povo sherpa, pelo qual possui um grande afecto.
Em Abril de 1975, a sua esposa e a sua filha Belinda faleceram num acidente de avião no Nepal, onde participariam num dos seus projectos. Em 1989, aos 70 anos, casou com June Mulgrew, viúva de um alpinista neozelandês.

Tenzing Norgay


O nascimento de Tenzing Norgay talvez tenha sido humilde mas estava imbuído de bons presságios. Os pais viviam numa aldeia de alta montanha, Thame de seu nome, no Nepal, mas à data do seu nascimento, corria o ano de 1914, os seus pais estavam em peregrinação a um lugar sagrado, chamado Ghang Lha no leste Nepal.O pequeno Namgyal, foi este o nome que os pais lhe deram, Namgyal Wangdi, acabou por nascer neste lugar sagrado para os budistas. Mais tarde um Lama mudou-lhe o nome para Tenzing Norgay (Norgay quer dizer afortunado) e o jovem Tenzing sempre pensou que tinha sido bafejado pela sorte e tinha uma Graça especial. O seu destino estava traçado desde de muito novo, ser guardador de iaques na alta montanha, no sopé do Monte Evereste. Tenzing Norgay, acreditava quando era criança que nessa montanha viviam os deuses e observava-a fascinado, enquanto cuidava dos iaques de seu pai. “Não sei por quê, mas desde criança sentia que precisava de chegar ao cume dessa montanha”, comentou em 1953, poucas semanas depois de sua façanha. Por volta dos treze anos, fez uma viagem secreta, sem autorização dos pais, a Kathmandu, a capital do Nepal, no regresso decidiu que teria fazer tudo para poder chegar ao cimo do monte Evereste. Assim, cinco anos mais tarde, outra vez sem a permissão dos pais, mudou-se para Darjeeling na Índia, com a esperança de se juntar a uma Expedição Britânica ao Monte Evereste que se estava a organizar aí. Por um golpe de sorte, Tenzing entra na equipa de Eric Shipton´s, na Expedição Britânica ao Evereste de 1935. Tinha 19 anos e era recém-casado, com Dawa Phuti, uma rapariga Sherpa que vivia em Darjeeling. A sua performance foi tão boa que firmou uma reputação lendária de tenacidade, que fez com que não tivesse mais dificuldades em ser contratado nas expedições seguintes, nomeadamente as expedições de 1936 e 1938.Com a chegada da Segunda Guerra Mundial, as grandes expedições ao Evereste ficaram paradas, mas Tenzing não deixou de escalar. Apesar do seu nome estar ligado ao Evereste, também participou em expedições ao, Nanda Devi, na Índia, Tirich Mir e Nanga Parbat no Paquistão, Chomo-Langma no Nepal, e Garwhal, na Índia, sendo estes dois últimos escalados pela primeira vez, por Tenzing Norgay e companheiros de escalada. Entretanto a sua primeira mulher, Dawa Phuti morreu em 1944, e Tenzing volta a casar um ano mais tarde, com Ang Lhamu, outra Sherpa. Em 1947 acompanhou Earl Denman, quando este tentou a subida solitária ao topo do Evereste. No ano seguinte, acompanhou o famoso tibetologista Giuseppe Tucci, numas escavações arqueológicas no Tibete, e contra tudo o que se podia pensar, foi uma das poucas pessoas que teve a possibilidade de privar com o excêntrico e irascível Professor. Mas o seu objectivo de sempre era o cume do Monte Evereste. Num mundo em mudança com a chegada ao fim da Segunda Guerra Mundial, o Nepal abriu as suas fronteiras aos estrangeiros ao mesmo tempo que os chineses invadiram e ocuparam o Tibete, fechando a rota Norte. Outros países interessaram-se por ser os primeiros a por os seus homens no cume do Monte Evereste, o monopólio das Expedições Britânicas nas tentativas de conquistar o Evereste estavam a chegar ao fim. Em 1952 Tenzing Norgay foi convidado a juntar-se à expedição Suiça, não como carregador Sherpa mas como companheiro de