sexta-feira, dezembro 29, 2006

Não Viveu em 2006 Se...


… Não sabe o que é o “YouTube”.
… Não sabe que o genocídio no Darfur continua, e o “Ocidente” assobia para o lado.
…Não ouviu falar das “Caricaturas de Maomé” e não viu as tristes manifestações contra a Dinamarca.
…Não ouviu George Bush, 50 000 mortos depois, a aceitar que a Guerra no Iraque, está perdida.
…Pensa que Guantánamo é uma estância turística em Cuba.
... Não sabe que o "Polvo" no Brasil tem nome de "Lula".
…Não ouviu falar do programa nuclear iraniano.
…Pensa que não tem nada a ver com o aquecimento global.
…Não ouviu falar do “Referendo ao Aborto”, pelo menos 1420 vezes.
... Não ficou farto do eterno julgamento do “Processo Casa Pia”.
… Viu a floresta portuguesa sem incêndios.
... Não chamou os políticos de incompetentes, pelo menos uma vez por dia.
... Não ouviu as palavras “invasão fiscal”, “fraude fiscal” e “corrupção fiscal”, pelo menos, dia sim, dia não.
…Não ouviu falar, pelo menos 982 vezes, do processo “Apito Dourado”.
…Não ouviu 365 vezes o Primeiro-ministro de Portugal dizer que a economia está a crescer.
…Ouviu a oposição ao Governo socialista, com alguma ideia para o País.
…Não ouviu a vazia expressão “choque tecnológico”, falhado, pelo menos 362 vezes.
…Não sabe que o Rui Rio comemora o “dia do trabalhador” no dia 26 de Dezembro.
…Não sabe que acabou o “Independente” e o “Sol” brilha.
... For judeu. Nesse caso viveu em 5766.
... Não chamou, pelo menos uma vez, gatuno ao árbitro, num jogo de futebol.
... Não participou num evento qualquer, para bater um recorde qualquer, para poder inscrever o nome no “Guiness Book of Records”.
... Não recebeu, pelo menos, 361 e-mails, a dizer “não quebre esta corrente”.
…Não recebeu independentemente do sexo, pelo menos, 720 e-mails, com oferta de produtos para aumentar o tamanho do seu pénis.
… Não sabe quem é a “Floribella”, ou se pensa que “Morangos com Açúcar” é o nome de uma sobremesa.
…Pensa que D’ZRT, são as inicias dos nomes de quatro palhaços.
…Não sabe quem escreveu o livro “Eu, Carolina”, ò i, ò ai.
...
...Segundo a Maria Paulino, não visitou A Fábrica.
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Desejo a todos um Ano 2007 repleto de saúde, amor, alegria e muita Paz.
Que seja o Ano de todas as vossas realizações pessoais.
Façam o favor de ser felizes.
Um abraço a todos.

segunda-feira, dezembro 25, 2006

James Brown


O lendário cantor norte-americano James Brown, conhecido como o “pai da Soul”, morreu hoje, aos 73 anos, num hospital de Atlanta, Estados Unidos, anunciou o seu agente. Brown, pioneiro da música soul faleceu à 01:45 locais (06:45, hora de Lisboa) no Hospital Emory Crawford Long, onde tinha dado entrada domingo na sequência de uma forte pneumonia. Célebre pela sua voz imponente e pelos movimentos frenéticos, tendo protagonizado temas como “I Got You (I Feel Good)” ou “Please Please Please” que fizeram do lendário cantor “o pai da Soul”. O sentido inovador de ritmo converteu Brown num dos músicos norte-americanos mais influentes dos anos 50, que reconhecidamente inspiraram Mick Jagger, Michael Jackson e David Bowie, entre outros. Nascido em Barnwell, Carolina do Sul, foi deixado ao cuidado de familiares e amigos aos quatro anos de idade, crescendo, pobre, nas ruas de Augusta, Geórgia. Em 1949, quando frequentava o oitavo ano, surgiram os primeiros problemas com a justiça, cumprindo mesmo três anos e meio de prisão num reformatório, devido a assaltos a carros. Foi aí que conheceu Bobby Bird, líder do grupo Gospel Starlights, que viria a integrar. Pouco depois a banda muda o seu nome para Famous Flames, dedicando-se ao R &B (Rhythm and Blues). Em Janeiro de 1956,a editora King Records, de Cincinnati, assinou contrato com o grupo e quatro meses depois “Please, Please, Please” estava no top-10 de R&B. O grande sucesso seguinte foi “Try Me”, em 1958. Em 1962, James Brown grava um álbum ao vivo no Apollo de Nova Iorque, considerado sucesso colossal. Dois anos depois inicia uma carreira a solo e conhece os seus primeiros grandes sucessos como tal: o álbum “Out of Sight” contém músicas como “Papa‘s Got a Brand New Bag” e “I Got You (I Feel Good). “Say it Out Loud_I‘m Black and I‘m Proud”, foi outro dos seus grandes sucessos, em 1968. “Lembro-me perfeitamente de nos apelidarmos “de cor” e depois dessa canção, começamos a chamar-nos de “negros”, disse em 1993. Outro ponto alto da sua carreira aconteceu em 1970, com o tema “Sex Machin e”, que provavelmente o apelidou de “o pai do Soul”. A sua carreira é depois relançada em 1986, com o filme “Rocky IV” e a inclusão do tema “Living in América”. Desde 1986, James Brown misturou estadas na prisão, curas de desintoxicação e discos de qualidades diversas, numa vida marcada por excessos em todos os sentidos. Em 1992, Brown ganhou um Grammy de carreira e outros dois em 1965 e 1987, com os temas “Papa‘s Got a Brand New Bag” e Living in América”, respectivamente. “Mr. Dinamite”, como era também conhecido, gravou mais de 50 álbuns e nunca revelou a sua verdadeira idade, situando a sua data de nascimento entre 1928 e 1933. Lusa.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

quinta-feira, dezembro 21, 2006

Teste de Cultura Geral

1.Quantos anos durou a “Guerra dos Cem Anos”?
a) 101 anos.
b)106 anos.
c)116 anos.
d)100 anos.

2.Em que país se fabricam os famosos chapéus “Panamá”?
a) Venezuela.
b)Panamá.
c)Equador.
d)Nicarágua.

3.De que animais se obtém as cordas de tripa de gato?
a) gato e cabra.
b) gato e cavalo.
c) ovelha e cabra.
d)ovelha e cavalo.

4.Em que mês celebram os russos a Revolução de Outubro?
a) Outubro
b)Maio
c)Novembro
d)Junho

5.De que são feitos os pincéis de pêlo de camelo?
a)Camelo
b) Esquilo
c)Cavalo
d) Cabra

6.Que animal deu origem ao nome das Ilhas Canárias?
a) Cão
b) Gaivota
c)Canário
d)Cabra

7.Qual era o primeiro nome do rei inglês Jorge VI?
a) Jorge
b)Alberto
c)William
d) Charles

8.De que cor é caixa negra dos aviões?
a) laranja
b)preta
c)vermelha
d)rosa

9.Que clube comemorou 75 anos em 1981 e o Centenário em 1993?
a) F.C. Porto
b)F.C. Porto
c)F.C. Porto
d)F.C. Porto

BOM TESTE.

quarta-feira, dezembro 20, 2006

AUDITORIA. É ou não, um bicho-de-sete-cabeças...?


Hoje em dia já quase todas as pessoas ouviram falar em auditoria.
Mas afinal o que é a auditoria? Qual o seu objectivo? Qual a sua importância no nosso dia-a-dia?
A palavra auditoria deriva do verbo latino “audire” que significa ouvir, isto porque nos primórdios os auditores tiravam conclusões e credibilizavam a informação que ouviam. Nos dias de hoje, os auditores emitem uma opinião por escrito, sob a forma de relatório ou parecer, após análise de informação.
Actualmente e de uma forma genérica, a auditoria tem como finalidade avaliar os procedimentos a nível interno de uma empresa, bem como, credibilizar a sua informação que é transmitida ao exterior. Deste modo, a auditoria subdivide-se em e auditoria interna e auditoria financeira.
A auditoria financeira, tem como objectivo credibilizar a informação financeira da empresa, expressa por meio do balanço (projecta o património da empresa, ou seja, o conjunto de bens, direitos e obrigações) e da demonstração de resultados (revela os custos, proveitos e resultados num determinado período).
Esta informação financeira vai ser utilizada por diversas entidades (pessoas singulares e colectivas), que no dia-a-dia têm relação com a empresa, nomeadamente, trabalhadores, clientes, fornecedores, entidades bancárias e Estado. A credibilização da informação é importante a todas estas entidades, em diferentes perspectivas, pois transmite confiança, segurança, equilíbrio e bem-estar. Aos colaboradores assegurando que receberão todos os seus direitos, o que contribui para a sua motivação; aos clientes, é uma garantia de capacidade de entrega atempada e qualidade dos seus produtos, enquanto que para os fornecedores, assegura que a empresa cumpre com as suas obrigações. Para o Estado, a informação permite saber se a empresa cumpre os seus compromissos fiscais. Finalmente, a informação credibilizada é muito importante na medida em que auxilia os bancos na tomada de decisões para conceder financiamentos.
A auditoria interna analisa e melhora a eficiência dos processos de gestão, controle e qualidade de uma empresa. Esta permite aumentar a qualidade do serviço prestado em vários domínios, nomeadamente, qualidade e design do produto, optimização das compras e gestão de stocks, politicas de marketing, engenharia e investigação, força de vendas, serviços administrativos, entre outras. Ao contrário da auditoria financeira, “olha com uma atitude critica para dentro da empresa”, tendo como objectivo melhorar os procedimentos internos da empresa e não a credibilização da informação para consulta de entidades externas.
A auditoria não é nada sem a figura do auditor. O auditor é a pessoa que emite a sua opinião, das demonstrações financeiras ou dos procedimentos internos, através de um relatório ou parecer sob a forma escrita, expresso de uma forma positiva, clara, concisa, objectiva, imparcial e independente. O auditor poderá ser interno, quando pertence aos quadros da empresa auditada, ou externo, quando pertence aos quadros de uma empresa externa. A auditoria financeira só pode ser efectuada por auditores externos.
Em suma, a auditoria ajuda a credibilizar a própria empresa pois preocupa-se em apresentar uma imagem verdadeira e apropriada da empresa para todos aqueles que necessitam desta informação, bem como, fazer com que a empresa melhore os procedimentos de forma a aumentar a sua eficiência, rentabilidade e qualidade.
Ainda acha, que a auditoria é um bicho-de-sete-cabeças?
Mário Costa, economista.
Mário Costa, em colaboração com Bebiana Barbosa, Marta Ribeiro, Natália Ferreira, Paulo Bastos.
Artigo elaborado no âmbito do Curso de formação profissional em Auditoria Financeira e Controlo Interno – Acção Financiada pelo F.S.E. e Estado Português – Acção II, promovido pela Associação Empresarial de Penafiel (AEP).
Com a edição deste artigo, inaugura-se aqui n'A Fábrica uma secção a que se chamará, " A Fábrica feita pelos seus leitores".
Se tem algum artigo que queira ver publicado, neste blogue, faça o favor de o enviar por e-mail.