escalada, nas duas tentativas protagonizadas para alcançar o cume. Foi na primeira destas duas tentativas que Tenzing Norgay chegou a mais de 8600 metros – um recorde até então – com o companheiro de escalada Raymond Lambert. A segunda tentativa, no Inverno, falhou devido ás más condições atmosféricas. Durante um período aproximado de vinte anos, Tenzing Norgay fez parte de todas as expedições que tentavam por um homem no topo do Monte Evereste. Nesta época, apesar dos companheiros Sherpas, fazerem as escaladas por dinheiro, era uma questão de sobrevivência, Tenzing Norgay queria desesperadamente chegar ao cume do Monte Evereste. Tinha devotado uma boa parte da sua vida a este objectivo. “ Pelo meu coração” disse uma vez “ tinha que ir... o pulsar do Evereste era mais forte do que qualquer outra força da Terra”
Se houvesse alguém que merecia ser o primeiro a pisar o cume do Monte Evereste, esse alguém era indiscutivelmente Tenzing Norgay. Os britânicos sentiam que a expedição de 1953, seria a última chance de serem os primeiros a chegarem ao topo do Evereste e planearam a expedição como tal. Em 1953, Tenzing, realizava a sua sétima tentativa de conquistar o “tecto do mundo”. “Ninguém fez mais tentativas de escalar o Evereste do que eu” comentava. “Pequeno e concentrado”, como costumava-se definir, Norgay demonstrava força, resistência e uma agilidade que lhe valeram o apelido de “Tigre das neves”.
Ao chegar ao topo do Evereste no dia 29 de Maio de 1953, Tenzing Norgay, budista fervoroso, ergueu um pequeno altar, a Sagarmatha, (nome em nepalês do Monte Evereste, e que quer dizer, a deusa mãe da Terra) onde deixou chocolate, uma lapiseira, que tinha recebido de presente da sua filha, além de outras oferendas. “Nunca estive ante semelhante vista e nunca voltarei a estar: selvagem, maravilhosa e terrível. Mas não senti nenhum medo: tinha muito carinho pelo Evereste. Havia esperado por este momento durante toda minha vida. Minha montanha não me pareceu uma coisa morta de rocha e gelo, mas quente, amiga e viva”, contou Norgay. Tenzing Norgay converteu-se rapidamente numa celebridade, distinguido pela coroa britânica e recebido pelo Papa. Recebeu a mais alta condecoração do Nepal a “Nepal Tara”. O governo indiano colocou-o à frente de uma escola de sherpas, Hymalayan Mountaineering Institute, posto que ocupou durante 22 anos e a sua popularidade serviu-lhe para defender a causa do seu povo, identificado desde então com as expedições nos Himalaias. Depois do Evereste, Norgay lançou-se noutras aventuras. Em 1963, escalou o monte Elbruz (5.642 metros) no Cáucaso, junto com sete montanhistas soviéticos. Também organizou expedições no Nepal para clientes endinheirados, mesmo sem deixar de lamentar a mercantilização dos Himalaias. Passou os seus últimos anos junto da sua terceira esposa, Daku de seu nome, a sua segunda mulher Ang Lahamu tinha morrido em 1964, numa aldeia indiana, Darjeeling, entre Nepal e Butão. Morreu no dia 9 de Maio de 1986, aos 72 anos. A procissão formada para seguir o funeral tinha mais de um quilómetro de comprimento. Edmund Hillary, seu companheiro na conquista do Evereste, disse “sentir-se profundamente traumatizado” com o desaparecimento do mais extraordinário montanhistas de todos os tempos.
Um dos seus três filhos, Jamling, seguiu as pisadas do pai e chegou ao cume do Monte Evereste em 1996.

sexta-feira, maio 27, 2005

George Mallory


O corpo do alpinista britânico George Mallory, desaparecido no monte Evereste em 8 de Junho de 1924, foi encontrado a 01 Maio 1999, 600 metros abaixo do cume, pela equipa do norte-americano Eric Simonson.
Em 1921 Charles Bell, diplomata britânico encarregado dos negócios com o Tibete, depois de muita pressão, persuadiu o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento ao Evereste. Organizada em 1921, montada pela Sociedade Geográfica Real, com montanhistas do Clube Alpino, ela foi chefiada por C. K. Howard-Bury. Embora composta por montanhistas experientes, tratava-se de experiência em montanhas europeias, com a metade da altura do Evereste. Muito pouco era conhecido sobre os efeitos da altitude, bem como roupas e equipamentos específicos para o ambiente que iriam enfrentar, sendo muitas das melhores avaliações da época impróprias para os padrões actuais. Os nove membros da expedição não formavam o que se poderia chamar de uma grande equipa e após uma extenuante caminhada de 640 quilómetros, desde Sikkim, na Índia, apenas seis chegaram à base da montanha. Para ajudá-los, os britânicos contrataram alguns sherpas que haviam imigrado do Nepal para a Índia. Mas a principal figura da expedição foi George Mallory. Com seu parceiro de montanhismo, G. H. Bullock, gastou um árduo mês explorando a área que o levaria com menor dificuldade até o sopé da montanha, o misterioso glaciar Rongbuk oriental. Ficou óbvio que o Verão, durante o período das monções, não era a época mais favorável para qualquer coisa que se quisesse fazer nos Himalaias. Mas, apesar disto, e dos precários equipamentos, três sherpas e três alpinistas, incluindo George Mallory, alcançaram o Colo Norte, a 6.700 metros de altitude. O incansável George Mallory continuou bisbilhotando a montanha até chegar ao passo Lho, 6.006 metros, uma falha na cordilheira que permitia passar do Tibete para o Nepal. Dali ele pode fazer uma minuciosa observação do glaciar que cobria o vale entre o Evereste e o Nuptse, acima da Cascata de Gelo, o qual baptizou de Cwm – vale, em galês – Ocidental, além de se tornar o primeiro europeu a ver a Cascata de Gelo e o vale Khumbu, no lado nepalês. Mallory voltou para o acampamento e, depois de trocar muitas informações com os outros alpinistas, concluiu ser a Cascata de Gelo um caminho intransponível. Portanto, o melhor era continuar tentando pelo lado tibetano, através do Colo Norte, localizado entre o Evereste e o Changtse, que ficava bem em frente, e a partir dali escalar pela aresta norte, à esquerda da face norte.
Em 1922, uma nova expedição, liderada pelo general C.G. Bruce, iniciou sua jornada antes das monções e gabava-se de ser formada por um grande equipa de 13 pessoas, inclusive um cineasta, e estar abastecida com alimentação especial: champanhe, caviar e esparguete. Que congelou nos campos mais altos. Eles realmente tinham uma alimentação bem mais adequada, mas as roupas não. Eles usavam chapéu, óculos escuro, machadinhas de gelo e cordas, como se estivessem indo para um passeio num parque inglês no Inverno. Para facilitar a logística da operação, diversos acampamentos intermediários foram estabelecidos. O acampamento IV foi montado no Colo Norte e o acampamento V a uma altitude de 7.600 metros. Embora fosse claro que este campo estava baixo demais para servir como base de um ataque ao cume, a primeira tentativa foi feita por George Mallory, Edward Norton e Howard Somerval. Eles subiram a 8.150 metros, sem oxigénio suplementar, antes de descerem com sintomas de congelamento. A segunda tentativa foi realizada por George Finch e C.G.Bruce. Passaram a noite dormindo com auxílio de oxigénio suplementar, o que os manteve melhor aquecidos e permitiu-lhe um bom sono, embora alguns membros da expedição fossem contra por acharem tal atitude anti desportiva. Partiram pela manhã levando apenas uma garrafa térmica de chá e subiram até 8.323 metros, estabelecendo um novo recorde de altitude. A terceira tentativa terminou prematuramente 200 metros abaixo do Colo Norte, quando uma avalanche colheu nove sherpas, matando sete. O Evereste começava a cobrar seu tributo de quem o ousava desafiar. Mas eles não desistiram, iniciando uma campanha de arrecadação de fundos para voltarem aos Himalaias. Durante um ciclo de palestras pelos Estados Unidos, ilustradas com slides das expedições anteriores, quando um irritante jornalista perguntou porque motivo alguém teria que escalar o Evereste, George Mallory respondeu com o que veio a tornar – se a mais célebre frase da história do montanhismo:
- Porque ele está lá!