terça-feira, dezembro 19, 2006

TU ÉS A "PESSOA DO ANO"


“Sim, tu. Tu controlas a Idade da Informação. Bem vindo ao teu Mundo”, lê-se na capa da revista Time.
Tu, (você) que estás a ler este post és uma das pessoas, para a revista Time, que sucede a Bono Vox, Bill e Melinda Gates como a “Pessoa do Ano”.
“Por trabalhar a troco de nada e ganhar aos profissionais no seu próprio jogo, a figura do ano és tu”, é com uma frase simples, que a revista norte-americana nos presta homenagem.
A justificação para a atribuição de tão ilustre distinção, relaciona-se com o êxito dos utilizadores de blogues e outros espaços na Internet, como o YouTube e o MySpace e ainda o serviço público da Wikipédia, que colocam o cidadão comum no centro da sociedade de informação, simultaneamente como consumidor e como produtor.
É o reconhecimento da revolução, em curso, das fontes informativas!

sábado, dezembro 16, 2006

A Disfunção Pública


( O Grito - Eduard Munch)

A receita já é conhecida – cria-se uma cena dramática, solicitam-se opiniões a sábios, expõem-se os objectivos, define-se o modus operandi e engana-se o povo.
Atinemos nas peripécias com a tão proclamada reforma da Administração Pública com o propósito de privatizar os serviços públicos e de como alguns grupos financeiros estão afiando os dentes à procura de aumentar os seus lucros à custa do Estado e dos utentes.
Cria-se a ideia que o País tem “Estado” a mais e faz-se recair o odioso do mau funcionamento dos Serviços da Administração Pública na existência de um regime laboral específico da Função Pública.
A partir daqui vale tudo! Proliferam e vociferam as vozes contra os trabalhadores: a improdutividade e o mau desempenho, as regalias e mordomias, seu número exagerado, a má qualidade do serviço prestado, os enormes encargos que acarretam, e tudo o mais que sirva para denegrir a imagem destes servidores. De tal modo que um pacato cidadão depois de tanto massacrado com tamanhas enormidades fica revoltado e junta a sua voz a todos que gritam abaixo o Estado! Viva a livre Iniciativa! Viva a concorrência! A economia! O mercado! Viva! Tudo o que é privado é bom! Tudo que é público é mau! Viva! Viva a estupidez! Viva! Viva! Viva!
Criado o cenário é preciso passar à fase seguinte, cortam-se as regalias, despedem-se milhares de trabalhadores, aumenta-se a idade da reforma, aumentam-se os descontos, congela-se a progressão na carreira, diminui-se a remuneração e as pensões, altera-se o estatuto do funcionário e o seu vinculo, encerram-se serviços, prometem-se muitas mais medidas que estarão a ser “paridas” a qualquer momento e tudo isto, segundo o ministro das finanças, para o bem dos trabalhadores (!).
Entretanto são criadas duas empresas públicas para gerir pessoas, finanças e compras do Estado, as denominadas GeRAP e ANCP, mais ágeis e flexíveis a gerir a coisa pública com critérios e métodos empresariais.
Mas o pacato cidadão revoltado agora ficou perplexo e parece-lhe que, com a criação destas empresas públicas, o governo estará a tirar de um lado para por no outro, com a agravante (comprovada) de que a externalização de serviços é mais onerosa para o Estado.
Mas meu caro cidadão pacato revoltado e perplexo acrescente mais um estado ao seu ânimo e fique também estupefacto com tanta esperteza do Governo. Então não é que o próprio diploma que cria as ditas empresas também prevê que os serviços do Estado podem, se bem o entenderem, recorrer a serviços privados (de acordo com a lei do mercado) e como é previsível que aquelas empresas não vão ter capacidade concorrencial (até pela aplicação do principio demonstrado de que tudo o que é público é caro e mau) este será assim apenas um meio expedito de escancarar as portas ao sector privado.
(Se não fossemos bem intencionados até poderíamos pensar que se aquelas empresas não vão afinal prestar qualquer serviço, estarão a ser criadas apenas para colocar uns amigos entretanto desocupados pela extinção de serviços).
As privatizações irão alargar-se e entrar desde logo nas áreas da educação e saúde, aplicando-se o principio do utilizador pagador (quem quer paga) mas, o governo com a sua vertente socialista não se esquecerá dos pobres e na sua vocação reformista já estará a pensar em reconverter alguns antigos asilos, hospícios, reformatórios e outras instituições de caridade para que ninguém fique de fora deste desígnio nacional.
JORGE GASPAR.

sexta-feira, dezembro 15, 2006

Corruptos tenham medo. MUITO MEDO!


Maria José Morgado foi nomeada ontem para dirigir e coordenar todos os processos relativos ao caso "Apito Dourado", tendo como objectivo "uma coordenação eficaz no sentido de imprimir dinâmica e rigor necessários à descoberta daverdade material", segundo a Procuradoria Geral da República.
De acordo com a Procuradoria-Geral da República,Maria José Morgado foi escolhida para dirigir a equipa do Ministério Público para todos os inquéritos já instaurados ou a instaurar conexos com o processo "Apito Dourado", sobre corrupção no futebol.
Ao jornal Público, a procuradora-geral adjunta disse que vai começar a trabalhar desde de já e que,"Precisamos que acreditem em nós, Ministério Público, na polícia e nos tribunais. Por isso, a hora é de trabalhar e não de falar", disse Maria José Morgado.
Eu acredito.
Creio na justiça mas acima de tudo, acredito na capacidade de trabalho da procuradora-geral adjunta, o “Giovanni Falcone Português”, para que este caso não passe à história, como uma página negra da Justiça .
É de louvar a primeira grande decisão do novo Procurador-geral da República, Pinto Monteiro, ao escolher a incorruptível Maria José Morgado para coordenar os processos referentes ao “Apito Dourado”.
Quis o destino, esse irónico destino, que no curto espaço de uma semana, duas mulheres tenham tomado conta do futebol português e que prometem abalar fortemente os seus alicerces.
Na semana passada o livro da "ex. Primeira-dama portista", Carolina Salgado, que teve o condão de trazer, novamente, para as primeiras páginas da imprensa portuguesa o fenómeno da corrupção desportiva e despertou a letárgica Justiça para o combate ao "polvo". Ontem, a nomeação, de Maria José Morgado, para tutelar as investigações do processo "Apito Dourado".
Com Maria José Morgado à frente das investigações do processo “Apito Dourado” renasce a esperança de um combate, justo e sem tréguas, ao fenómeno da corrupção desportiva.
Os indiciados no processo "Apito Dourado", tem uma razão extra para estarem apreensivos porque todos aqueles que têem um dedo metido no fenómeno da corrupção desportiva, certamente, Maria José Morgado levá-los-á a julgamento.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Se... Rudyard Kipling

Há umas semanas atrás, em plena "crise dos comentários", uma leitora enviou-me uma versão portuguesa do poema "IF" de Rudyard Kipling, em jeito de agradecimento pela minha postura na gestão dessa crise, modéstia à parte.
O poema "Se..." é um dos poemas da minha vida. Há muitas traduções deste poema em português, mas a que mais gosto, especialmente quando declamada por João Villaret é a versão, abaixo postada. Eis o poema, que partilho convosco:

SE...

Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar, para quem o louco és tu.
Se podes crer em ti com toda a força da alma
Quando ninguém te crê. Se vais faminto e nu
Trilhando sem revolta um rumo solitário.
Se à torpe intolerância, se à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
Mas sem a afectação de um santo que oficia,
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor.
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores!
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores.
Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu!... jamais lhe deste!
Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo,
E sem dizeres palavra e sem um termo agreste
Voltares ao princípio para construir de novo.
Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar – Avante!
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Se vivendo entre os reis conservas a humildade
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre,
São iguais para ti à luz da eternidade.
Se quem conta contigo encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
De cada minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraia em séculos fecundos.
Então, ao ser sublime o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os templos, os espaços,
Mas ainda para além um novo sol rompeu
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem,
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te meu filho... Então serás um HOMEM!
Joseph Rudyard Kipling nasceu em Bombaim em 30 de Dezembro de 1865 e morreu en Inglaterra a 18 de Janeiro de 1936. Foi educado na Universidade United Services em Westward Ho!, na Inglaterra, que lhe proporcionou o cenário para Stalky and Co. (1899); trabalhou como jornalista na Índia, entre 1882 e 1889, escrevendo, ao longo destes anos, Plain Tales from the Hills, Soldiers Three (1890), Wee Willie Winkie (1890), e outras obras. Regressado a Londres, publicou The Light that Failed (1890) e Barrack-Room Ballads (1892), altura em que foi viver para os EUA, onde ficou até 1896; aí elaborou os dois Livros da Selva e Captains Courageous (1897).
Instalado no Sussex, no sudoeste de Inglaterra, publicou Kim, cuja acção decorre na Índia, Just So Stories, Puck of Pook’s Hill e Rewards and Fairies (1910).
Para a popularidade de Kipling contribuíram os poemas Danny Deever, Gunga Din e If, que expressam uma empatia com a experiência comum, em conjunto com um sentido intenso da «Englishness», por vezes denegrida como um género de imperialismo jingoísta.
Recebeu o Prémio Nobel da Literatura, em 1907, e a sua obra tem sido cada vez mais valorizada devido à complexidade da caracterização e aos subtis pontos de vista morais.