Em 1924, montou-se nova expedição. Eles ainda não tinham roupas adequadas, especialmente roupas de baixo. A cada alpinista foi entregue um kit de vestimentas no valor de 100 dólares. Edward Norton, chefe da expedição, era o mais bem equipado. Gabava-se de usar macacão corta-vento, um blusão de couro e um capacete de motociclista. Mas lá estavam eles de novo: George Mallory, Andrew Irvine, Edward Norton, Howard Somerval e mais cinco alpinistas. Violenta tormenta atacou-os, ainda no início da expedição, danificando o equipamento de oxigénio e obrigando-os a voltarem para se abrigarem no mosteiro Rongbuk, onde receberam a bênção do Lama, o que eles, imprudentemente, não haviam feito quando passaram pelo local em direcção ao acampamento-base. O acampamento VI foi estabelecido a 8.170 metros, tendo Edward Norton e Howard Somerval dormido no local. Iniciaram o ataque no dia seguinte, muito cedo, mas Howard Somerval foi vencido por um sério ataque de tosse. A garganta inchada congelou, quase sufocando-o. Edward Norton seguiu sozinho montanha acima, vencendo, passo a passo, a encosta coberta de neve, até chegar aos 8.572 metros – meros 276 metros abaixo do cume –, estabelecendo um novo recorde de escalada sem oxigénio artificial, uma marca fantástica para a época, só superada em 1978.Se Edward Norton tivesse oxigénio, possivelmente teria alcançado o cume. Naquela noite, com Edward Norton exausto e sofrendo de nifablepsia, uma cegueira temporária provocada pela reflexão da luz solar na neve, e Howard Somerval fora de acção, George Mallory escolheu o jovem e inexperiente Andrew Irvine para acompanhá-lo na tentativa do próximo dia, embora Noel Odell estivesse mais bem aclimatado e em melhores condições físicas. Os sherpas acompanharam George Mallory e Andrew Irvine até o acampamento VI, ponto em que desistiram de prosseguir, tais eram as condições adversas do clima. Após um breve descanso, regressaram para informar que apesar do fogareiro ter despenhado montanha abaixo, tudo estava bem, e que os dois europeus prosseguiriam. Na manhã seguinte, 8 de Junho de 1924, o tempo estava terrível, fazendo com que George Mallory e Andrew Irvine deixassem o acampamento avançado muito tarde. Enquanto esperavam para ver se as condições melhoravam, perderam estimáveis minutos, erro que provavelmente lhes tirou a vida. George Leigh Mallory estava com 38 anos, nasceu em 1886. Filho da alta burguesia inglesa, professor, casado e pai de três filhos, era considerado o melhor alpinista britânico da sua época. Dotado de refinada cultura e alto idealismo, possuía também uma apurada sensibilidade romântica. Nos acampamentos no Evereste, ele costumava ler Shakespeare para seus colegas de barraca. Naquela manhã de 1924, enquanto George Mallory e Andrew Irvine subiam, com extrema dificuldade, em direcção ao topo do mundo, Noel Odell escalava do acampamento V ao acampamento VI para estudar a geologia das rochas ao longo do caminho. Às 12h50, numa das suas paradas, as nuvens abriram uma brecha no céu e ele pode ver a silhueta dos dois companheiros subindo em direcção ao cume. Uma forte tempestade de neve formou-se na parte de cima do Evereste e, quando clareou, duas horas mais tarde, deixando visível a crista noroeste, não existia mais sinal dos alpinistas. Os dois nunca mais foram vistos. Teriam atingido o cume antes de morrerem? Seriam George Mallory e Andrew Irvine os primeiros a terem escalado o ponto mais alto do planeta? Eles haviam morrido na subida ou na descida? A verdade é que o desaparecimento deu origens a um sem-fim de conjecturas sobre se eles conseguiram ou não atingir o cume antes de morrerem. Montanhistas de expedições subsequentes, ao observarem o local onde Noel Odell avistou Mallory e Irvine pela última vez, concluíram que, Mallory e Irvine possivelmente não teriam chegado ao cume. Em 1980, durante uma expedição japonesa, um dos carregadores chineses, Wang Hongbao, procurou o chefe da equipa alegando que cinco anos antes, enquanto participava de uma expedição chinesa, havia encontrado, perto de onde estavam, o cadáver de um alpinista britânico com roupas muito antigas, sentado num terraço nevado a 8.100 metros de altitude. Se a informação estivesse correcta, certamente seria o corpo de Mallory ou Irvine. Como eles carregavam máquinas fotográficas, poderia – se ficar a saber se haviam ou não chegado ao cume. Mas o mistério continuou porque no dia seguinte o próprio carregador chinês morreu sob uma gigantesca avalanche que desabou sobre seu acampamento.