Um Longo Lapso da Razão

“Dizem que Fidel Castro é comunista só porque ele é da oposição. Na realidade Fidel está mais à direita do que o General Fulgêncio Batista”

Editorial da revista The Economist (1958).

Esta citação tem um lugar de destaque no anedotário mundial.

quarta-feira, dezembro 13, 2006

15.000

Quinze mil é um número como outro qualquer, mas para este blog é especial.É o número de visitas recebidas nos últimos onze meses provenientes do Brasil.
A todos os amigos brasileiros, um abraço e obrigado.
A todos os visitantes portugueses e de outras nacionalidades, envio também os meus agradecimentos com um abraço e peço desculpa pela discriminação positiva.

terça-feira, dezembro 12, 2006

Lapso Momentâneo da Razão

O título do post foi descaradamente retirado do álbum dos Pink Floyd, “Momentary Lapse Of Reason”, mas está excelentemente adequado ao texto.
É incrível ler afirmações de pessoas inteligentes e bem sucedidas que não são mais que as profecias do bruxo de uma tribo remota.
Alguns destes ilustres profetas devem ter pesadelos quando alguém lhe recorda as tolices por eles defendidas. Outros devem dar voltas no túmulo…eternamente.
Uns e outros, com os seus erros, fizeram bons momentos de humor.
Talvez a sabedoria popular encerre toda a razão quando diz que o futuro a Deus pertence.


“Tudo o que podia ter sido inventado já foi inventado”
Charles Duel
, director do Patent Office Americano (1899).

“Não há razão para que alguém queira um computador em casa”
Ken Olson
, fundador da Digital, na altura, rival da IBM (1977).

“O mundo só terá espaço para cinco computadores”
Thomas Watson
, fundador da IBM (1943).

“Daqui a seis meses a televisão vai ser abandonada. As pessoas vão cansar-se de ficar sentadas a olhar para uma caixa de madeira”
Darryl Zanuck
, presidente da 20th Centuy Fox (1946).

“O telefone é uma inovação maravilhosa, mas é um brinquedo sem valor comercial”
Gardiner Hubbard
, sogro de Graham Bell inventor do telefone (1946).

“Os videoclips não servem para nada e vão fazer com que as crianças deixem de ver desenhos animados”
Bruce Springsteen, O “Boss” da música americana (1980).

Ainda há mais algumas citações mas chega de anedotas por hoje.

segunda-feira, dezembro 11, 2006

A Face Negra das Cores


Se pensarmos bem, a dimensão do impacto de uma imagem resulta em grande parte da infinidade de tons que as cores podem adquirir nas suas mais ténues cambiantes. Os contrastes que surgem definem a perfeição das formas e realçam os pormenores, que são a diferença entre o banal e o grandioso, o que nos permite não só apreciar os efeitos da acção da luz do ponto de vista físico sobre os nossos olhos, mas também assimilar o valor metafísico do que é observado e que é responsável quer pelo deslumbramento quer pelo desencanto.
Cada uma das cores da palete divina possui, como diz o poeta, uma face negra, se estão associadas a acontecimentos perturbadores, sobretudo se a tragédia humana for marcante. É o acontecimento em si que pode introduzir esta carga negativa. Cada imagem deste tipo tem uma força sedutoramente incómoda e, por isso mesmo, são decalcadas até ao mais ínfimo pormenor para a nossa memória.
Na designada primeira guerra em directo a cor que dominava os ecrãs na noite era o verde, que tantas vezes foi associado à nobreza da alma humana, e se transformou nesse instante na cor da ignomínia. Nestas transmissões, por vezes, vislumbrava-se um rasto de luminoso a aproximar-se das casas, qual cavalo de fogo onde a Morte vinha montada, que nas suas vestes pretas se preparava para mais uma colheita oferecida pela iniquidade da humanidade. O zumbido inicial transformava-se num ruído enlouquecedor à medida que os potenciais alvos se reduziam em número mas aumentava a dor resultante da progressiva definição do local de embate, onde as pessoas, dominadas por um pânico incomensurável, desesperavam pela incerteza do último segundo.
Montanhas de cimento e ferro, corpos esventrados, corpos retalhados em fragmentos sem a possibilidade de identificar que pedaço pertence a quem. O sangue de um vermelho vivo, espalha-se erraticamente, tentando dissolver-se no chão, sem o conseguir. A mancha gerada, de um castanho outonal, como o das folhas que terminam o seu ciclo de vida, não desaparece. A Terra, entidade viva, como que por pudor evidencia deste modo a indignidade que é perder vidas de forma tão ignóbil.
Lavam-se as calçadas e a água, vermelha de sangue, some-se nas sarjetas como um vulgar esgoto, escondendo a nossa auto humilhação. O fumo dissipa-se nos seus tons cinzas e negros para o céu azul, conspurcado na sua magnanimidade pela irresponsabilidade humana. Incompreensivelmente, o Homem continua a poluir o céu e os mares no seu azul eterno, fontes de inspiração de tantas obras de arte, que quase perdem o seu sentido por serem dedicadas por uma humanidade que os declarou seu património e os sujeito ás suas vontades mesquinhas.
Como se não bastasse, demonstra-se uma incoerência mórbida quando se testam as armas que criamos, e que podem significar a nossa aniquilação, nas entranhas do planeta, que se lamenta do alto dos cogumelos cor-de-laranja com as agressões sofridas.
Tudo isto provoca uma náusea que se faz notar na pele, a alma vomita uma dor que não consegue suportar, em resultado de um sentimento de nojo pela nossa própria inconsequência enquanto seres vivos pensantes, a fazer lembrar o induzido pelo escarro amarelo e gelatinosos que percorre a garganta e que alguém cospe no chão.
Filipe Pinto.

domingo, dezembro 10, 2006

Morreu Augusto Pinochet


O general Augusto Pinochet, o ex-ditador que governou o Chile com mão-de-ferro entre 1973 e 1990, morreu aos 91 anos devido a complicações cardíacas, anunciou o Hospital Militar de Santiago.
O breve comunicado do hospital refere que o Estado de saúde de Pinochet piorou subitamente e que o ex-ditador foi levado de imediato para os cuidados i ntensivos, mas morreu às 14:15 (17:15 em Lisboa).
Pinochet entrou no hospital há uma semana na sequência de um ataque car díaco. O general foi submetido a uma angioplastia para desobstruir uma artéria e permitir a circulação de sangue para o coração.
A vida de Augusto Pinochet Ugarte, ou pelo menos a parte importante para a história do Chile, começou a 11 de Setembro de 1973.
Nesse dia, o então chefe do Estado-Maior das Forças Armadas aderiu ao golpe militar contra o eleito Presidente Salvador Allende, para se transformar, posteriormente, em ditador.
Ao contrário dos outros países da América Latina, o Chile tinha uma longa tradição democrática de Governos eleitos. O golpe de Estado contra um Presidente que conseguira a maioria do apoio popular nas urnas marcava um ponto de inflexão histórico.
Ponto de inflexão que terá apanhado desprevenido Allende e os seus colaboradores, apesar do “tanquetazo” de 29 de Julho de 1973, a tentativa frustrada de sublevação protagonizada pelo coronel Roberto Souper com o seu regimento blindado n2.
Nessa altura, Pinochet, adjunto do general Carlos Prats, o seu antecessor no cargo de chefe dos três ramos das forças armadas, ajudou ao insucesso do golpe militar.
De trato simples e afável, Pinochet sempre usou de prudência na revelação dos seus pensamentos, foi esta característica que convenceu o general Carlos Prats a recomendá-lo como seu sucessor para a chefia das forças armadas.
Para Prats, Pinochet era um militar apolítico apesar de católico anti-marxista, característica comum à maioria dos altos responsáveis do corpo castrense na América Latina.
Escolhido por Allende, o general Pinochet hesitou muito quando foi colocado ao corrente do golpe que estava a ser preparado para 11 de Setembro. Não tanto por lealdade, mais por prudência.
Quando aceitou liderar os insurrectos fê-lo com empenho e dureza. O golpe tinha de triunfar, corresse o sangue que corresse, Pinochet não admitia pôr em risco a sua impoluta carreira militar de outra forma.
Carreira que quase não chegou a existir.
A Augusto José Ramón Pinochet Ugarte custou-lhe ingressar na vida militar. A primeira vez que tentou inscrever-se na Escola de Infantaria, rejeitaram-no pela tenra idade; a segunda, disseram-lhe que não cumpria os requisitos.
Só à terceira, a força de carácter daquele jovem de 17 anos, nascido em Valparaíso a 25 de Novembro de 1915, o mais velho dos seis filhos de Augusto Pinochet Vera e Avelina Ugarte Martínez, conseguiu convencer os responsáveis da Escola de que poderia dar um bom militar.
Segundo o próprio general, um episódio da infância transformou- o num fervoroso católico. Atropelado por um automóvel, esteve quase a perder a perna esquerda que os médicos chegaram a pensar amputar do joelho para baixo.
A mãe rezou por um milagre e, aceitando o conselho de um médico alemão para expor a perna do filho ao Sol, conseguiu evitar que o seu primogénito se transformasse num inválido.
Tal não aconteceu e Pinochet pôde seguir a sua carreira militar, casar em 1943 (com Lucía Hiriart) e constituir família: tem cinco filhos.
Apesar da fé católica, o general Pinochet não teve complacência com os seus inimigos em 1973.
Não só no dia do golpe, com o bombardeio do palácio presidencial de La Moneda, a morte de Salvador Allende (que se suicidou para não morrer à mão dos golpistas) e as detenções de milhares de pessoas, mas nas semanas, meses, anos posteriores, onde a ditadura usou de todos os meios para depurar a sociedade chilena de qualquer pensamento de esquerda.
Admirador do ditador espanhol Francisco Franco, Pinochet, líder da Junta Militar de Governo e Presidente do Chile a partir de 17 de Dezembro de 1974, usou de mão dura no Governo do país.
Segundo a Comissão de Verdade e Reconciliação, conhecida por Comissão Rettig, a ditadura matou 2.095 pessoas, enquanto 1.102 foram consideradas “detidas desaparecidas” (calcula-se que tenham sido mortas pela polícia ou militares, mas cujos restos mortais continuam em paradeiro incerto). Muitos milhares abandonaram o país como puderam em direcção ao exílio.
A ditadura estendeu mesmo os seus tentáculos para lá das fronteiras chilenas.
A “Operação Condor” envolveu os serviços de segurança dos países do Sul da América (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Bolívia) numa cooperação para perseguir e prender os seus opositores políticos. A ideia partiu de Manuel Contreras, o chefe da DINA, a polícia política chilena.
A DINA que conseguiu assassinar o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Allende, Orlando Letelier, junto com a secretária, num atentado em Washington; e o antecessor de Pinochet como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Carlos Prats, em Buenos Aires.
Entregando o manejo da economia aos denominados “Chicago Boys”, tecnocratas ultraliberais formados na Universidade de Chicago e influenciados por Milton Friedman, Pinochet guardava para si o resto.
Ilegalizou os partidos políticos, dissolveu o Congresso, impôs o recolher obrigatório por mais de uma década.
O facto de se vangloriar do poder absoluto de que gozava (“No Chile, não se move uma folha sem que eu saiba”), acabaria mais tarde por se voltar contra ele, ao permitir que fosse acusado (apesar de se desculpar que não sabia) da autoria moral de crimes como os da “Caravana da Morte” - em Outubro de 1973, um grupo de oficiais percorreu os vários campos de detenção executando opositores com o saldo de 75 mortos.
Em 1986, voltou a ter a mesma sorte de infância, ao escapar ileso a um atentado onde morreram cinco dos seus guarda-costas. O lança-granadas do guerrilheiro da Frente Patriótica Manuel Rodríguez encravou impedindo-o de fazer explodir o carro blindado onde seguia o ditador.
Dois anos depois, ao perder o plebiscito que convocara para continuar a perpetuar-se no poder, Pinochet encontrou-se num beco sem saída e teve de aceitar o regresso da democracia, embora negociando a transição nos seus próprios moldes.
Abdicou de ser Presidente, mantendo-se, no entanto, como chefe do Estado-Maior das Forças Armadas e com aviso em jeito de ameaça: “Vou continuar como comandante em chefe para manter a minha gente protegida. Acabará o Estado de direito se se perseguir algum dos meus homens”.
Dez anos antes já garantira, com uma lei de amnistia, que ninguém seria julgado pelos crimes cometidos depois do golpe militar.
Durante a década de 90, a democracia chilena manteve-se tutelada pelo velho regime. Por duas vezes, o general usou os seus soldados para ameaçar a democracia, colocando em causa as instituições políticas e cerceando o poder civil.
Só em 1998, depois de longas negociações, aceitaria abandonar o cargo em troca de um lugar como senador vitalício. Desta maneira, acreditava, garantia os foros que impediriam a democracia de alguma vez o processar.
Essa crença de ser intocável levou-o a ignorar as advertências para não viajar a Londres para operar-se de uma hérnia discal.
O juiz espanhol Baltasar Garzón emitiu um mandado de captura internacional para a sua detenção e o general Augusto Pinochet teria de passar mais de 500 dias no Reino Unido em prisão domiciliária, até ser libertado por razões de saúde.
Era o fim do ditador. A humilhação de ter de recorrer à doença para fugir aos processos judiciais garantiu a sua retirada da cena política chilena. Ao regressar a Santiago, o Chile deixara de ser o mesmo, livrara-se da trela do general.
A ponto das principais forças da direita aproveitarem a deixa para enterrar o passado e assumir programas políticos sem referências a Pinochet ou ao seu legado.
Também a justiça chilena se sentiu fortalecida (e moralmente comprometida) a agir.
Várias queixas-crime contra Pinochet prosperaram, nomeadamente as da Caravana da Morte e as de enriquecimento ilícito (o antigo ditador tinha os bens congelados por ordem do juiz Sergio Muoz, que investigava as contas secretas que Pinochet tinha no estrangeiro e que ascendiam a 17 milhões de dólares).
Além disso, como forma de contornar a amnistia de 1978, que impedia de processar os militares envolvidos em crimes contra a humanidade, a justiça chilena, tal como tinha feito antes a justiça argentina, estabeleceu que os crimes envolvendo “detidos/desaparecidos” seriam considerados como sequestros permanentes, ainda hoje vigentes e, portanto, permitindo aos tribunais julgá-los.
Para Pinochet, o regresso ao Chile tornar-se-ia penoso, obrigado a uma farsa permanente, a um jogo eterno com a justiça, perdeu qualquer contorno de referência simbólica, para se transformar apenas num homem velho a fugir dos tribunais.
A anos-luz desse Pinochet arrogante de meados da década de 90, assumindo o legado do regime como serviço público a um Chile salvo da ameaça comunista, amarrando a democracia no colete-de-forças castrense, a defesa do ex-ditador só conseguiu encenar repetidamente o episódio da doença frágil, dos micro-acidentes vasculares cerebrais nas vésperas das audiências em tribunal, explorando a imagem do seu corpo conduzido na cadeira de rodas.
Se o ajudou enquanto vivo a livrar-se da prisão, terá garantido, depois de morto, que o pinochetismo seja apenas um depositário de ideias moribundas à espera que morram os poucos saudosistas que ainda têm coragem de as defender em público.
A única coisa a lamentar na morte de Pinochet, é que a Justiça tenha sido demasiado lenta, para julgar todas as atrocidades cometidas durante a sua ditadura.
Com o desaparecimento do ditador chileno a Humanidade ficou um pouco menos intoxicada. Como disse o escritor chileno Luís Sepúlveda, " Devemos sempre alegrar-nos quando morre um hijo de puta. Então no caso de um filho da puta tão importante, dá-nos mais optimismo".

quinta-feira, dezembro 07, 2006

A Legalização do Aborto e a Redução do Crime Violento

O feminismo atingiu o seu auge no fim dos anos sessenta. A luta das mulheres pela sua emancipação, tinham mais um nome a juntar ao rol daquelas que paulatinamente vinham assegurando leis que as libertavam do jugo secular do domínio masculino. Essa mulher era uma anónima de Dallas: Norma McCorvey.
Era uma mulher de 22 anos, pobre, sem educação, sem qualificações, alcoólica, toxicodependente e já tinha dado dois filhos para adopção e, em 1970 ficou novamente grávida. Tudo o que ela queria era fazer um aborto.
Porém, no Texas, o aborto era ilegal. A causa desta mulher foi adoptada por pessoas mais poderosas do que ela e essas pessoas fizeram dela a litigante principal numa acção judicial que pretendia legalizar o aborto. O réu era Henry Wade, procurador do distrito de Dallas. O caso acabou por chegar ao Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, tendo por essa altura o nome de Norma McCorvey sido escondido sob o pseudónimo de Jane Roe.
No dia 22 de Janeiro de 1973, o tribunal decidiu a favor de Roe, permitindo que o aborto fosse considerado legal em todo o país. O caso passou à História como o processo Roe Contra Wade.
O Supremo Tribunal deu voz ao que todas as mães, já sabem há muito: quando uma mulher não quer ter um filho, ela normalmente tem uma boa razão para isso.
Parece absurdo pensar que há uma correlação entre a legalização do aborto e a redução do crime violento.
Parecer um absurdo, pode parecer mas está muito longe de o ser!
Nada melhor que ler o livro “Freakonomics” de Steven Levitt, e Stephen Dubner ( (jornalista e co-autor do livro, responsável pela forma não pelo seu conteúdo), para dissipar quaisquer dúvidas e concluir de uma forma inequívoca, que estes dois factores são concominantes.
Num dos capítulos, (O Que é Feito de Todos os Criminosos?), Steven Levitt desenvolve a teoria sobre as causas da vertiginosa queda da criminalidade no Estados Unidos da América. durante os anos 90. Na altura o exército de peritos em criminologia enumerou uma imensidão de hipóteses para a drástica redução da criminalidade:

1.Estratégias policiais inovadoras.
2.Maior rigor no recurso à prisão.
3.Alteraçõesno mercado do crack e de outras drogas
4.Envelhecimento da população
5.Leis de controle de armas mais apertadas
6.Economia forte
7.Aumento de polícias
8. Aumento da aplicação da pena de morte, etc.