Os números impressionantes do tecto do mundo


O Evereste é a montanha mais alta da Terra com 8848 metros de altura – o equivalente à altitude de cruzeiro de um Boeing.
O cume, localizado na cordilheira dos Himalaias, possui 60 milhões de anos e foi identificado como tecto do mundo pelo Procurador-geral da Coroa Britânica na Índia Sir George Everest em 1856. Criou-se então a aura de mistério em torno da montanha.
Enquanto os nativos da região a encaravam como um lugar sagrado e, portanto, evitavam aventurar-se nas suas encostas, os ocidentais olhavam-no como mais um ponto a ser conquistado. O primeiro homem a explorar o monte, cujo nome nativo é Sagarmatha (a deusa mãe da Terra), foi John Noel. No início da década de 20, ele fotografou os Himalaias com predilecção por imagens do Evereste.
Em 1921, um diplomata britânico conseguiu persuadir o 13º Dalai Lama a permitir uma primeira expedição de reconhecimento do Evereste. A equipa estava mal preparada, pois só havia treinado em montanhas europeias com no máximo metade do tamanho de Sagarmatha.
Dos nove alpinistas apenas seis chegaram à base da montanha. Entre eles estava George Mallory, o homem que pode ter sido o primeiro a chegar ao topo do Evereste. Fascinado pelo desafio de chegar ao tecto do mundo, Mallory não desistiu e tentou chegar ao topo da montanha por mais três vezes.
Acabou morrendo na sua última escalada, em Junho de 1924.
Não se sabe consegui chegar ao topo ou não, mas sem provas não há façanha e a conquista do Evereste só foi reconhecida no dia 29 de Maio de 1953, quando o neozelandês Edmund Hillary e o sherpa nepalês Tenzing Norgay chegaram ao topo.
Desde essa data, cerca de 1200 pessoas realizaram o feito e 175 morreram tentando atingir o pico do Evereste.
Outros números:
Em 1973, Sambu Tamang, do Nepal, chegou ao topo aos 16 anos tornando-se a pessoa mais jovem a subir o Evereste.
Em 1975, a primeira mulher chegou ao topo do monte Evereste. Tratava-se da japonesa Junko Tabei.
Em 1978, o italiano Reinhold Messner e o austríaco Peter Habeler são os primeiros a subir o Evereste sem utilizarem oxigénio artificial.
Em 1995 a alpinista inglesa Alison Hargreaves torna-se a primeira mulher a escalar os 8.848 metros do Evereste sem usar oxigénio artificial.
A pessoa mais velha a escalar o Evereste foi Yuichiro Miura, de 70 anos. Chegou ao topo no dia 22 de Maio de 2003.
Em coordenadas geográficas, o Monte Evereste está a 27° 59’ Norte de latitude e 86° 56’ Leste de longitude.

João Garcia


João José Silva Abranches Garcia nasceu no dia 11 de Junho de 1967 na cidade de Lisboa. Iniciou-se na escalada em rocha na Serra da Estrela, quando tinha 16 anos, através de um contacto com o Clube de Montanhismo da Guarda. Passou à escalada em neve e gelo em 1983, nos Alpes, e, dez anos mais tarde, integrou uma expedição internacional ao monte Cho – Oyo (8201 metros), no Tibete. Chegou ao topo sem recorrer a oxigénio e, no ano seguinte, decidiu repetir o feito numa outra expedição internacional, desta feita ao monte Dhaulagiri (8167 metros), no Nepal. Tornou-se, por isso, no primeiro português a escalar duas montanhas com mais de oito mil metros de altitude sem oxigénio artificial. Em 1997 tentou, pela primeira vez, escalar o monte Evereste (8848 metros) – pisado pela primeira vez em 29 de Maio de 1953, pelo neo-zelandês Sir Edmund Hillary e pelo nepalês Tenzing Norgay- mas o mau tempo impediu-o de chegar ao topo. No ano seguinte voltou a tentar, mas apenas conseguiu chegar aos 8200 metros e, mesmo assim, ficou com geluras (queimaduras provocadas pelo frio) no nariz. Em 1999, juntamente com o belga Pascal Debrouwer, João Garcia voltou a tentar chegar ao topo do Evereste e, desta vez, conseguiu atingi-lo e sem a ajuda de oxigénio. Pascal Debrouwer, no entanto, caiu numa ravina durante a descida e morreu. João Garcia teve de ser internado num hospital de Saragoça, em Espanha, especializado em queimaduras de segundo e terceiro grau, onde lhe amputaram alguns dedos de uma mão. Este feito colocou João Garcia na galeria de alpinistas que subiram ao monte mais alto do mundo e que é composta por oito centenas de pessoas, fazendo com que o seu nome figurasse entre as seis dezenas de escaladores que lá chegaram sem oxigénio. Destes 60, metade morreu.