Ao longo do capítulo quatro do seu livro, Steven Levitt destrói todas estas hipóteses e chega a uma conclusão “sui generis”: Não foi, apesar de também ter contribuido, o controlo de armas, nem a economia forte, nem as novas estratégias policiais, nem o aumento do número de polícias, nem o envelhecimento da população ou o aumento da aplicação da pena de morte que, no fim de contas, travaram a onda de crime americana. Foi a realidade de que o conjunto de criminosos potenciais se tinha reduzido numericamente de uma forma espectacular.
Como se tinha reduzido drasticamente o número de criminosos?
“No que diz respeito ao crime, acontece que nem todas as crianças nascem iguais. Nem Sequer parecidas. Décadas de estudos mostraram que uma criança nascida num ambiente familiar adverso tem mais probabilidades do que outras crianças de vir a tornar-se um criminoso. E os milhões de mulheres com maiores probabilidades de abortar na sequência da sentença do processo Roe Contra Wade – mães pobres, solteiras e adolescentes para quem os abortos ilegais eram, antes, demasiado caros ou muito difíceis de conseguir - eram em geral, modelos de adversidade. Eram as mesmas mulheres cujos filhos, se tivessem nascido, teriam muito mais probabilidades do que a média de se tornarem criminosos. Contudo devido a Roe contra Wade, estas crianças não tinham nascido. Esta causa poderosa teria um efeito drástico a longo prazo: anos depois, exactamente na altura em que estas crianças atingiriam a idade de se iniciar no crime, a taxa de criminalidade começou a afundar-se.”
A sentença do processo Roe contra Wade desencadeou, uma geração depois, a maior queda de criminalidade registada na história americana.
Espero ver esta teoria confirmada na prática em Portugal, por volta do ano 2030.
Armando S. Sousa.

segunda-feira, dezembro 04, 2006

Galaaz

Corrida de Caixões nas Rias Baixas

Peixe clandestino com direito a cadeira, Luisa Mota atordoava-se com Anxo Pastor na parrilhada Abô Ramiro. Diante das bateias de Arousa, uma sequência de naipes funerários atravessou-lhe os dentes que lhe mordiam os entre-olhos. Vai haver uma corrida de caixões?

- Creio que sim, dixo Anxo, parece que a axência de Xeraz do Lima está entusiasmada.

Coberto por um manto bordeaux, o polvo era um cadáver tenro e disponível a uma transformação sem conflitos extremos. Luisa Mota disse:

-Que de bom! Carai! Nunca comi assim!

- A corrida ten reglas, nom?, questionou Anxo

Mónica de Pontevedra, que ainda não tinha freado o delírio, desorbitou-se num comovente lampejo de lucidez. Disse:

-O caixão que desaparecer em último é o que ganha!

O membro da Xunta, ao balcão, aproximou-se interessado:

-Isso vai trazer muito prestígio à galiza. Será a primeira corrida de caixões do mundo. E calhará optimamente no InterReg III.

Galaaz! Viva Galaaz
Que não sabe o que faz!

Embora lamentando a ausência de inúteis agonias, e carpindo o facto das bateais não darem azo a alabastros e balaústres, Camilo Pessanha concordou em escrever o Programa das Corridas, texto que intitulou: Sumidouro.
As famílias desataram a inscrever os seus mortos. A heráldica foi apontada como a novel indústria de sucesso. Reunidas todas as associações, organizações, deputações e quejandas, assentou-se a criação de uma nova ONG de providência ao evento. Por unanimidade extasiante, tal G-ONG recebeu o título solene de JACOMEO.

Luisa Mota, muito rodada nos 60 canais da tvcabo, colocou com pertinência, a seguinte questão científica:

-E
como se ordena a pole-position?
-De catro a catro - ouviu-se a voz do mar.
-Todos os caixões que chegarem pelo menos até Ponta Couso recebem uma menção honrosa- propôs a galego-holandesa Jacomina.
- O Isaak vai logo perguntar-me pelo prémio - bipolarizou Luisa Mota
- O prémio é fácil, um cesto de pimentos do Padrón, dixo Otilia
- E a taça?, arquejou ansiosa Luisa Mota
- A taça é de albariño, home, dixo Lois Gil Magariños

Estava tudo contente, tudofeliz!. Gente inebriada à chuva do Courel. Luisa Mota perguntou se podia trazer a mãe mais o Rui que gostava muito de bateias e mais o Ricardo de quem queria ter um cadáver. Anxo Pastor, que tinha acabado de ler um poema de Marcos Ana, foi invadido por uma estranha pulsão maníaco-depressiva:

-E a quem se vai entregar a Taça?

Fez-se pó. Era do jeep do Aurelino Costa saído da bruma sebastianista da estrada. Aurelino saltou do jeep com muito vermelho e disse:

-Ó Anxo, deixa lá isso! A Taça não é para se entregar. É para se beber!

Alberto Augusto Miranda.


".....Ora é poeta, ora é ficcionista, ora é pianista, ora é crítico e ensaísta , ora é docente, ora é actor, ora é simplesmente exímio conversador. Sempre indiferente às portas que poderiam ser abertas pelo seu Curso Superior de Literaturas Modernas, pelo seu Curso Superior do Conservatório de Música, pela sua capacidade de trabalho, pela sua inteligência apurada e isenta, pela sua bem assimilada cultura. Alberto Augusto Miranda é livre como o vento, um romântico, não na forma, nem no sentimentalismo, mas nos sentimentos e na liberdade insubmissa, no arrebatamento nos nacos de felicidade que procura, porque eles são a vida......."
Portanto, nada mais há a dizer...
Excepto, Bem vindo.

domingo, dezembro 03, 2006

Sete Textos e um Papagaio

O Jorge Gaspar escreveu neste espaço sete excelentes textos, mas não estava à espera que com a sua chegada a este blogue, arribasse também, uma ave rara para estas latitudes: um papagaio.
Todos os frequentadores deste espaço sabem a quem me estou a referir: a esse ignóbil anónimo, tal e qual um papagaio, que faz sempre a mesma estúpida pergunta, sobre as amigas do Gaspar.
Deve ser deveras triste, ser um frustrado, ainda por cima ao que tudo indica, invejoso e solitário, mas se, eventualmente, a ideia era fazer humor, deverá saber que contar a mesma piada um número infinito de vezes, deixa de ser engraçado para se tornar maçador.
Neste caso, além de estupidamente maçador, esconde-se atrás do anonimato para achincalhar as pessoas, parecendo-me esta atitude, um sintoma de uma qualquer doença neurológica, que Freud explicaria facilmente mas que, certamente, pode ser tratada por um qualquer psiquiatra.
Não é que os comentários, sejam de importância vital para quem escreve mas quem quer comentar com justiça os textos do Jorge Gaspar, sente-se defraudado, porque reconhece sem nenhum favor e unanimemente a qualidade dos textos por ele elaborados.
É pena que este cobarde não tenha a noção do ridículo e que não seja homem suficiente, para assumir a sua identidade. Mete dó, ver pessoas teoricamente civilizadas a menosprezar tanto o civismo.
Haja paciência, que é coisa que falta neste momento!

quarta-feira, novembro 29, 2006

TLEBS

Portugal é tão profícuo a produzir teses, antíteses, estudos e projectos como a produzir analfabetos. São analfabetos funcionais que sabendo ler e escrever (mal), o seu gosto pela leitura pouco vai além de palavras derivadas de bola golo e baliza, de preferência com menos de três sílabas para não cansar a vista e não forçar os neurónios a um esforço excessivo.
Menos mal que a Nova Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário (TLEBS) com a sua “abstrusa” nomenclatura vai facilitar a gíria desportiva e evitar que o Gabriel Alves continue a sua teimosa invenção de palavras sobrecarregadas com advérbios disjuntos restritivos da verdade da asserção e frases complexas copulativas assindéticas e nos vais ajudar a entender melhor as transcendentes maquinações táctico-estratégicas do futebol.
Não deixa de ser pertinente a correlação directa entre a produção intelectual e a proliferação de analfabetos, de tal modo, que a continuar assim, os intelectuais, por razões de mercado, (entenda-se), vão virar-se definitivamente para o desporto rei.
Para animar as hostes, agora que no futebol as coisas estão mais calmas, surgiu a famosa gramática que tem a particularidade de ter gerado amplos consensos em seu redor.
Independentemente do mérito do trabalho dos autores da TLEBS, parece que teria sido mais prudente e avisado terem ampliado e promovido o debate, formulando dados e hipóteses em vez de terem antecipado soluções. Estas deveriam ter surgido como efeito de uma prática efectiva e de uma elaboração em trabalho participado com os vários intervenientes no processo educativo, criando assim as melhores condições para a produção de um manual com a qualidade que lhe é exigível, compreendido e aceite por todos.
Em vez disso, atiram da sua cátedra receitas para os “putos” consumirem e os professores que se desenrasquem.
Não me parece que seja a melhor forma de se incutir o gosto pela língua nem pela leitura mas antes um caminho chato e doloroso que me faz recordar a forma como, no meu tempo, iniciávamos tortuosamente a descoberta dos Lusíadas e só muito depois, após inúmeras sessões de psicoterapia, foi possível descobrir o seu verdadeiro valor.
Mas deixemo-nos de fait-divers e voltando ao assunto que interessa de momento (o futebol obviamente), que fique registado que quando o Gabriel Alves se referir ao árbitro da partida está simplesmente a designar um nome, Comum, Humano, Animado, Concreto, Contável, Não Massivo, Singular, Masculino e Género Natural e se algum adepto num excesso de linguagem lhe chamar Camelo saiba que apenas esta a mudar uma das designações atrás referidas, e meus senhores! Se for Gay pode muito bem ser um Epiceno! É melhor saber primeiro se é homem ou mulher, porque epiceno é na verdade um nome muito feio e pode induzir uma falsa ideia de discriminação.
Como eu acredito que os autores da nova TLEBS não têm nada contra os alunos, nem contra os professores nem contra o futebol e muito menos contra o Gabriel Alves terei que concluir, por exclusão de partes, que eles apenas não gostam da língua portuguesa.
Vá-se lá saber porquê!
Jorge Gaspar.

Violência Doméstica (II)

Comentário de uma leitora atenta:

Obrigada por ter "destapado o umbigo da nossa humilhação".
Algumas apanham e calam-se impotentes, outras ouvem e fecham-se numa concha humilhadas, as restantes, ouvem, sabem, vêm, e acham terrivel, mas também não fazem nada...Eles sabem, ouvem, vêm, alguns até acometem também e todos juntos achamos repugnante mas está toda a gente demasiado ocupada, ou tem demasiado bom senso, e fica impavida e serena à espera que alguem faça.
Se sempre que alguem ouvisse, visse, tivesse conhecimento de casos de violência doméstica, de qualquer genero, metesse o "bedelho", e apresentasse queixa na entidade competente mais próxima, poria fim à grande maioria dos casos...Os que os cometem (este crime público) teriam medo de ser ouvidos, vistos, ou falados....Vale a sua intenção e de muito poucos como o Sr.
Mais uma vez obrigada!
XP.

Na realidade a violência doméstica, é em Portugal um crime público o que significa que não é necessário que seja a vítima a apresentar a queixa pessoalmente. Pode ser denunciada por terceiros e não exige queixa das partes envolvidas.
A violência doméstica é punível com pena de prisão de um a cinco anos quando se trata de maus tratos entre cônjuges ou entre quem conviver em condições idênticas às dos cônjuges.
Para apresentar uma queixa, as vítimas devem dirigir-se ao posto mais próximo da GNR, da PSP, da Polícia Judiciária ou aos serviços do Ministério Público do Tribunal da Comarca da área da sua residência.
Por último mas não menos importante, resta-me acrescentar que, não pactuar com essa escumalha é um dever cívico.

terça-feira, novembro 28, 2006

Violência Doméstica


Em média, uma mulher em cada três sofre de violência na sua vida, desde espancamentos a relações sexuais impostas ou outras formas de maus-tratos, segundo um relatório do secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, divulgado em Outubro.
Em Portugal, a União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR) assinala o dia com a divulgação de um estudo encarado como uma forma de "denunciar e alertar as autoridades e a sociedade para uma situação preocupante em Portugal", nas palavras de Elisabete Rodriques.
Entre Novembro de 2005 e o mesmo mês deste ano morreram em Portugal 37 mulheres vítimas de violência doméstica, revela o estudo apresentado sexta-feira pela UMAR.
Por sua vez, o Movimento democrático de Mulheres (MDM) associa- se a este Dia Internacional lançando um conjunto de iniciativas dirigidas "a públicos-alvo diferentes", com o intuito comum de aumentar a visibilidade desta temática que "tão gravemente" atinge as mulheres.Entre estas iniciativas, destaca-se a participação na jornada de luta da CGTP-IN, hoje, com palavras de ordem e exigências relativamente às violências sobre as mulheres.
Noutra iniciativa, o MDM enviou esta semana uma Carta Aberta aos órgãos de poder, sobre o combate à violência doméstica, lembrando medidas de "discriminação positiva" de apoio às vítimas, que constam do Plano Nacional Contra a Violência Doméstica (2003/06).
O Dia Internacional para a eliminação da violência doméstica (25 de Novembro), é uma iniciativa da ONU e do Conselho da Europa e serve para debater e da visibilidade às vítimas da violência, quer através de espancamento, violência conjugal, crimes de honra ou casamentos forçados.Na Austrália, no Canadá, em Israel, na África do Sul e nos Estados Unidos, entre 40 a 70 por cento das mulheres assassinadas são-no pelo seu marido ou companheiro.
Em França, cada três dias, uma mulher é morta pelo seu companheiro, segundo o governo francês. No Brasil, uma mulher é espancada em cada 15 segundos, ou seja, 2,1 milhões por ano, segundo a organização não governamental Agenda.
Em África, a violência contra as mulheres passa pelas mutilações genitais, sofridas por 130 milhões de raparigas no mundo, segundo a ONU, mas também por um número recorde de mulheres infectadas pelo vírus da sida por não utilização do preservativo.Na Guiné-Bissau, a violência doméstica, sobretudo contra mulheres e crianças, tem sofrido nos últimos anos um "aumento alarmante".
Francisca Pereira, presidente da Rede Nacional contra a Violência do Género e da Criança, indicou que, em 2005, as autoridades competentes do país registaram "pelo menos 427 casos".No Sudeste Asiático, crimes de honra e discriminações são o dia a dia de muitas mulheres. No Afeganistão, os suicídios por imolação de jovens adolescentes obrigadas a casamentos forçados estão a aumentar, estima a ONG alemã Medica Mondiale.
Os casamentos forçados representam, naquele país, entre 60 a 80 por cento das uniões, segundo a comissão independente de defesa dos direitos humanos afegã.Neste contexto, a ONU congratulou-se quarta-feira de ver que 60 Estados em todo o mundo tinham adoptado leis contra a violência conjugal e familiar.
A UNIFEM (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para as Mulheres, com sede em Nova Iorque, deverá gastar este ano 3,5 milhões de dólares, mais do dobro do ano passado, para lutar contra a violência contra mulheres.Estes fundos serão distribuídos nomeadamente a advogados nos Camarões que elaboram um código de família, a mulheres na Bulgária que trabalham numa lei contra a violência doméstica, a uma associação na Costa do Marfim que insiste na relação entre a violência contra as mulheres e a sida e quer facilitar o acesso à ajuda jurídica e médica.
Na Europa, a luta assume formas diversas. A Espanha distingue-se por ter reagido ao problema com uma legislação "global", que traz respostas em termos de repressão, prevenção, acompanhamento das vítimas e dos autores da violência.Este país, juntamente com a Suécia, converteu o carácter repetido da violência conjugal em "infracção penal", que leva à aplicação de uma pena suplementar. Em França, o código penal pune "as violências habituais" mas unicamente para os menores de 15 anos ou as pessoas particularmente vulneráveis.Público.

segunda-feira, novembro 27, 2006

Morreu Mário Cesariny de Vasconcelos

Mário Cesariny de Vasconcelos, poeta e pintor que morreu domingo em Lisboa, aos 83 anos, foi o principal representante do Surrealismo português, um homem irónico e controverso que dispensava aplausos e homenagens.
Nascido em Lisboa a 9 de Agosto de 1923, de pai beirão, negociante de jóias, e mãe castelhana, professora de francês, resolveu, a partir de certa altura, prescindir do apelido paterno e ultimamente gostava de acrescentar a Cesariny o Rossi dos seus antepassados.
Estudou no Liceu Gil Vicente, frequentou o primeiro ano de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa (ESBAL) e mudou depois para a Escola de Artes Decorativas António Arroio, tendo igualmente estudado música com o compositor Fernando Lopes Graça.
Durante o período em que viveu em Paris, em 1947, frequentou a Academia de La Grande Chaumire.
Na capital francesa, conheceu o fundador do movimento surrealista francês André Breton, cuja influência o levou a integrar no mesmo ano, embora à distância, o Grupo Surrealista de Lisboa, formado por António Pedro, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Marcelino Vespeira, João Moniz Pereira e Alexandre O'Neill.
Este grupo surgiu com o objectivo de protestar contra o regime político vigente em Portugal e contra o neo-realismo, mas houve cisões e Cesariny saiu, fundando mais tarde o "anti-grupo" "Os Surrealistas", com Henrique Risques Pereira, António Maria Lisboa, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Mário -Henrique Leiria, Artur do Cruzeiro Seixas e Pedro Oom, entre outros.
Em 1949, redigiu, com o grupo, o seu manifesto colectivo, "A Afixação Proibida" e promoveu as sessões "O Surrealismo e o seu Público em 1949" e a I Exposição dos Surrealistas.
Quando terminaram as experiências colectivas do que foi quase "um movimento (mais ou menos) organizado" - 1947/1953 e 1958/1963 - Cesariny prosseguiu sozinho, como fariam alguns dos seus outros companheiros que sobreviveram à aventura surrealista, com uma actividade inesgotável e orientada em várias direcções.
Nas suas obras, adoptava uma atitude estética caracterizada pela constante experimentação e praticou uma técnica de escrita e de pintura muito divulgada entre os surrealistas, designada como "cadáver esquisito", que consistia na elaboração de uma obra por três ou quatro pessoas, num processo em cadeia criativa, em que cada um dava seguimento, em tempo real, à criatividade do anterior, conhecendo apenas uma parte do que aquele fizera. Primeiro, dedicou-se à pintura de forma ocasional e, a partir de certa altura, de uma forma quase exclusiva, tendo deixando de lado algumas facetas do seu talento: primeiro, deixou de tocar piano (ao que parece, tocava muito bem), depois, foi a vez da escrita - "secou", dizia. Quando lhe perguntaram uma vez se não sentia necessidade de escrever, respondeu: "Nenhuma. Para quê? A quem?".
"A poesia foi um fogo muito grande que ardeu. Depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim. Acabou", declarou, no documentário "Autografia" (nome de um poema seu), realizado por Miguel Gonçalves Mendes em 2004, o único feito sobre a sua vida e obra. "Sou um poeta bastante sofrível, um grande poeta numa época em que o tecto está muito baixo", "sem Anteros, Pessanhas ou Pessoas", e em que "o surrealismo foi transformado em museu", afirmou.
Da sua extensa obra literária, destaca-se o seu trabalho de antologista, compilador e historiador (polémico) das actividades surrealistas em Portugal, sendo também a sua obra poética considerada um dos mais ricos e complexos contributos para a história da poesia portuguesa contemporânea.
Uma poesia primeiro de intervenção contra as poéticas dominantes, no Portugal da década de 40, através da paródia e do pastiche sarcásticos, uma poesia da tentativa fracassada de reabilitação da realidade quotidiana e depois, sobretudo, uma poesia do amor louco, desejado, vivido ou mal vivido, abandonado ou traído, cantado ou recordado e reinventado de forma elegíaca. Para Cesariny, homossexual assumido, o amor era "um desmesurado desejo de amizade", em que "o outro é um espelho sem o qual não nos vemos, não existimos", e "a única coisa que há para acreditar". "É o único contacto que temos com o sagrado. As igrejas apanharam o sagrado e fizeram dele uma coisa muito triste, quando não cruel. O amor é o que nos resta do sagrado", defendia. O poeta defendia que se pode morrer de amor - foi, na sua opinião, o que aconteceu a outro surrealista, Ernesto Sampaio, pouco tempo depois da morte da mulher, a actriz Fernanda Alves. Mas considerava que "também se pode morrer de falta de amor".
Da sua obra, fazem parte títulos como "Corpo Visível" (1950), "Manual de Prestidigitação" (1956), "Pena Capital", "Nobilíssima Visão" (1959), "Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito" (1961), "A Cidade Queimada" (com arranjo gráfico e ilustrações de Cruzeiro Seixas, (1965), "Burlescas, Teóricas e Sentimentais" (1972), "Primavera Autónoma das Estradas" (1980), "O Virgem Negra. Fernando Pessoa Explicado às Criancinhas Nacionais & Estrangeiras por M.C.V." (1989) e "Titânia" (1994). Sobre as sessões para que o convidavam e em que o aplaudiam, o poeta comentava: "Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa".
Em 2005, recebeu as duas únicas distinções da sua carreira: o Grande Prémio Vida Literária APE/CGD, pelo conjunto da sua obra, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, que lhe foi entregue pelo então Presidente da República Jorge Sampaio.
Nos últimos anos de vida, desenvolveu uma frenética actividade de transformação e reabilitação ou "redenção" do real quotidiano, da qual nasceram muitas colagens com pinturas, objectos, instalações e outras fantasias materiais.
"Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda", afirmou em "Autografia".
Agência LUSA.