João Garcia já subiu várias vezes o Monte Branco, nos Alpes. Escala frequentemente em Yosemite, no Alasca, nos Andes e no Atlas. Entre os montes mais importantes que já escalou, para além das três montanhas já referidas com mais de oito mil metros, estão o Shishapangma, face sul, (7500 metros), nos Himalaias, em 1993, o Nanga Parbat (7600 metros), também nos Himalaias, em 1996, o Aconcágua (6959 metros), nos Andes, em 1996, e o Ama Dablam (6856 metros), igualmente nos Himalaias, em 1997, em 2001 o Gasherbrum II, Em 2002 o Pumori (7120 metros), em 2003 o Vinson, na Antártica, Mimlung Himal (7167 metros), em 2004 o Gasherbrum I (8064 metros), o Aconcagua e o Amadablam (6954 metros), em 2005 o Lothse (8516 metros).

A sedução pelas montanhas, que conheceu desde muito novo com o pai, que é piloto de aviação, fez com que fizesse do alpinismo o seu modo de vida. Foi militar ao serviço da Nato, tendo passado duas comissões nos Alpes, o que lhe valeu alguma experiência em matéria de alpinismo. Desde 1998, é guia de alta montanha da agência «Montagnes du Monde», com sede na Bélgica e escritório em Kathmandu, a capital do Nepal.
Depois de ter conseguido chegar ao topo do Evereste, a Secretaria de Estado do Desporto portuguesa decidiu atribuir-lhe uma Medalha de Mérito Desportivo e um apoio financeiro idêntico ao que recebem os campeões do mundo noutras modalidades, a Câmara Municipal de Lisboa homenageou-o no dia 18 de Janeiro de 2000. É sócio Honorário do Clube de Montanhismo da Guarda e tem a Carta de Montanheiro honorífica por parte da Federação Portuguesa de Campismo – Escola Nacional de Montanhismo. Recebeu o prémio “Fair-Play” referente ao ano de 1999, atribuído por deliberação da Comissão Executiva do Comité Olímpico de Portugal e o galardão de desportista do ano de 1999 da Confederação dos Desportos.

A Mais Alta Solidão


«A montanha só está escalada quando chegamos ao cume, mas o importante é regressarmos bem.» O alpinista João Garcia arruma numa frase a persistência, a coragem e outros tantos atributos que pela primeira vez levaram a bandeira de Portugal ao «tecto do mundo». A amputação do nariz, de parte dos dedos das mãos e a perda do companheiro Pascal Debrouwer é a prova de que a expedição não correu bem. A resposta ao desafio de escalar o Evereste, foi dada no livro que João Garcia, alpinista profissional, escreveu, “A mais alta solidão”, e essencialmente para contar a subida e a descida atribulada que custou a vida ao companheiro de expedição, Pascal Debrouwer. O monte Evereste, nos Himalaias, a 8.848 metros de altitude e uma temperatura de 40º negativos. Gorada a tentativa de 1997, por razões logísticas, João Garcia conheceu Pascal, um alpinista belga responsável pela empresa «Montagnes du Monde», que organizava expedições aos locais mais altos do globo. Ambos formaram uma parceria e delinearam as duas expedições ao monte Evereste em 98 e 99, a 8.848 metros de altitude e a uma temperatura de 40º negativos. Os dois alpinistas profissionais moviam-se por um sentimento comum. A vontade em ultrapassar o clima inóspito e instável dos montes Himalaias levou-os a traçar o plano para atingirem o pico do monte Evereste, pela face Norte. Recusaram levar oxigénio artificial, querendo fazer tudo da forma mais ética e correcta, o que segundo João Garcia «torna tudo mais difícil, mas com muito mais valor». Uma prática restringida a uma elite mundial: 7% dos destemidos que subiram ao Evereste fizeram-no neste estilo. Era uma questão de terminar algo que se encontrava incompleto numa vida dedicada à escalada.