domingo, novembro 26, 2006

Escolher a Educação Cívica

O filósofo da actualidade que mais admiro é o espanhol Fernando Savater. Os seus pensamentos e a sua filosofia exercem uma grande influência na minha maneira de estar na vida e de orientação nas discussões das grandes questões da actualidade. Cada livro dele, é uma torrente de pensamentos em direcção à liberdade, à humanidade, à educação cívica, de forma a reinventar a nossa consciência para nos tornar mais actuantes na esfera pública. Neste texto, venho falar de uma pequena parte do livro “A Coragem de Escolher”, especificamente, a parte que fala da educação cívica.
É uma constatação que teremos de fazer alguma coisa, para parar a injustiça, a violência, a intolerância, o fanatismo e a desumanidade que grassam pelo mundo, sem no entanto, destruir as instituições democráticas (que tantos séculos demoraram a conquistar).Neste contexto de descrédito do regime democrático, Fernando Savater elege a educação,(não a instrução básica apesar que sem estes conhecimentos fundamentais é impossível uma verdadeira formação humana plena),dizia, elege a educação cívica, como pilar de preparação para o exercício da cidadania, de forma a ser actuante na sociedade. Segundo Fernando Savater, os maiores perigos para as sociedades democráticas actuais, são a mortal e crescente, influência do populismo e da ignorância.
“ O autêntico problema da democracia não consiste no habitual enfrentamento entre uma maioria silenciosa e uma minoria reivindicativa ou loquaz, mas no predomínio geral da maré da ignorância”, são os cidadãos ignorantes, todos com direito a voto, que sustentam os demagogos e os populistas que prometem “ paraísos gratuitos ou a vingança brutal das suas frustrações à custa de qualquer bode expiatório”.
Por isso, a educação cívica, “tanto pela sua reflexão sobre a prática social e pelos valores que a orientam” tornam o cidadão competente para a “comunicação argumentada”. Fernando Savater, denomina educação cívica, como sendo: a preparação que faculta viver politicamente com os outros na cidade democrática, participando na gestão paritária dos assuntos públicos e com capacidade para distinguir entre o justo e injusto. Esta educação cívica irá facultar ao cidadão, um grande número de capacidades: para expressar exigências sociais inteligíveis à comunidade ou para compreender as formuladas por outros, para argumentar ou calibrar os argumentos alheios (orais ou escritos), maximizar o sentido dos direitos e deveres que pressupõe, e impõe, a vida em sociedade para lá da adesão patológica e retrógrada, da nacionalidade, partido, corporação ou lóbi. A educação cívica levar-nos-á a adquirir o sentido da equidade e responsabilidade, que nos fará respeitar as leis e a praticar os valores partilhados, segundo a máxima aristotélica de que, “ninguém pode chegar a governar sem ter sido antes governado”. Pretende-se com esta educação a optimização dos cidadãos, para o exercício da cidadania, inculcando neles a condição de governantes e governados, isto é, uma educação inter pares, “desfrutando uma condição que confere a todos capacidades de comando e a ninguém privilégios”.Usando a máxima de Albert Camus quando avisou que em “política são os meios que justificam os fins”, a democracia só ganhará uma grande dimensão, se for servida por este tipo de cidadãos. A educação cívica será o veículo de transmissão de meios intelectuais ao cidadão, de forma a que ele exerça o direito de deliberação. Preparar para a deliberação, consiste na formação de caracteres humanos capazes de persuadir e dispostos a ser persuadidos, condição indispensável para erradicar a violência civil, de sentir e apreciar a força das razões e recusar as razões da força. A democracia implica assumir que vivemos no deliberado, não no fatalmente imposto,”daí que nenhuma pertença possa servir de desculpa para privar alguém -seja qual for o sexo, origem, raça ou condição social - da educação cívica que lhe permitirá participar na gestão do comum”, devemos portanto, ser intolerantes, para quem faz sabotagem da cultura democrática e humanista. “Num estado democrático existe o direito à diferença mas não diferenças de direitos”, logo, o direito à diferença de uns, não pode ser convertido em dever para todos os outros. Devemos respeitar a pluralidade, sem esquecer a insubstituível defesa dos princípios fundamentais da democracia.
A educação cívica educa também, para prevenir tanto o fanatismo como o relativismo. “Relativamente ao fanatismo, digamos que de modo algum se trata de uma forma de firmeza nas convicções, mas, muito pelo contrário, de pânico perante o possível contágio com o diferente. O fanático é aquele que não suporta viver com os que pensam e agem de uma maneira diferente, com medo de descobrir que já não acredita nas suas crenças. Nietzsche definiu fanatismo, como sendo a única força de vontade de que são capazes os fracos. Quanto ao relativismo, parte de um pressuposto falsamente tolerante, de que todas as culturas são dignas de igual apreço. É certo que não há culturas superiores a outras, se por isso se entende que não têm nada a aprender com as outras, mas não é verdade que são todas igualmente compatíveis com os valores, princípios democráticos e fundamentalmente, com a declaração dos direitos humanos, que não pode ser abolida ou relativizada porque contrasta com certos costumes de grupos particulares dentro da sociedade. Apenas a educação cívica dá a capacidade aos cidadãos de escolher, excluir ou preferir, aquilo que exalta a humanidade.
Por fim, deve-se dizer em abonamento de Fernando Savater, que ele não é apenas um filósofo, no sentido de apenas transmitir os seus pensamentos, mas um homem inteiramente comprometido com a sua filosofia e com a sociedade civil espanhola. Fernando Savater é fundador e porta-voz da plataforma cívica espanhola “Basta, Ya”, que reivindica o fim das acções terroristas por parte da organização terrorista basca. Este empenho da sua parte, fez com que ele fosse ameaçado de morte pela ETA, e por isso, desde de à vários anos é acompanhado, no seu dia a dia, pela incómoda escolta policial, “amable tutela, mi encantaria verme libre pronto”. Fernando Savater, talvez seja o exemplo a seguir, no exercício da cidadania.

Armando S. Sousa.

sábado, novembro 25, 2006

Quando a NOTÍCIA é notícia.

Revejo em muitas notícias publicadas hoje na imprensa o ar de comadre alcoviteira da vizinha do lado, sempre pronta a trazer-nos em primeira mão as graças e as desgraças que assolam o mundo, entre meias palavras, piscadelas de olho e gestos exacerbados que nos acossam a alma e, quando se afasta para levar a boa nova a outras paragens, ficamos sem saber, afinal, o que nos quis dizer.
Uma dessas notícias aparece na primeira página do Correio da Manhã de segunda-feira sob o título “Portugal Campeão da Função Pública”.
No seu interior surgem números avançados pelo Eurostat, dispostos em pequenos rectângulos, onde se destaca a posição de Portugal no ranking europeu a partir da percentagem de Funcionários Públicos por população activa.
Tendo em conta o tratamento que foi dado à notícia, esta era merecedora de uma nota de rodapé, mas por estranhas razões editoriais foi de tal modo relevada que preenche completamente 2 páginas inteiras do jornal e destacada com letras garrafais, na primeira página.
Este tipo de notícias transporta-me ao passado e faz-me recordar longas tardes de verão passadas em Poiares da Régua, na casa da minha avó materna, e da casinha de madeira pintada de amarelo no meio da quinta, onde me libertava dos excessos da gulodice, dos gases e dos frutos depenicados, em total abandono do corpo e do espírito. Os Irmãos Metralha, o Professor Pardal, o Gastão, a Margarida, o Pato Donald, e muitas outras criaturas povoavam a casinha e faziam parte do meu imaginário.
Na casinha estavam folhas de jornal recortadas em pequenos rectângulos e pregados na parede, e não raras vezes, na ausência dos meus heróis, passeava os olhos por aquelas folhas antes de lhe dar o destino final e de calças no fundo das pernas, tomava contacto com o mundo fora da casinha, da quinta e da aldeia. Coisas estranhas que se passavam em lugares distantes e que eram trazidas por uma espécie de detectives, para serem recortadas e pregadas em alguma parede de uma qualquer casinha amarela.
Naquele tempo todas as noticias tinham verdadeira utilidade, mas como os hábitos e costumes já não são o que eram, convém que as noticias cumpram o seu papel que é informar, não como fazia a comadre alcoviteira mas antes com isenção, rigor, sentido cívico, para formar públicos, incentivar o espírito crítico e munir os leitores com instrumentos de análise que lhes permitam discutir com propriedade os assuntos que lhes interessam.
O Jornal poderia, por exemplo, recorrendo-se da mesma fonte (Eurostat), informar que a despesa total do Estado em 2005 foi equivalente à média europeia e foi suplantado mesmo por países como a Bélgica e a Dinamarca e, não consta que aqueles países tenham problemas de défice ou de equilíbrio das contas publicas.
Também poderia ter dito que a maioria dos países recorre a outsourcing e à privatização dos serviços públicos e deste modo a despesa com privados não aparece na rubrica “despesas com pessoal”, pelo que fazer comparações sem qualquer tipo de tratamento é falacioso.
Também poderia fazer comparações com o nível das remunerações dos outros países e poderiam ter dito que o estudo comparativo que o governo encomendou sobre a remuneração entre o privado e o público, demonstrou que este último ganha substancialmente menos e por isso não se sabe onde pára o dito estudo.
Poderia ter dito muito mais, mas o que está a dar é “bater” na Função Pública e o êxito de um jornal mede-se pelo número de jornais vendidos e nesta matéria o Correio da Manhã é o verdadeiro campeão (o diário mais vendido em Portugal).
Contudo, é sempre agradável fazermos uma viagem à nossa infância e trocar umas impressões com Donald Fauntleroy Duck, sobre a Função Pública em Portugal, enquanto a Margarida nos prepara um delicioso hambúrguer com batatas fritas.
Jorge Gaspar.