A preparação para uma tarefa tão árdua vem de há muito tempo. «Não comecei ontem, comecei há 17 anos, durante os quais já tinha realizado sete expedições a cumes de mais de 8.000 metros. O medo existe mas vamo-nos habituando a pouco e pouco. Ganha-se a endurance e a resistência capazes de enfrentar este tipo de dificuldades», confessa João Garcia, um desportista que praticou triatlo de competição, treinava quatro horas por dia, correu duas maratonas e acima de tudo andava muito montanha, onde por vezes permanecia durante oito horas. A expedição saíu a 4 de Abril de Kathmandu, a capital do Nepal, a 1.600 metros de altitude. Depois, mais à frente, era preciso aclimatizar. Ou seja, fazer uma adaptação progressiva à altitude, através de movimentos ascendentes e descendentes no percurso para o cume. Até ao dia do «assalto final». O homem não foi feito para viver a esta altitude, mas «para nós há um certo fascínio. A muita gente faria medo estar lá em cima a algumas horas de descida. Uma pessoa habitua-se. Até a própria família convive com o facto de eu partir e estar dois meses fora», esclarece João Garcia. A caminho do cume o oxigénio escasseia. Neste ambiente, o corpo humano responde intensificando a produção de glóbulos vermelhos para melhorar o aporte de oxigénio às células. E João Garcia possui características semelhantes à de um atleta de alta competição: «Adapto-me bem às situações adversas, mas não deixa de ser muito cansativo. Acima dos 8.000 metros já estamos numa situação de quatro respirações, um movimento e assim por diante. Quando paramos não conseguimos repor a nossa respiração. Estamos sempre ofegantes 24 por 24 horas.»
No topo branco do Evereste, a pequena bandeira portuguesa foi exibida a 18 de Maio de 1999. João Garcia posou para a posteridade, numa fotografia tirada por Pascal Debrouwer. Agora Faltava descer, e aí a tragédia aconteceu, algo que é frequente naquele meio agreste. O maior problema da grande altitude e das sequelas que trouxe da expedição não é só o frio e o vento. O metabolismo e a respiração aceleram, o ar é tão seco que a simples respiração leva a uma enorme desidratação e a capacidade de raciocínio é reduzida drasticamente. Por dia perdem-se cerca de oito litros de líquido, que é impossível repor na totalidade. Fazer cada litro de água a oito mil metros, com 40 º negativos, demora cerca de meia hora. Três a quatro litros por dia já são um contentamento. Por isso, acima dos oito mil metros convém não estar mais que 24 a 36 horas.«Com a desidratação, o organismo entra imediatamente em saldo negativo, o sangue torna-se mais espesso e a circulação nas extremidades torna-se muito deficiente e é por isso que congelamos», refere o nosso interlocutor. A noite e a intempérie constituíram um bloqueio para alcançar o campo 3, a 8.300 metros. Sem conseguir fazer água, restou apenas a João Garcia manter o corpo quente. «Se me tenho aventurado a descer pela noite, se calhar não regressava.» Mas a determinação fez com que não se juntasse aos mais de 150 escaladores que pereceram no Evereste. Quando chegou ao campo base vinha sozinho. Pascal Debrouwer, o seu companheiro de escalada, não tinha conseguido. Ministraram-lhe injecções de aparina, substância que dilui o sangue e facilita a circulação. Mas o português apresentava tecidos mortos por congelação no nariz e nas pontas dos dedos das mãos. Nos pés formaram-se bolhas em tecidos mal irrigados por congelação e, por mais antibióticos que tomasse, uma infecção oportunista seria bastante grave, sabendo que o calçado é bastante atreito a fungos e micoses, por exemplo. A ajuda para prosseguir caminho surgiu nos sete tibetanos contratados que o carregaram até ao transporte que o levaria a Kathmandu. Sobreviveu.