sexta-feira, novembro 24, 2006

CENSURA


"Que el diccionario detenga las balas"
Joaquín Sabina.

Sou intrinsecamente contra o "lápis azul" da censura, no entanto, não terei pejo em censurar comentários que visem, apenas e particularmente, os autores dos textos.
Respeito e muito a liberdade de expressão, mas há limites para a liberdade de expressão, especialmente quando o exercício dessa liberdade, é feito no sentido de denegrir publicamente, um dos autores dos textos deste blogue.
Fundamentalmente é necessário não confundir liberdade com libertinagem, um detalhe, deveras importante, que faz toda a diferença e que ao não ser respeitado, mete uma parte dos comentadores a tentar atravessar a linha divisória do Rubicão.
Minhas senhoras e meus senhores, este blogue, não é um lavadouro público e muito menos, porque eu não permito, o local para lavar roupa suja.
Se, os visitantes deste blogue, continuarem a abordar os textos com comentários desviados do assunto em questão, porei termo à possibilidade de comentar.
Cumprimentos.
Armando S. Sousa.


quinta-feira, novembro 23, 2006

António Gedeão


Os portugueses sabem “que o sonho comanda a vida". A esmagadora maioria dos portugueses conhecem esse hino à liberdade, que é a canção “Pedra Filosofal”, cantada pela primeira vez por Manuel Freire, em 1969. O que a maioria dos portugueses não sabem é que este fenomenal poema…

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso em
serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida

entre as mãos de uma criança.

…é um poema, escrito por António Gedeão, alter ego de Rómulo de Carvalho, publicado em 1956. Rómulo de Carvalho professor de física, divulgador científico, pedagogo e autor de manuais escolares, historiador da ciência e da educação e poeta, faria amanhã cem anos se fosse vivo.
Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em Lisboa a 24 de Novembro de 1906. Aí cresceu, numa casa modesta, no seio de um ambiente familiar tranquilo, profundamente marcado pela figura materna, cuja influência foi decisiva para a sua vida.
Na verdade, a sua mãe, apesar de contar somente com a instrução primária, tinha como grande paixão a literatura, sentimento que transmitiu ao filho Rómulo, assim baptizado em honra do protagonista de um drama lido num folhetim de jornal. Responsável por uma certa atmosfera literária que se vivia em sua casa,
é ela que, através dos livros comprados em fascículos, vendidos semanalmente pelas casas, ou, mais tarde, requisitados nas livrarias Portugália ou Morais, inicia o filho na arte das palavras. Desta forma Rómulo toma contacto com os mestres - Camões, Eça, Camilo e Cesário Verde, o preferido - e conhece As Mil e Uma Noites, obra que viria a considerar uma da suas bíblias.
Criança precoce, aos 5 anos escreve os primeiros poemas e aos 10 decide completar "Os Lusíadas" de Camões. No entanto, a par desta inclinação flagrante para as letras, quando, ao entrar para o liceu Gil Vicente, toma pela primeira vez contacto com as ciências, desperta nele um novo interesse, que se vai
intensificando com o passar dos anos e se torna predominante no seu último ano de liceu.
Este factor será decisivo para a escolha do caminho a tomar no ano seguinte, aquando da entrada na Universidade, pois, embora a literatura o tenha acompanhado durante toda a sua vida, não se mostrava a melhor escolha para quem, além de procurar estabilidade, era extremamente pragmático e se sentia atraído
pelas ciências justamente pelo seu lado experimental. Desta forma, a escolha da área das ciências, apesar de não ter sido fácil, dá-se. Em 1932, um ano depois de se ter licenciado, forma-se em ciências pedagógicas na faculdade de letras do Porto, prenunciando assim qual será a sua actividade principal daí para a frente e durante 40 anos - professor e pedagogo. Começando por estagiar no liceu Pedro Nunes e ensinar durante 14 anos no liceu Camões, Rómulo de Carvalho é, depois, convidado a ir leccionar para o liceu D. João III, em Coimbra, permanecendo aí até, passados oito anos, regressar a Lisboa, convidado para professor metodólogo do grupo de Físico-Químicas do liceu Pedro Nunes.
Exigente, comunicador por excelência, para Rómulo de Carvalho ensinar era uma paixão. Tal como afirmava sem hesitar, ser Professor tem de ser uma paixão - pode ser uma paixão fria mas tem de ser uma paixão. Uma dedicação. E assim, além da colaboração como co-director da "Gazeta de Física" a partir de 1946, concentra, durante muitos anos, os seus esforços no ensino, dedicando-se, inclusivé, à elaboração de compêndios escolares, inovadores pelo grafismo e forma de abordar matérias tão complexas como a física e a química. Dedicação estendida, a partir de 1952, à difusão científica a um nível mais amplo através
da colecção Ciência Para Gente Nova e muitos outros títulos, entre os quais Física para o Povo, cujas edições acompanham os leigos interessados pela ciência até meados da década de 1970. A divulgação científica surge como puro prazer - agrada-lhe comunicar, por escrito e com um carácter mais amplo, aquilo que, enquanto professor, comunicava pela palavra.
A dedicação à ciência e à sua divulgação e história não fica por aqui, sendo uma constante durante toda a sua a vida. De facto, Rómulo de Carvalho não parou de trabalhar até ao fim dos seus dias, deixando, inclusive trabalhos concluídos, mas por publicar, que por certo vêm engrandecer, ainda mais, a sua extensa obra científica.
Apesar da intensa actividade científica, Rómulo de Carvalho não esquece a arte das palavras e continua, sempre, a escrever poesia. Porém, não a considerando de qualidade e pensando que nunca será útil a ninguém, nunca tenta publicá-la, preferindo destrui-la.
Só em 1956, após ter participado num concurso de poesia de que tomou conhecimento no jornal, publica, aos 50 anos, o primeiro livro de poemas Movimento Perpétuo. No entanto, o livro surge como tendo sido escrito por outro, António Gedeão, e o professor de física e química, Rómulo de Carvalho, permanece no anonimato a que se votou. O livro é bem recebido pela crítica e António Gedeão continua a publicar poesia, aventurando-se, anos mais tarde, no teatro e, depois, no ensaio e na ficção.
Nos seus poemas dá-se uma simbiose perfeita entre a ciência e a poesia, a vida e o sonho, a lucidez e a esperança. Aí reside a sua originalidade, difícil de catalogar, originada por uma vida em que sempre coexistiram dois interesses totalmente distintos, mas que, para Rómulo de Carvalho e para o seu "amigo" Gedeão, provinham da mesma fonte e completavam-se mutuamente.
A poesia de Gedeão é, realmente, comunicativa e marca toda uma geração que, reprimida por um regime ditatorial e atormentada por uma guerra, cujo fim não se adivinhava, se sentia profundamente tocada pelos valores expressos pelo poeta e assim se atrevia a acreditar que, através do sonho, era possível encontrar o caminho para a liberdade.
O professor Rómulo de Carvalho, entretanto, após 40 anos de ensino, em 1974, motivado em parte pela desorganização e falta de autoridade que depois do 25 de Abril tomou conta do ensino em Portugal decide reformar-se. Exigente e rigoroso, não se conforma com a situação. Nessa altura é convidado para leccionar na Universidade mas declina o convite.
Incapaz de ficar parado, nos anos seguintes dedica-se por inteiro à investigação publicando numerosos livros, tanto de divulgação científica, como de história da ciência. Gedeão também continua a sonhar, mas o fim aproxima-se e o desejo da morrer determina, em 1984, a publicação de Poemas Póstumos.
Em 1990, já com 83 anos, Rómulo de Carvalho assume a direcção do Museu Maynense da Academia das Ciências de Lisboa, sete anos depois de se ter tornado sócio correspondente da Academia de Ciências, função que desempenhará até ao fim dos seus dias.
Na data do seu nonagésimo aniversário, António Gedeão foi alvo de uma homenagem nacional, tendo sido condecorado, a 17 de Dezembro de 1996, com a Grã Cruz da Ordem de Mérito de Santiago da Espada. A 18 de Dezembro de 1996, foi-lhe atribuída, pelo Ministro da Cultura, a Medalha de Mérito Cultural, na Fundação Calouste Gulbenkian. Durante esta homenagem nacional, o dia 24 de Novembro foi instituido pelo ministro da Ciência, Mariano Gago para Dia Nacional da Cultura Cientifica, por ser o dia do nascimento desta personagem singular do século 20 português. A 19 de Fevereiro de 1997 a morte chega para Rómulo de Carvalho.
Várias Fontes.