Saragoça foi a próxima escala. Aí esperava-o José Ramon Morandeira, director da Unidade Mista do Hospital Universitário Lozano Tlesa. Este médico alpinista e também vítima de congelação nos dedos dos pés, encetou as investigações nessa área há cerca de 10 anos e pela sua equipa passaram já mais de 90 casos. Por isso, João Garcia sentiu a segurança de que precisava: «Quando se está numa situação em que estive, sentir que estava bem entregue foi meio caminho andado para o bem-estar psíquico.» Vieram os banhos térmicos com borbulhas de oxigénio e as injecções de aparinas de baixo teor molecular. «Quando cheguei ao hospital os médicos disseram-me para me acalmar e que provavelmente nem perderia nada das mãos. Reconheci que a situação estava difícil, mas queria acreditar que as coisas se resolvessem. Depois de três semanas de tratamento, o meu grande choque foi quando vi a gamografia. Olhei para o monitor e reparei que as minhas mãos só eram detectadas a metade...» O cérebro de João Garcia ainda não «esqueceu» a sensação das unhas e das pontas dos dedos, mas a chamada síndroma fantasma desaparecerá com o tempo. «Este é o pior dos cenários para um escalador, já que as mãos são essencialmente o verdadeiro instrumento de trabalho.» O nariz, os dedos das mãos e os dedos dos pés foram alvo de intervenções cirúrgicas. O «enxerto índio» é o nome da técnica de reconstrução nasal a que João Garcia foi submetido. Agora só falta realizar um enxerto de pele na testa, donde foi retirado o tecido para o nariz. Uma operação que provavelmente vai realizar em Portugal. Para fechar as feridas resultantes da amputação dos dedos das mãos foram executados micro enxertos com tecido extraído de um dos braços. Há cinco ou dez anos pouco teria restado dos dedos, mas o requinte das técnicas actuais salvaram uma parte. «Agora sinto-me como um reformado aos 30 anos, que pode continuar a fazer aquilo de que gosta. Sempre fui uma pessoa muito racional e chego à conclusão de que hei-de desfrutar o alpinismo de outra maneira.» Sem perder a vontade de subir à montanha, pensa voltar aos oito mil metros, mas prevenido. Usará oxigénio nos últimos 500 metros, umas injecções de aparina para favorecer o fluxo sanguíneo, uma hidratação adequada e umas luvas com aquecimento eléctrico. A circulação periférica nas mãos de João Garcia vai demorar dois anos a reconstituir-se. As palmas das mãos de João Garcia estão quentes, mas os dedos são frios, como a inóspita região dos Himalaias, onde conquistou o topo do mundo para Portugal. «Tenho de continuar, pelo menos para dar sentido aos últimos 15 anos da minha vida!»
«Não posso chamar tempestade àquilo que aconteceu. Uma tempestade a 8.800 ou 8.600 metros— foi onde eu bivaquei – é uma coisa terrível. O «jet stream» é o vento de 30.000 pés, que atingem 250 km/h. Ora um homem lá em cima voa nessas condições. Por isso eu não estaria cá se tal acontecesse. Mas houve de facto um aumento gradual do vento, o que acontece sempre à tarde».
«O sol começa a pôr-se, a temperatura começa a esfriar e o ar quente começa a subir pela face norte do Evereste. Isto dificulta muito depois na descida. Temos umas luvas grandes e depois umas mais pequenas, mas há que agarrar uma corda, colocar um mosquetão (espécie de argolas por onde deslizam as cordas)... Tudo isto obriga a meter os dentes nas luvas para não perdê-las, trabalhar e voltar a meter as luvas: são factores que atrasam e que, neste caso, atrasaram mesmo. Depois a noite chegou e ficámos bloqueados, tentando sobreviver. Entretanto, perdi de vista o Pascal. «Devo reconhecer que o facto de ter estado muito tempo em altitude à espera do meu colega fez com que o efeito da congelação se agravasse. Nestas altitudes raciocinamos muito mal, com cerca de 30% das faculdades normais. É como “a bebedeira de altitude”. Só uma grande determinação impede que o escalador se sente e continue a descida.»